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Tudo é um comum senso comum

Imagem Marina Ruivo Imagem Marina Ruivo

Movida por uma lógica irrefutável, você, a mais pura expressão de uma rebelde sem causa, sentindo carregar nos ombros o peso do mundo, foi fazer o quê? Se dar a sofrer de uma paixão fulminante, em pleno final do século XX, quando ninguém mais achava bonito uma coisa dessas e nem ninguém mais morria de amor.

Foi terrível, seu amado não queria nada com nada e você praticamente morreu na praia. Praticamente não. Morreu mesmo. Estava já em completa rota de colisão. Bateu a cabeça com tudo. Saiu sangue, a testa criou galo e quase botou as tripas pra fora. As estrelinhas brilhavam a seu redor.

Por isso pede sigilo absoluto a respeito dessa história, que ninguém saia por aí contando-a aos quatro ventos. Vai ficar entre quatro paredes, claro. Afinal, por ela você pôde confirmar que o barato sai mesmo muito caro. É, parecia estar tudo à mão, não ter nada a arriscar, mas no fim foi muito. Arriscou tudo e pôde ver que a vida não é nada mais que um jogo. Ora se perde, ora se ganha. É isso. Por que achou que com você seria diferente?

Mas, pela perda deste ente que havia enfim se tornado tão querido – e agora era seria tinha de ser tão odioso –, não queria de jeito nenhum cair em profunda depressão. Qualquer coisa antes do que isso. E sempre sem esquecer que havia um lado bom. Sempre há, o importante é não desesperar. Afinal, você ao menos conseguiu descobrir sua beleza interior, essa que nos habita desde que nascemos e que às vezes demoramos tanto a reconhecer. Tá, é certo que por fora você não é de uma beleza escultural, mas o importante é o que está por dentro, não é assim que se diz?

Depois de tudo que viveu, sem querer assumir que ainda somos os mesmos, como nossos pais, só te restou adentrar o gramado em busca de alguma solução, sempre alerta para fugir de novos erros, os crassos, que pudessem te levar a mais uma derrota. E desta vez ela podia ser acachapante. Seria demais e você não aguentaria. Não estava preparada para mais, embora seja preciso estar, pois na vida nada se ganha, nada se perde, tudo se transforma. E você conseguiria sem dúvida transformar a dor em aprendizado. Para mais beleza interior. As rugas talvez até lhe conferissem alguma beleza a mais, por fora, a beleza da experiência, da vida realmente vivida.

Mas não estava conseguindo, apesar do tempo decorrido. Andou, buscou, rumou por lugares inóspitos sequiosa de futuro. E então, cega de raiva, sem vislumbrar alternativas, deu mais um murro em ponta de faca e desistiu. Cansou. Nada mais queria desta vida, era chegado o fim.

Desanimada, exaurida, sem forças pra mais nada, resolveu. Iria rumar para o antro da perdição e lá se perder.

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Marina Ruivo

É artista orientadora de Literatura do Programa Vocacional, profissional do mercado editorial e autora do livro Geração Armada: Literatura e Resistência em Angola e no Brasil (Alameda Editorial, 2015). Mantém o blog Arrastão no mar sem fime é colunista das revistas Pausa e Samizdat. Tem textos publicados em revistas digitais como a Mallarmagens, a R. Nott, dentre outras. É doutora e mestre em Letras pela USP e vem desenvolvendo uma pesquisa junto ao acervo do escritor Carlos Heitor Cony. Membro da Caravana Rolidey – Literatura na Estrada, vem procurando espalhar a escrita e a leitura por este mundão.

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