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Faca no esôfago

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Uma tristeza que vinha de dentro, de um corte frio no peito - uma faca no esôfago. Ela não conseguia fazer nada, só dormir. E ainda assim o sono era cheio de sobressaltos e pesadelos. Da janela entreaberta, raios baços de um sol distante. A cama parecia exercer um poder letárgico sobre o seu corpo, de modo que, tão logo ela esboçava uma reação, o calor das cobertas a envolvia num abraço tépido e misericordioso, que parecia dizer: “Fica, menina. Deita. O mundo é hostil e inóspito. Fecha os olhos e esquece”.

 

            O namorado a deixara. Na verdade, ela que o dispensara, aos poucos, para que ele não se sentisse culpado por ter ido embora num momento de crise. Era melhor assim. Já era bastante difícil lidar consigo mesma; não queria frustrar os anseios de outra pessoa. A casa, portanto, estava vazia; só ela habitava o apartamento..., 16° andar.

- Se ao menos eu enlouquecesse de vez – pensava Clarice, enquanto mirava-se no espelho do banheiro. Os olhos fundos, a cara amassada de sono. – Tudo me parece distante. Não sinto vontade de nada. E de onde vem este cansaço, meu Deus? Será que algum dia voltarei a sentir as coisas como antes? Como havia três dias que não tomava banho, ligou o chuveiro e deixou que a água morna caísse sobre sua cabeça. Pegou o sabonete e começou a ensaboar-se; aos poucos seu corpo foi se aquecendo, mas ela ainda não podia sentir a ponta dos dedos e isso a irritava. Aquela sensação horrível de não poder tocar nas coisas até o fim. Era como se uma nuvem espessa se interpusesse entre ela e o mundo.

Mastigava o pão com indiferença e bebia o café solúvel. O que será que vão dizer se eu não for hoje de novo? Já estou com muitas faltas. O que me dói é deixar os alunos sem professor. Mas não estou em condições. Preciso pelo menos ligar lá e dar uma satisfação. O duro é que vão começar a fazer perguntas e não quero... não quero responder nenhuma pergunta. Se eu tivesse as respostas... mas que inferno que as pessoas querem sempre uma justificativa pra tudo! A gente adoece, e pronto.

            Discou o número da escola.

            - Alô, Sônia?...

            - Não, aqui é a Marlene. Quem fala?

            - Sou eu, Clarice, professora de Inglês.

            - Ah... Oi, querida. Aconteceu alguma coisa?

- Não vou poder ir hoje.

- Ah, tá... que pena. Quer deixar algum recado pro professor substituto?

- Sim. Fala que pode entregar a folha de exercícios que está na minha pasta. Quando eu voltar, corrijo tudo.

- Ok, flor. Vou avisar o professor que te substituir.

- Muito obrigado. E desculpa... não poder ir.

- Que isso, querida. Até mais.

Assim que terminou a ligação, Clarice deitou no sofá e dormiu por mais algumas horas. Acordou se sentindo muito culpada, como se cometera um crime. As costas doíam, a cabeça latejava. A televisão, ligada no mudo, trazia uma leve luminosidade à sala, já quase toda submersa na penumbra – a tarde se precipitava, e lá fora um céu alaranjado tingia o horizonte. 

Aos poucos, a noite se fazia presente. Clarice se sentia mais confortável no ambiente noturno, pois o silêncio e a quietude traziam-na para uma dimensão de repouso alerta, de abertura para o instante. Tentava se recompor da sensação de paralisia que a prostrara até aquele momento.

- Você precisa reagir. Não pode afundar neste desânimo – dizia para si mesma.

Contudo, permaneceu deitada por mais alguns instantes. Levantou-se e foi ao banheiro. Então se lembrou que tinha esquecido de escovar os dentes depois do almoço (almoço: uma torrada com requeijão). Escovou-os.

- E agora?

Silêncio.

