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Na riqueza, a pobreza – o dilema da Amazônia na carne

Imagem Bruno Walter Caporrino Imagem Bruno Walter Caporrino

Assim que entramos no mercado do peixe do Perpétuo Socorro, enfrentando a azafamada beira do Igarapé das Mulheres, onde aportam as embarcações que realizam a comunicação entre Macapá e comunidades como Jussara, Piaçava, e cidades como Breves, Chaves, e sobretudo Afuá, somos surpreendidos – mais ou menos, dependendo do contato que se tem com esses mercados de peixe da Amazônia – pela barafunda colorida e álacre que toma as bancadas recobertas de zinco onde jazem, ainda vivos – mais do que frescos – tambaquis, uritingas, piaus, pacus, pacusis, piranhas, acaris, bodós, filhotes, piraíbas, matrinxãs, pirapitingas, surubins, etc.

O gazetear dos vendedores, os chistes sinceros dos carregadores e compradores, tudo isso envolve o transeunte numa aura própria, única, que dissolve o tempo e lhe imputa uma certa pressa alegre e buliçosa, que marca o contraste da aparente pobreza dos frequentadores, se observados com os olhos mercadológico-capitalistas que postulam como riqueza o poder de adquirir, mediante dinheiro, bens industrializados com a riqueza intrínseca que manipulam, a nobreza do produto que negociam, e cuja fartura permite aos mais esclarecidos entender que a pobreza é apenas aparente.

Não foi diferente neste sábado onde, indo encontrar minha camarada cozinheira de terra indígena, Naídes, que mantém uma banca de peixe salgado no mercado, aproveitei para comprar matrinxãs e fazer umas fotos dos já conhecidos vendedores e, sobretudo, das embarcações tradicionais de madeira que venho fotografando há mais de seis anos. Entre um gole e outro de café, eis que uma algaravia toma a parte fronteira do mercado: defronte ao caminhão que descarregava sacas de cebolas, Maria Inês, conhecida vendedora de ervas e tucupi, deblaterava com o proprietário do caminhão, que lhe devia sacas e mais sacas já pagas, vindo entregar, disparatadamente, apenas aos outros vendedores, o produto. De chofre, Maria Inês, irritada e a invectivar contra um carregador, entre aplausos e gritos jocosos de incentivo dos frequentadores do mercado, sobe à caçamba do caminhão e começa a deitar fora as sacas que o dono entregaria a outros que não ela. Mais aplausos e chistes.

---- Égua, mulherzinha enxirida essa! Dizem alguns.

---- Certa ela... o homem recebeu e não entrega... tá pensando que a gente somos besta?

Naídes e Loira, sua colega de banca, se riem, e arrumam os saquinhos com coloral e as garrafinhas de tucupi sobre a bancada, enquanto eu dou mais uma rodada pelas bancadas onde uma nova leva de tambaquis e pacus pretos agonizam, e, para sincera irritação de um jovem vendedor, ainda não convencem a dona maria que, examinando-o detrás dos óculos de grossos aros e prendendo os cabelos já repletos de cãs, pergunta:

---- Essa aqui tá fresca mesmo, será se?

Mais algumas tomadas com a Zeiss Contaflex, e gracejos com um freguês que se afastou do foco da objetiva de sopetão, como quem leva um soco, como um foragido.

---- Égua, medo é esse mano? Tá com medo de ir parar no Bronca Pesada do meio-dia? Exclama entre risos o vendedor que tica um par de piranhas na sua frente.

Mais risos. A vida segue seu ritmo, entre a morte agonizante dos peixes e o sustento dos vendedores e das famílias das matronas caboclas que regateiam o centavo/grama, como sói.

Deixando o mercado, vadiei pela beira do Rio Amazonas, no tradicional bairro pescador do Perpétuo Socorro, e deixando-me levar para fora da faina colorida e aromática do mercadejar dos viventes. Vaguei a esmo pelo bairro, pois estava por acabar a película 35mm – última de meu estoque – dentro da Zeiss Contaflex.

Como sempre acontece, deparei-me com a beira-rio, que, neste trecho a norte do Igarapé das Mulheres, é um ermo selvagem – deliciosamente selvagem – onde os aningais encostam de quando em quando, e ainda há vegetação sobre o leito lamacento e lodoso do Rio. Uma placa de macabaúba encostada à murada, e mais um chiste de vida: “Temos peixe”. Ô se! O Rio logo atrás. Última pose? Sorte!

