A+ A A-

Mulher com chapéu

Imagem Marina Ruivo Imagem Marina Ruivo

Mundo de cabeças e corpos, quero o sol vindo, as águas baixando e meu corpo reaparecendo na areia, essa areia tão molhada. Meu corpo afundado e a ausência de tato, os olhos baços, a falta de ar, o sol lá em cima e a chuva, que começa a cair na minha boca.

É salgada a água, sente? É do mar. Ou é do meu corpo que resolveu vir? Serão dele essas águas salgadas?

Mas as pontas dos dedos estão frias.

Há uma concha na sola do meu pé, ela é bonita, vê? Cor-de-rosa. É assim que quero, uma concha que dê a certeza do corpo, do ser, da vida, uma concha.

Vagando em terra firme queria navegar e me achar no fosso no caule no leme dos navegantes. Mas apareceu uma mulher, uma mulher de chapéu. Olhos claros, perfume doce, acenos suaves, cantarola baixinho uma canção. Una mujer con sombrero como un cuadro del viejo Chagall...

Longe há um cavalo que rompe em desassossego, ele também canta em suas cavalgadas, ele sofre, sofre, sofre. As patas encostam no chão, uma quase junto da outra e as duas vão cantando enquanto o sono vem, o menino dorme e o fogo canta.

Era assim no mar. Era assim numa esquina, o luau que nunca fizemos, as barracas de acampamento, elas só existiram nos meus sonhos. A prainha, as pessoas hipnotizadas, todas cantavam e não viam mais nada.        

Só a moça, a que se jogou ao mar.

E seu chapéu, a palha, as fitas brancas e amarelas pendendo úmidas, balançando, balançando, balançando.

Avalie este item
(1 Voto)
Marina Ruivo

É artista orientadora de Literatura do Programa Vocacional, profissional do mercado editorial e autora do livro Geração Armada: Literatura e Resistência em Angola e no Brasil (Alameda Editorial, 2015). Mantém o blog Arrastão no mar sem fime é colunista das revistas Pausa e Samizdat. Tem textos publicados em revistas digitais como a Mallarmagens, a R. Nott, dentre outras. É doutora e mestre em Letras pela USP e vem desenvolvendo uma pesquisa junto ao acervo do escritor Carlos Heitor Cony. Membro da Caravana Rolidey – Literatura na Estrada, vem procurando espalhar a escrita e a leitura por este mundão.

voltar ao topo