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Sobre uma certa sabedoria andarilha

Os andarilhos não encontramos apenas o novo e o outro quando cruzamos o Atlântico ou nos embrenhamos pela Cordilheira dos Andes.

O distanciamento de nosso epicentro parece cristalizar os conflitos, transformá-los em tipos ideais. Um velho provérbio chinês sentencia que o lugar mais escuro fica justamente embaixo da lâmpada. Mas, ora, a distância não arrefece a luz? Como é possível então que o deslocamento nos ajude a ressignificar a mágoa? Talvez os andarilhos sintamos a efetividade do fluxo das coisas com a locomoção. (O perdão também não significa deixar passar?) Quem muito se enraíza não pode abrir mão. A posse conforma o sentido (e o ressentimento) das relações. Os andarilhos temos mais chances de nos confrontar com um eu-outro na sucessão dos dias – um dia aqui, outro lá, acolá o tempo é nuançado pelo espaço; não à toa o mochileiro se surpreende: 

− Será mesmo que só se passaram três meses da minha partida?

A filosofia durante séculos refletiu sobre o par (supostamente) antípoda que envolve o sujeito e o objeto. Como se pudéssemos pensar em entidades que se estruturam fora de relações. A pergunta “como você se chama?” vem sempre a posteriori. Como primeiramente fui chamado começa a me ensinar que o real é relacional. Sujeito-objeto, portanto. Quando olhamos para uma pedra, a pedra também nos confronta. O adjetivo pétreo deriva dessa relação que me traz a dimensão, a rugosidade – e o silêncio. É preciso encontrar a pedra em meio às camadas de mediação da minha experiência. O imediato, portanto, jamais nos apresenta a coisa em si. Os andarilhos temos a possibilidade de expandir a empiria quando reconhecemos, pela multiplicidade das vivências refletidas, que a pedra jamais coincide consigo mesma. A pedra – e os homens.

O adulto é um prolongamento da criança – ou sua mais completa ruptura? A disjuntiva “ou”, implicitamente resignada, cinde fossos entre as expectativas do menino e o realismo enregelado do pai de família. Não percebemos que há sempre pontes entre nossas identidades. O homem se transforma e permanece idêntico a si mesmo.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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