A+ A A-

O caso do homem que se liquefez

Imagem Divulgação Imagem Divulgação

Esta é a história de um homem que, por meio da ascese pessoal, desceu aos ínferos da realidade. O processo se iniciou, mais evidentemente, numa quinta-feira banal, após Frederico – este é o nome do nosso santo – terminar de ler um grosso volume sobre a história da filosofia.

Despontara a manhã. Café com leite e pão com manteiga, um sol cálido vazando pela janela, a rua aparentemente silenciosa – exceto pelo movimento habitual. Foi quando o nosso herói, para começar bem o dia, deu prosseguimento à sua recém-inaugurada disciplina intelectual: ler pelo menos um poema no café da manhã. Abriu uma antologia de melhores sonetos da língua portuguesa e se deparou com “Oceano Nox”, de Antero de Quental. Aquilo foi um susto para ele! Passou o restante do dia com uma sensação de aperto na boca do estômago.

O ápice da epifania veio, contudo, já pela tarde. Frederico acaba o expediente e retira, de sua pesada mochila, a já citada obra sobre a história da filosofia. Começa a folheá-la no ponto de ônibus e quando vê está imerso no existencialismo sartreano. O seu ponto fica para trás e ele nem percebe, pois a explicação de Freud sobre o mal-estar coletivo lhe traz verdadeiros calafrios. Por fim o ônibus está no terminal e o cobrador tem de despertar Frederico de sua viagem interior.

- Vamos, jovem. Acorda. Estamos no ponto final.

            - O quê? Ponto final? Nossa... – balbucia Frederico, como que despertando de um transe.

            Próximo dali havia uma lanchonete-padaria, esta espécie de boteco que vende pão e serve almoço. Frederico resolve terminar sua leitura bebendo um bom e velho café com leite. Eram seis e meia da tarde. O céu estava alaranjado e as nuvens, levemente cinzas, manchavam o horizonte como se fossem os traços de um artista insone.

            - Me vê um pingado, por favor.

            - É pra já, patrão.

            Frederico sentou-se numa mesinha e continuou sua odisseia rumo ao âmago do sentido.

            No bar, uma televisão, presa no alto da parede, vomitava impropérios do Brasil da Gente.

            - Isso é um vagabundo! Tem que mofar na cadeia. Safado! O trabalhador já não pode mais voltar do trabalho em paz. Vem um sujeito desse e rouba! Quer dinheiro fácil? Quer vida mole? Agora vai ver se a cadeia amolece as coisas pra ele. Obrigado, delegado, pelos esclarecimentos. Agora vamos acompanhar o nosso helicóptero, que sobrevoa a cidade e confere o trânsito.

            Uns homens discutiam o caso energicamente, reclinados no balcão perto do caixa, cada qual com sua dose de purinha. Frederico, entretanto, nem notava o ruído externo, tão somente se deixava levar pela corrente da especulação filosófica.

            - Mas se são as forças sociais que estabelecem as regras coletivas, as leis, a moral, o senso de justiça é uma construção histórica, não um sentido inato – conjecturava o nosso herói, com evidentes suores a lhe respigar da testa febril. Ao vê-lo neste estado de tensão nervosa, o atendente o abordou, perguntando:

            - O senhor está bem? Deseja mais alguma coisa? Uma água?

            - Não, não...

            - Tem certeza? O senhor parece doente...

            - Não, estou bem. Só preciso terminar esta leitura.

            - Ok. Se precisar, é só me chamar.

            O moço saiu, não sem estranhar bastante aquele tipo excêntrico e ríspido. Dali a cerca de uma hora, Frederico concluía sua jornada espiritual. Sua face reluzia de calor, um suor frio lhe corria pelas costas, suas pernas e braços ficaram trêmulos, uma sensação de martírio deleitável rasgava-lhe o peito, um sofrimento atroz porém suportável elevava-o das agruras da matéria e ele como que pairava sobre aquele lugar.

            - Então isto que é a verdade? – perguntou-se, sem poder crer no que sentia naquele momento.

            - E como eu poderei viver daqui pra frente? Agora que contemplei a face tétrica da vida, não poderei mais me arrastar existência afora. As mentiras, os jogos de espelhos, as máscaras sociais, as convenções absurdas, as ideologias fabricadas sendo pregadas como verdades eternas, as ilusões nas quais se baseiam as sociedades todas... não, não poderei aguentar – pensava o nosso santo, visivelmente abatido por essa nova consciência.

            Não conseguiu dormir aquela noite. Ficou o tempo todo alerta, assombrado com cada respiração sua, com cada percepção de si e das coisas. Era como se ele de repente tomasse consciência de que estava vivo, de que existia, de que era um corpo que contém órgãos e que pulsa e tem afetos. E antes? Antes repetia os atos por mimese social, tomava como seus os desejos de outrem, assumia discursos que pareciam caídos do céu, em suma, era sem ser. Agora, todavia, tinha sobre os seus ombros a cruz ingrata da finitude e do absurdo. Montanha acima, apenas o Gólgota como projeção.

            No dia seguinte, uma sexta-feira banal, dia por excelência em que o sentimento de alforria provisória acomete a grande parte dos escravos, digo, dos “colaboradores”, Frederico caminhava pela calçada da Av. Paulista rumo ao escritório quando sentiu os pés queimarem. De fato, o sol estava a pino, mas o calor parecia vir de dentro, não de fora. Súbito as mãos também começaram a arder e junto com elas o corpo todo. Gotas e mais gotas de suor caíam de sua testa e logo sua camisa social estava encharcada.

            - O que tá acontecendo comigo?

            Os carros passavam, as gentes passavam, os ternos, os olhares, os prédios altivos e tão próximos, o céu azul e distante, a sensação de sufocamento e aniquilação iminente, aquele medo de esvair-se, de escorrer para o ralo do nada. Frederico estava a ponto de desmaiar quando, ao andar sobre uma dessas grades de bueiro, se liquefez, assim, de repente, aos olhos de todos. Mas como todos eram transeuntes, ninguém percebeu o acontecido.

            A alma do nosso santo, então, escorreu bueiro abaixo e foi ter com o esgoto, Esgoto Nox. Ali, junto dos dejetos e eflúvios que a sociedade produz mas esconde, São Frederico conheceu o subsolo da realidade e, por estar sob uma privilegiada perspectiva – a de um fluido oleoso -, pôde sentir, misticamente, numa eucaristia plena, o chorume vital que nos constitui.

Avalie este item
(4 votos)
Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto, professor dos Ensinos Fundamental e Médio e vocalista em uma banda de rock independente. Atualmente, reside em Osasco, com Bárbara, sua esposa.

voltar ao topo