A+ A A-

Abismos simbólicos: natureza? Cultura? Como as urbanidades amazônidas revelam as vidas que poderiam continuar sendo e não têm podido

Bruno Walter Caporrino Bruno Walter Caporrino

A queda adâmica como mito fundador do ocidente

Se há uma distinção cara ao pensamento ocidental moderno é a distinção entre natureza e cultura. Esse par de oposição se inscreve no âmago dos mitos fundadores dos regimes de conhecimento instanciados de diversas maneiras e por vários expoentes do pensamento ocidental desde o século XVII. Esse par de oposição é fundante, inclusive, de toda a cosmologia judaico-cristã da qual decorrem os regimes de conhecimentos ocidentais mencionados. É um par de oposição tão fundante, que parece decorrer inclusive da queda adâmica, uma vez que Adão fora banido do paraíso (natureza) para ter de se deparar com as agruras de constituir humanidade (cultura, civilização, leis, direito). Qual foi o motivo que fez com que Adão fosse banido do paraíso ou, se quiserem, do que os contartualistas mais tarde chamariam de “estado de natureza”? Basicamente, a busca pelo conhecimento do “bem e do mal” e, portanto, a busca pelo saber: sapiens, Adão fora fadado a conviver com a necessidade de criar regras, estabelecer um regime político, e, para o pensamento judaico-cristão, esse seria o mito por meio do qual Adão fundaria uma humanidade contra-a-natureza.

Segundo esse regime de conhecimentos, humanizar-se significa migrar de um estado de natureza, brutal, sem regras, para um estado de civilidade. Os contratualistas, dentre eles Thomas Hobbes (1588-1679) e Jean-Jacques Roussseau (1712-1778) são os mais conhecidos, também calcaram suas explicações para o surgimento do Estado enquanto efetivação máxima da civilização, triunfo da cultura, de maneira mais ou menos positiva, uma vez que Rousseau parece postular que o ideal seria termos nos limitado a “viver em estado de natureza” ao propor que “a civilização corrompe os homens”.

Contra ou a favor dessa passagem do estado de natureza para a cultura, ela é, em todos os contratualistas, inaugural da humanidade. Para Hobbes, o Estado seria constituído por meio de um contrato por meio do qual os homens abdicariam de suas liberdades libertinas em prol do convívio em sociedade. Já para Rousseau, tal convívio e suas regras teriam deturpado o que, segundo o pensador, seria belo em essência,

O fato é que esse mito é tão central no bojo do pensamento ocidental que, como ocorre com todo mito fundador, ele permeia toda sua thesis. Calcado em tal cisão, o pensamento ocidental pressupõe, em maior ou menor medida, que a humanidade deriva da capacidade humana de interagir de maneira quase divina diante da natureza. Essa, por sua vez, seria um ente inanimado e passivo, que o homem, à imagem dos deuses que criou à sua imagem e semelhança através do tempo, poderia moldar, divinamente, à sua imagem e semelhança.

O mito da queda adâmica pode ser tomado, portanto, como o pressuposto inerente ao pensar e ao ser ocidental até o momento. Nesse sentido, quando travaou contato com os povos ameríndios, o olhar ocidental não pestanejou, e, de pronto, alocou essas sociedades no plano da natureza. Ora puros, ora brutos, os cronistas do descobrimento colocam os povos indígenas e a Amazônia como habitantes de uma certa infância da humanidade, vivendo em um estado de natureza que, segundo as leituras, poderia ser tido como benévolo ou terrível.

Sendo o paradigma ocidental calcado de maneira tão visceral em tal cisão, nem o esforço indiscutivelmente mítico do positivismo em atribuir cientificidade plena ao pensamento, e muito menos os esforços cartesianos em atribuir regimes de verdade à, justamente, cisão entre natureza e cultura, obtiveram êxito em compreender os saberes e viveres dos povos ameríndios. Assim é até hoje.

Nós = cultura. Outros = natureza. A negação das alteridades e nossa própria desumanização

Da cisão inaugural entre natureza e cultura surgem outros pares de oposição correlatos: animalidade/humanidade; brutalidade/civilização; misticismo/cientificismo; atraso/progresso. Essa cisão é tão presente no corpus conceitual ocidental, que, até hoje, em pleno século XXI, as populações amazônidas são alocadas por ele no plano da natureza. A Amazônia resulta, então, em um imenso “inferno verde” que a ditadura militar se encarregaria de civilizar, a bem do progresso da nação, por exemplo. Por mais arcaico que seja esse pensamento, vale dizer que a usina de Belo Monte, por exemplo, cuja construção implica em um etnocídio sem precedentes na era moderna brasileira, é um projeto do regime militar desengavetado muito recentemente.

