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A golpes de machado: crônica do Golpe anunciado, vista da Floresta

Imagem Bruno Walter Caporrino Imagem Bruno Walter Caporrino

Ele, o Lula, vem do povo, igual que nem nós. Nós vinhemos de Roraima para cá, é a mesma Perimetral. Alguns dizem que a Perimetral Norte surgiu em Roraima e outros dizem que começou aqui, no Amapá. E eu gostei da sua solução, Bruno: eu acho que começou foi nos dois lugares ao mesmo tempo. Lá, a gente torcemos muito: vai ter Constituição. Lutemo mesmo. Eu mais os minino viemos fugido, por causa que a gente mexia mesmo. Perguntava. Ajuntava todo mundo, queria saber com juiz por que saiu título de imóvel para um e não para os outros. Perseguiam nós. Intimidavam. Mas eu nunca que tinha sido humilhado assim, que nem agora, que nem aqui. Seu Pedro baixa os olhos, envergonhado. Desguia os olhos, como quem busca enxergar para dentro. A polpa de cupuaçu tá toda aí se estragando, retoma o fio do discurso. Faz é duas semanas que a gente tamos sem luz por aqui. Tá se estragando, veja se leva para ti – prossegue, contendo as lágrimas.

 

Seu Pedro acabara de receber ordem de prisão de um auxiliar do juiz, contratado sem concurso público mediante inúmeros manejos eleitorais. O motivo? Os meninos da vila do assentamento jogam bola na lama que fica em frente à casa alugada por esse servidor. Numa demonstração de poder, o despreparado representante do Estado, na verdade um cabo eleitoral, furou a bola dos meninos. Quando foi perguntar o motivo, Seu Pedro ouviu que ele furou a bola... porque podia. E teje preso! Humilhado, Seu Pedro voltou à sua casa, e Maria lhe comunicara: por conta da falta de luz, dois freezers repletos de polpa estavam sendo desocupados. A polpa de cupuaçu se estragara.

Pergunto a Seu Pedro o que vai fazer com o resto da polpa que não conseguir vender. Certamente mais de 400 kg. Faz anos que tenho lutado para fortalecer politicamente os agricultores familiares da Perimetral Norte e converter esse lanho aberto na Floresta Amazônica com o intuito de estripar-lhe as riquezas em um veio de desenvolvimento socioambiental integrado, participativo, de base comunitária. Faz anos que estamos lutando para fortalecer as cadeias produtivas dos produtos da agricultura familiar local. Agregar a tão ticos produtos o valor pecuniário que lhes é devido. Faz anos que em Macapá o povo toma refrigerante Mikos, e que a polpa densa e pura do mais nativo e orgânico cupuaçu de Seu Pedro e dos agricultores da Perimetral se estraga.

Mikos sabor Guaraná. Calabresa. Mortadela. Charque. Sal e açúcar. Um verdadeiro “efeito mortadela” se espraia pela Amazônia. Esse conceito foi criado pela bioantropóloga estadunidense Barbara Piperata, que conduziu pesquisas sobre consumo/gasto energético e calórico em comunidades como os ribeirinhos que habitam a Floresta Nacional de Caxiuanã, na região de minha bela Breves, Pará. Piperata pesquisou, basicamente, os hábitos cotidianos dos ribeirinhos: quanto tempo e energia empenham coletando e amassando açaí? E quanta energia adquirem ao consumir esse açaí? O mesmo para pescado, camarão, produtos da roça. É muito interessante lembrar que esse estudo de Piperata comprova, quase 50 anos depois, a tese de Marshall Sahlins, inscrita em seu magistral A primeira sociedade da afluência.

Sahlins aceita “jogar o jogo” do sistema de valores capitalista: se fossemos aceitar o desafio, e calcular o quanto de energia um povo indígena, ou seja, um “povo primitivo” gasta para conseguir energia e sobreviver, e o quanto de energia um homem ocidental urbano, “desenvolvido” gasta para conseguir a mesma quantidade de energia, pressupondo que esse coeficiente seria suficiente para estabelecer uma hierarquia quanto à técnica, quem ganharia?

