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Eu sou a selva em que transformastes minha floresta

Imagem Bruno Walter Caporrino Imagem Bruno Walter Caporrino

As rajadas de chuva levantavam a palha de ubim, aspergindo o interior da casa com gotículas frias, quando João pegou o guarda-corpo de encerado, amarelo, e soprou o pavio do lampião à querosene. De súbito, o ambiente escurecido da casa, até então lambido sofregamente pelas sombras móveis projetadas de maneira lisérgica pela labareda, tornou-se taciturno, comunicando-se com sua alma.

--- Na volta tu traz mais querosene, pai?

A voz fina e anasalada de Maria era terna, e penetrou o coração de João. O vagido de Rita, pedindo o seio exausto da mãe, despertou-o do torpor.

--- Trago, filha. Bora ver se hoje me pagam a jorna.

Ao pisar o primeiro degrau da escada que levava do jirau de paxiúba da casa ao chão enlameado, lavado pela chuva que caía em bátegas, sentiu um estremecimento. O degrau, sempre solto, quase deitou-o ao chão, e só então realmente acordou. “Égua, que não vai parar de chover, não?”. Mas tranquilizou-se ao deparar-se com a mudança na luminosidade, que anunciava o afinamento da camada de nuvens. Estranho mesmo chover assim em agosto. Mais tarde, certamente, estiaria, e, então, o mormaço tornaria a lida no eito quase insuportável.

Lembrou-se de quando, ainda em Gurupá, remava sob forte chuva, dias seguidos, na apanha de açaí, e de quando voltava, jovem, portentoso, com dois matapis cheios de camarão, dois paneiros de açaí, apresentava à Maria o filhote que ainda agonizava, movendo as guelras, no fundo da canoa. Não era ruim tomar aquela chuva, afinal. Recém-casados, pouco tinham, mas eram donos de tudo. “Mas tomém, lá não tinha energia, hospital... foi melhor ter vindo”, pensou.

O percurso até a doca, tomado de lama, ainda não contava com o mundaréu de pontes que hoje lá encontramos. Estamos em Santana, e João da Mata Furtado de Araújo segue para a doca onde descarregará trilhos de ferro do navio de bandeira estadunidense Mormacelm. Exausto, por ter dormido apenas três horas entre um turno e outro, João da Mata percorreu o caminho até a Vila Toco, passando pelo alojamento da Icomi, a grande mineradora estadunidense que iniciava a exploração brutal do mais puro manganês amapaense, mediante mais violenta ainda injeção de capital público. O ano é 1955: a estrada de ferro que corta, lanha, a selva, até Serra do Navio, estava em início de construção, o que atraía cada vez mais refugiados para o Amapá “selvagem e inculto”, prontos para sorver, mediante escravagista labuta, algumas migalhas do rico manganês a ser extirpado do seio da terra dos índios Wajãpi. Pelas mãos amazônidas – para lucro estadunidense.

A chuva cessara quando Maria saiu da rede, engatando a alça do vestido no mosquiteiro, enquanto Rita dormitava em seu colo, com os cueiros alvos a refletir a pouca luz que adentrava a casa. Abrindo as janelas, Maria aspirou o ar lavado da costumeira poeira seca, e contemplou a paisagem gotejante. Para as bandas da muralha verde que rodeava o pátio de sua casa, ouvia-se o canto delator do uirapuru.

Anoiteceu, e Maria abandonou-se, exausta, em sua rede, feliz por saber que João traria o querosene, tão logo descarregassem o navio e, passando pelo escritório do capataz, receberia a féria. “A valença é que hoje os carapanãs deram trégua”, pensou, de olhos fechados, enquanto lânguido torpor se apoderava de seu corpo e sua mente cansados. Altercações. Uma porta que bate. Não sabia se estava sonhando, mas vozes grossas bradavam palavras incompreensíveis quando, sobressaltando-se, Maria saiu da rede, por impulso, e pôs-se a espiar pela fresta da porta.

