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Vida de Papelão (2003)

Imagem Bruno Walter Caporrino Imagem Bruno Walter Caporrino

Integrante do livro Diário Noturno - contos do autor

Era morena, alta, trazia a tez dourada - tal qual o mel que escorre suavemente dos favos, cantaria algum poeta parnasiano. Coxas torneadas, olhar sensual e seios firmes, encobrindo com o biquíni apenas o essencial para não ser autuada pela polícia sob a acusação de atentado ao pudor. Se bem que, caso andasse nua pelas ruas despudoradamente imundas da cidade, de forma a conferir a elas um pouco de beleza – mesmo que artificial - alegraria sobremaneira a massa de policiais supostamente encarregados de cessar tal exibição, e fatalmente seria deixada em liberdade.

 

Um pouco enrugada, amolecida, mas bela, muito bela e, dir-se-ia, a causa da perdição de muitos homens. Mas nada trazia de si que se pudesse tomar por criminoso: apenas libidinoso, lascivo, exangue – Belo. O que levaria os policiais, então, a prendê-la, neste caso? Talvez o desejo de prendê-la para si mesmos.

Uma senhora gorda, humilde ou rica, mas fiel à suas convicções e às santas escrituras. Talvez isso motivasse sua prisão. Uma senhor gorda, movida por tudo o que prega sua boa fé: sentindo ameaçado seu estável posto alimentício de esposa de um velho talvez oficial de justiça detestaria a moça com todas suas forças, com esmero, invejando suas formas e valendo-se de arcaicas preleções, praticando o ódio “em nome do bondoso e amoroso Deus”... e da Família Brasileira!

E, de fato, lançaria mão de toda sorte de injúrias, repudiadas veementemente por ela mesma, publicamente, para “desmoralizar aquela desgraçada mulher da vida”. E iria tratar de suas preocupações valiosíssimas para a manutenção da paz universal: a Dona Lurdes deixara novamente aquela sua filha sair de mini-saia! As meninas teriam visto que falta de pudor, o filho do seu Ismael beijava uma moça? Ai, nem queria dizer. À luz do dia! E os preparativos para a Páscoa como andariam? Como enfeitariam o salão da Igreja e arrecadariam fundos para trazer mais fiéis para o Pastor? Se tudo desse certo, arrumaria a pia da cozinha, já fizera até uma promessa para São Gualter... Tinha que ir visitar Janjão no cadeião, e não poderia ir à reunião de senhoras da sexta, pois, sabiam: se não lhe levasse o jumbo, a comida, certamente feneceria.

E tudo isso por causa de belas formas, carnes rijas, olhos ardentes e um biquini minúsculo: seios rijos praticamente à mostra.

O odor exalado pela fossa era da pior qualidade passível de imaginação e coadunava-se pitorescamente com o odor proveniente das necessidades dos pobres mendigos esquecidos por si mesmos na calçada.

Despregando-se dos dejetos a que ineria, o odor nauseabundo esgueirava-se pelas pernas dos transeuntes e penetrava-lhes os narizes embotados e displicentes de forma a importunar seus proprietários e fazê-los desprezar, com certo amor, os que criam ser os culpados pelo mau-cheiro: o grupo de mendigos que lhes pedia esmolas e fazia celeuma.

Cabelos desgrenhados, roupas gastas e cansadas de ostentar, tristonhas, o vago vagar doloroso e famélico de seus inquilinos... A calçada, embaixo da marquise de uma loja de calçados abandonada, contígua a um bar imundo, na zona sul da cidade, fazia as vezes de morada aos pobres desvalidos – na opinião pública de Dona Conceição – e malditos vagabundos, tarados e fedorentos – na opinião íntima da mesma Dona Conceição.

O centro do bairro, palco de um insano caminhar solitário da multidão, regurgitante de gente enfadada, exalava seu odor nauseabundo copiosamente e parecia ter sido edificado de forma a agredir quem o observasse sem a máscara cotidiana da resignação e da alegria imbecis e irracionais – que cega e ilude. Milhares de letreiros brigavam, mal-educados, pela atenção embotada e displicente dos enfadados transeuntes apressados, e traziam atrás deles prédios deteriorados, mal planejados e realizados, todos muito pacientemente depredados pelo tempo e pelo aparente descaso do mundo para consigo mesmo.