Sahlins aceita o desafio e prova: modos indígenas de produção, reputados como arcaicos, primitivos, rudimentares, e, portanto, ineficientes... permitem comprovadamente que um homem precise apenas de menos de três horas de trabalho por dia para viver, e muito bem. Trabalhamos 10 horas por dia, em média, mas não por nós, não para nós. Fazemos casas para os outros. Carros para os outros. Obesos, desnutridos, vivemos uma epidemia de câncer. Enriquecemos latifundiários, exportamos água, junto com o filé mignon, e defendemos os que, colocando-se contra o SUS, fazem com que nos prostituamos para conseguir jantar câncer.

Todas as vezes que passo temporadas com meu mestre e amigo Seu Pedro, lembro dessas duas pesquisas. Piperata estudou os ribeirinhos de Caxiaunã bem no momento em que, sendo atendidos pelo Programa Bolsa Família, eles passaram a ter mais acesso a dinheiro, cartão de banco, fomento. Contudo, a pesquisa de Piperata é rica por desvendar justamente o interstício sobre o qual venho dedicando minha vida a refletir e descrever. Recebendo o benefício, os ribeirinhos passam a se empenhar cada vez mais em ir à Breves para recebê-lo. Longas viagens de barco são necessárias para chegar à sede do município, onde é necessário gastar dinheiro para comer. Estando longe de casa, não se pesca. Não se caça. Não se broca roça. As famílias passam a ficar semanas na praça da cidade, ou em hotéis, para conseguir receber os benefício. Ao recebê-lo, pagam as dívidas que contraíram em sua estadia na cidade – combustível, alimentação, hospedagem.

Fazem um rancho, e voltam à comunidade. A pesquisa de Piperata mostra que as famílias beneficiadas passaram a consumir cada vez mais alimentos em conserva – mortadela, especialmente. Trocando o peixe nativo, fresco, obtido de maneira sustentável pelas suas próprias mãos, por mortadela industrializada; trocando o açaí por refrigerante e sucos industrializados, a ingestão de nutrientes caiu vertiginosamente. E o gasto de energia para obter tais alimentos, tão pobres em nutrientes, subiu também vertiginosamente. Décadas depois, é triste ver, não que Sahlins está certo: mas que o raciocínio que ele derruba, aniquila, com sua pesquisa, ainda prevalece. E se impõe.

Agricultor familiar, Seu Pedro é assentado. Cultiva cupuaçu, de maneira praticamente agroflorestal, sem apoio técnico, mas com base em vastos, eficazes, e sólidos conhecimentos tradicionais. Produz a mais densa e pura polpa de cupuaçu que já provei em minha vida. Gosta de falar de política. É um militante do desenvolvimento socioambiental integrado e participativo. Milita pelas áreas protegidas, pelo Parque Nacional, pela Terra Indígena, de que é vizinho. Aliado de rocha, dos índios, dos castanheiros. Formador da Escola da Família Agrícola. Conselheiro.

Seu neto, aluno da Escola da Família Agrícola, amola o terçado e olha distraído o enxame de carapanãs que se forma sobre a cabeça de Tereza. “Deu na TV, eu tava em Pedra Branca: o Lula foi de algemado dar depoimento. Dizque roubou dinheiro da Petrobrás e comprou apartamento. Eu vi isso na TV, eu”.

--- Ele é igual que nem nós: por isso os poderosos se irritam com ele. É analfabeto. Eu sou analfabeto. Eu acreditei nele. A gente sonhava ter um presidente nosso. Já pensou? Presidente, vindo do povo? Nunca falo de política cá Maria, mas nós sabemo o que lutemo por esse homem – por nós. Batalhemos por ele. Fiz campanha aqui. Era a esperança da gente. Depois que tomou o poder, parece que mudou. Virou outra pessoa.