À porta da casa de dona Raimunda, esta gritava com dois homens porrudos, que retrucavam, rindo, em idioma desconhecido e incompreensível. Os dois homens puxavam Dona Raimunda, levantavam seu vestido de chita, e chegaram a expor-lhe um dos seios, assediando a pobre comadre, que se debatia. Quando o mais alto lambeu-lhe o mamilo esquerdo, Raimunda conseguiu chutar-lhe o ventre, tombando-o de costas na lama do pátio. O companheiro, entre assustado e pândego, ameaçou-a com o indicador em riste, enquanto levantava o companheiro pela gola da grossa casaca de marinheiro.

Esta era a quinta casa da vila à porta da qual os dois batiam, a bradar palavras incompreensíveis para os moradores. Embriagados, afirmavam “procurar putas”.

Maria, assustada, mal teve tempo de passar a tramela por trás da porta, pois que os dois batiam violentamente, gritando palavras incompreensíveis. Em pânico, Maria pegou Rita no colo e, do jirau da cozinha gritou para sua filha, Marilene, que habitava casa vizinha:

--- Pega as criança, corre pro mato, tem gente invadindo!

Mal teve tempo de terminar o alerta quando a porta de tábuas cedeu, e os dois homens, que prontamente Maria percebeu serem dois marujos estrangeiros, postaram-se ao redor de si em atitude ameaçadora. Rindo muito, os dois empurraram-na para o canto da casa... derrubaram-na à força sobre a máquina de costurar, na qual cozia capachos de retalhos – sempre escorregadios sobre os assoalhos de madeira meticulosamente encerados e reluzentes das casas. Agarrando-se ao tipiti que dependurava a um prego, relutou, debalde.

O choro de Rita despertou-a, como que puxando-a de um abismo. Não sabia que horas eram, e nem por quê João se demorava tanto. Como que despertando de um choque, Maria só pôde ver os homens fechando o fechecler de suas calças, e, imediatamente, a consciência recobrada assaltou-lhe o cérebro e a alma como um punhal: estava fadada à infâmia, à calúnia, à morte lenta e agonizante, fadada ao ostracismo o mais brutal, em poucos minutos. O calor que escorria por seu sexo, que não pôde saber, de imediato, se era sangue, lembrou sua consciência da dor que ali sentia sem notar. Chorando, buscou recompor-se enquanto os homens, saciados em sua bestial luxúria, acendiam cigarros notadamente gringos – sabia-o pelo cheiro – ainda no pátio.

Tentava levantar-se para gritar-lhes quando ouviu gritos. Era João. Tomado por fúria incomensurável, João tudo compreendera quando, aproximando-se do pátio da casa de Dona Raimunda, vira a porta ainda aberta, e sua comadre a chorar. Notando os homens parados em frente à sua casa, rindo, trocando tapas amistosos, João ouviu os gritos de Maria, e o chorar plangente de Rita.

Como um raio, João muniu-se de sua faca, a qual trazia sempre às costas, e gritou para os homens, tomado por tamanha ira que seus músculos mal respondiam à seus objetivos.

Ernest Lowery, 28 anos, cozinheiro do Mormacelm e natural de Baltimore correu primeiro, mas Alexander Pelock Jones, também cozinheiro no mesmo navio, natural do estado de Nova Iorque, demasiadamente embriagado, demorou mais a reagir, permitindo que João penetrasse a faca em suas rijas carnes – não obstante fosse corpulento, rosáceo e aparentasse ser obeso. Matando-o com uma só facada certeira no coração, assistiu o corpo cambaleante deitar ao chão, que tremeu ante a capitulação.

--- Ceis tão acostumado a bulir com mulher de família, desgraçados?, gritava-lhes, iracundo, João.

Agarrado pelos vizinhos, vociferava. Apesar de diversas testemunhas afirmarem que os dois marujos invadiram diversas casas antes de abusar de Maria, afirmando, no inquérito, procurar meretrizes, balançando o punho da rede das mulheres das casas vizinhas depois de as terem invadido, uma a uma, João foi condenado à prisão, onde foi espancado, pois o júri entendera se tratar de “cidadão perigoso”, já que portava uma faca, e considerou que assassinar um cidadão estrangeiro, contratado pela Foley Brothers, em plena ascensão da mineradora, era crime a se punir severa e, portanto, exemplarmente.

