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Algumas aporias da arte engajada

 

A literatura deve denunciar as mazelas sociais? A literatura, por assim dizer, deve ser engajada? As questões assim postas de pronto escamoteiam toda uma história de debates encarniçados entre intelectuais de esquerda. 

Antonio Gramsci, Walter Benjamin, György Lukács, Theodor Adorno, Bertolt Brecht, Jean-Paul Sartre, Albert Camus. Dentro dos limites deste breve fragmento, este escritor (esquerdista) gostaria de convocar o leitor e a leitora para algumas reflexões a contrapelo de nosso ímpeto de transformação social. Está em jogo, então, a questão de se a literatura, instrumentalizada a priori, pode ter um efetivo papel revolucionário. 

A forma que constitui a obra de arte, o movimento de sua arquitetura, talvez possa acompanhar e derivar os sentidos e os ressentimentos históricos com mais profundidade se, justamente, não tiver que se filiar a uma posição unívoca. E isso, caro leitor, cara leitora, não significa, de modo algum, a defesa a meu ver estéril da arte pela arte. Minha (contra)posição, no caso, caminha tanto ao lado de Dostoiévski quanto a reboque de um ateniense que jamais deixou de refletir à revelia das questões de seu tempo. Consta que Sócrates filosofava na Ágora, a praça principal de Atenas, diante dos mais inusitados interlocutores, e sua maiêutica – os primórdios da dialética – não deixava de apontar a dúvida contra a própria têmpora. O “sei que nada sei” socrático, que tanto enraivecia seus adversários pragmáticos, poderia ser lido, então, não como o pensamento-para-uma-inequívoca-finalidade, mas como os moldes do que seria a utopia em uma sociedade reconciliada consigo mesma, sociedade que não nos coagiria ao trabalho, pois saberia lançar mão dos únicos escravos que a humanidade teria condição de aceitar – as máquinas – para produzir a riqueza que saberíamos repartir de modo a que vida fosse liberada para o livre contraditório, para a arte, para o belo. Não teria sido isso que Marx, n’A Idelogia Alemã, e Oscar Wilde, n’A alma do homem sob o socialismo, quiseram dizer com a utopia que nos permitiria pescar durante a tarde e fazer crítica literária à noite?

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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