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Utopia sitiada

A alma do homem sob o socialismo: quando pensamos no título do ensaio de Oscar Wilde (1854-1900) à luz dos expurgos stalinistas, dos massacres de Pol Pot e da revolução cultural de Mao Tsé-Tung, a preposição sob assume um caráter trágico que, ao invés de emancipar os homens e mulheres com uma nova forma de metabolismo social, oprime a alma sob o punho do socialismo.

Diante da derrocada histórica da utopia, os resignados são rapidamente arregimentados pela Realpolitik maquiavélica. A alma do homem, que antes parecia plástica, agora se lhes apresenta como imutável – e sórdida. O máximo que se poderia almejar seria uma democracia de mercado – tal contradição nos termos é aceita pelos não-mais-vermelhos como um mal menor –, de modo a regular, com o máximo (ou pior, o mínimo) de liberdade o ímpeto egoísta da guerra de todos contra todos. As categorias do capital são convertidas em natureza humana. E mais: tais ex-revolucionários mostram a que ponto foram forjados pelo darwinismo social, pois aquilo que pôde suplantá-los é precisamente o que deveria ter acontecido. O que venceu é o melhor, o mais adaptado – o verdadeiro. Há algumas décadas eles discorriam sobre a contingência histórica, sobre a possibilidade de intervenção dos homens e mulheres nos processos objetivos. Agora, o que é é e não poderia deixar de ser assim. O real torna-se um fetiche; ainda uma vez, a história e suas contradições subvertem o conceito: o real desvela sua vinculação com o rei, com o poder que deve prevalecer. Tudo o mais apresenta-se como voluntarismo ingênuo e kamikaze. É como se já não houvesse o que fazer quando Che Guevara torna-se a estampa do biquíni de Gisele Bündchen: o mote revolucionário é capitalizado como slogan de uma marca de preservativos. De fato, Che, hay que endurecerse.

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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