Compreendendo o quão fundante é esse mito fundador, podemos ousar uma investigação sobre dois temas/assuntos cruciais para a compreensão do contexto amazônida contemporâneo e, a partir dos quais, espero, conseguirei provar como se trata de um abismo de incompreensão e intolerância tão grande que nos desumaniza, a nós, ocidentais urbanos, diante do que temos feito em nome de nossa sanha civilizatória e urbanizante. Proponho que pensemos um pouco sobre as urbanidades amazônidas enquanto instanciações dos contatos de diversas populações, associadas aos pensares e viveres ameríndios, ao observarmos suas relações com a metrópole terceiro-mundista que lhes é imposta e com os produtos industrializados que esse paradigma lhes empurra a fim de transformá-los de cidadãos (humanos, e, portanto, civilizados) em consumidores.

A partir desse exercício, convido o leitor a me acompanhar em uma breve reflexão sobre dois modelos filosóficos que influenciaram muito o conhecimento científico moderno, ao resgatar a noção de Charles Darwin (1809-1882) de adaptação e correlacioná-la à lógica de Gottfried Whilhelm Leibniz (1646-1716), segundo a qual viveríamos todos em um (vejam, um único) mundo possível que seria instaciado, realizado, justamente, por ter sido o melhor deles – o que pressupõe seleção e adaptação. Aplicando livremente esses pensares aos conheceres e viveres amazônidas, que resultados teríamos?

Urbanidade e Amazônia?

Antes de prosseguir, proponho ao leitor que se questione: quando falamos em Amazônia, o que lhe vem à mente? Florestas, animais, rios? Recursos naturais? Atraso e descaso do Estado? Em algum momento teria o leitor pensado em cidades e agrupamentos análogos ao urbano?

Muito provavelmente, o leitor pensa nisso, mas, arrisco dizer, sob uma perspectiva negativa: Amazônia = não-urbano pode ser considerada uma sentença muito comum se algum na mente de grande parte dos brasileiros, e isso pode ser comprovado mediante pesquisas de opinião e de semiótica. Antes de avançarmos, gostaria de lançar ao leitor uma pergunta: como vivem as pessoas na Amazônia?

Sobre as águas, simplesmente. Nunca contra as águas, e nem mesmo a favor delas, porque com elas, nelas. É assim que se constroem as vilas e comunidades que se espraiam pelas restingas, furos, voltas, paranás, lagos e rios da bacia amazônica: sobre as águas, em função das águas, ao ponto de ser possível dizer que a vida das populações ribeirinhas se define conscientemente em relação com a água que contamina, liga e afeta tudo na Amazônia.

Muitos pensam, até hoje, que o universo amazônida é pautado pela escassez, enquadrando as imagens das casas ribeirinhas, seus jiraus e pontes em uma moldura simbólica que cai por terra (ou melhor, vai por água abaixo) quando confrontada com a realidade múltipla que esse jeito de viver apresenta.

A história da ocupação da Amazônia é prenhe de provas de que o modelo urbano que emerge dos feudos europeus e seus modos de produção pautados pela sedentarização, centralização e domesticação – e, portanto, dominação ­– de uma natureza entendida como matéria inerte é apenas um modelo. Mas também que os retirantes nordestinos que deixaram a seca para sobreviver num universo pautado pela água são os mais hábeis artífices da adaptabilidade dialética.

A ruptura ocidental entre Natureza e Cultura, esse par cartesiano que, como disse, é o mito fundador de nossa cosmologia, faz pouco sentido na mente dos valentes exilados da seca que, obrigados a conviver com tantos Outros (gentes tão diversas, bichos que são gente, ou seja, animais que são animados e, portanto, agentes), de modo que aprenderam com os indígenas a entendê-los sob uma relação pautada pela ideia de que todo ser vivo é dotado de alma (animado) e que alma é exatamente a capacidade de entender, apreender, perceber e interagir.

Isso se revela de forma concreta no modo como essas pessoas constroem suas casas, produzem sua comida, plantam suas roças, extraem seu açaí, cobrem suas casas com palha de ovi ou buçu. Disso decorre que a vida ribeirinha não é uma vida “às margens”: não está às margens do “progresso” e da “civilização”. Seu viver não é nem uma luta árdua contra, nem uma ode bucólica à “natureza”, simplesmente porque essa não existe: tudo, na vida ameríndia, cabocla e amazônida, é cultura.