Pergunto o que teria mudado. “Para conseguir caçar queixada, a gente temos que chamar os parentes: vai cunhado, vai irmão, vai sobrinho. Não é assim? Pros índios também. Pra botar umas tarefas de macaxeira na juquira, tem que chamar parente, amigo, cunhado. E depois? Depois você divide a caça. Torra a farinha, e distribuir as sacas. Assim que todo mundo faz. Lula tomou o poder botando tarefa em juquira dos outros, com terçado dos outros. Dilma foi e vendeu a produção. Não dividiu com ninguém. Foi pior ainda: dividiu foi a produção com quem nem foi plantar, porque esses apoiaram ela, que eu sei. Sem o dinheiro deles, ela não se elegia”.

Por qual motivo teria ela feito isso? Todos se perguntam. Sei respostas, mas meus conhecimentos em ciência política são apenas categorias a priori do entendimento. Vasos vazios, cuja vida, em seu fluir, é que deve preencher. E quanto à vida, o mestre é Seu Pedro.

Deixo a casa de Seu Pedro rumo à Terra Indígena. Lá, organizados, os Wajãpi fazem história. Influenciando ativamente a construção e execução de políticas públicas, norteando-as, ensinam o Estado como ele deve ser segundo seus próprios termos. O movimento indígena chora. Sangra. Paralelamente à divulgação dos resultados da Comissão Nacional da Verdade, especialmente os que se referem ao etnocídio praticado contra povos indígenas durante o período da ditadura militar, que comprovam se tratar de um genocídio de Estado, regiões como Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, chacinas são cometidas contra povos inteiros, sendo hoje incontáveis as mortes de indígenas com amparo, aval, e incentivo do Estado: criança indígena é esfaqueada no colo de sua mãe, que, expulsa de sua terra, mendigava na rodoviária, lideranças são perseguidas e baleadas na calada da noite, agrotóxico é aspergido sobre acampamentos às margens das terras que sempre foram dos Guarani... tudo filmado. E nunca divulgado.

Um verdadeiro etnocídio se delineia no Brasil. Projetos da Ditadura Militar para a Amazônia, que nem o mais neoliberal governo FHC ousou retomar, são retirados da gaveta e colocados em prática de maneira brutal. Belo Monte rega com sangue indígena os canteiros de obras onde o índice de homicídios aumentou mais de 500%. Estupro. Latrocínio. Os povos indígenas do Xingu, os ribeirinhos, os agricultores familiares sangram, são assassinados, ameaçados à base de bala, expulsos de suas terras: veem suas casas e roçados serem incendiados. Veem suas lideranças perseguidas, coagidas. São assassinados.

Veias abertas da América Latina: lanhos percorrem a Amazônia. Um estupro, uma pilhagem, sistemática, passa a ser... política pública. Política de Estado. Propostas de Emenda à Constituição, como a PEC 215, agridem dura e direta, dolosa e brutalmente os direitos indígenas mais fundamentais: sem consulta prévia, livre, e informada, assegurada pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (pode-se ler mais sobre isso aqui: http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/filosofias-selvagens/502/pactuando-um-contrato-social-o-direito-a-autodeterminacao-indigena-e-a-convencao-169-da-oit.html ), Belo Monte, São Luis do Tapajós, mega-hidrelétricas são construídas, pelo Estado, com dinheiro público, à revelia dos povos que essas obras dizimarão. Sob pressão das empreiteiras e bancos que financiam mídia e campanhas.

Etnocídio. Golpes, golpes, e mais golpes. A floresta capitula. Golpes de machado cerceiam nossa humanidade. A sociobiodiversidade é o que nos faz humanos, e não a negação da “natureza”. Quando o pensamento ocidental aprenderá isso? O Brasil era a chance concreta de reverter isso. A vida inteira que poderia ter sido... e não foi.

