A+ A A-

Prolegômenos a uma Metafísica do Vácuo

Imagem Divulgação Imagem Divulgação

            Não sou do tipo que gosta de convívio social. Aliás, é-me muito penoso sair para comprar leite e outras coisas necessárias à subsistência física. Mas admito que esse desgosto acaba por me tornar mais humilde, uma vez que percebo que não sou só ideia, mas também carne.  No entanto, sei que esta condição na qual vivemos é apenas uma ilusão passageira. Sim, num dado momento, quando a humanidade, juntamente com o cosmos todo, se der conta de que o Nada é preferível ao Ser, aí o repouso absoluto nos visitará em permanente.

 

            Mas talvez você me diga: “Senhor, quer dizer que a conclusão a que a Vida chegará é a de que não vale a pena haver Vida? Precisamente. Lembram-se quando Javé, no Antigo Testamento, se arrependeu de ter criado o gênero humano? Pois veja, na plenitude dos tempos, não só o homem se reduzirá a nada, mas também todo o universo. O Nada é o alvo supremo, tanto da matéria quanto do espírito. Eu admito que é complicado conceber o Nada, pois parece-nos uma ideia demasiado negativa. Todavia, digo-lhes que não é. O Nada é a aspiração do Ser, seu mais ameno ocaso. Nietzsche falava do eterno retorno da vontade de potência, eu falo do único retorno à essência, ou seja, o Não-Ser. Apresento-lhes, a partir de agora, os meus argumentos em favor dessa metafísica, a que chamo, com muito apreço, a Metafísica do Vácuo.           

            I – Da guerra como fundamento da vida           

            Não há nenhuma dúvida de que, tão logo nasce uma criança, esta passa a lutar pela sobrevivência, sendo a guerra o seu principal ofício; seja a guerra contra a fome, o frio ou as doenças diversas e fugidias, que se renovam e fortificam, apresentando-se sempre numa outra qualidade, o que acaba por dificultar o combate a elas. Pois bem, e assim será até quando este pequeno ser conseguir resistir à investida das forças externas. O que é a morte? É simplesmente a vitória de certos elementos sobre outros, vitória esta, fique bem claro, temporária, porque, tão logo um ser sucumba a outro, este em breve sucumbirá também, de modo que viver é estar sempre em guerra, seja contra nações ou ataques virológicos.

            Dei-lhes o exemplo do recém-nascido apenas para tentar trazer concretude à reflexão, a fim de não ficarmos nos revolvendo em metáforas etéreas, mas posso – ou melhor, devo – expor-lhes algumas outras considerações.

            Neste universo no qual somos, tudo o que existe vive em combate perpétuo. Desde o verme mais ínfimo até o mamífero mais avantajado, desde o fungo até os impérios. Nenhum estado, portanto, é permanente. A sucessão de fracassos e êxitos é o que constitui a base de nossas vidas, sendo a alegria o período de tempo – curto e fugaz – em que saboreamos um desses êxitos qualquer, mas logo uma dor de cabeça, uma lembrança ruim ou qualquer coisa do gênero vem dissipar a névoa dessa ilusão de fixidez.

            II – Da insatisfação crônica

            Disse Oscar Wilde, certa feita, que pior do que não conseguir algo que se deseja muito é consegui-lo. O que este pensamento expressa? Exatamente a condição humana – e também a de todo ser. Vivemos em busca de algo que nos falta – e sempre nos falta alguma coisa; logo, não há descanso neste deserto de sofreguidão. Ainda mais nos tempos de hoje, onde a publicidade nos insufla com anseios postiços, falsas demandas e urgências fabricadas. Mas não quero levar a coisa para o âmbito moral, uma vez que é perfeitamente compreensível que assim seja. Ora, se a condição de todo ser é a luta para permanecer sendo, o que as grandes marcas e corporações buscam é apenas a conservação de si mesmas – nada mais natural. Todavia, a minha proposta é outra, pois onde há desejo e anseio por satisfazê-lo, aí há dor, e miséria, e toda sorte de sofrimento.           

            III – O crepúsculo dos seres

            Logo, o que resulta das reflexões acima expostas é o que chamo o crepúsculo dos seres. E o que seria este? A resposta para isso foi dada, em parte, nas primeiras considerações que fiz, mas a deixarei evidente em uma exposição teórica, a nível didático: o crepúsculo dos seres trata-se da ascensão metafísica ao estado de Não-Ser, ou, no afã de se ter ainda mais rigor filosófico, ao estado de não-estado (as palavras, nessa altura, são insuficientes).

            Arthur Schopenhauer acertou em diversos pontos, sobretudo neste: há que se matar a Vontade. Sim, uma vez que esta é a pulsão primeira e una de toda a natureza, totalmente irracional e cega, e que, ao se encarnar num determinado ser, o que lhe traz é apenas sofrimento, na medida em que o insere na dimensão da falta. A Vontade do mundo, portanto, é como um câncer em metástases cósmicas, e este câncer precisa ser vencido.

            IV – O Vácuo propriamente dito

            E o que seria o Vácuo? Impossível defini-lo, uma vez que para tal eu teria de usar categorias racionais e humanas, portanto, ligadas à experiência sensível e à própria noção de que há algo. O Vácuo seria – se é que podemos intuí-lo – a negação de tudo quanto é, o retorno ao seio do Nada, o descanso do indivíduo no oceano da pré-coisa, a libertação da cadeia dos fenômenos, o salto na insubstância e no desespírito, a redenção do cosmos no nihil eterno.

            Obviamente que este manuscrito tem apenas um caráter introdutório – daí o título de Prolegômenos. Pretendo, nos próximos meses, reunir o restante das minhas anotações e sistematizá-las numa obra em 4 volumes, nos quais se verão os tópicos aqui relacionados. Advirto o leitor pouco afeito à reflexão e à leitura que nem se dê ao trabalho de abrir o meu livro; são 700 páginas por volume, uma verdadeira catedral filosófica, um edifício que até mesmo Kant invejaria.

            Assim, despeço-me de vós outros com a certeza de há em vós uma verdadeira aspiração pelo Vácuo e que tal aspiração, ao ser combinada com o conteúdo da minha Metafísica, produzirá a Bem-aventurança do Sábio – mais isso é já outro assunto. Fiquemos por aqui.

            Tchau.

Avalie este item
(5 votos)
Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

voltar ao topo