As ruas repletas desde cedo de lixo em suas guias – por onde corria iridescente a água que aflorava de suas pequenas caixas de gordura – eram cotidiana sujas e pisoteadas pela massa disforme de vidas latentes e cérebros embotados que perseguia, sem saber porquê, as mais variadas formas de assegurar a existência de suas miseráveis vidas. Estreitas calçadas eram disputadas por vendedores de produtos falsificados que preocupavam-se em dispor sua mercadoria de forma a impelir o transeunte a olhá-las: caso não o fizesse, certamente esbarraria nelas. Controle remoto universal! Recarrego seu cartucho, pilhas... DVD, Hollywood é aqui pessoal, Bruce Willis...

E desde cedo as portas sanfonadas que serviram de mictório ou hall a muitos homens esquecidos, inquilinos do descaso e da somítica metrópole, foram suspensas sonolentamente por roupas gastas e calças jeans propositadamente rasgadas. Sons de todos os tipos saíam das lojas, tal qual cães alucinados, e deitavam-se à rua com o fito de brigarem ou até mesmo brincarem. Aviões repletos de empáfia passavam muito próximos aos prédios, que buscavam a todo custo tocar as nuvens cinzentas e sujas de fuligem, como árvores tristes, desesperadas por encontrar a luz e vencer o vale de sombras que sua própria materialização enseja. Muito ruidosos, desfilavam os aviões como que a dizer: vejam-me vocês pobres pedestres, que nunca entrarão em mim rumo a uma vida menos estéril nalgum paradisíaco resorte.

A barafunda polifônica composta por músicas entrelaçando-se, fundindo-se de forma nada harmônica, penetrava as cabeças dos apressados seres insones –  que envolviam com suas garras sonoras, e nada encontravam a não ser pequenas sentenças – mal articuladas – e muitas imagens. Nada mais. 

--- E esse cartucho aí, quanto que fica prá trocar a carga?

--- Tenho que ver lá em cima. ‘Cê espera?

Dentista: orçamento grátis! Prótese, aparelho, tudo na faixa!

Esto no eito. A vida sentir-se-ia feliz se pudesse ver, como um todo, o que seus soldados faziam para agradá-la em si mesmos e varreria tal qual um furacão a calçada indolente onde sentavam nossos mendigos, se os visse colocando-a, a vida, à margem de suas preocupações. Insultariam-na ao não levarem a seu altar sujo e desgastado – posto que sempre, sempre renovado pelas mãos de sua amiga morte – feito de ossos e despojos, as oferendas auferidas cotidianamente. Por isso ela os maltratara tanto.

Milhares de Donas Conceição preparavam-se para percorrer as calçadas sujas, lambidas tetricamente pelo vento frio e pela lama, em busca de suas grandes-ínfimas-metas. Senhores e senhoras, jovens e crianças de todos os tipos percorreriam as ruas, apressados, opacos e esmarridos, crentes de que constituíam o povo mais criativo e hospitaleiro do mundo. Tudo por que alguém lhes dera essa notícia insistentemente. Alguém: sequer sabiam quem.

Personalidades esmaecidas percorreriam os corredores, mercadejariam pedaços, materializações de tempo de vida gasto e os mendigos preocupar-se-iam em conseguir papelão ou algo para vender e beber. Beber: dirimir a dor que exala da vida, uma vez que ela os invade e exige deles algo que não lhes deu. E que sequer buscaram, em alguns casos. Entrar em estado de latência, do mesminho jeito como também faziam todos os que se criam superiores a eles quando, dirigindo-lhes olhares altivos, acreditavam em sua artificial superioridade graças às moedas que tilintavam em seus bolsos: seus entorpecentes.

Precário e patético, o móbile realiza-se caleidocópico. Exíguas moedas pagas com juros à vida, como se o possuí-las valesse mais do que o valor em suas caras estampado – jactancia-se a Coroa. Pagavam para trabalhar (e para possuí-las) com o desgaste de suas próprias vidas e ver mendigos justamente no momento em que viviam unicamente para trabalhar e anularem-se perante seus próprios exploradores, era algo que despertava nessas pessoas uma certa inveja... Contudo, não gozavam de coragem para notar o quão eram iguais aos mendigos – uma vez que também mendigavam – e pensar, uma só vez, em não trabalhar, significaria nunca mais conseguir trabalhar e anular-se, sem sentir dor por isso... a morte, em vida. Latência: bebia-se, alcoolizava-se, ou embebedava-se com a felicidade artificial da geladeira á crediário e do carro financiado, com o sonolento e pérfido torpor mental... televisivo. A ignorância, expressa por seu riso tolo, é para estes personagens altivos, o melhor remédio? Paliativo não é remédio, bradavam surdamente os moradores das calçadas.

