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A Nona Sinfonia de Beethoven, o transporte público e a redenção

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Vivi certo dia a experiência de ir de transporte público ao trabalho ouvindo a bela e afamada Sinfonia n. 9, do gênio Ludwig van Beethoven (1770 - 1827).

            E logo no início do trajeto, percebi que o andamento da música parecia dialogar com os acontecimentos que eu vivenciava e com as sensações que sentia. O movimento com certa tensão do começo da canção refletia com exatidão a preocupação que me afligia. O ônibus atrasará? Terá lugar disponível para que eu me acomode?

            Mais adiante e já no metrô, a sinfonia em meus ouvidos revelava momentos melancólicos e sombrios, algumas pausas geravam apreensão sobre o que viria nos compassos seguintes, gerando aquela aflição que todos sentimos diante de nosso futuro tão incerto. Olhei o semblante dos demais passageiros e senti que naquela falta de espaço e ventilação cada um ansiava uma alegria que talvez ali não pudesse encontrar. E em que será que pensavam? Nas contas que vão vencer? Na entrevista de emprego e na famigerada dinâmica de grupo que terão que encarar? No chefe que não perdoará o atraso? No grande amor que desejam conquistar?

            Mas eis que das sombras e dúvidas surge a luz! E a sinfonia e Ludwig seguem acompanhando meu dia: tenho o regozijo de ouvir a Ode à Alegria, cuja letra é um poema do grande mestre Friedrich Schiller: “Oh amigos, mudemos de tom! Entoemos algo mais prazeroso e mais alegre!” E a beleza suprema da melodia é capaz de emocionar a todos, sobretudo aqueles que possuem a sensibilidade mais à flor da pele. Venço o tumulto das escadas rolantes e catracas para conquistar a liberdade (parcial) das ruas. Lembro que estou ouvindo um dos pontos mais altos da criação humana. Verto lágrimas de contentamento. Depois dos percalços do caminho, dos empurrões e cotoveladas eventuais e de todo o desconforto, era a minha redenção!

            E me veio a reflexão de que na vida às vezes passamos por fases difíceis para podermos gozar de momentos mais alegres depois – ela não é feita somente de momentos sublimes. E, por fim, só a quem passa por tempestades e tempos sombrios é concedido o encantamento de presenciar o reaparecimento de um sol brilhante e o descortinamento de um magnífico arco-íris.

            Próxima estação: Paraíso.

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Ricardo Santana

Empregado público, é administrador de empresas por formação e admirador de poesia, música e literatura por inclinação. Dando seus primeiros passos na arte da escrita, suas narrativas são reflexos de suas leituras e de suas próprias vivências e observações.

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