Olhos de ressaca

O caso das áreas de ressaca na cidade de Macapá é uma metáfora concreta de como o encontro entre cosmologias e, portanto, de modos de produção da vida, é o real mote da história humana da Amazônia ao demonstrar, com a diversidade dos jeitos de ocupar o espaço, produzir e descartar a vida, que não há um único modo universal, se pensamos em adaptação e não em evolução.

Trazendo consigo a modalidade de relação com o rio e com o universo amazônico, os ribeirinhos e caboclos que foram atraídos para Macapá a partir da década de 1950 passaram a habitar os rios, lagos e áreas alagáveis conhecidas como ressacas, construindo casas sobre jiraus (palafitas). Mas a vida às voltas com uma cidade pensada de acordo com os valores urbanos ocidentais, exigiu que essas populações adaptassem seu modo de vida tradicional com plasticidade tal que o resultado é uma incrível interação entre modalidades de relação aparentemente opostas.

As áreas do território de Macapá regidas pelas marés do Amazonas são áreas baixas por onde o rio adentra a cidade, como numa metáfora sorrateira do modo como a Amazônia sempre ri da tendência ocidental de dominar e domesticar o que seria a Natureza. Aos caboclos coube, portanto, a astúcia de adaptar seus modos de lidar com o espaço edificando, em madeira, vilas ribeirinhas sobre jiraus nas quais o rio e o córrego são a rua, as palafitas se estendem ligando casas e formando praças sem qualquer planejamento que não o individual, num exercício pleno de cidadania que consiste em deixar que a cidade se faça através do engenho dos próprios cidadãos.

Assim, em áreas como Congós, grandes extensões do Aturiá, do Igarapé das Pedrinhas e do Canal do Jandiá, populações ribeirinhas construíram verdadeiras polis onde interagem homens e rio, suas marés e vontades, de forma dialógica, transpondo para o âmbito urbano modos ímpares de entender o espaço, o tempo, a vida e seu fabrico. Repletas de “pontes”, essas áreas são ocupadas por casas ribeirinhas ligadas e muitas vezes assistidas por um igarapé, canal ou baixio alagável (a ressaca) que permite que os barcos e canoas substituam os carros e motos.

Todavia, àqueles que pensam que as áreas de ressaca são um problema (como o Estado, esse leviatã estatístico e homogeneizante), as comunidades das ressacas constituem desafio por serem justamente uma provocativa solução. Longe de serem invasões, como se alega, são práticas espaciais a todo momento invadidas pelo modelo urbanístico pautado pela expansão desenfreada, orquestrada pela “mão invisível” de concreto e alvenaria e pela ignorância das necessidades e potencialidades do meio. Cercadas pela especulação imobiliária e por projetos que ignoram completamente seus modos de vida e suas formas de organização social, essas comunidades morando nas ressacas, provam que é possível conviver com o rio em constante diálogo e interação.

Cercadas por avenidas barulhentas e assoladas pelos problemas da aglomeração urbana para os quais ainda não se conseguiu encontrar soluções, tais comunidades são classificadas pelo Estado como problema ambiental, legal e social. Ao preconceito dos moradores de Macapá que enxergam as comunidades de ressacas como atrasadas e primitivas, assoma-se a falta de iniciativas públicas e a grave falta de autoestima dos moradores. Por conta disso, o modelo de apropriação do espaço coletivo das comunidades ribeirinhas, pautado pela interação com o meio, é gradativamente isolado e minado.

Urbanidade e consumo: resíduos paradigmáticos

As relações com o que deve ser descartado ou que não se deseja mais, típica das sociedades ameríndias, passa de solução a problema: nas comunidades indígenas tradicionais, tudo o que se produzia, era a partir do simplesmente extraído ou dado pelo meio. Lembremos os artefatos produzidos pelos membros dessa sociedade: a vida é produzida para si mesma, sem intermediários como o dinheiro ou o patrão, num compartilhamento de saberes e técnicas. Todos sabem fazer tudo o que precisam. Os produtos extraídos do meio, tais como peneiras, abanos, cestos, casas e barcos eram facilmente deglutidos pelo próprio meio, bastando jogá-los ao rio assim que não fossem mais ser utilizados.

Uma vez que bastava jogar ao rio um produto inutilizado, é comum visitar comunidades ribeirinhas e ver as pessoas descartando toda sorte de coisas de suas embarcações e casas assim que a maré sobe. Nas comunidades de Afuá, Gurupá, no Bailique, é comum encontrar praias onde o rio acumula artefatos como matapis (estrutura de palha trançada em formato cilíndrico para aprisionar camarões), esteiras, cestos, tábuas serradas. As crianças se divertem nesses ambientes em um exercício arqueológico, a gritar “Olha! A panela da Velha Pobre!”, apontando para uma cuia quebrada, e fazendo referência à Serra da Velha Pobre, próxima a Almeirim, sobre a qual costuma-se dizer que se errava pelas vilas catando artefatos para recriá-los.

