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Revolução, o movimento que se volta contra si mesmo

Revolução, o movimento que se volta contra si mesmo Arthur Koestler por Robson Vilalba

Contra a condenação histórica da contingência e por uma teleologia que construa a história como uma totalidade aberta, Rubashov propõe o esboço de uma filosofia da história baseada no movimento das eclusas.

Se o curso de um rio é acidentado e possui desníveis de altitude entre seus planos, a construção de eclusas pode torná-lo transitável para as embarcações ao interpor degraus hidraulicamente móveis para que os barcos possam, por exemplo, ascender a um novo plano tão logo a água preencha o reservatório da eclusa e os transporte ainda uma vez ao curso regular do rio. Rubashov, teórico e prático do socialismo, bem sabe que o ímpeto revolucionário não se dissemina de forma homogênea entre as classes e os membros da sociedade. A história nos ensina que sempre tende a haver a vanguarda, para cujos membros pouco numerosos o novo — ou melhor, a possibilidade do novo — se apresenta como uma aceleração do tempo presente que já lhes parece anacrônico, como a grande contingência de transformação para levar a história a um novo patamar. Tais homens cruzam o rio a nado a despeito da presença de eclusas. Mas a história também nos ensina que as massas — esse ente amorfo a quem o messianismo atribuiu o papel de sujeito revolucionário para a ruptura dos aguilhões da opressão — encontram-se em forte descompasso em relação ao vanguardismo dos “efetivos” revolucionários. As massas podem vir a ser revolucionárias, caso sejam devidamente incitadas a tanto, caso suas tendências de inércia social, reprodução da hierarquia e da tradição e descaracterização individual dos membros que as constituem em prol de um todo manipulável não se transformem em um verdadeiro aríete para o reacionarismo. Mas como fazer para que haja sintonia e sincronia entre os auspícios da vanguarda e a inércia das massas? (Não nos esqueçamos de que a pergunta de Rubashov é formulada à iminência de ser suicidada pela utopia revertida em cadafalso.)

A lição trágica legada pelo socialismo real disseca o ímpeto de arregimentar o movimento da história em uma planilha lógico-matemática com a vistas à implementação da utopia por planos qüinqüenais como o motor que, em contraste com as contradições encarniçadas da realidade, acaba subvertendo a democracia em autocracia, os sovietes em ditadura do Partido, os movimentos sociais em réus, a presunção de inocência em autoconfissão forjada. Rubashov entrevê que a aceleração do sentido revolucionário das massas dependeria da percepção coletivamente compartilhada de que já é possível chegar a um novo patamar do rio, de que determinado nível da eclusa já se mostra obsoleto. Para tanto, o outrora político revolucionário chega à conclusão escatológica de que a Realpolitik maquiavélica que vem regendo a história deve ser superada pela lógica do Sermão da Montanha de Cristo como a abnegação mais irrestrita por parte da vanguarda que tem como fim redimir a humanidade. Que os revolucionários abram mão de si mesmos, que vistam capuchinhos, que vivam para os demais, que mostrem a todos que só é possível governar sem culpa se as decisões pelo destino de todos forem tomadas justamente por todos. Só assim as massas romperiam a lógica do todo autoritário que veria o Führer como resultante vetorial de seus auspícios para se tornarem conscientes sobre si mesmas, para fundarem Utópolis. Mas, então, estaríamos diante de uma revolução material atrelada a uma profunda transvaloração moral — quiçá o maior fator de contingência para a fundação da utopia. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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