Maria, mais Rita, desaparecem da História, a fim de que tal episódio não maculasse a gloriosa imagem da Icomi, da empreiteira Foley Brothers, e dos bons cidadãos estrangeiros que não poderiam sentir-se acuados pela selvageria dos locais em sua empreitada civilizatória.

A construção da estrada de ferro prosseguiu. Hectares de floresta capitulavam sob golpes de machado, e, mesmo, explosões de bananas de dinamite, atraindo mais e mais refugiados do Pará e das ilhas de Marajó, como Afuá, Curuçá, Gurupá, Breves, a fim de que as terras nessas regiões passassem aos arautos do progresso e do desenvolvimento higienista, contra os índios, contra a floresta, contra tudo e todos. Sempre comandados por feitores, capatazes, engenheiros estrangeiros, esses “braçais” – como constam em suas fichas cadastrais de empregados da mineradora – eram descartáveis, uma vez que não se civilizavam, não aprendiam novas técnicas, não se desenvolviam. E, uma vez obsoletos, eram prontamente substituídos. Em favor do progresso e da civilização.

***

--- Mamãe, quando é que papai volta?, perguntou, indeciso, Edielson, tão logo a porta de casa abriu-se e, por trás da silueta de sua mãe, se pôde divisar o emaranhado de palafitas da Baixada do Ambrósio.

--- Vai tomar teu banho, senão tu pega é taca, gritou, irritada, Dona Jamaira.

Deixando sobre o jirau a cebolinha e o coentro murchos que catara no chão da feira, conteve as lágrimas enquanto descamava os dois miúdos acaris que conseguira comprar com o resto das moedas que guardava numa fresta da parede carcomida de madeira. Saiu para pegar água, encontrando Edielson a banhar-se com a única panela que lhes restava. “Te sai daí, seu moleque! Hoje tu não escapa, cachorro. Dá essa panela. Olha a água que tu gasta nesse banho”.

Edielson voltou-lhe um olhar feroz. Enrolou-se na toalha, contendo as lágrimas, e calçou os chinelos gastos, cada qual duma cor. De toalha mesmo, saiu para a ponte, errando pelas palafitas até encontrar-se com os filhos da vizinha, Dona Diva, que corriam em tropel em sua direção, fazendo a estreita ponte de madeira tremer e oscilar, como que a ameaçar cair sobre o lago sobre o qual flutuava todo tipo de dejetos. Assustado, Edielson estacou, provacando gritos de ódio dos rapazes que corriam com terçados em suas mãos: “sai da frente!”. De chofre, Edielson percebera o que ocorria: o grupo, composto por dois de seus próprios irmãos, Joel e Patrício, estava sendo perseguido por um grupo ainda maior de rapazes furibundos.

Afastando-se para permitir que seus amigos passassem, tomou uma resolução: tão logo seus aliados cruzaram a ponte, postou-se de maneira a bloqueá-la, as mãos à cintura, encarando o grupo de sicários que os perseguia, munidos de facas copiosamente afiadas à lima, a ponta do fio descrevendo uma elipse, e grandes terçados. “Eu sou é homem, eu!”, inda pensou, enquanto os golpes dos terçados fendiam seu rosto, decepavam suas orelhas, fendiam seus braços, e as facas penetravam seu tronco. Preocupados, os jovens agressores deram meia volta, a fim de atingir o grupo fugitivo na ponte paralela, interceptando-o.

Joel e Patrício não viram o que ocorrera com Edielson. Temendo por sua própria vida, enveredaram pela última ponte da Baixada, e, notando que o grupo que os perseguia afastou-se, adentraram na primeira casa que encontraram aberta, dentro da qual Mazinho os escondera, para pânico de suas irmã, esposa, e cunhada, já que os dois adentraram a sala, e rumaram para o quarto, fazendo o soalho e as paredes tremerem, os olhos esgazeados – e facas em riste. O grupo de perseguidores errou pelas pontes até varar a madrugada, quando, afrouxando-se a perseguição, Joel e Patrício retornaram à sua casa.

Tão logo chegaram à varanda, pressentiram a tragédia. Sua mãe urrava sobre a rede, amparada por Dona Neó mais algumas vizinhas, pranteando a morte de Edielson que jazia inerme e exangue sobre o soalho irregular, o rosto desfigurado, olho pendente, corpo cravejado que deixava seu sangue gotejar por entre as frestas do soalho maculado.