Não é de lixo que se trata, mas de objetos descartados que, ao deixarem de ter uso para os homens, perdem seu encantamento e tornam a ser palha, fibra, madeira. O hábito de deitar ao rio resíduos orgânicos tem origem nessa mesma modalidade de relação e atrai os peixes para perto do jirau. A compreensão de Lavoisier realiza-se ali como em nenhum outro contexto: nada se perde, tudo se recria.

Entretanto, longe de poder simplesmente devolver o material confeccionado com matéria do próprio meio, agora, com cada vez mais produtos manufaturados introduzidos na vida ribeirinha, as pessoas se veem obrigadas a acumular dentro de casa o material que antes bastava descartar. “Fazer o quê, não é? Essas coisas são todas duras. Duram muito mais, mesmo quebradas. A gente joga do catrario, do navio, do iate, porque não tem condições de levar com a gente a bordo. Veja o senhor: esses cestos todos que a gente usa para carregar o caroço do açaí. Eles se acabando, vão tudo para dentro do rio, mas é palha, se acaba na hora. Essas coisas de plástico, essa lixarada toda aí de cidade, isso o povo tem que aprender ainda a usar”, diz Seu Inácio, que vem semanalmente à Macapá a bordo de sua lancha vender o açaí que retira da comunidade, no rumo da baía de Afuá. No caso, Seu Inácio se refere ao azafamado porto do Igarapé das Mulheres, onde encostam embarcações de pequeno e médio porte que ligam a metrópole às vilas e onde esse choque de modelos se revela no acúmulo de lixo no leito do pequenino estuário.

Quando objetos diferentes, que materializam diferentes modos de produção da vida, encontram-se com esse comércio do tempo e do espaço, o lixo passa a ser um dos problemas imediatos postulados pelo processo de acumulação de pessoas nas áreas de ressaca e entorno dos baixios e igarapés.

Por iniciativa das próprias comunidades para coleta e tratamento de seus resíduos sem apoio algum do Estado, muitos se organizam em mutirões semanais, detectando os canais por onde entra mais o lixo e os vedando com telas e grades. “Aqui no Jesus de Nazaré, a gente se organiza sem se reunir. Sozinhas as pessoas sabem que têm que levar o lixo lá para a rua de acesso à ponte. É muito comum os vizinhos juntarem o lixo aos domingos, ouvindo música e assando um peixe... É uma questão de educação, não precisa reunir. Cada qual sabe seu fazer. Mas o lixo que fica aqui não é a gente que joga não, por isso eu falo: ele vem todo com o vento, no verão, e com as enxurradas, no inverno”, diz dona Nazaré, moradora da área desde que começou a ser ocupada, há mais de 40 anos, em depoimento colhido num ensolarado domingo em que, recolhendo as garrafas PET e sacolas plásticas que flutuavam defronte e debaixo de sua casa, ela e a vizinha abateram uma moreia cuja gordura usariam para fazer pomadas.

“Aqui no Perpétuo Socorro, a gente se criou desde meninas. Meu pai pescava, e meu avô era carpinteiro naval. Tudo aqui era bairro de pescador. Não era essa sujeirada toda não. Antes, tinha mato e aparecia até cobra dentro de casa. Tem o caso do Anísio que dormiu no jirau e acordou abraçado com sucuriju. As pessoas ouviram-no murmurar palavras de amor, e foram espiar, de gaiatice, porque ele era viúvo há muitos anos. O susto foi grande quando viram a bicha toda enrolada nele. Tinha bicho, tinha tudo, só não tinha era sujeira. Meu avô criou tracajá e jacaré na porta de casa até bem pouco antes de morrer. Não tinha prefeitura, mas cada qual cuidava do seu pedaço. Hoje isso aqui inchou, tem um em cima do outro, é barulho, briga e lixo. Antes não era assim não”, enfatiza Dona Nita, simpática moradora do Perpétuo Socorro que prega o evangelho todos os domingos na penitenciária estadual e faz parto nas comunidades do entorno de Macapá.

Cidadãos residuais: às margens do sistema, cidadania e novos contratos sociais

Vemos assim que grande parte do lixo que flutua nas áreas de ressaca vem das ruas, galerias fluviais e lixeiras da cidade seca que as envolve. O vento e as chuvas arrastam para os canais e igarapés o lixo que vem do asfalto, sendo um problema tanto ambiental quanto social porque as comunidades se veem obrigadas a conviver com os detritos sob suas casas. Para além das doenças e do desconforto provocados pelo acúmulo de lixo, as comunidades que criam tracajás e peixes no quintal de casa sofrem o preconceito vindo daqueles que justamente sujam suas áreas e os taxam de marginais.