Estando o sol a pino, o que, por estas bandas equatoriais significa que estava inclemente, decidi aprumar o rumo da caminhada novamente para o Igarapé das Mulheres, onde poderia comprar um açaí ir para casa assar matrinxã. Mas todas as vezes que percorro este lado norte da orla, agora devastada pela força das águas no repiquete, sinto certo misto de tristeza e felicidade. Felicidade porque sendo ali a beira-rio do bairro tradicional dos pescadores, os esforços das prefeituras anteriores em construir quiosques com apelo turístico (o que, no caso do Brasil, consagra sua raiz e quer dizer “para inglês – e só inglês, não o nativo – ver”) e transformar a várzea em uma praia para os gringos, foram malogrados.

Mas também tristeza porque, contemplando a beleza da paisagem ainda selvagem, onde alguns moradores se banham com os filhos tranquilamente, e, na preamar, embarcações aportam à espera da cheia, regateando, sempre vejo por ali algumas pessoas que se apoderaram dos quiosques falidos, sem telhados e, tendo atado redes, cozinham em latas de tinta látex os bodós que o povo joga fora. Como pode tanta pobreza, à margem de tanta riqueza? É um contraste de dar calafrios: Pneumotórax, uma vinda inteira que poderia ter sido e não foi... já cantava Manuel Bandeira.

Por diversas vezes essa mistura de sensações tomou conta de mim ao passar por ali. E isso se acirrou desde de a ante-penúltima vez, quando, ao entardecer de uma quinta-feira, vi uma moça jovem, de cerca de 18 anos (ou menos), morena de nascença, escura de sol, magra e tatuada, sair de uma lancha aportada enquanto o proprietário subia a braguilha de sua calça, à proa, como quem palita os dentes depois de melar-se todo de peixe reimoso. Seus olhos – os da moça – percorriam a beira, envergonhados, e pude ver que mareavam, à preamar.

Outra feita, zanzando por ali, confirmei as suspeitas: era, a moça, mais uma das mulheres brasileiras que o Brasil enjeita, e que sustenta as carnes precificando-as e, assim, aos olhos da sociedade, depreciando a alma, vivenciando perigos vários por estas beiras, baixios, zonas, portos, tantos, tantos, que sequer chegamos a conhecer.

O caso é que desta feita, tomado, como sempre desde então, pela mesma mistura de sensações de sempre, parei em um ponto onde julgava não haver absolutamente ninguém, para aproveitar o zoom ótico de uma câmera digital que tomara emprestada e fazer umas tomadas de um pai que brincava com seu filho nas águas do Amazonas banhadas de luz, até que, amaldiçoando o sistema de focagem da Nikon digital, que limita muito a focagem manual, percebi que alguém se achegava por trás de mim.

---- O senhor tem um cigarro?

Era ela. Magra, queimada de sol, o rosto jovem e o riso ingênuo de moça cabocla a persistir, triunfante, sobre a pobreza extrema a que fora relegada. Respondi que não, infelizmente, e fiz menção de que ia guardar o equipamento e deixar o local, já que, não pretendendo usufruir de seus serviços, não iria tomar-lhe o tempo. Mas acabamos entabulando conversa. Ela, obviamente, perguntou de onde eu era, e o que fazia, desde quando morava em Macapá e, obviamente, como era viver e trabalhar com os índios, o que contei.

---- Aqui é bonito né? Pena que é sujo. Eu moro aqui, naquele quiosque ali – e embeiçou na direção dos quiosques abandonados, apontando com um dedo um deles, no qual dois homens dormiam em redes.

---- Pois é, é lindo, sim. E não lhe falta lugar para banhar e pegar água, como no resto da cidade (em todo o Perpétuo Socorro, por um milagre da natureza humana e da administração pública a mais corrupta, falta água, estando há metros do maior rio do mundo: não riam; por favor, contenham-se, pois é triste).

---- Ah, não, eu não banho aqui não. É muito sujo. Tem muita gente que joga sujeira, porco morto; por esses dias, mataram uma sucuriju aqui, com um pau. Sorriu, entre matreira e humilhada, a engolir seco como quem se prepara para anunciar ou pedir algo importante. E prosseguiu: ---- eu banho nos barcos, quando durmo com os caras, e também no motel... bem ali.

Fez um silêncio envergonhado, baixou os olhos, contemplou o rio, e, prendendo o vestido com a presilha dos cabelos, no intento de mostrar as magras pernas provocativamente, tomou a resolução de expor, por fim, seu intento:

---- Bora fazer um sistema, nós dois? Eu tô com fome...

Eu, que já tinha me preparava para ir embora, aproveitando sua pausa contemplativa, estaquei, gélido, ante a dureza sincera da frase, enunciada em tom tão melífluo e matreiro por uma simples menina, tão menina quanto versada nas artes de humilhar a alma promovendo o corpo. “Eu tô com fome” foi a frase mais arrebatadora que ela poderia ter dito, neste contexto delicadamente orquestrado para embrutecer os sentidos e calar a razão, ironicamente diante de tão puros e bonitos, profundos estímulos como o vento agridoce e a paisagem do rio, em cuja outra margem um verdadeiro e concreto Eldorado se estende pelo tapete verde de açaizais cortados pelo Rio de onde os peixes pulam para as malhadeiras por livre iniciativa.