Ao contrário do que postula o conhecimento ocidental moderno (pode-se conhecer mais em http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/filosofias-selvagens/500/abismos-simbolicos-natureza-cultura-como-as-urbanidades-amazonidas-revelam-as-vidas-que-poderiam-continuar-sendo-e-nao-tem-podido.html), fazer-se humano, criar cultura, não consiste em negar a natureza, superando-a, estuprando-a.

Mas não é assim que o Estado é pensado desde seu surgimento. Vimos que o capitalismo se calca justamente no estupro: estuprar, abrir as entranhas da terra, rasgar lanhos nas florestas, e estripar riqueza (mais em: http://www.portalheraclito.com.br/index.php/materias/filosofias-selvagens/575/voce-esta-implicado-e-nao-vai-bamburrar.html).

O governo do PT subiu ao poder assinando um pacto: propondo-se a “jogar o jogo”, aceitou fazer as coligações que o famigerado presidencialismo de coalizão comina. Num sistema democrático tão novo e inexperiente como o nosso, num país marcado por séculos do mais cruel caciquismo, do mais brutal coronelismo, e do mais pungente paternalismo, eleitores votam por carisma: votam em candidatos, e não em plataformas políticas.

Desde a Constituinte de 1988, cujos esforços em evitar que novo Golpe se consolidasse são, por assim dizer, a gênese do Estado de direito brasileiro contemporâneo que hoje, 01 de setembro de 2016, sofre duro golpe, temos um sistema pluripartidário, cujo objetivo é evitar que apenas uma visão, apenas uma postura, apenas um segmento de tão diversa sociedade fosse representado. Ao assegurar o pluripartidarismo, a Carta Magna visa garantir que os diversos segmentos da sociedade brasileira encontrem representatividade, ao garantir a diversidade de opiniões políticas facultadas por meio da sacrossanta representatividade que é o pilar da democracia. Mas não se muda 500 anos de história em 28 anos.

Outro pilar da democracia é a cidadania. Teoricamente, um Estado democrático de direito deve realizar-se mediante a participação organizada, consciente, e pró-ativa da sociedade civil. É comum ouvirmos, no Brasil, que “a lei é falha, cheia de brechas”. Que o Estado seria omisso em algumas questões. Isso só vem a comprovar a tese: não temos cultura política cidadã no Brasil. A cultura política no Brasil é a da curra, do pelourinho, do chicote, do estupro e da pilhagem. A sociedade civil brasileira é, até hoje, vítima tão inconteste de agressões a seus direitos e garantias fundamentais, desde sempre, que pressupor que a democracia brasileira se realiza ao colocar-se 180 milhões de ex-escravos para apertar um botão é uma ofensa a qualquer inteligência.

Os resultados disso são desastrosos. Promulgar uma Constituição não foi suficiente para mudarmos o modelo de país – pois o Brasil nunca foi senão um proto-país, uma despensa. Promulgar uma Constituição não modificou nossa estrutura de classes. Racista, conservador, o Brasil patriarcal é uma grande senzala, teleguiada via imprensa da Casa Grande e Branca, cada vez mais pequena. O PIB brasileiro cresceu de maneira constante e progressiva durante a primeira década dos anos 2000. Mas o índice de Gini, que mede a (não)distribuição de renda, manteve-se praticamente o mesmo. O que isso significa? Significa que o PIB cresceu grande e progressivamente, mas a riqueza não foi distribuída. Significa que as mesmas, e poucas, pessoas, lucraram cada vez mais.

Significa que, para que essas mesmas poucas pessoas lucrem cada vez mais, concentrando cada vez mais a riqueza gerada, cada vez mais os “recursos naturais” foram explorados. E com uma brutalidade cada vez maior.

Continuou-se a pilhar, saquear, estuprar. Índios, quilombolas, ribeirinhos, o agricultor que efetivamente põe comida na mesa do brasileiro, são chacinados. Pelo Estado. A mando do agronegócio. O Brasil colônia, que surgiu há 500 anos como uma despensa a ser pilhada sistematicamente, não se libertou nem de sua história, nem de sua estrutura de classes.