--- Não!!! Não! O que fizeram com ele? Quem fez isso? Gritava Patrício. Joel, enfurecido, nada disse: assomou à janela aberta pela qual entrava chusma de carapanãs, ofegante.

--- Nós vamos vingá ele, mãe.

***

O sangue de Dona Jamaira escorria pelo rosto inchado, machucado a murros. Por não conseguir abrir os olhos, tateava os poucos móveis da casa a fim de orientar-se. Na rede, Alaor, seu marido, ressonava pesadamente. “Curte teu porre, fi de rapariga, que um dia tu pega o teu!”, resmungou. O estrondo causado pelas panelas que derrubara acordou Joel e Patrício, que saíram da rede que dividiam, falando alto. “Mãe, to com fome! Eu tô com fome, eu”.

--- Quietos, desgraça! Tão vendo que vão acordar teu irmão não?

Joel, o mais velho, sentia a têmpora latejar. Tomado por ódio, desguiou os olhos para seu pai que roncava na rede, embriagado. “Porre, porre, porre. Só vive porre esse cão! Para trazer comida para nós, não tem força, essa desgraça. Nem dinheiro. Mas para beber, esse filho duma égua...”. Lágrimas assomaram-lhe aos olhos moídos e inchados, aos borbotões, enquanto Joel abria a porta com força, ganhando as pontes.

Patrício encostou-se à parede, e deixou-se sentar ao lado do carrinho de picolé que tantas alegrias lhes trouxera quando o pai, ainda ativo, saía pelas pontes e beiradas a vender o tão cobiçado produto.

---- Papai não dá um não? Pedia Patrício, prontamente repreendido pela mãe, todas as vezes que, enchendo o carrinho de laranjinhas, chopps e picolés, o pai se preparava para caçar alguns vinténs debaixo do ímpio sol equatorial. Sorrindo, o pai sempre lhe presenteava com um chopp de manga, para desgosto de Jamaira. Bons tempos aqueles em que doces regalos eram acompanhados por brincadeiras inocentes nas casas de madeira em construção, e pelas intrépidas aventuras à procura de seu pai, picolezeiro, nas pontes e rampas em que atracavam os catraios e as lanchas...

---- Juro que eu mato esse velho! Eu juro! O ar quente e seco, pesado, que abatia a Baixada do Ambrósio, trazia o pútredo odor do esgoto e do lixo que tomavam o lago. Assomado ao odor nauseabundo do matadouro que fica próximo à Doca, o ar penetrava os pulmões viscoso, pesado.

Joel vagou pelas pontes, a esmo, até que, ao amanhecer, na feira, encontrou Seu Agenor, açougueiro. Hesitou... apertou as mãos, cerrando os punhos, passejou pela banca do homem, observando-lhe cada movimento, até que o esturrar de seu estômago faminto motivou-o:

---- Tio, arruma um pouco de carne para eu mais meus irmãos comer?, suplicou.

---- Sai daí, vagabundo! Toda semana é isso. Tem mais não. Acostuma aquele teu pai a trabalhar. E avisa para ele que ele, Alaor Gemaque, me deve cem cruzeiros! Isso mesmo: tá aqui ó – e mostrou o caderno ensebado, com contas à lápis, maculado por sangue.

***

--- Alaoooooorrrr! Cadê você moleque? Mamãe tá te procurando, diz que vai te dar uma taca de cinta!

A estrada de ferro! Ah, como era bom colocar pedras sobre os trilhos quando o trem, carregado de minério, se aproximava, e observar, escondido, as pesadas rodas das locomotivas espocando-as. Chegava o trem, e Alaor partia, descalço, baladeira no bolso da bermuda surrada, para a pequenina estação. Papai viria? Contemplava, curioso, a movimentação dos passageiros que embarcavam e desembarcavam dos dois vagões de passageiros que a Icomi, benevolamente, em sua cruzada civilizatória, disponibilizava.

