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Trabalho, morte e doença – Liev Tolstói

Imagem Divulgação - “Tolstoy ploughing” (1887) – Ilya Repin Imagem Divulgação - “Tolstoy ploughing” (1887) – Ilya Repin

Nota preliminar:

 Já que não tenho conhecimento do russo para fazer uma tradução a partir do original, realizei esta tradução com base no texto vertido em língua inglesa, disponível no site feedbooks.com (http://www.feedbooks.com/book/1744/work-death-and-sickness).

            Esta é uma lenda presente entre os índios sul-americanos.

Deus, dizem eles, no princípio criou os homens de tal forma que estes não precisavam trabalhar; eles não necessitavam de casa, roupa ou comida, e todos viviam até os cem anos - desconheciam o que era doença.

            Depois de um tempo, Deus olhou para ver como eles estavam vivendo e constatou que, ao invés de estarem felizes com suas vidas, os homens estavam brigando uns com os outros, cada qual se preocupando somente consigo mesmo, fazendo da vida, que deveria ser deleitável, uma maldição.

            Então Deus disse a Si mesmo: “Isso acontece porque eles estão vivendo separadamente, cada um por si”. E, para alterar esse estado de coisas, Deus encontrou meios de fazer com que os homens tivessem de trabalhar para viver. Assim, para evitar o sofrimento causado pelo frio e pela fome, eles agora eram obrigados tanto a construir habitações como a cultivar a terra.

            “O trabalho os unirá”, pensou Deus.

            “Sozinhos eles não podem fabricar suas ferramentas, cortar e transportar sua madeira, construir suas casas, semear e fazer a colheita, tecer e fiar, produzir suas roupas. Isso os fará entender que quanto mais cordialmente eles trabalharem para o bem comum, mais eles terão, e melhor viverão; e isso certamente os unirá”.

            O tempo passou e Deus veio ver como os homens estavam vivendo e se eles estavam felizes. Porém os encontrou vivendo pior do que antes. Eles estavam trabalhando conjuntamente – já que não podiam não fazê-lo -, mas não todos juntos; pequenos grupos se formaram. E cada grupo tentava destruir o trabalho dos outros, e eles se atrapalhavam e perdiam tempo e força nessas brigas, de modo que a situação ficou péssima para todos.  

            Tendo visto que isso também não ia bem, Deus decidiu que os homens não deveriam saber a hora de sua morte, mas que esta poderia vir a qualquer momento; e Ele anunciou isso aos homens.

            “Sabendo que todos podem morrer a qualquer momento”, pensou Deus, “eles não irão, ao se prenderem a ganhos mesquinhos e passageiros, desperdiçar seu pouco tempo de vida”.

            Mas também isso teve um resultado adverso. Quando Deus voltou a observar a maneira como os homens estavam vivendo, viu que suas vidas estavam mais desgraçadas do que nunca.

            Aqueles que eram mais fortes, aproveitando-se do fato de que o homem pode morrer a qualquer momento, subjugaram os mais fracos, matando uns e ameaçando de morte outros. E aconteceu que esses mais fortes e os seus descendentes já não trabalhavam mais, caindo no torpor da ociosidade, enquanto que os mais fracos tinham de trabalhar além de suas forças, sofrendo com o pouco repouso. Cada grupo temia e odiava o outro. E a vida dos homens tornou-se ainda mais infeliz.

            Observando tudo isso, Deus decidiu, para emendar as coisas, lançar mão de um de seus últimos recursos: enviou toda sorte de enfermidades sobre os homens. Deus imaginou que quando todos os homens estivessem expostos à enfermidade, eles entenderiam que aqueles que agora estão bem devem se compadecer dos que se encontram enfermos e ajudá-los, já que quando ficarem doentes, os outros, por sua vez, lhe darão suporte.

            E de novo Deus se retirou. Porém, ao retornar para ver como os homens se comportavam estando sujeitos às enfermidades, descobriu que a situação se agravara ainda mais. A enfermidade mesma, que no propósito divino deveria unir os homens, acabou por dividi-los mais do que nunca. Os homens que eram fortes o suficiente para obrigar os outros a trabalharem para eles, forçaram-os também a assisti-los em seu tempo de enfermidade. Porém eles, os poderosos, não cuidavam de seus serviçais quando estes adoeciam. E aqueles que eram forçados a trabalhar pelos outros e a cuidar deles quando estivessem doentes, ficavam tão sobrecarregados que não tinham tempo de cuidar dos seus próprios doentes, deixando-os sem nenhuma assistência. E como o espetáculo do povo enfermo não deveria perturbar o gozo dos ricos, foram construídas habitações nas quais essas pessoas pobres sofriam e morriam, distantes daqueles cuja compaixão poderia animá-las e entregues aos cuidados de gente contratada que as tratavam sem misericórdia, ou até mesmo com repulsa.

            Além disso, algumas pessoas começaram a considerar que muitas das doenças eram contagiosas, e, com o medo de contraí-las, não somente evitavam os doentes, como também se apartavam daqueles que socorriam esses desgraçados.

Então Deus disse a Si mesmo: “Se até mesmo esses recursos não fizeram os homens entenderem em que a felicidade deles consiste, vou deixar que o sofrimento os ensine”. E Deus abandonou os homens à sua própria sorte.

            E, entregues a si mesmos, os homens viveram um longo período sem entenderem  que poderiam ser felizes. Só nos últimos tempos é que alguns poucos começaram a entender que o trabalho não deveria ser uma chateação para uns e uma escravidão para outros, mas que poderia ser uma feliz e comum ocupação que unisse todos os homens. Esses poucos começaram a entender que, já que a morte nos assombra constantemente, a única coisa razoável a se fazer é passar os anos, meses, horas e minutos – concedidos a nós – em amor e comunhão. Eles começaram a entender que a enfermidade, longe de dividir os homens, pode, pelo contrário, dar oportunidades para a união fraterna e o amor sincero. 

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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