O leitor não sabe o que é ser refém de si próprio – ou sabe? Quando as ondas de terror surgem, só resta esperar, passivamente, que elas retrocedam. A mente de súbito entra em um estado de perplexidade e confusão – tudo pulsa como uma ameaça à sua segurança. O próximo passo pode ser o final. A pulsação aumenta, o suor escorre da testa – um suor frio. Aquela certeza de que se vai ter um derrame, um ataque cardíaco, um aneurisma, uma síncope qualquer. Os olhos escurecem, a vista se embaralha. As coisas fora de você parecem a mil metros de distância, os seus pés não tocam o chão. As pessoas ao seu redor tentam te acalmar. Elas não sabem o que você está sentindo, por isso falam tanta bobagem. Mas você não quer que te acalmem, você quer o seu corpo de volta. Parece que ele tomou as rédeas e decretou falência. Ou será que foi a mente que se desassociou do corpo e agora culpa-o de traição? Ah, sei lá, sei lá.

O terrível disso tudo era que quando Clarice não estava vivendo o pânico, ela estava se lembrando dele ou temendo a sua volta. Assim, ela não conseguia se concentrar em quase nada – todos os pensamentos confluíam para um único e final fosso: a morte. Pensava nela obsessivamente.

Foi até a cozinha colocar água para ferver. Talvez um chá de camomila me acalme um pouco. Mentira! Autoengano. Ela olhou para a caixinha de remédios que ficava em uma das prateleiras e viu o medicamento que o psiquiatra lhe prescrevera. Ela até que tentara dar uma chance aos comprimidos, mas os efeitos colaterais eram tantos e tão incômodos, que pensou: “Pra que melhorar pra pior? Deixa-se como está”.

Estava na varanda com a xícara fumegante nas mãos.

- E agora?

Era sempre esse pensamento de não saber como se dirigir na vida. Será que o que desejo é que me digam o que fazer? Será que tenho medo da liberdade? Talvez. Mas o que eu tenho é sobretudo cansaço. Um cansaço que me paralisa de dentro pra fora, uma atrofia severa da alma. Que alma? Se houver uma, deixemos bem claro. E com certeza ela desejava que houvesse. E ainda assim temia a ideia da eternidade. Se eu já me confundo toda e me canso com as decisões desta vida, quem dirá com uma vida que não acaba! Mas não pode ser. Não pode ser assim. Com certeza o alguém que eu serei na eternidade não será este alguém que sou hoje. Bem, não totalmente, porque se eu deixar completamente de ser quem eu sou já não serei eu quem vivenciará a eternidade, mas qualquer outra coisa, um sopro, um espectro, uma...

Toda vez que Clarice se detinha por muito tempo em uma reflexão – e ela ia até o fundo sempre -, começava a sentir-se esgotada. Talvez porque aprendera com Dostoiévski a levar um raciocínio às suas últimas consequências. E para se chegar ao fim da linha, há um longo caminho a percorrer. Desse modo, feita a excursão, Clarice quedava-se exausta, sem ter nada dentro de si. Sim, porque a sua forma de vencer as frustrações era descascando a aparência de todas as coisas, até que elas se mostrassem o que de fato são – apenas aparências. Mas para isso havia um preço: o vazio, o abismo, o poço profundo, não só das coisas em geral, mas de si mesma. Sobretudo o vazio de si mesma. Aquele pigarro na garganta. Mãos trêmulas que tentam segurar a xícara com o líquido já frio. Clarice sabe que tem que jantar, mas a louça na pia está acumulando há dias, de modo que para cozinhar alguma coisa ela teria primeiro que limpar tudo. Desiste. E se eu descer rapidinho e comprar alguma coisa na padaria? Veste o tênis, coloca uma blusa de frio e logo está no elevador. Quando sai do prédio, uma corrente de ar frio golpeia-lhe o rosto. Vixi, bem-vinda, sinusite. Um senhor de bigode espesso com um pano de prato apoiado no ombro pergunta-lhe o que deseja.

- Eu vou querer um queijo quente. E um chocolate. Por favor.

O homem então grita o pedido de Clarice para um alguém oculto que provavelmente se encontra atrás da divisória de madeira.

