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Labiríntico

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Noite de breu sufocante. R. se esgueira mata adentro, procurando algum abrigo à chuva torrencial que despenca do céu. Onde estou? O que são essas árvores e rochedos? Novamente vim parar aqui? Suas pernas estão doloridas, tudo o que ele gostaria era de um lugar seco para deitar e alguma coisa macia onde pudesse reclinar a cabeça. Dormir. Dormir até esquecer-se de si. Mas eu já tinha feito o serviço que me fora designado... como ainda me mandaram para cá? E as minhas férias? Estou cansado, muito cansado.

Porém, ao longe, uma luz tênue brilha. Parece uma cabana. R. se aproxima e vê um homem, barba cerrada, chapéu, um rifle na mão. Olá. Estou procurando a Cidade, mas não tenho ideia que lugar é este. Você já concluiu a última tarefa? - pergunta o homem. Olha, creio que sim, fiz tudo o que me pediram. Mas não me deram nenhum retorno, nenhum feedback... por isso, fico com essa sensação de que talvez ainda falte algo por fazer... mas estou cansado. Muito cansado. Será que o senhor não poderia me deixar dormir aqui esta noite? De forma alguma. Existem regras a serem seguidas, será que ainda não aprendeu isso? Se quiser descansar, precisa encontrar um centro oficial de pernoite, fazer o cadastro e esperar uma vaga surgir. Mas isso é um absurdo! Quem precisa dormir numa determinada noite, é porque precisa dormir nessa noite, e não esperar até que chegue outra, quando for possível. Vocês são todos uns idiotas mesmo. Não adianta reclamar comigo. O Guardião está disponível para receber sugestões, é só encaminhá-las a ele. O Guardião, o Guardião... esse aí nunca responde aos apelos das pessoas. Fica lá, na sua mansarda reluzente, flamejando sua espada da lei e condenando os homens, que se mutilam uns aos outros no chão sangrento da vida. Pro inferno com tudo isso! R. estava visivelmente nervoso. Depois de um ou dois gritos que ele proferiu, um guarda, do alto de um rochedo quase invisível, disparou-lhe um anestésico geral, o que o fez dormir imediatamente. R. acordou num amplo escritório; os móveis e as poltronas eram todos brancos, e um cheiro de purificador de ar enchia o ambiente. Puta merda! O que é isto agora? R. olhou para trás. Uma mulher loira, completamente nua, estava reclinada em um divã cor de vinho. Meu Deus! R. se dirigiu ao encontro daquela beldade, sem hesitar.  Detalhe: a mulher não tinha rosto. Mas que corpo era aquele! O “rosto”, ou o que deveria ser ele, era apenas um borrão indistinto. O que R. via diante de si era como que um manequim de carne, pronto para ser possuído - sexo fácil e despersonalizado. O efeito da anestesia ainda não passara de todo, de modo que R. se sentia um tanto sonolento, aéreo. A visão daquela mulher o despertou, porém ainda não estava totalmente senhor de si. Talvez por isso que, a princípio, não conseguiu ereção. A manequim, todavia, continuava em sua receptividade plena, toda dele, a qualquer momento. Merda! Logo agora! Na parede, havia um espelho, e detrás deste, uma equipe de espíritos analíticos observava a cena. Eram senhores de jaleco, todos com pranchetas nas mãos e pontos de escuta no ouvido. Vejamos agora qual caminho tomará a nossa personagem. R., humilhado pela falência de sua virilidade, pôs-se a infligir ao pênis massagens estimulantes, a fim de conseguir alguma resposta neuromuscular. Raciocínio lógico, capacidade de responder a momentos de crise, consciência de espécie, maleabilidade e perseverança. Podem desligar o neurodesistimulante sexual. Um homem aperta um botão e sobre o corpo de R. desce uma descarga elétrica de energia libidinal. Quando este se vê novamente possuidor de seus dotes, alegra-se bastante e começa o processo de fricção genitália. Cerca de 1 minuto depois ejacula copiosamente, emitindo um urro canino. Pronto. Temos a amostra necessária para os testes da próxima semana. Então, a manequim é desligada e uma luz vermelha começa a piscar entre seus seios, e, numa pequena tela, vê-se a mensagem: autodestruição em 15 segundos. R. leva um susto. Afasta-se imediatamente. Da vagina do protótipo feminino, sai uma cápsula com o sêmen de R. e adentra o vidro espelhado. Em seguida, uma explosão tímida se segue, num tom surdo, transformando em cinzas aquela que foi a mulher mais exuberante que R. possuiu. O que está acontecendo aqui? R. passou a noite numa cela fria e estreita. Lá pelas 3 e meia da manhã, lançaram, por debaixo da porta, um prato com sobras de fruta e um lasco de pão. Para beber, um saquinho de suco artificial. Da janela, uma luz baça vazava, transformando aquele cárcere num ambiente fantasmagórico. O frio e a dureza do chão como que ofereciam a R. um prenúncio do sepulcro vindouro. O bafejar da morte na nuca do pecador. Chibatadas na consciência culposa. Onde está o diabo que me acusa? Quem sou eu em meio a esses rumores que me assaltam? Preciso sair daqui. Preciso sair daqui. Fique bem claro, ao leitor desatento, que todos os olhares estão sobre o nosso personagem. Não há um passo sequer que ele dê que não seja contabilizado; as câmeras registram cada movimento, cada pulsação, cada pensamento psicótico, cada disposição rebelde, cada piscar d’olhos. Como sair? Já cansaço, R. deita-se no chão gélido e adormece. Manhã de sol lá fora. Acordam-no com chutes na barriga. Vamos, vamos! Seus desgraçados! Porcos! Se eu pudesse, matava cada um de vocês!  Se você fosse alguém, talvez pudesse fazer algo, mas como é só um verme... R. fez o movimento de atacar o brutamontes que falara aquilo, mas sentiu um choque nas costas e teve uma breve convulsão. São as regras, rapaz. Não se ofensa. Funcionamos como parte da Cidade. Todos temos família aqui. Ou você acha que somos seres desalmados, que não se importam com as pessoas? Bem, se fossem tão humanos quanto dizem, me deixavam ir. E perder nossos empregos? Por acaso você nos sustentaria? Eu tenho 4 filhos... o  que acha? 4 filhos. Sabe o custo que isso gera? Então cala a boca e deixa a gente fazer o nosso trabalho. 

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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