Tinha muita saudade de papai. Gostava muito de quando saía para apanhar açaí e o levava consigo. Mais feliz ainda ficava quando, caminhando na mata, colhiam maracujás selvagens, apanhavam açaí e pescavam – papai sempre deixava usar a faca. Lembrava-se com ternura dos invernos em que, indo caçar e pescar para as bandas do Amapari, vagavam silenciosamente pela floresta úmida, no rastro de antas, veados, jacamins, mutuns. Gostava tanto quando papai saía com ele, levava-o para caçar, apanhar bacaba... comiam murumuru, cozinhavam palmito de açaí, colhiam, pegavam o que quisessem. Gostava de dormir depois de, exausto, contemplar a chama da fogueira onde papai moqueava trairão: gostava de errar por roças antigas, apanhando pupunha, colher abacaxis esquecidos. Uma traquinagem que os unia. “É tudo roça dos índios, meu filho. Espia: veja as variedade de mandioca. Espia esse milho. Abandonaram...”.

Lembrava-se vivamente dos ensinamentos de seu pai quando, a bunda doendo depois de passarem horas sobre o mutá, esperando cutia vir comer tatajuba, ouvia-o perolar, baixinho, sobre como o caçador é um ladrão, mas um ladrão do bem, porque, rápido, ágil, sorrateiro como a onça, abatia a presa, roubava-lhe a vida, tirava-lhe da família, mas era para sustentar a sua. Papai ia deixar matar tucano com a 12.

“Papai virá? Será que vem”. Grossas gotas de suor acumulavam-se sobre seu iminente buço, enquanto deambulava, sorrateiro, por entre as pernas dos passageiros, preocupados em não perder seus pertences – fardos de farinha, bananas, cupuaçus, sacas de açaí, de bacaba, paneiros com galinhas...

Papai não veio. Em Serra do Navio, onde trabalhava como braçal para a Icomi, na mina, Francisco dera para beber, deixando sua mãe e seus onze irmãos à beira da estrada, próximo ao Cupixi onde antes pescavam juntos... Cupixi!

Partindo o trem, deixou-se abater pela decepção. Frustrado, caminhou pela estrada de ferro, na sua cola, sonhando ir até Serra buscar papai. Mamãe, desgrenhada, chorava dia e noite, enquanto os irmãos se viravam no parco roçado: seis tarefas de mandioca, roçado aberto na juquira. Não o levavam para apanhar açaí, nem para moquear peixe, longe... não queriam deixá-lo ir caçar. Moendo as costas, a alça de tucum do jamaxi carregado de macaxeira ainda feria-lhe a testa, dia após dia, mecanicamente. O calor do forno, o peso da lenha, a lide diária para descascar a mandioca, torrar a farinha... a dor na musculatura, ao manusear por horas a fio o remo sobre a chapa de ferro do forno, transtornavam sua mãe, que se tornara amarga.

--- Dona Rita: quêde o Francisco? A cada conhecido que parava no rancho, Rita, mãe de Alaor, tinha de inventar uma história. Ora estava em Santana, resolvendo a venda da produção, ora em Porto Grande, na doca seca da Icomi, ora na mina... “Ah vizinho, é muito trabalho!”, dizia, esperando que, com esse gancho, pudesse desviar o rumo da prosa.

Contemplou o rio, e banhou-se. “Seria bom um caniço! Mas tomém, nem num tem mais peixe”, resmungou. Sentou-se sobre uma pedra, debaixo da ponte, e entreteve-se com o rugido bovino da ajearatu. Macucauas piavam na mata próxima, enquanto grupos de tucanos, em algaravia, derrubavam caroços de açaí nos igapós vizinhos.

--- Alaor! Mamãe tá para te matar, mano! É para tu voltar para a casa de farinha agora! O irmão, irritado, inda gritou: “égua dum moleque remoso! Me faz vim até aqui e a mãe tá furiosa”.

--- Papai não veio, resmungou, como resposta.

Nunca mais voltaria. Dona Rita os criara sozinhos, até que, crescidos, foram se espalhando: os mais velhos, casando-se, botando roça nas imediações. Os mais novos, nutrindo o desejo de partir para Porto Grande, ou mesmo Macapá.

--- Arruma tuas boroca que a gente vai embora. A ordem, amarga, pegara-o de supetão, enquanto arrumava, em uma sacolinha plástica, os cartuchos calibre 12 que restavam. “Alaor, não me ouviu? Arruma tuas borocas que a gente vamos pegar o trem”.