Enquanto aguarda, Clarice observa. A televisão está ligada no noticiário. Poucas pessoas presentes. Um casal aqui fazendo gracinhas e dizendo meiguices, um velho que bebe cerveja sozinho ali, uma prostituta que fuma seu cigarro gloriosamente... Belo cenário para um poema surrealista, pensa a nossa heroína. Se ela ao menos pudesse escrever. Mas não conseguia. Não tinha fôlego para tal. Um dia começara a rabiscar algumas linhas, porém gastara umas vinte folhas sem que produzisse um verso sequer de qualidade.

- Seu queijo quente, senhora – de repente a voz do bigode irrompe e a resgata da introspecção.

- Sim... obrigado.

O pão estava um pouco oleoso por causa da quantidade de muçarela que colocaram, mas Clarice não reclamou. Bebeu o chocolate com certa satisfação.

Terminado o lanche, passou no caixa e acertou a conta.

Na rua, na mesma calçada da padaria, viu um mendigo todo sujo, com as calças encharcadas e sem camisa. Ela pensou, Que frio este homem deve estar passando, meu Deus! Como consegue? E parece que está urinado também. Como se chega a este ponto? Na verdade, eu posso imaginar...

Às vezes Clarice tinha um pensamento do qual se envergonhava muito: existem certas pessoas que parecem não existir de verdade. Sobretudo as mais miseráveis. O estado delas é tão deplorável, suas vidas estão de tal modo afundadas num charco de lama e corrupção que suas silhuetas humanas vão perdendo o contorno, dando lugar a rabiscos dispersos, garranchos feitos pela mão ébria do desamparo social. Será que é assim que é desistir? – pensava Clarice. Se eu um dia tiver coragem e largar tudo, é com eles que vou parecer? E como tomam banho? Será que vai chegar um dia em que não me importarei nem um pouco com o meu cheiro? E os dentes? E as roupas? E o frio das madrugadas chuvosas? E quando estiver menstruada? Pior: e se eu engravidar? Tais pensamentos fizeram-na se sentir culpada por ter onde morar e dormir, então ela tirou uma nota de dois reais da carteira e deu ao mendigo.

- Deus abençoe, senhora.

Clarice apenas acena com a cabeça. Sabe que nada fez. Sabe que fez mais para aplacar a própria culpa do que para matar a fome do desgraçado. Ela sabe que amanhã continuará a viver como se não houvesse miséria, e morte, e toda sorte de injustiça bem debaixo do seu nariz. Sim, porque a gente se habitua a qualquer cenário, e de repente a mancha na parede deixa de ser notada. Assim como a louça na pia já não incomoda.

Enquanto caminha, começa a sentir os dedos da mão dormentes. A parte detrás da cabeça formigando, a garganta que fecha do nada, dificultando a respiração, cada vez mais rápida, cada vez mais rápida. Faltam apenas alguns metros para chegar, só mais um pouco. Cada vez mais rápida, mais rápida. Fechando, fechando. É como um túnel cuja única luz lá no final começa a sumir e a gente entra no breu, assim, subitamente. Clarice busca forças onde não tem, respira, respira. E se eu desmaiar aqui? Não quero perder a consciência, não quero perder a consciência. Tenho medo de sumir, de cair neste buraco que me suga. Mas por que eu não morreria? As pessoas morrem o tempo todo, principalmente as miseráveis como aquele mendigo. O que me faz melhor do que elas? Se crianças morrem de frio debaixo dessas pontes que eu não vejo, por que eu deveria viver? O que há de valioso em mim que mereça perdurar? Eu sei, eu sei que não mereço, mas quero viver. Quero viver. Quero viver!

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Clarice desmaiou na frente do prédio onde morava. Como o porteiro já a conhecia, chamou a ambulância rapidamente. Medicaram-na com diazepam na veia. Ela ficou uns três dias meio grogue, sem grandes sobressaltos, vagando pelo apartamento, todavia quando o efeito do remédio passou, a lâmina gelada voltou a roçar-lhe o esôfago. Guilhotina do lado de dentro, em conta-gotas. Há que se dormir com o próprio carrasco.

- E agora?

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Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

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