A+ A A-

Conto V

Imagem Divulgação Imagem Divulgação

Teodoro, nos últimos meses, enveredou pelo caminho do autoconhecimento; resolveu que queria saber quem de fato era, encontrar a raiz do ser – se é que ela existe. Passou, então, a frequentar diversos grupos religiosos, entre os quais uma seita denominada “Mensageiros do Sim”. Este grupo, como o próprio nome sugere, acreditava no poder da confissão positiva, ou seja, baseados em estudos da física quântica, os fundadores da seita defendiam que o mundo subatômico responde aos comandos verbais. O nosso herói, depois de algumas semanas, viu-se embebido naqueles preceitos, maravilhado com a simplicidade das revelações, de modo que, quando deu por si, já estava usando as roupas e fazendo os exercícios espirituais daquele grupo.

 

            Na reunião de recebimento – espécie de solenidade onde os novos membros eram apresentados ao restante do “corpo” -, Teodoro foi interpelado pelo ministro-chefe:

            - Você, meu caro irmão, participa de algum outro grupo espiritual além do Mensageiros do Sim?

            Teodoro, que até então estava sorridente e exultante em sua bata branca, ansioso por receber a bênção dos iniciados, teve receio do que responder. De fato, simultaneamente às reuniões dos Mensageiros do Sim, ele estava participando de sessões espíritas e, vez por outra, de cultos pentecostais. Por fim, resolveu falar a verdade:

            - Sim, participo. Mas... não com tanto regularidade.

            - Nesse caso, meu caro irmão, para que você faça parte do nosso grupo seleto, terá que se decidir se fica conosco ou com eles.

            - E eu não posso participar de todos?

            - Não, impossível. Tal coisa é incompatível com a nossa doutrina.

            - Mas vocês não dizem que todas as religiões buscam acessar o Núcleo Primordial?

            - É, sim, mas... – aqui o ministro-chefe gagueja um pouco, como que surpreendido pela pergunta rápida e incisiva do nosso herói. Pigarreia e continua: - Contudo, para que você cresça em conhecimento, caro irmão, é necessário que se desvencilhe de outras práticas. Do contrário, seu campo vibracional tende a ficar poluído. Você não quer isso, quer?

            - Claro que não, ministro.

            - Então, para que formalizemos este ritual, precisamos que você jure, diante de toda a assembleia, que abandonará quaisquer outros grupos espirituais e dedicar-se-á somente aos Mensageiros do Sim – o ministro-chefe, quando se pronunciava no microfone, e ainda mais nessas ocasiões solenes, empolava-se todo numa linguagem formal e rebuscada.

            O nosso amigo, ainda um pouco hesitante, consentiu com a condição posta. Assim, como era próprio do caráter de Teodoro, ele concentrou toda a sua energia na exploração máxima das possibilidades oferecidas por aquela seita e se submeteu a todos os tipos de exercícios espirituais: genuflexões e outros movimentos repetitivos, recitação de mantras com vibração positiva, reprogramação neurolinguística, chás alucinógenos, jejum e meditação, súplicas incessantes ao Átomo Supremo, penitência das forças obscuras e tudo o que aguçasse a sensibilidade mística.

            Passados dois meses, o nosso peregrino estava exausto – não encontrara nada no fundo do ser.     

            - Será que não tenho fé? – questionava-se Teodoro, muito culpado por não conseguir confiar plenamente no pacote doutrinário que tentavam lhe impingir. – E no final das contas, ainda não sei quem sou... Será mesmo que preciso passar por toda essa peregrinação para descobrir a realidade mais íntima do meu ser? Essas e outras perguntas calavam fundo no coração de Teodoro e ele começou a ver com desconfiança certos princípios da Doutrina Positiva – era assim que os Mensageiros a denominavam.

Um exemplo desse tipo de suspeita em relação a pontos doutrinários específicos apareceu a Teodoro num dia em que este voltava para casa após ter ido à reunião da seita. Em frente ao prédio onde eles se reuniam, um velho em situação de rua dormia envolto num cobertor esfarrapado. O nosso herói, ao passar por aquele senhor, sentiu um incômodo terrível; não entendia por que os outros membros da seita também não se afligiam por ver aquele mendigo ali, vivendo em uma condição tão triste. Aí, em uma das reuniões de Entendimento Cósmico, Teodoro resolveu questionar o professor de classe a respeito desse assunto, isto é, do morador de rua.

            - Provavelmente esse senhor vive preso a um clico vicioso de más energias. Se você consultar o Livro III, capítulo 7 do Comentário à Ética Positiva, vai ver que ajudar uma pessoa nessa situação é justamente não ajudá-la, no sentido de que a privaremos de buscar o autoaperfeiçoamento energético.

            - Mas ele está com frio – retrucou Teodoro.