A viagem, grande aventura, maravilhou-o. Estariam indo Para Serra? Encontrariam papai?

--- Para de ser enxerido, moleque! Teu pai morreu! Levou foi facada por causa de rabo de saia --- os vincos que ornavam a boca, as gretas, as rugas na pele morena, os cabelos desdenhados, emolduravam a dureza das palavras, ejaculadas com ódio, ressentimento.

***

--- Égua, não, esse ônibus não vem? Toda vez é isso.

As meninas abrigavam-se como podiam sob o telheiro de amianto de um trailer de metal que servia lanches, “amburg”, na chapa. “Justo hoje, que a lanchonete fecha, chove desse jeito, o ônibus que não vem...”. A intensa chuva cerrava o negror da pesada noite, obscurecendo as vistas.

Os carros, desguiando dos inúmeros buracos no asfalto fino e irregular, que não chegava até onde convencionava-se que seriam as calçadas, que, sem guia, simplesmente não existiam, aspergiam-nas com a lama que se acumulava, impiedosa. Mais um vão deixado pelo Estado.

Um assobio despertou-a do torpor. Mensagem no whats. Pode ser mamãe, preocupada. Sacou o celular para conferir a mensagem...

--- Anda anda anda! Passa o celular! Já! Agora, se não te furo, filha da puta!

Apavorada, Darliene entregou a Patrício o celular, mas, por um átimo, Michele hesitou... “Naão, por favor! Eu não tenho o celular!”, gritou. Irritado, Patrício desmontou da Caloi Barra Forte, e sacudiu a moça, que gritava por socorro. “Tu vai dar o celular agora, ou morre!”, ameaçava, esforçando-se para não gritar. Mas Michele, desesperada, rogava a plenos pulmões por socorro. “Acode, acode! Pega ladrão!”. Temendo ser flagrado, Patrício esfaqueou-a no ventre, pegou a bicicleta, e pedalou o mais que pôde, sob forte chuva. Rápido, sorrateiro, ágil como uma onça.

Ganhando a ponte, enveredou para a parte dos fundos do Ambrósio, a fim de vender o celular na biqueira mais próxima.

_____

  • Nota do autor: a primeira história incorporada a esse conto é absolutamente verídica, e nos é apresentada pelo historiador Adalberto Paz, professor da Universidade Federal do Amapá, em seu livro “Os mineiros da floresta: modernização, sociabilidade e a formação do caboclo-operário no início da mineração industrial amazônica” (Belém: Editora Paka-Tatu, 2014). Paz realizou uma aprofundada e meticulosa pesquisa em inquéritos e arquivos nunca dantes vasculhados, e nos traz uma historiografia analítica, rica, precisa, apresentada por uma rica prosa. Alguns pequenos detalhes foram por mim modificados. As outras histórias trazidas por mim neste conto me foram contadas por seus próprios personagens, pessoas muito próximas de mim – algumas, inclusive, sendo vivenciadas e presenciadas, como a história de Edielson. Tive a infelicidade de vivenciar esse episódio em Santana, na Baixada do Ambrósio quando, em 2012, deixava o Estaleiro do Seu China. Não é preciso dizer que misturei as narrativas e episódios por mim vivenciados, e que, obviamente, alterei os nomes dos personagens.
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Bruno Walter Caporrino

É formado em Ciências Sociais pela USP e desde 2010 atua como indigenista pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé, assessorando povos indígenas da região a se apropriar de políticas públicas e assegurar seus direitos, pactuando consensos sobre isso em respeito à sua organização social e saberes. O Iepé é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 2002 por profissionais de diversas áreas, como antropólogos, biólogos e educadores, que já atuavam junto às comunidades indígenas no Amapá e do Norte do Pará desde a década de 1980 e que, com a fundação do Iepé buscaram formalizar esta atuação para fortalecê-la em um âmbito institucional e contemplá-la em um âmbito regional, assessorando os povos indígenas da região para que fortaleçam suas associações, expressões culturais e organizações sociais, através de processos formativos, e para que possam apreender as políticas públicas e influenciá-las a fim de que assegurem seus direitos e garantias.

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