Feudal, o Brasil passou a ser controlado por uma miríade de partidos nanicos que, gravitando em redor de partidos maiores – como o PT – fragmentam o eleitorado e, assim, exercem poder sobre toda e qualquer plataforma que se venha a consolidar.

Coligada aos partidos mais conservadores do país, aliada às bancadas ruralista, evangélica, e beligerante, ou seja, aliada ao Congresso BBB, Dilma Rousseff celebra a exacerbação desse pacto. Elege-se para seu primeiro mandato com apoio de PR, DEM,PP, PROS, PAN... e, sobretudo, o plástico, maquiavelicamente plástico e fagocitante PMDB. O PT deveras aceitou jogar o jogo: Duda Mendonça, em 2002, já o dizia. Se visava valer-se da lógica do sistema para subverter a ordem uma vez no poder, o PT falhou horrivelmente.

Dilma Rousseff era ministra de minas e energia no Governo Lula. Foi Dilma que, ainda em 2004, bateu na mesa, enfaticamente, bradando que “Belo Monte vai sair, custe o que custar”. E custou sangue. Mortes. A biodiversidade alagada. Muitos mundos por água abaixo. Para que Belo Monte (monumento do governo Dilma, sob o prisma de quem o observa da Amazônia) fosse construída, muitos mundos foram destruídos. O Planeta, por tabela.

Ao se propor a “jogar o jogo”, o PT aceitou coligar-se a todos os partidos que pudessem dividir o eleitorado: antes tê-los próximos do que vê-los minar o eleitorado. Tal manobra falhou miseravelmente porque tais partidos digladiaram-se pelo poder de maneira tão brutal que qualquer chance de promover governabilidade foi posta sob ameaça direta. O resultado concreto? Marco Feliciano, que, diga-se em alto e bom som, só assumiu a pasta depois de Jair Bolsonaro, o primeiro indicado, ter sido cortado da lista. Qual pasta? Pastor Marco Feliciano, do PSC (aliado do PT) assumiu nada mais nada menos que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Ao aceitar “jogar o jogo”, o governo Dilma Rousseff aceitou ter suas campanhas eleitorais financiadas por Odebrecht, OAS, Camargo Correa: empreiteiras. Itaú Unibanco, Bradesco. Para se eleger, Dilma Rousseff, o PT, aceitaram vender o mundo – em troca de subir ao poder. Será que o plano era apenas ceder para subir ao poder e, lá, impetrar um outro modelo de país? Entre a intenção e a prática, houve morticínios.

Em troca de assumir o poder e consolidar um outro projeto de país, programas sociais de transferência de renda, cujo objetivo sempre foi transformar o caboclo, o ribeirinho, o quilombola, o indígena, o agricultor familiar, em mais um refugiado do campo, converter as almas dos silvícolas em consumidores. A concentração fundiária caminhou pari passu com o crescimento do PIB, e a manutenção do alarmante índice de Gini brasileiro, durante o governo PT.

Expulsas do campo, as populações tradicionais foram conduzidas à periferia da periferia da periferia da periferia da periferia do mais selvagem capitalismo terceiromundista. Abandonando sua soberania econômica, simbólica, cultural, política, linguística, material no campo, na floresta, onde latifúndios, verdadeiras capitanias hereditárias regam o solo com agrotóxicos proibidos em mais de 90% dos países do mundo, e sangue humano, as populações do campo e das florestas viram o preço da castanha despencar, e as condições para explorar esse recurso sustentável sumirem. O mesmo se dando com peixe, caça, produtos da roça, comida, vida, cultura.

Dilma Rousseff e o PT são reputados pela mídia golpista como um governo de esquerda. Comunistas. É esse o gran finale trágico desse momento dramático de nossa história. Financiado pelas grandes empreiteiras, o governo PT vendeu a elas o poder popular. Uma vez eleito, foi obrigado a fatiá-lo. Uma vez eleito foi obrigado a fazer Belo Monte, para citar apenas um crasso exemplo. As mesmas empreiteiras que financiaram a campanha de Dilma Rousseff e antes, de Lula, são as que fabricam delírios da ditadura militar que Dilma tira da gaveta.

