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Há uma vida lá fora

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“Emprestamos à árvore nossas paixões, nossos desejos ou nossa melancolia; seus gemidos e seus cabeceios são os nossos e logo somos a árvore. Do mesmo modo, o pássaro que plana no céu representa, de imediato, nosso anseio imortal de planar por cima das coisas humanas; e já passamos a ser o próprio pássaro.” Baudelaire (1)

    O beija-flor me parece um ser plenamente feliz e realizado com seu ofício. Diferente da maioria das pessoas.
    Conheci certa vez um homem que se dedicava com afinco ao seu trabalho, mas que não se identificava muito com ele. Ele via em seu emprego nada mais que um meio para conquistar alguns de seus objetivos, como viajar aos lugares que alimentava o sonho de conhecer e para conseguir meios para conservar sua subsistência. O trabalho para ele nunca teve um fim em si mesmo.
    Assim, durante as oito horas diárias de peleja ele se concentrava em suas funções e tentava exercê-las bem. E quando chegava o final do expediente, aí sim o dia (e a vida) para ele começava(m)! O sorriso aberto enfim sobrepunha o semblante sisudo. Ao verem-no caminhando para deixar o escritório, seus colegas já reconheciam nele outro homem, que, sentindo-se vencedor, geralmente vinha fazendo alguma citação poética. Algumas vezes citava o poeta Manuel Bandeira: “Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei”. Em outras, o samba “Diz que fui por aí”, de José Flores de Jesus (que conhecemos como Zé Kéti) e Hortêncio Rocha: “Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí (…). Se quiserem saber se volto, diga que sim. Mas só depois que a saudade se afastar de mim.”
    E então ele partia para explorar o desconhecido e para admirar e contemplar as coisas belas e sutis que sua cidade-onde-se-querem-coisas ainda era capaz de fornecer e que não eram todos os que tinham a sensibilidade necessária para notar. Do alto de sua leveza, saía caminhando com destino ignorado. Vou para onde o vento me levar, ele sempre dizia, tal como as folhas que as árvores não foram capazes de cativar.
    O homem era mesmo capaz de se encantar com as coisas mais simples: o voo dos pássaros, o sincronismo do exército de formigas, uma flor e sua cor que com paciência e determinação haviam rompido a tirania cinzenta do cimento, um casal de velhinhos que namoravam no parque, uma criança que descobria os primeiros passos (e os primeiros tombos)… E esta era a atividade a que se dedicava com toda sua paixão. Da beleza e amenidades da vida ele extraía a matéria prima do trabalho despretensioso a que se dedicava nas horas vagas, registrando o que seus olhos podiam ver e sua alma podia sentir. E isso ele não fazia por dinheiro. Era seu protesto silencioso contra a desumanização do cotidiano e sua tentativa de planar por cima das coisas humanas, como diria o poeta francês Baudelaire.
    E para aqueles colegas que não podiam compreender sua felicidade ao se despedir do trabalho, ele explicava a razão de seu sorriso com uma frase: “Há uma vida lá fora!”

(1) Charles Baudelaire, In: Art romantique, apud SABATO, Ernesto. “O escritor e seus fantasmas”. Trad. Pedro Maia Soares. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 58.

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Ricardo Santana

Empregado público, é administrador de empresas por formação e admirador de poesia, música e literatura por inclinação. Dando seus primeiros passos na arte da escrita, suas narrativas são reflexos de suas leituras e de suas próprias vivências e observações.

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