Os mendigos imploravam pelos pedaços conseguidos à duras penas pelos transeuntes e doá-los, em pleno horário de trabalho, somente seria possível no caso de se acreditar haver uma recompensa por isso. Tal qual os mendigos, os transeuntes, de olhares e feições esmaecidos e embotados, mendigavam a chance de doarem-se, anulando-se paulatinamente à própria vida que lhes havia sido imputada como uma punição.

Uma sentença cruel: “toma, vive esta vida maldita, e alimenta-a consigo mesmo, cuida dela e não a deixa fenecer. Podes me pagar em nada suaves prestações cotidianas, e serás obrigado a prestar contas a mim, por todas tuas atitudes, senão... eu ta subtraio! Pagará alto preço, aluguel, por ela existir em ti, e consumir-te por dentro, com o suor de teu próprio rosto. Crescerás e multiplicar-te-ás, de forma a dar-me mais soldados”...

Muitos, inclusive, criam ser preciso trabalhar para pagar a vida que lhes teria sido supostamente dada por um ser supremo e bondoso... Mas irado, invejoso e caprichoso, e que cobrava juros pelo simples empréstimo de uma vida de muito trabalho e nenhum gozo: isso não cogitavam. Tempo seria dinheiro, e o trabalho dignificaria o homem! Levantar-se-iam todas as manhãs, agradeceriam pelo pão de cada dia, responsável por se manterem em pé para poderem penar e sofrer, e não pensariam em mais nada. Bestas.

Foi pensando nisso que aquele grupo se reuniu ali, embaixo daquela marquise, para mais uma cessão matinal de bebedeira. Assistiriam a tudo de camarote e ririam ao ver crentes velhos em seus ternos de defunto amarfanhados e pretensamente santos desferirem a seu grupo olhares somente dignos de diabos, e ao verem nos olhares de desprezo dos transeuntes irracionais uma certa curiosidade e um certo medo. Ririam, deveras, ririam, muito embora premesse que demonstrassem a precariedade de sua situação se quisessem angariar uma soma qualquer.

A chuva! O vento frio castigara-os durante toda a noite, tal qual uma chusma de arlequins desgovernados e insanos que se prestava a ferir-lhes a pele já gretada e suja, levantar-lhes os jornais e papelões colocados à guisa de cobertores... O único meio de escapar à dolorosa vida seria entrar em estado de torpor. Assim como ocorre aos transeuntes: Big Brother – hoje tem paredão. Então frangos assados viriam ao grupo, quentes e suculentos, os arlequins seriam expulsos por um grande e feio aquecedor central, e seus pés seriam aquecidos por lindas ninfas... Cachaça: sonhos, felicidade engarrafada. Sucesso: felicidade em dízimo.

Mas em compensação não mais deviam seus pesados fardos do viver a algum ídolo desconhecido e ausente, e muito menos tributos ou agradecimentos. Mendigavam, menos do que os transeuntes apressados em catar as migalhas que deixava cair – à guisa e ração –  a vida altiva e caprichosa. Gulosa, devorava-os por dentro, e desesperava-os a ideia de que um dia nada mais teriam para que ela sugasse.

Sentiam frio, mas dormiriam tranquilos por não terem de pagar as prestações de casas que sequer eram aconchegantes, durante suas vidas inteiras, tendo de arrancar pedaços de si mesmos para tal. Mas não deixariam de beber: frio do cão!

Dona Conceição levantou-se. Feia, despojada. Preparou seu café suado. Submissa, assumiu suas funções cotidianas de escrava, tudo para não ter que sair à rua e se preocupar com contas em bancos, holliri... oliritis, não era assim que se falava? Não dava para essas coisas. Meu marido é que cuida dessas coisas. Quer mais um pãozinho?

Fechou orgulhosa o portão – que outrora fora de ferro, e que agora era de ferrugem – de sua casinha ainda por pagar na viela esconsa que o carteiro teimava em desconhecer, e preencheu o vazio de seu peito com o ar sujo da zona sul, com uma dignidade cristã invejosa e pérfida. Júbilo! Glóriadeus! A paz do senhor. A Dona Maria brigara com o marido durante toda a noite! Ela agora iria, séria, altiva e professoral, dar conselhos a ela, não por seu bem, mas para criar uma imagem sua de boa mãe e esposa! Que seria.