            Aqui houve um breve silêncio. Rogério, o professor de classe, tinha um olhar tranquilo, parecia sempre confiante e de bom humor e mesmo diante dos graves questionamentos de Teodoro, não se surpreendia nem ficava desconfortável – estava absolutamente convicto de que a doutrina da seita oferecia as respostas mais plausíveis para os problemas humanos e cósmicos.

            - Mas e se ele morrer esta noite?... de frio...– continuou o nosso herói, olhando fixamente nos olhos do professor.

            - Ah, Teodoro, meu irmão... vejo que você ainda não tomou consciência do que está exposto no Livro Primeiro da Escatologia Positiva... a morte é uma ilusão, meu amado. Ora, se tudo é energia, emanação do Núcleo Primordial, os corpos que vemos no mundo são apenas conglomerados temporários dessa energia, de modo que, quando um corpo humano entra em falência e é enterrado, o processo de decomposição trata de redirecionar os resquícios materiais para outros ambientes energéticos – melhor explicando, o que era cabelo, e vísceras, e olhos, e membros torna-se adubo para terra e comida de minhocas. E assim a vida segue o seu curso perfeito, imperturbável.

            Rogério, ao dizer isso, ficou surpreso com a própria eloquência; esboçou um sorriso de satisfação e deu um tapinha no ombro de Teodoro.

            - Fique em paz, meu irmão, fique em paz.

            - Como ficar em paz quando uma pessoa morre debaixo de nossos olhos?!

            - Pessoas morrem o tempo todo...

            - É, mas existem mortes que são desnecessárias, absurdas, totalmente evitáveis.

            Como não encontrava no interlocutor um caminho para o diálogo, Teodoro decidiu encerrar a conversa. Cumprimentou o professor de classe com um aperto de mão e saiu.

            Na rua – já eram quase 10 horas -, um vento gélido e cortante soprava; a noite estava terrivelmente fria. Teodoro esfregou as mãos e as agasalhou no bolso da blusa. Ao dobrar a esquina, para sua surpresa, deu de cara com um homem visivelmente alterado. Não se sabe se bêbado ou enlouquecido, o rapaz – depois Teodoro pôde constatar que se travava de um moço de não mais que 20 anos de idade, mas que a barba comprida e os andrajos faziam parecer bem mais velho – tomou-o pelo braço e disse: “Vem comigo”.

            Surpreso pela abordagem, nosso herói não teve outra reação a não ser se deixar conduzir pelo desconhecido.

            - Soube que você está à procura – principiou o jovem, gestos expansivos, olhar vidrado.

            - Como? Não entendi... À procura de quê?

            - Ah, você sabe... à procura da Coisa.

            - Meu amigo – Teodoro tenta se desvencilhar das mãos do desconhecido -, não faço ideia do que você está falando. Você deve ter me confundido com alguém.

            - Não. É você mesmo, tenho certeza.

            - E que Coisa é essa? O que é isso que eu supostamente estou procurando?

            - Você sabe. Todos sabem. Não tem ninguém que não busque por ela, porém ela se esconde dos olhos dos orgulhosos. É preciso ter humildade.

            - Ainda não entendi.

            Teodoro estava achando tudo aquilo muito estranho. Quem era aquele jovem, saído dum beco no meio da noite, e que o tratava com tanta espontaneidade, como se já o conhecesse há muito tempo? E embora dissesse a ele que não sabia do que se tratava, Teodoro, no fundo de si, nutria uma desconfiança, uma suspensão acerca daquilo.

            - Você sabe muito bem – disse-lhe o moço, com um sorriso afável.

            - É, eu sei do que se trata. Quer dizer... eu acho que sei...

            - Fique tranquilo: a Coisa vai se revelar por si mesma. Não se preocupe em adquirir muitos conhecimentos, conversar com homens sábios, entender tudo, ter todas as respostas. Você, na verdade, já sabe. Ela é como uma intuição, algo básico. Por exemplo: a sua intuição de “eu”, de ser, de existir, tudo isso mostra que Ela existe dentro de você.

            Dito isso, o rapaz abraçou Teodoro, deu-lhe um beijo em cada face e despediu-se dizendo: “Não tenha medo, amigo. Tudo está bem”.

            --------

            Dois dias depois, numa manhã de domingo, Teodoro tomava café na casa de sua vó Zuleide; estava sentado em uma cadeira do lado de fora da cozinha, aproveitando para apanhar o sol, morno e agradável. A vó, uma senhora de seus quase 90 anos, perguntou-lhe, com sua voz trêmula e doce:

            - Quer mais um pedaço de bolo, meu filho?

            Nesse instante, Teodoro compreendeu tudo. Já não havia temor, as nuvens se dissiparam; ele não precisaria mais correr de um lado a outro. Tudo era tão simples. Claro como a luz daquela manhã. Teodoro fechou os olhos, esboçou um sorriso e disse:

            - Eu vou querer sim, vó – e beijou-lhe as mãozinhas enrugadas. 

Avalie este item
(1 Voto)
Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

voltar ao topo