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Pastora de nuvens

Imagem Marina Ruivo Imagem Marina Ruivo

Poesia na janela, vejo a menina que escreve com tinta nas paredes e meus pelos se eriçam.

Eu sou essa menina. Eu fui essa menina lá longe, no tempo que foi embora.

Serei ainda?

E quem saberá das tintas vermelhas que constroem desejos de mundo e forma?

Pastora de nuvens, escovo palavras. Tento fazê-las caminhar para a forma do meu desejo e para que revelem aonde quero levá-las. Aquilo que não sei. Aquilo que elas sabem dizer com dor e sabedoria, como o desenho das estrelas no céu bem longe e azulindo, bailando, serpenteando, se jogando para o horizonte sem alcançar sua linha, apenas deixando a mente descer fundo nos abismos marítimos de 11 metros, ou até mais. Lá, onde não há claridade, mas também pode haver beleza.

Pastora de sonhos, tento levá-los a caminhar sem rumo, sempre gostei de água condensada. Já vi nuvens por toda parte, comendo-as em flocos por aí. Depois, com o tempo, fui deixando mesmo de olhar o céu, imersa em tempos de provações. Quando meu filho nasceu, círculo que se faz, menina que se deixa para trás e se reencontra, voltei a olhar para cima e alegre encontrei elefantes, macacos e lebres. Bigodes de reis durões e bigornas polindo ferraduras de cavalos soltos cavaleando pelo infinito.

Pastora de nuvens, sou parteira de formas sólidas gasosas e líquidas. As nuvens correm pelo céu nessa luta inglória em que sou sempre perdedora e pouco consigo realizar com elas, que voam no céu azul ou plúmbeo.

Pastora de nuvens, pastoreio estrelas, palavras cuspidas pelo sangue da boca e o sangue do corpo que pulsa e às vezes escorre, melando tudo, uma vez ao mês. É com este sangue que escrevo, este sangue que às vezes me faz perder o controle e a gana, mas que dá gana de saltar e gritar.

(As notícias do abismo vêm para dizer que ele ainda está lá, dentro. Continua me tragando, suas férias são sempre ocasionais, e é só nesses momentos que pareço toda inteira toda sólida sem pedaços grudados nem outros tentando se encaixar e colar. Sólida plana, transparente e vazia.)

Você só parece boazinha, mas é mauzinha, sopra o meu amor, e deve ser verdade, eu sou mauzinha como todos somos ao deixar expostas nossas profundezas, fêmur fraturado que rasga a pele e se instaura à visão de todos, torto, branco, mas cheio de sangue também. E o menino que caiu do bonde ficou assim, jogado no chão da cidade até que viessem lhe socorrer e, depois do hospital, despacharem-no para seis meses de repouso absoluto, sempre deitado, entregue ao tédio das paredes. Depois do castigo, levantou mais alto, crescido, o que só se percebeu quando ele enfim conseguiu pôr-se de pé de novo, mas isso demorou, foi preciso reaprender a andar, começando por rastejar de gatinhas.

Depois, a mudança de bairro e de escola e a vida do menino tinha de recomeçar, noutro tempo, noutro lugar, pastoreando de novo, elas, as nuvens, que ele mal sabia que um dia virariam palavra e iriam parar na mão de uma menina, sua filha. Que um dia ia crescer e assumir esse pastoreio-parto, já vendo que o menino que ela teve vai querer seguir esse mesmo pastoreio que também veio da menina que foi a mãe dela, que escrevia textos incríveis desde o jornalzinho da escola, depois fez histórias infantis e...

Depois foi um pouco tragada pelo círculo de sobrevivência, porque quem de nós não? A jornada tripla ou quádrupla da que já foi menina, cadê tempo para os escritos, para as letras? Sumiu, foi embora e ninguém tinha dito para ela que ia ser tão duro e doía tanto, mas doeu, mesmo ela tendo se esforçado para assumir como suas todas as regras, as limitações, as proibições. O desejo sufocado ainda está lá, vez em quando explode em fúria muda.

Não sou o vínculo para os dois pastores que vieram antes de mim. Mas por que não posso ser esse laço às vezes, ainda que eles não queiram e nem saibam? Esse menino e essa menina. E tantas meninas e meninos por aí. São coisas de nuvens, não sou eu.

[Esta coluna é um espaço para contos, crônicas e afins, além de relatos das experiências envolvendo a escrita, como a que venho desenvolvendo junto ao Programa Vocacional da Prefeitura. Um espaço sem delimitações fixas, mas apoiado no que une a todos aqui do Portal Heráclito.]

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Marina Ruivo

É artista orientadora de Literatura do Programa Vocacional, profissional do mercado editorial e autora do livro Geração Armada: Literatura e Resistência em Angola e no Brasil (Alameda Editorial, 2015). Mantém o blog Arrastão no mar sem fime é colunista das revistas Pausa e Samizdat. Tem textos publicados em revistas digitais como a Mallarmagens, a R. Nott, dentre outras. É doutora e mestre em Letras pela USP e vem desenvolvendo uma pesquisa junto ao acervo do escritor Carlos Heitor Cony. Membro da Caravana Rolidey – Literatura na Estrada, vem procurando espalhar a escrita e a leitura por este mundão.

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