Para isso, seria necessário ir ao Terminal comprar suas quinquilharias imprescindíveis e levar consigo seu semblante gasto, corroído, de velha senhora castigada brutalmente pelo látego rutilante da vida escravista. Mas nada sentira em seu lombo dormente: muito pelo contrário, agradecera ao Senhor por toda sua vida, pela misericórdia... essas coisas. Glóriadeus! Levaria consigo sua bolsinha de couro, recheada nos tempos de antanho, e por ora parcamente preenchida com alguns despojos de sua alma em gotas, metálicos, reluzentes.

--- Quer moleza come sopa de minhoca! Ô Miro, ´corda Miro! Porra, me dá esse papelão aí vagabundo, eu que catei! Que é que você tanto esconde aí ô maluco? Sai!

--- Saio não homem! Sai você! Depois eu te arrumo outro... vai, sai daqui porra.

O grupo, sonolento e embrutecido pelo frio, pela ressaca – que nada mais era do que a dolorosa volta à realidade da vida – riu ao pensar que o Miro estava excitado, e que por isso não queria se levantar, pois no ponto de ônibus havia algumas meninas que se dirigiam para o colégio, dentro de sua estética cosmética de roupas humildes- não obstante curtas e justas.

Praticamente acertaram, e isso se devia ao fato de conhecerem-se muito bem. Tratava-se de um grupo coeso: encontraram-se aos poucos e dividiam suas lamúrias estéreis e a felicidade viscosa, engarrafada, pelas ruas sujas da Zona Sul. Miro era adicto à pornografia, comprada nas bancas de revistas usadas ou encontradas no lixo, e já os fizera passar vergonha quando, vomitando, saiu nu para a rua, do prédio abandonado da Polícia Federal, situado próximo ao Largo do Paissandú.

--- Levanta pô! Ô Miro, sai daí meu! Assim gritava Paulo, o mais religioso e mais calado do grupo. Retirante nordestino desprezado pela vida que com tanto esmero perseguira, magérrimo e que sofria de bronquite.

Os gritos atraíram os olhares dos transeuntes robóticos por alguns segundos, e ocuparam a atenção das meninas que estavam no ponto à espera de seu ônibus cheio, apertado, velho e fedido a suor. Estaria aquele vagabundo morto pelo frio? O ruído infernal dos ônibus abafava o bradar bêbado dos membros do grupo, e parecia colorir o ar com suas ondas agressivas de um marrom feioso. Ocre e cinza, enamorados, travavam uma batalha morna e indecisa, tingindo tudo o que tocavam com notável indolência.

Donas Conceição persignavam-se esperando o pior quando passavam enojadas e comovidas pelo grupo, mas o que mais atraía sua atenção era o comportamento de dois garotos prostrados no poste do ponto, que se beijavam lascivamente. O mundo estaria perdido, estria cada vez pior... Deus, Deus estaria enviando seu filho, para punir estes cretinos, a paz do senhor! Tá amarrrado. Isso as aliviava e as fazia abaixar suas cabeças ocas e tratar do alface.

Um pequeno grupo de curiosos despregou-se do ponto de ônibus e formou uma roda em torno dos mendigos estampando em suas faces embaciadas e macilentas expressões de nojo instantâneo pelo que viam no chão do cantinho obtuso. Curiosos, pensavam estar Miro já morto, ou mesmo em estado de overdose. Alguns criam ser ele fulcro de algum encosto, e fugiam de lá conclamando seus irmãos a se benzerem e seguirem as palavras de seus senhores de engenho, Senhor feudal das ovelhas que dirigiam-se ao abatedouro para sacrificar-se.

As telhas de amianto da marquise, furadas e enegrecidas, cheias de limo, deixavam passar por seus orifícios as gotículas inoportunas da garoa fina e gélida que sujava a tudo. A parca luz que se atrevia a chegar até os corpos esquálidos dos mendigos tocava-os preguiçosa e enojada também, de forma a pintá-los de cinza, um cinza chumbo, bem como suas peles enegrecidas e gretadas. Nada suficiente para iluminar seus olhares opacos e avermelhados, perdidos e zonzos.

