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Mãe Mônica

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De um estalo postou-se de pé. A bem da verdade, o estalo deu-se na cabeça: o corpo demorou um pouco a seguir comando. Mirou tudo ao redor e achou que era hora de fazer algo, aluir. Uma volta no sobrado, perscrutando cada pormenor, cada cômodo, vistoriando.


─ Terei que fazer algo, urgente.
Deu buscas no material de limpeza, encontrou o avental, surrado como lombo de pobre, como diria a avó. Parada ali, imaginou por onde começaria, o que faria primeiro. Neste interim, viu a residência ainda em construção, como ela e o marido sofreram para levantar tudo aquilo do rés do chão ao topo da cumeeira. Uma trabalheira...
Varria ainda o corredor. Parando, arfava um pouco, a idade não ajudava. Na verdade, pesava. Passara já dos setenta. “É tempo... Muito tempo”. Mãe Mônica virou-se lenta, olhava os cantos para ver se não deixava nada para trás, mas sabia muito bem que a visão não era a mesma: algo fatalmente restaria. Arguindo com a própria consciência, continuava o trabalho que havia se proposto, afinal a empregada, aquela desmanzelada, só viria na sexta. E até lá ela não suportaria tanta poeira. Por isso, varria.
Chegou ao quarto, passou de leve um pano sobre os parcos móveis, econômicos, distribuídos com parcimônia no recinto. Retomou da vassoura, trazia o pó que caiu no chão, limpou as extremidades e quando terminava ali, olhou para o bico que apontava de debaixo da cama. Bota cano alto, número 42, bico largo. Sabia exatamente quem a havia deixado ali, jogada. “Bagunçando tudo, como sempre”. Eduardo, sempre ele.
Olhou em volta do quarto e reconheceu nele o dono. Bandeira de time na parede, uma paisagem distante em um pôster, uma pequena pilha de livros. Observava tudo com bondade e delicadeza, diria até, que com um parco afeto escondido. Completou a volta, deu de cara com o espelho, ajeitou a postura, mirou-se. Iam longe aqueles passeios no Parque da Cidade “Mas que velhinha feia eu fiquei”. Olhou ao lado e viu-o nas fotos.
Ah, aquelas fotos na cômoda, como a incomodavam! Não entendia como Eduardo ainda mantinha aquele ar juvenil, para quem o tempo não passa e a vida segue, livre e leve. Ressentia-se do jeito aventureiro que lançava-se pelo mundo; servia ele agora no Haiti, de onde quase nunca mandava lembranças. Empertigado, sorria charmoso envergando a farda. Quase o odiava por isso. Pensava nas promessas de que estaria sempre ali, sempre à mão, como dizia. Mas agora, agora não, estava em uma ilha distante, fazendo sabe-se lá o que.
Lembrou-se de quando o conheceu, recém saído do ginasial. Encontraram-se em uma festa qualquer, trocaram telefones, conectaram-se. De encontro em encontro foram conhecendo-se, apaixonando-se. Faziam tudo juntos, descobriam em um e no outro novas e divertidas formas de viver; casaram-se, constituíram família. Por pressão dela, abraçou ele o direito; tornou-se advogado, promotor, juiz.  
Pensava em Eduardo em sua sala grande, protegido pela enorme mesa de mogno, circundado por um sem número de processos. O perigo das estagiárias, das secretarias e de todas aquelas raparigas que abundavam pelo escritório, perguntando-o se “aceitava mais um café; poderia assinar uma petição” ou “se poderiam ir embora mais cedo, Doutor Eduardo”.  Detestava particularmente o jeito lascivo com que diziam a palavra doutor, como se aquilo fosse um divino epiteto que o colocasse acima dos meros mortais.
Maldito Eduardo! Cercado de jovens oferecidas, dispostas a entregar-lhe, de juventude a novos prazeres; segurando sempre aquele detestado cachimbo, o chinelo turco que descansava sempre ao lado da poltrona de couro cozido, onde ele passava intermináveis horas analisando processos, lendo estranhos contos, ou assistindo velhos filmes de ação. “Perdoai-o Glauber, por não entender!” O engraçado era que agora o lembrava velho, meio careca, pançudo. Riu-se de imaginá-lo assim, logo ele, tão jovial.