Teve um monte de estudante de uma faculdade que veio aqui querendo ensinar a gente a cuidar do lixo. Tinha que ver, as meninas de salto alto prendendo nas pontes, falando que a gente suja tudo, que querem nos ajudar a recuperar os impactos ambientais de morar aqui. A gente não é bicho não, isso aqui não é zoológico: a gente cuida do lixo, o asfalto é que não cuida do dele, e a gente que paga o pato”, diz Seu Walmir, carpinteiro naval em Santana.

Talvez seja possível dizer que o lixo é o jeito como produzimos a vida nas modernas sociedades urbanas, pois não é outra coisa além do que nós mesmos nos esforçamos para fabricar com empenho, engenho e técnica, e que depois descartamos. Nesse sentido, desenvolvimento consistiria justamente em produzir a vida e não o lixo, descartando aquilo que pudesse ser transformado sem se perder, ou reutilizando aquilo que nós produzimos de modo tal que o meio não consegue absorver.

Sob essa ótica, não haverá dúvidas de que o jeito ribeirinho, indígena e caboclo de produzir a vida e descartar produtos é mais eficiente e inteligente. Mas os produtos inorgânicos não serão abandonados: será necessário, então, fortalecer a organização local das pessoas, valorizar as práticas que já existem, e sobretudo, modificar radicalmente os paradigmas atuais que regem a produção das coisas, das cidades e do imaginário coletivo.

O melhor dos mundos possíveis

Vejamos, então, o caso de Afuá. Quem chega à Macapá por aeronave (um dos únicos meios para quem vem de longe) e tem a sorte de chegar nos únicos dois vôos que aterrissam à tarde, tem o incrível privilégio de, tendo partido de Belém, sobrevoar e contemplar do alto os campos alagados e as ilhas do arquipélago de Marajó, onde a hercúlea mata amazônica, repleta de grandes sumaúmas, angelins e de todas as mais belas variedades de palmeiras, se abre respeitosamente, reverencialmente, através de incontáveis canais, para que o rio corra, cortando-a, rumo a seu grande fim (finalidade e término): o encontro com outro gigante, o Atlântico.

Aterrissando, desembarca para a pista abatida por tórrido sol, em especial nos meses de verão, e caminha até a modesta sala de embarque do pequenino aeroporto. De lá, mesmo que parta para o recém-inaugurado hotel-padrão, climatizado e geneticamente igual à todos os da rede, ou que vá aos mais tradicionais (tendo a sorte de ganhar uma vista para o Rio Amazonas, no Santa Inês), o visitante não percebe que chegou à uma cidade amazônica.

O mesmo não ocorre ainda nas cidades amazônicas, por maiores e mais cosmopolitas, metropolitanas (para o bem e para o mal) que sejam: mesmo que em Belém ou Manaus shoppings e equipamentos urbanos padronizados os haja em quantidade, a feição dessas cidades, o aspecto e o portar de seus transeuntes, a trilha sonora e os odores e cores, sabores e produtos que tomam as ruas, são únicos, e revelam que o viajante que flana por suas ruas e avanidas encontra-se numa cidade incrustada no meio da Amazônia, de modo que, se a cidade invadiu, tomando de assalto a selva, esta dá o revide e a invade (especialmente na Manaus do inverno, onde o Negro toma de volta tudo o que lhe é de direito).

Mas Macapá é uma capital amazônicasui generis. A começar pela estrutura de sua trama viária, extremamente retilínea e quadrangular, revelando forte e racional planejamento calcado na idéia de tábula rasa, passando pela largura destas avenidas e das possíveis calçadas (que quase nunca se realizam como tal), o viajante só se lembra que está numa cidade amazônida quando, seguindo uma dessas retas avenidas, esbarra com o Rio em toda sua magnitude, e pode contemplá-lo ao lado de seu belo vigia: a Fortaleza São José de Macapá. Àqueles intrépidos que a cidade dá o privilégio de permanecer por mais de alguns dias ou meses, residindo na cidade, é facultado o prazer da descoberta (como ocorre em toda cidade, aliás): e se depara com as casas de madeira avarandadas, pequenas, sobre palafitas, em plena região central; as pontes, também de madeira, esguias ruas de palafitas sobre “os baixos”, as “ressacas” que o Rio alaga quando o Mar, um tanto sentimental, barra-lhe as investidas com a cheia de sua maré.

