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Lembranças Tardias de meu ultimo duelo

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Como posso começar explicando o fim? Mesmo sendo algo que todo ser vivo saiba, cógnito ou intuitivamente, o fim não é algo com o que nos preocupamos com a devida atenção. Evitamos pensar que somos suscetíveis à falha, ao passar do tempo, ao fim de nossos dias naturais. Mas um dia, pode ser agora ou daqui a cinquenta anos, tudo acaba. Como deveria mesmo acabar.

Sinto já que não tenho tanto sangue quanto gostaria. Os vários e repetidos golpes foram minando não somente minha resistência, como também diminuíram essa rubra reserva de vida. Isso tornou-me lento e vulnerável à ainda mais golpes. A coisa piora a cada segundo que passa, sem que possa ver uma solução, uma saída para a situação em que me encontro. Não que já não tenha me visto em uma posição inferior em outras ocasiões, mas naqueles tempos tinha não só a fé na vitória como também uma habilidade muito maior que meu oponente, o que me dava a calma necessária para aplicar-lhe um maior número de revides, salvando-me infinitas vezes da derrota.

Eu não conheço a derrota.

Ainda não.

Talvez seja por isso que ela me amedronte tanto, mesmo eu não admitindo, apesar de vê-la gargalhando no fundo castanho do olhar de meu adversário, implacável e incapaz de demonstrar uma clemência que eu não suplicaria, ainda que continue posando de invulnerável, ao vê-la desfilar na conhecida voz daquele a quem combato: 

           ─ Vou vencer, até que enfim eu vou vencer!

Se ele soubesse o quão certa esta sentença está, acabaria comigo de uma só vez. Mas ainda me resta senão a força, ao menos o respeito que granjeei com meus anos de prática. Mesmo que tenha perdido meu escudo e despedaçado minha espada, ainda assim já venci outras batalhas com minhas mãos nuas. Minha força e experiência, extraordinárias no passado, aos olhos de meu adversário ficam menores a cada dia que passa. Se ele ao menos desconfiasse disso...

Recuo. Ganho um tempo para respirar, mas este mesmo tempo se esgota rapidamente. Tenho que retomar a carga, retornar à luta ou estarei vencido de qualquer forma. Melhor cair em combate, que ser vencido pelo tempo. Preparo meu melhor golpe, forte o bastante para virar a maré da batalha. O único senão é que ele é muito lento e me deixa praticamente indefeso por alguns segundos. Enquanto giro minhas ensanguentadas mãos pelo ar, ele se atira para frente em uma velocidade espantosa, fruto de um golpe novo que eu desconhecia. Incrível como a mocidade aprende rápido.

            Sou golpeado várias e repetidas vezes em meu flanco exposto e em uma semi-explosão do choque de corpos sou lançado ao ar em câmera lenta, enquanto minha contagem de vida rapidamente despenca para o nada. Impiedoso frente à minha sorte, indiferente ao meu destino e feliz com sua conquista, meu adversário põem-se a pular imediatamente, lançando ao ar sua comemoração pela vitória, a primeira em sua vida; inaugurando para mim a derrota...

Continuo estático, olhando para meu corpo sem vida, quando ele coloca sua mão infantil em meu ombro:

            ─ E aí Tio, vamos jogar mais uma?

Dou uma risada para meu sobrinho Daniel, nove anos, meu mais novo arqui-inimigo no videogame: 

─ Bora, Zé-ruela. Mas agora não vou te dar mais canja não... 

Reenergizado pela benção curadora do reset, tenho novamente meu poder e força para encarar o combate. Aquela primeira derrota me ensinou muita coisa. Uma delas é que não posso mais dar mole para o moleque... 

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Cristiano Deveras

Funcionário público, escritor e poeta, formado em letras pela Unopar – Universidade Norte do Paraná. Vencedor do Prêmio “Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos”, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 2006 com seu livro de estreia, “Jantar às 11”; Finalista do Prêmio SESC e Menção Honrosa no “Prêmio Lucilo Varejão” do Concurso Literário da Cidade do Recife, versão 2008, com seu segundo livro, “Coração de Pedra”; Vencedor do Prêmio “Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos”, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 2012 com o livro “O Etéreo ser de carbono”, com o qual participou da Feira de Frankfurt, em 2013. Membro da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, é autor dos livros de contos “Jantar às 11” e “Tá na rede”, co-organizador e produtor das antologias “Bar do Escritor – Anarquia Brasileira de Letras (2009)”, “Bar do Escritor – A anarquia continua (2010), Bar do Escritor “Terceira Dose” (2012), Bar do Escritor – Tomo IV (2013) e Bar do Escrittor “Quinta Barnasiana” (2014). Organizador do projeto “Bar do Escritor Itinerante”, com participações de 2010 a 2015 na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty – RJ.

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