Entregue naquelas recordações tão banais, fazia poses, imitando o jeito afetado daquelas sirigaitas. Saracoteou de um lado para o outro no quarto levando o pano de limpeza como se processo fosse; ria-se por dentro imaginando como seria.
Retornou ao mundo dos atentos quando a porta abriu-se devagar. Lento como quem surpreende um ladrão, um homem bem vestido parou no batente. Mãe Mônica, quase levou a mão na boca, para estancar o susto:
─ Papai? O que faz o senhor por aqui tão cedo?
Viu brotar certo desapontamento no olhar dele. Balançou de leve a cabeça, como se consternado.
─ É um daqueles dias, não é?
Suspirou fundo, tentando dar normalidade à voz.
─ Então já arrumou tudo?
Mãe Mônica viu-se pega em desvantagem: ainda havia tanto para fazer naquele casarão! Pegou da vassoura novamente, disposta a terminar de uma vez a faxina inacabada.
─ É já papai. Não se zangue comigo, estava aqui perdida em pensamentos bobos.
O homem passou a mão na fronte devagar, parecia buscar paciência de algum lugar escondido dentro do crânio. Ela sabia que aquilo não apontava boa coisa.
Delicado, mas decididamente, tomou-lhe a vassoura das mãos, trazendo-a para perto da cama, onde fê-la sentar, devagar. Olhava-a agora com um misto de pena e tristeza. Parecia que iria contar algo ruim, muito ruim, ela podia sentir isso.
─ A senhora precisa de atendimento especializado. É por isso que a estamos levando para a casa de repouso, para que tenha alguém por perto para dar conta de qualquer coisa.
─ Mas, papai! O Eduardo vai voltar e encontrar a casa toda desarrumada! Não posso deixar que isso aconteça!
Tentava protestar da forma mais enérgica, ainda que respeitosa: nunca havia sido rebelde com o pai. Atônita, soltou uma pergunta no ar:
 ─ O que tinha Eduardo na cabeça para se meter naquelas distâncias?
    O homem exalou um pouco de desalento.
    ─ Já vai três anos que papai faleceu. Quem serve no Haiti é o Júnior, mamãe.     
    Mãe Mônica observou vivamente o homem do terno preto.  Lembrou-se então dos filhos, gêmeos bi vitelinos. Edson, que ali estava lembrava-lhe o pai, Júnior era a imagem do marido. Tirou o avental, derrotada; era hora de pegar a mala que havia deixado o quarto e dirigir-se para sua nova morada. Ao saírem pelo portão, observou pela última vez a casa que sua foi por mais de quarenta anos e trezentas vezes mais de lembranças, algumas já esquecidas.
Voltou ao seu novo mundo, onde Eduardo não era somente uma lembrança sentida, mas um marido devotado... Pai querido, advogado aplicado. Talvez fizesse bolo de carne para o jantar. Eduardo e os meninos adoram bolo de carne...

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Cristiano Deveras

Funcionário público, escritor e poeta, formado em letras pela Unopar – Universidade Norte do Paraná. Vencedor do Prêmio “Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos”, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 2006 com seu livro de estreia, “Jantar às 11”; Finalista do Prêmio SESC e Menção Honrosa no “Prêmio Lucilo Varejão” do Concurso Literário da Cidade do Recife, versão 2008, com seu segundo livro, “Coração de Pedra”; Vencedor do Prêmio “Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos”, da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, em 2012 com o livro “O Etéreo ser de carbono”, com o qual participou da Feira de Frankfurt, em 2013. Membro da União Brasileira de Escritores, seção Goiás, é autor dos livros de contos “Jantar às 11” e “Tá na rede”, co-organizador e produtor das antologias “Bar do Escritor – Anarquia Brasileira de Letras (2009)”, “Bar do Escritor – A anarquia continua (2010), Bar do Escritor “Terceira Dose” (2012), Bar do Escritor – Tomo IV (2013) e Bar do Escrittor “Quinta Barnasiana” (2014). Organizador do projeto “Bar do Escritor Itinerante”, com participações de 2010 a 2015 na FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty – RJ.

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