A+ A A-

Na terra das vacas sagradas

  • 0

Nós sabíamos que ia acontecer, porque já vivíamos isso há muito, muito tempo. Meus avós e meus bisavós viveram isso. Sabíamos que chegaria a esse ponto, mas não que seria assim. O ápice aconteceu da pior forma possível: consagrou o início da nova era sem surpreender a quem quer que fosse, porque a verdade é que já vivíamos essa era desde o início das eras desta terra – desde que tem esse nome. O que me leva a pensar, ou melhor, sentir, então, que houve “um ápice”, se se trata de algo que sempre vivemos? Nunca fora de outro modo...

Leia mais ...

Você está implicado, e não vai bamburrar, parte 2

  • 0

“Toda vez que der num veio, o garimpeiro vai tirar o ouro, todo, até num dar mais. Isso é bamburrar: dar no veio de ouro, achar a pepita, dar com muito ouro. Igualmente mesmo: todas as vezes que pegar o dinheiro, ele vai pr´a currutela torrar tudo. Rapariga e cachaça, esquenta o cabaré comemorando. Isso também é bamburrar. Bamburrar não é só achar muito ouro e ficar rico: bamburrar é achar muito ouro, ficar muito rico, e torrar tudo em rapariga e cachaça. Torra tudo, até o último real. Freta caminhonete, fecha hotel. De comer, quase que nem se alembra não. Garimpeiro é bicho engraçado: amarga malária, soterra no barranco, à cata do ouro, e de noite, na rede, conversa com os companheiro falando assim: ´quando eu bamburro eu me faço! Saio daqui e enrico a família´. Bamburra, e torra. Dias depois tá curtindo ressaca no barranco de novo. Sonho de garimpeiro é bamburrar, mas bamburro é gastar. É o que dizem: o que é do garimpo fica pro garimpo, nem ninguém num leva para casa não senhor. Bamburro é isso: ganhar, torrar, perder. Acho que tá mais para gastar mesmo”.

Leia mais ...

Vida de Papelão (2003)

  • 0

Integrante do livro Diário Noturno - contos do autor

Era morena, alta, trazia a tez dourada - tal qual o mel que escorre suavemente dos favos, cantaria algum poeta parnasiano. Coxas torneadas, olhar sensual e seios firmes, encobrindo com o biquíni apenas o essencial para não ser autuada pela polícia sob a acusação de atentado ao pudor. Se bem que, caso andasse nua pelas ruas despudoradamente imundas da cidade, de forma a conferir a elas um pouco de beleza – mesmo que artificial - alegraria sobremaneira a massa de policiais supostamente encarregados de cessar tal exibição, e fatalmente seria deixada em liberdade.

Leia mais ...

Das associações xamânicas parte 1 – a Gestão do Mundo, num Plano

  • 0

Sedentos, voltávamos do roçado recém-aberto quando ouvi o rumor da cachoeira. Estávamos chegando. Quando finalmente avistamos o rio, nos entreolhamos e rimos: banho! Roça brocada, kasiri sorvido, corpo amortecido – só nos restava banhar. Como sempre, os pequeninos rumavam na frente pelo caminho, esgueirando-se por debaixo de troncos – ou por cima deles – com sua agilidade indomável e, para variar, caíram na gélida água antes mesmos de assomarmos à beira.

Leia mais ...

De como sem respeitar os índios, o Brasil não respeita a si mesmo

  • 0

Diferença e cidadania

No Brasil há diversos povos e comunidades tradicionais. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, ciganos e outras comunidades que possuem sistemas de pensamento e de organização política muito diversos. Esses grupos são muito diferentes: não é possível dizer que os povos indígenas, por exemplo, sejam “diferentes dos outros brasileiros mas todos iguais entre si”. Atualmente, há 252  grupos indígenas no Brasil, falantes de praticamente 250 línguas. Esses grupos não são apenas diferentes dos não-índios por falarem línguas e usarem vestimentas diferentes: detentores de sistemas de pensamento e  visões de mundo particulares, são muito diferentes, também, em seus modos de se organizar politicamente.

Leia mais ...

Eu sou a selva em que transformastes minha floresta

  • 0

As rajadas de chuva levantavam a palha de ubim, aspergindo o interior da casa com gotículas frias, quando João pegou o guarda-corpo de encerado, amarelo, e soprou o pavio do lampião à querosene. De súbito, o ambiente escurecido da casa, até então lambido sofregamente pelas sombras móveis projetadas de maneira lisérgica pela labareda, tornou-se taciturno, comunicando-se com sua alma.

Leia mais ...
Assinar este feed RSS