Mas vagar pelas “pontes”, ao mesmo tempo em que é uma experiência inenerrável, permite ao observador atento assombrar-se com a cisão entre natureza e cultura consagrada pelo Urbano moderno, mas de uma forma incrível por Macapá: ao lado das edificações com ares modernos, todas envidraçadas, climatizadas, imitando o estilo pomposo-empresarial dos grandes prédios que assediam cidades como São Paulo, existem terrenos baldios abandonados não só ao mato como à especulação mais aguda, atrás dos quais se vê belíssimos, apaixonantes, buritizais alagados que filtram o sol em toda sua dureza, permitindo que se coe por suas folhas e esbarre no fino espelho d´água que os sustenta e reflete, reproduzindo-os.

Moradores da cidade há, no entanto, que nunca provaram um pedaço de pirarucu. Que desconhecem a diferença entre um tucunaré e um surubim. Que não sabem a diferença entre uma bacabeira e um pé de açaí. Dentro de suas modestas edificações (todas climatizadas), eles se valem de um ideal de urbanidade e de progresso tão cruel quanto exótico, e, devo dizer, nocivo: longe de podar as agradáveis mangueiras que proliferam pela cidade acolhendo os transeuntes sob sua sombra alegre, dando-lhes frutos doces gratuitamente como num sonho rousseauniano, eles as “toram”: cortam, extirpam, eliminam.

O “mato” que invade os arredores das casas cobertas com escaldante amianto (símbolo tradicional de status na Amazônia inteira, à época em que, saídos dos seringais os hoje caboclos ainda construíam suas elegantes habitações com cobertura de palha) é simplesmente subsumido, e as avenidas e ruas, impressionantemente largas, que poderiam ser tomadas por mangueiras e cheirosos pés de cupuaçu, são assoladas pelo sol mais equatorial do Brasil (já que Macapá é a única capital cortada pela linha do Equador). Isso faz de Macapá uma metáfora do Brasil: como no poema Pneumotórax de Manuel Bandeira, toda uma vida que poderia ter sido, e não foi.

Contra a ‘natureza’, urbanizar

Assim como o Brasil parece ter se desenvolvido de costas para a América Latina, contemplando primeiramente a Europa, e depois os Estados Unidos, com avidez, Macapá parece ter crescido de costas para a Amazônia, contemplando com inveja, pela televisão, os grandes centros urbanos. Edificada em torno da Fortaleza São José de Macapá, a cidade possui uma história tão singular quanto o Estado, que até 1988 era território federal. Erguida sobre um platô alto cerca de 2m de altura em relação ao Rio, ela se espraiou por um bioma que poucas pessoas sabem que existem na Amazônia: o cerrado. Povoada por forasteiros que se relacionaram de forma colonizadora com os indígenas e recursos locais, a região toda foi tomada de pronto por garimpeiros febris por ouro e madeireiros ávidos pelas cédulas que cada folha poderia produzir.

Em Macapá houve um processo contrário ao que houve na cosmopolita Manaus: recebendo incentivos fiscais e injeções fenomenais de capital estrangeiro, a capital do Amazonas viveu era de ouro com o ciclo da borracha (extrativismo, de certa forma), que levou para o meio da Amazônia retirantes flagelados escravizados para que, no Theatro Amazonas, as classes favorecidas pudessem apreciar belas óperas, e gozar a fresca ouvindo gramofones ao apreciar suco de graviola e cupuaçu em suas varandas neo-clássicas. As interações entre os europeus, os japoneses, os nordestinos seringueiros e os indígenas foram se consolidando historicamente de modo a criar uma cultura e uma espacialidade afeita ao contexto, própria a ele, e que se reflete na cidade: cosmopolitismo.

Isso não parece ter ocorrido em Macapá. Ponto de passagem dos garimpeiros que desbravavam os rios pedregosos e de difícil navegação, a cidade encontrou no ouro extirpado das entranhas da terra e na mata deitada abaixo suas únicas fontes de recursos, coroada pela mineração que instalou-se com peso no estado em fins da década de 1970.

O modelo trazido pelos empreendedores da cidade de Macapá foi o da urbanização ocidental predatória, que encontra na cisão natureza/cultura sua pedra de toque: ser índio é ser subdesenvolvido, e morar “no mato” é sinal de involução, atraso. Almejando a evolução, instalou-se no cerrado uma metrópole que, de costas para o Amazonas, mas invadida por ele em suas entranhas, por suas terras baixas, luta como um Sísifo contra cada hera, cada liana, cada árvore, rumo ao progresso, esse mesmo ideal que fez com que, em Progresso, no Mato Grosso (como escreveu Wellington Cançado na edição 2 de www.piseagrama.org), todos os pequenos arbustos da tórrida avenida central fossem extirpados, em nome da urbanização e do Progresso.