Sem saber o que lhe dizer, lamentei, dizendo que não poderia (sabendo, no íntimo, que expor as reais razões para isso a humilhariam ainda mais, pois seria o mesmo que dizer-lhe em letras garrafais que eu recusava humilhá-la porque ela se humilhava por profissão), e ameacei deixar, vergado, o posto onde ela me abordara, sem conseguir conter o marear dos olhos.

--- O senhor não tira uma foto minha, pra mim? Sempre sonhei. Nunca eu tive, eu, uma foto – interpôs.

Perguntei a ela como fazer para devolver-lhe a foto impressa, com a garganta seca, não tanto pelo escaldante sol equatorial de meio-dia, mas por um imenso desapontamento para com o mundo. Constrangida e esperançosa, ela encarou a objetiva com uma ternura candente, e com um sorriso, instou: “tira vai? Depois você passa por aqui e me dá! Eu sempre quis ser modelo! Fica famosa e sair na TV”.

Seu sorriso era tão forçado e triste, e sua postura tão instável, que não pude predar-lhe a imagem, apontar-lhe a objetiva. Saquei a Zeiss Contaflex e fiz mais duas fotos – com as duas últimas poses do filme, que nunca uso. Constrangido, e ela a sorrir. Buscando reverter a situação, ousei um gracejo, a fim de desarmar-lhe o sorriso pró-forma estanque, quase pétreo, contrastando com os olhos tristes: “trago-te a foto, e uma carteira de cigarros, já que tu pediu e eu não tinha”. Riu-se, somente então, com serena verdade. Somente então consenti em pressionar o obturador, e guardar dela uma imagem mais leve e serena.

Caminhando cabisbaixo os 500m que me separavam da aglomeração que guarnece o boqueirão do Igarapé, e onde a faina de beira retoma seu pique, deparei-me com uma pequena lancha sem pintura emborcada, que, com o motor de centro acionado, secava o porão do batelão. De dentro dele, sorridente e simpático, acenou para mim o proprietário, enquanto jogava para a lama quilos e mais quilos de acari-bodó, peixe de fácil reprodução e pesca que, pela aparência cascuda, pela cor escura, pelo hábito de sobreviver da e na lama quando das secas, e pela facilidade de ser pescado, é completamente desprezado como uma Geni, por estas paragens urbanas amazônicas, onde impera o desperdício o mais gritante dos recursos mais preciosos que o Planeta já ousou nos oferecer.

Isso me fez pensar, com amargura, na moça que oferecera seu corpo por um litro de açaí – quiçá menos – sobrevivendo às margens do maior estoque pesqueiro, de açaí, de biodiversidade e riquezas jamais conhecido pelo homem; consagrando o espírito amapaense, sempre disposto a fazer-se maquete, caricatura do Brasil, ao celebrar uma ode ao desperdício, ao mau-trato, ao mau-uso, ao não-cuidado. Agradecendo ao velho Daia pelo açaí especial vendido, como sempre, pelo preço do normal, cruzei os conveses dos iates e lanchas abeirados para chegar em casa, pensando em Darcy Ribeiro, que foi quem, depois de tudo o que tenho visto e vivido, nesse sentido, me deu uma das melhores definições do que somos neste país: o Brasil é uma máquina de gastar gente – desperdiçar recursos, e acumular riqueza nas mãos de poucos, acrescento.

Na Amazônia, isso fica ainda mais lancinante: como uma Guernica de Picasso, a Amazônia expõe de maneira tão crua quanto sua luz equatorial, as verdades que o Brasil e seu carnavalesco paradigma de bem-aventurança e progresso, aceleração do crescimento e desenvolvimento, mascaram.
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Bruno Walter Caporrino

É formado em Ciências Sociais pela USP e desde 2010 atua como indigenista pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé, assessorando povos indígenas da região a se apropriar de políticas públicas e assegurar seus direitos, pactuando consensos sobre isso em respeito à sua organização social e saberes. O Iepé é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 2002 por profissionais de diversas áreas, como antropólogos, biólogos e educadores, que já atuavam junto às comunidades indígenas no Amapá e do Norte do Pará desde a década de 1980 e que, com a fundação do Iepé buscaram formalizar esta atuação para fortalecê-la em um âmbito institucional e contemplá-la em um âmbito regional, assessorando os povos indígenas da região para que fortaleçam suas associações, expressões culturais e organizações sociais, através de processos formativos, e para que possam apreender as políticas públicas e influenciá-las a fim de que assegurem seus direitos e garantias.

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