Tocava-lhes, hesitante, uma luz marrom que enaltecia a lugubridade da tétrica morada provisória daquelas almas auto-desvalidas. Um clima de expectativa parecia ser trazido pelo ronco absurdo dos motores dos coletivos, superlotados de força de trabalho, o rebanho exaurido do Pastor, e o som provocado pelo contato dos pneus carecas com as possas sujas fazia as vezes de coro à peça estranha que desempenhavam os mendigos, e que perdia a atenção e o interesse da assistência apressada.

Miro, sujo, sonolento e deliberadamente embriagado, custou a abrir seus olhos miúdos e cansados de ver um mundo tão feio. Pousou-os, tal qual duas moscas famintas, nos rostos desconhecidos que dirigiam olhares divertidos, curiosos, ansiosos, para si e sua suja condição.

--- Sai todo mundo... vai trabalhar vagabundagem! Os punhos em riste, esbravejava como uma besta encurralada e disposta a tudo. Não se movia, parecendo esconder algo.

Curiossíssimos, seus companheiros trataram de expulsar a assistência e empenharam-se em acalmar a Miro. As meninas, risonhas e lascivas, subiram no ônibus superlotado sem olhar para trás, e o coletivo arrancou barulhento e pesado, bojudo, a fim de entregar, um a um, os cordeiros a seus respectivos abatedouros.

Macambúzia, somítica e feia, movia-se a cidade a serviço da vida suja que a criara para servir a si. Disforme, movia-se como uma colônia de insetos não conscientes de sua coletividade, um rebanho de seres solitários e ensimesmados, irritado com suas picuinhas e com a garoa extremamente pândega e insolente que lhes lambia os rostos embriagados pelo torpor vital. Nada melífluo, nada blandicioso. Fuligem.

Esto: o povo no eito. E seus capatazes a tudo observavam, dentro de seus grandes vazios, ou seja, de si mesmos. Punitivos. Como Dona Conceição, que passando pelo grupo de mendigos viu-se persignando e resmungando insólitas injúrias cristãs: tá amarrado! Alimentava bem seu Senhor – de engenho, seu Pastor.

Miro levantou sua cabeça pequena e frágil e tocou as telhas sujas com os olhinhos enjoados e tontos: por que não saíam dali seus companheiros? Não tinha cachaça, já havia dito! Saíssem!

Mas o grupo, insistente, arrancou de sobre seu corpo esmarrido e sujo o papelão que fazia-se de cobertor na triste peça sem cenografia: descobriu-se, então, uma silhueta de mulher formosa, em papelão, semi-humana e colorida, anúncio de mais uma Coelhinha do mês, subtraído do lixo contíguo a alguma banca de jornal. Muito, muito bela. Trajava um fio-dental preto, cinta-liga, e trazia lindas coxas á mostra, já descritas. Os lábios de mel ostentavam um certo sadismo, uma vez que se não os podia beijar. Papelão.

Miro, irritado, levantou-se e empurrou Crispim que foi, esquálido e andrajoso, de encontro ao chão molhado e lamacento. O grupo, tonto, segurou-o, e viu-o mais forte do que nunca.

Miro, então, pegou de sua cônjuge de papelão, o display da coelhinha do mês, e abandonou o grupo. Era moldado à sua linda e sinuosa silhueta, o que lhe conferia extrema veracidade. Abraçado à sua namorada de papelão perambulou ainda trôpego pela calçada e quem o visse de relance pensava se tratar de uma mulher de verdade, dada a fidelidade de suas dimensões. Encontrara, enfim, sua cara-metade.

Entregara-se novamente a seu vagar sem rumo, circunspecto, faminto e andrajoso, em busca de papelão, e de algum alívio para o doloroso limbo do viver que se apoderava de seu vazio interior que o corroía por dentro. No entanto, desta vez, ia acompanhado de sua companheira fiel, linda, alta: que exibia orgulhoso pelas calçadas tomadas pelo esto. Era dele! Só dele, aquela princesa! Os sapatos rotos, as calças minuciosamente gastas e imundas, o casaco já há muito destituído de sua cor original porque tingido de miséria, contrastavam com a formosa dama.

--- Vem, princesa! Cuidado, princesa, com o degrau. Quer deitar aqui, quer passar a noite aqui, comigo, princesa? Fica comigo, princesa...