Eis porque Macapá, consagrando a estrutura do pensamento de um tempo e de uma sociedade (como toda cidade), pode ser tomada, assim como Progresso-MT, como mais uma maquete em escala real dos valores e posturas epistemológicas das classes dirigentes, pois é nisso que consiste uma cidade: uma fotografia da estrutura de pensamento e das relações sociais que a subsidiam e que ela subsidia, dialeticamente.

Deixando Macapá de barco, deitando-se na rede sobre o convés superior, num recreio, tem-se a sensação de que a negação da “natureza” (e de seus habitantes) em nome da “cultura” (ou seja, do Progresso e da Evolução que culmina em metrópoles que têm nos shoppings a realização máxima dos burgos, (que são a gênese das cidades modernas), percebe-se que tudo o que rodeia e invade a cidade por suas baixas periferias é Amazônia, e a bela e preciosa cultura que nela e por ela desenvolveu-se.

Urbi et orbi

Chegando ao pequeno município paraense de Afuá, o desavisado sofre um choque. Construída completamente sobre palafitas, em madeira, a pequenina e belíssima cidade marajoara é a realização de um modo de viver e relacionar-se com o meio, com o contexto amazônico, de forma inteligente e aperfeiçoada. Orgânica, em todos os sentidos que o termo possa assumir. Pelas “pontes” de madeira que são palafitas, passeia-se de bicicleta (única e exclusivamente, já que o tráfego de veículos automotores é ali proibido por lei municipal) por entre as belíssimas casinhas avarandadas, todas de madeira, pintadas das mais diversas cores, onde o esmero na construção e na decoração revelam a presença cabocla, pois a casa cabocla é tradicionalmente um símbolo de zelo, limpeza, frescor e cuidado.

Assim como nas pequeninas e acolhedoras comunidades ribeirinhas que se espalham pela Amazônia, Afuá é uma ode à vida amazônida: construída sobre as águas do rio que tomam a cidade na maré alta sem mitigá-la, ela convive com o meio, fixando-se nele de forma volátil e, por isso mesmo, perene, ao demonstrar que seus habitantes não apenas conhecem-no muito bem, como fazem um pacto com ele e, aceitando suas regras, lidam com elas naturalmente: cultura. Orgânico.

Das pequeninas varandas das casas entrevê-se o soalho enceradíssimo e reluzente onde crianças se refestelam, descalças no calor da tarde, a comer todas juntas um pedaço de filhote, peixe pescado pelo próprio pai que acabara de retornar com seu elegante batelão com motor-de-centro. Todas comem do mesmo prato, assim como sói nas sociedades indígenas amazônicas. E na casa cabocla.

O esmero da comunidade em zelar, cada qual por sua casa, e todos pelas vias públicas, onde elegantes lixeiras acolhem os detritos devidamente ensacados a serem recolhidos pelo lixeiro – que pedala – permite que se perceba um senso de urbanidade e comunidade que só se encontra nas referidas comunidades ribeirinhas.

Da beira onde se amontoam as belíssimas e delicadas, mas valentes e portentosas embarcações (recreios, batelões, catraias) de madeira, contempla-se o sol que se põe na mata que jaz quase intacta – nunca virgem – há poucos minutos desta cidade que desenvolveu-se a partir de uma vila ribeirinha e que assim soube se manter.

A antropologia contemporânea nos ensina que não há mata virgem: a Amazônia é um grande jardim cultivado por mais de 5.000 anos de contatos e convívios humanos, e a própria dispersão de muitas espécies vegetais e animais se deve justamente à presença humana. Se às sociedades indígenas, em função de seu modo de produção extrativista, foi permitido interagir com este bioma de forma a, mais do que não extingui-lo, cultivá-lo, aos ocidentais que tentaram colonizá-la, domá-la, foi relegado o mais cruel fracasso.

Fitzcarraldo revisitado

Quantos Fitzcarraldos não pereceram por estas bandas após verem suas quimeras urbanas, civilizatórias, tragadas por aquele mesmo componente que tentaram negar ao domar: a natureza?

Em Afuá, passeando pelas estreitas palafitas que são as ruas, sentando-se nas praças, todas de madeira, sobre as águas, dormindo-se na rede, sente-se o frio típico das regiões onde ainda há mata. Todas as habitações e embarcações são construídas de modo a lidar, conviver com a água que é, assim, o motivo e ponto de partida e de chegada de tudo. Em Macapá, ao contrário, é impossível andar à pé, triunfando o modelo urbano das metrópoles que anulam o espaço público a bem do triunfo do privado: há asfalto (escaldante), para os carros (climatizados), mas não calçadas, para os pedestres.