Delírios do regime que ela mesma combateu. Essa a pior, a mais dura, ironia.

A des-governança latente no governo Dilma, inerente às alianças que teve que fazer para subir ao poder, demonstra, desnuda, as fraturas do Brasil. Saque, pilhagem, estupro. A lava Jato não é senão uma grande manobra para destituir do poder uma chapa que se deixou corromper pelas empreiteiras. Lava Jato não pode ser pronunciada sem Odebrecht, OAS, Camargo Correia, Bayer, Monsanto, Syngenta. O mesmo se dando com PMDB, PSDB. São termos que não podem ser pronunciados isoladamente. Lava Jato = Odebrecht. Odebrecht = PSDB. PSDB = PT. Novamente, como há 516 anos atrás, o Brasil é uma despensa a ser explorada, devassada, por poucos coronéis. Novamente, como há 50 anos, um presidente civil assume o lugar como fantoche.

O consórcio com o PMDB, e a manobra, o GOLPE realizado pelo octopus, foi o golpe final. Nas humanidades de que se compõe essa trágica sociedade.

A pergunta que me faço, desde 2013 é: como um governo onde o agronegócio, os bancos, e as empreiteiras mais lucraram na história desagrada aos donos do poder?

Não estaria sendo suficiente a política etnocida do Estado Brasileiro por ele levado a cabo? O que querem os verdadeiros donos do poder ao impetrar o Golpe Final? Se estava ruim com Dilma, humanos, sequer conseguiremos imaginar como estará com Temer.

Todas as riquezas do Brasil serão definitivamente entregues aos grandes investidores, empreiteiras, bancos. O solo será regado com sangue e agrotóxico. De novo, Geni, de novo, és estuprada, serves, enriqueces, dás prazer, e és humilhada, estuprada, devassada.

Esse golpe, especificamente, começou em 2002, quando Lula fez as coligações que fez. Mas a surra, o Golpe, esse começou há 500 anos. E nunca parou. Ouçam! Golpes de cassetete se fazem ouvir novamente, nos poucos, pouquíssimos que percebem o que está acontecendo – enquanto, infelizmente, grande parte da sociedade brasileira aplaude a corja que se apropria anti-democraticamente do poder. A mesma que serve aos mesmos financiadores da presidente derrubada.

Ouçam! Os golpes de machado prosseguem. A cada Angelim, a cada jatobá, a caba imburana que cai, é nossa dignidade que recebe os golpes. Guarde suas moedas. Em troca do pirarucu, tambaqui, inajá, açaí, pupunha, da riqueza que nunca provastes, reze para, no fim do mês, comprar mortadela suficiente para alguns dias. Afinal, pupunha não dá lucro a bancos. Madeira e soja sim.

A golpes de machado: crônica do Golpe anunciado, vista da Floresta

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Bruno Walter Caporrino

É formado em Ciências Sociais pela USP e desde 2010 atua como indigenista pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé, assessorando povos indígenas da região a se apropriar de políticas públicas e assegurar seus direitos, pactuando consensos sobre isso em respeito à sua organização social e saberes. O Iepé é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 2002 por profissionais de diversas áreas, como antropólogos, biólogos e educadores, que já atuavam junto às comunidades indígenas no Amapá e do Norte do Pará desde a década de 1980 e que, com a fundação do Iepé buscaram formalizar esta atuação para fortalecê-la em um âmbito institucional e contemplá-la em um âmbito regional, assessorando os povos indígenas da região para que fortaleçam suas associações, expressões culturais e organizações sociais, através de processos formativos, e para que possam apreender as políticas públicas e influenciá-las a fim de que assegurem seus direitos e garantias.

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