Os transeuntes, tomados pelos valores de ferro e níquel que os mantinham, qual grilhões, na trilha da servidão à vida, sequer o viram nascer, crescer, viver – enfim, sofrer. E ele sequer o desejara, durante toda sua vida. Contudo, agora, tratava-se de existir, de ostentar orgulhoso seu troféu: ela o escolhera entre todos, e teria vindo até ele, pobre catador de papelão sem carrinho! Ele, dentre todos de seu grupo!

E, naquela fatídica noite suja, fizera amor loucamente com ela. Envolvia seu coração empedernido nas blandícias delicadas de sua donzela, e de posse dela vagava pelas ruas da cidade macambúzia, somítica, fétida e feia.

Via cor agora, em seu viver errante. E conversava com sua dama pelas calçadas da Sé, despertando inveja do mundo que o rodeava e que sempre o agredira só por existir apressado e espaçoso. Só dele. Sua pele enegrecida combinava com o dourado melífluo da tez de sua donzela, e ele a levava para passear.

Viveram um romance, num mundo alcoolizado, móvel, cálido e escuro.

Até a tempestade levá-la, já velha, enrugada e descascada. Chegou de chofre, cruel, e inundou a região do Aricanduva, durante a madrugada. Entorpecido pela bebida fizera juras de amor, negando que se envolvera sexual e emocionalmente com os demais papelões que catara, e não percebeu que o vento trouxe consigo uma chuva suja e quente, e que um rio caudaloso tomou a rua. Adormeceu, negando seu envolvimento com uma caixa de papelão que roubara ao lixeiro para construir seu dormitório.

Pobre Miro. Literalmente. O vento extremamente molhado e furibundo e arrancou-a de si, e a jogou na guia, cheia de água suja. Ainda se pôs a correr atrás dela, enfrentando buracos e a correnteza mas, como doíam-lhe mortalmente as pernas acometidas pela erisipela, teve de desistir de sua amada, e a viu fenecer entre as marolas cinza-esverdeadas de esgoto que tomavam as ruas, refletindo parcamente o amanhecer que, atrevido, ousava penetrar a sólida massa de nuvens.

Quando voltou a si estava caindo e a correnteza, que lhe chegava aos joelhos, parecia convidá-lo a extrair de si o mal de que sofria: sua própria vida. Sentiu-se agarrado pelas patas macias da desistência. E abandonou-se a seu não mais sofrer, dirimido pelo embotamento alcoólico de um amor de papelão. Tal qual sua amada, em contato com a água suja, sentiu-se amolecido e uma dor incrível apossou-se de seu coração de papel quando viu sua casa ser levada por uma ímpia rajada de vento.

Vida efêmera, feia e suja: de papelão. Deixara-o em paz, ao pobre Miro, que ainda acreditava poder encontrar sua “coelhinha”. Enfrentara troças por ela: ciúmes dos companheiros, e insultos dos transeuntes. Desferia contra si mesmo um último golpe: abandonou-se à correnteza, assim como abandonou-o a vida ao sabor de suas correntes outrora vívidas. E deixara o mundo e sua vida de papelão, trôpego e sonolento, imerso nas águas sujas que invadiam as ruas, tão apressadas quanto a multidão disforme. Saiu do torpor para cair nos doces braços de um afogamento. E sua mulher de papelão amoleceu e se desfez, talvez em lágrimas, não se sabe, assim como sua vida, também ela – disso não tinha consciência – de papelão.

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Bruno Walter Caporrino

É formado em Ciências Sociais pela USP e desde 2010 atua como indigenista pelo Instituto de Pesquisa e Formação Indígena – Iepé, assessorando povos indígenas da região a se apropriar de políticas públicas e assegurar seus direitos, pactuando consensos sobre isso em respeito à sua organização social e saberes. O Iepé é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, fundada em 2002 por profissionais de diversas áreas, como antropólogos, biólogos e educadores, que já atuavam junto às comunidades indígenas no Amapá e do Norte do Pará desde a década de 1980 e que, com a fundação do Iepé buscaram formalizar esta atuação para fortalecê-la em um âmbito institucional e contemplá-la em um âmbito regional, assessorando os povos indígenas da região para que fortaleçam suas associações, expressões culturais e organizações sociais, através de processos formativos, e para que possam apreender as políticas públicas e influenciá-las a fim de que assegurem seus direitos e garantias.

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