Uma comparação se faz, então, possível, tendo-se como eixo os modelos de acordo com os quais cada uma dessas cidades, tão próximas mas tão distantes, desenvolveu-se, tendo-se como eixo o modelo de relações (sociais, sobetudo) que subsidia a cada uma: ao negar a natureza, Macapá pretende-se Progresso, evolução; atende a princípios finalistas, ou seja, pressupõe em cada esquina, ou obra particular, a idéia de que tudo deve tender à evolução, ao progresso, ao urbano ocidental moderno, metropolitano.

Ao aceitar a Natureza, por seu turno, Afuá realiza-se como cultura por uma outra via: os homens vivem sobre as águas, constroem seu meio ambiente (e este é outro componente da definição que podemos dar de uma cidade, ou seja, um ambiente construído pelos e para os homens) sem negar o ambiente natural no qual estão inseridos: vive-se em função da Amazônia, em Afuá, uma urbanidade natural, coroando o ideal de adaptação, e não o ideal finalista de progresso e evolução, já que este último, como nos demonstra a antropologia há anos, é um ideal etnocêntrico que impõe o modelo europeu ocidental de homem e relação, modo de vida e de produção (mercantilista, industrial), desclassificando todas as outras modalidades ao considerá-las subdesenvolvidas, atrasadas.

Mas, se buscarmos a origem epistemológica do próprio ideal de progresso e finalismo em um de seus expoentes, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), encontraremos a tese de que o mundo em que vivemos é o “melhor dos mundos”. Leibniz pretendia com isso que o mundo que vivemos é a realização da consciência de um deus arquiteto que criaria tudo numa linha histórica que tendesse ao aperfeiçoamento, à evolução: ou seja, à perfeição, à si mesmo, portanto.

Mas, errando por Afuá, tem-se a sensação de que a tese de Leibniz poderia ser muito melhor aplicada à uma cidade se fizéssemos o exercício de, juntamente com Charles Darwin entender a vida, em sua totalidade, como um constante processo sincrônico, e não diacrônico, de adaptação (ao contrário de evolução e progresso): segundo Darwin, que nunca mencionou a palavra evolução, os seres adaptar-se-iam aos contextos, tornando-se perfeitamente eficientes e afeitos a eles, cada um a seu modo, não havendo uma série histórica que tendesse a um fim, mas sim uma sucessão de contextos repletos de seres extremamente adaptados a eles, ou seja, perfeitos, permitindo que se contemple a vida em todas suas mais variegadas manifestações, sem superpô-las umas às outras de acordo com o ideal de que, quanto mais humanas se pareçam, mais evoluídas serão.

Segundo esta concepção, poderíamos extirpar o finalismo da análise, e entender os seres, as culturas, e as cidades, como perfeitos construtos que, como pretendeu Leibniz, são da forma que são (e não de tantas outras infinitas formas possíveis) porque uma série de fatores concorreu para tal, configurando-se, assim, como os melhores mundos. Possíveis: adendo importantíssimo.

Retorna-se então, de Afuá, com a plena sensação de que aquela é uma cidade plena: totalmente afeita ao contexto em que se insere, ela é um contexto onde uma série de relações são perfeitamente afeitos a ela, encontrando-se em um estado de adaptação e sustentabilidade que Macapá e outras metrópoles não encontram, porque não são sustentáveis, e porque são sustentadas e sustentam um modelo de compreensão do mundo e do espaço urbano que tem uma única finalidade: o lucro, a mercantilização, a acumulação de capital, à revelia das pessoas, e do espaço. À revelia, portanto, não apenas de sua humanidade, mas da humanidade como um todo, como um princípio.

Avalie este item
(22 votos)
Bruno Walter Caporrino

É formado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo, USP. Atuou como indigenista no Amazonas, pela Opan, junto aos Katukina do Biá e depois, entre janeiro de 2010 e dezembro de 2016, atuou como indigenista junto aos Wajãpi do Amapari, Amapá, pelo Instituto Iepé. Desde janeiro de 2017 reside em Manaus, onde faz o mestrado em Antropologia Social sobre o Protocolo de Consulta Wajãpi pela Universidade Federal do Amazonas. Membro do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena da Ufam, continua atuando junto a povos indígenas como consultor. É autor de quatro livros de contos, uma peça de teatro e um romance, registrados na Biblioteca Nacional mas nunca publicados, além de diversos ensaios, contos e artigos publicados em revistas e portais como a Peixe Elétrico (n.06) por exemplo.

voltar ao topo