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Elena Ferrante e a vertigem da linguagem

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Se o mistério em torno da verdadeira identidade de Elena Ferrante permanece intacto desde o lançamento de seu primeiro livro na Itália, L'amore molest, em 1992, o mesmo não pode ser dito sobre sua escrita – reconhecida pela crítica e público como visceral. Em artigo publicado pela The New Yorker em 2013, James Wood ressalta que a escritora italiana se encaixa naquilo que a teórica francesa Hélène Cixous chamou de “l'écriture féminine” – escrita feminina – ou seja, a inserção do feminino na língua de um texto. De fato, o universo de Ferrante é predominantemente feminino.

Suas personagens principais são mulheres tentando se adequar à maternidade, ao universo do trabalho, a relacionamentos tradicionais em que sempre algum fator rompe a tranquilidade aparente das relações. “A selvageria com que Ferrante ataca os temas”, escreve James Wood, expõe a “complexidade singular de dramas familiares de seus protagonistas”.

            Em Dias de Abandono, lançado em 2016 no Brasil pela Biblioteca Azul, da Globo Livros, Ferrante expõe uma mulher abandonada pelo marido após quinze anos de casamento e mostra a crise frente ao rompimento. “Uma tarde de abril, logo após o almoço, meu marido me comunicou que queria me deixar”, começa a narrativa que espraia, aos poucos, o desmoronamento psíquico da personagem. É importante ressaltar que a escritora nasceu em Nápoles, em 1943, portanto ainda viu um mundo calcado em valores sólidos onde o homem e a mulher desempenhavam papéis demarcados. No livro, a personagem abdica da carreira para seguir o marido pelo mundo, devido ao trabalho que ele exerce. O esteio de Olga passa a ser os dois filhos e as tarefas domésticas enquanto espera Mario voltar para casa no final do dia. Ao pressionar por uma resposta contundente sobre o desejo de separação e ao descobrir que o marido se apaixonou por uma mulher mais nova, que ele conhecia desde que a menina tinha quinze anos, Olga perde o sentido de orientação desse trabalho doméstico e faz com que seus dias se tornem violentamente dilaceradores.

            Estilhaços de cacos de vidro, sono profundo e gás vazando pela casa são alguns elementos externos para demonstrar a imersão de Olga na confusão mental que a nova situação de desamparo a causou. A imersão no caos leva a personagem a descer para o Hades, o inferno simbólico de ter de recuperar uma identidade perdida. “Tive uma tal sensação de exaustão que deixei tudo de cabeça para baixo e fui dormir, esquecendo das crianças, esquecendo de tudo, mesmo sendo onze horas da manhã. Ao despertar, enquanto minha nova condição de mulher abandonada me voltava aos poucos à lembrança, decidi que não aguentava mais”, descreve Olga. A lucidez do relato é cortante e o leitor sente esse incômodo como se estivesse em uma vertigem. Daí a maestria do livro e a explicação para o sucesso que obteve desde seu lançamento em 2002 na Itália. Este é o livro mais lido da escritora em inglês.

            Francesca Cricelli, tradutora de Dias de Abandono do italiano para o português, afirma que o maior desafio foi a tentativa de manter a tensão tecida na narrativa. “Há algo muito próprio na escrita de Ferrante. Há uma quebra na linguagem da personagem-narradora, conforme há uma evolução no enredo há também uma mudança - às vezes brusca - na própria personagem e isso se dá através da palavra, da língua que ela usa”, afirma Francesca. Descrito em primeira pessoa, a narradora dá indícios durante a trama de que perde o controle de sua própria vida e leva o leitor à espiral descendente para o interior da personagem, como nesta passagem: “O único sinal exterior da minha agitação foi a disposição à desordem e a fraqueza dos dedos que, mais aumentava a angústia, menos se fechavam com força ao redor das coisas”.

            “Quando você não sabe segurar um homem perde tudo”, dizia a mãe da personagem na Itália do século passado. A crítica ao patriarcado é sutil, mas paradoxalmente explícito em uma passagem em que a personagem menciona um folhetim francês dos anos de 1978 em que descreve as mulheres como “bibelôs nas mãos de seus homens distraídos”. Para leitores atentos, ali Olga deixa entrever seu anseio por ter sido escritora, antes de abdicar de tudo: “(...) eu queria ser diferente, queria escrever histórias de mulheres com muitos recursos, mulheres com palavras indestrutíveis, não um manual da esposa abandonada com o amor perdido como primeiro pensamento da lista”. Alguns críticos dizem que o motivo para que Elena Ferrante esconda sua verdadeira identidade é para que não haja comparações entre sua vida e a ficção que exerce. Mas ela escreve muito sobre aspirantes à escritoras e reflexões sobre o ofício estão sempre inseridos em suas tramas.

            Tecer “mulheres com palavras indestrutíveis” parece ser o projeto ético de Ferrante ao longo de suas obras que abarcam ao todo sete livros – três publicados no Brasil. O caminho de volta à superfície da personagem de Dias de Abandono é também pela afirmação dessa voz. “Percebi que desta luta mulher alguma está isenta, a qualquer idade, em muitos cantos do mundo. Houve tamanha variação na voz de Olga pois ela estava à procura da sua própria voz”, ressalta Francesca Cricelli.

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Fernanda Fatureto

É poeta e jornalista. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Seu primeiro livro de poemas, Intimidade Inconfessável (Editora Patuá), foi publicado em 2014. Integra a antologia poética 29 de abril: o verso da violência (Editora Patuá, 2015) e a antologia de contos Subversa 2 (Editora Patuá, 2016). Nasceu em Uberaba, MG, e morou por oito anos em São Paulo, capital. Possui poemas publicados em diversas revistas literárias.

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