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A hipocrisia e seu subsolo

O livre comércio está para o mercado negro, assim como o casamento está para a prostituição. Sábia, a esposa/mãe tem consciência de que a meretriz, ao invés de destroná-la, na verdade dá sobrevida ao matrimônio.

A hipocrisia objetiva – aquilo que Oscar Wilde (1854-1900) chamaria de a verdade das máscaras – torna-se ainda mais contraditória com a ocupação maciça do mercado de trabalho pelas mulheres. Ora, o capitalismo e sua frieza constitutiva não admitiriam um abrandamento das relações, de modo que a esfera pública recebesse os atributos historicamente associados à mulher na esfera privada. O carinho, a ternura e a sensibilidade mal resvalam a guerra de todos contra todos. Assim, sobre a mulher fálica recaem desconfiança e ressentimento. Desconfiança diretiva de que ela não tenha se masculinizado suficientemente; ressentimento conjugal – tanto da parte do marido quanto da parte da esposa – como nostalgia da mulher inscrita no (in)consciente coletivo.

 Mas os usos e costumes – o rosto como máscara – não se alteram do dia para a noite adúltera. Como o mercado negro diz mais sobre a luz do dia do que a lâmpada do escritório e o abajur ao lado da cama de casal, o marido hoje procura na prostituta não apenas a lascívia que o matrimônio-para-a-procriação esvazia; ele precisa pagar para reencontrar a nudez da submissão feminina anterior à arregimentação do capital.

 

 O embaralhamento das identidades de gênero transforma as casas de swing em um nicho de mercado sumamente necessário. O marido que terceiriza o orgasmo da esposa ao se masturbar diante da traição consentida não é apenas um homossexual itinerante; ele sabe que a ficção de seu matrimônio agora depende da saciedade sexual da mulher fálica, ele sabe que a atual era do monopólio industrial requer liberalidade por parte dos pequenos proprietários para que o todo continue a (re)produzir a usurpação e o privilégio. Das 22h às 6h, a fantasia mostra o rosto para que, durante o almoço dominical com a família da sogra, a verdade das máscaras possa anunciar que Lili está grávida. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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