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O suicídio como barricada

Madri, dezembro de 2012. Da Puerta del Sol, o coração da capital espanhola, despontam vielas como as raias de uma estrela. Sigo pela callecita cujo sentido se abre a partir de uma livraria. 

Lá reencontro o escritor húngaro Sándor Márai (1900-1989) e os diários de seus últimos seis anos (Diarios 1984-1989. Barcelona: Salamandra, 2008). Diálogos com a velhice, análises literárias, leituras, diatribes políticas, fragmentos de narrativas, aforismos – angústias.

“Para mim é uma espécie de surpresa haver chegado ao Ano Novo. Praticamente nenhum dos escritores que foram meus contemporâneos ainda vive. E a literatura de que eu fazia parte também está morrendo. Sou um espantalho, uma ruína destinada às estantes de um museu, um inseto coagulado em âmbar” (Diarios, p. 82).

O niilismo e o paradoxo: como viver, efetivamente, sem a projeção de um sentido? O niilismo pleno – contradição nos termos que a angústia transforma em adaga – sentencia que seguir vivendo é ser acossado pela mera sobrevivência, é seguir respirando em vã contraposição à asfixia que um dia virá.

A Vladimir e Estragon, as personagens beckettianas de Esperando Godot, já não resta sequer o cenário da peça. Uma árvore nanica, retorcida e esturricada – a aridez europeia de nosso cerrado – faz as vezes de resquício. Vladimir – ou seria Estragon? – é um saco de ossos. A aridez ceifa as palavras, eles mal conseguem articular frases. Mas Estragon – ou seria Vladimir? – suplica ao outro que não o deixe só. O niilista contumaz diria que Vladimir e Estragon, no limite, sequer suportam a companhia de si mesmos. Mas, ora, tal niilista não consegue vivenciar nada para além de seu vale de misérias. E se, em meio à redução ao absurdo narrada por Samuel Beckett, o silêncio desértico de Vladimir e Estragon se deparar com os estilhaços de um eu que só existe – e só quer existir – como nós?

Lola foi a companheira de Sándor Márai por mais de 60 anos. Juntos eles deambularam por toda a Europa. Peregrinações artísticas: Roma, Florença, Veneza – a Meca dos escritores, Paris. Montmartre e seus cafés repletos de literatos e cigarros – como se a fumaça lânguida encarnasse a onipresença da imaginação, os volteios das personagens, uma existência etérea que paira sobre as mesas e se liquefaz pela tinta das frases. (Eu sempre pressenti a revolta da imaginação ao ser arregimentada pela frase horizontal; os versos chegam a estilhaçar tal captura, mas a sensação do leitor diante da torrente de uma estória via de regra o faz levantar-se da cadeira ou da cama e sentir a cavalaria da imaginação como o coração que irrompe contra o esterno. Assim como a fumaça dos cigarros literatos, a imaginação só aceita a linearidade das frases e das páginas como uma crisálida temporária até que o leitor a faça alçar voo.)

Quando Márai caminha pelas memórias de Budapeste, Lola parece espreitar pelas janelas entreabertas. Ela tenta patinar sobre o Danúbio no inverno, o estalido da folha outonal a faz sorrir, ali eu morava com a minha família antes da Primeira Guerra, Lola, aqui, neste quarteirão que pouco depois seria minado pelos nazistas – ou teriam sido os soviéticos? –, aqui eu consigo resvalar a memória ao fechar os olhos.

A contemporaneidade repleta de relações vãs e retráteis mal sabe sentir a cisão de uma despedida. Apenas conseguimos (nos) despir. A despedida pressupõe o aceno junto ao porto – como se a mão trêmula, qual uma âncora, pudesse estancar a distância a bordo. A despedida pressupõe a abertura da arca de silêncios do casal: você bem sabe que, ao dizer a ela eu te amo, já não é possível revogar a intensidade. Eu te amo nos alça à euforia da reciprocidade, mas também carrega o fardo de um decreto. Eu te amo pressupõe que já não é possível deixar de te amar, Lola. Eu te amo, então, pressupõe a despedida.

A madrilenha Puerta del Sol me conduz à Ciudad Invisible, uma taverna cuja meia-luz regada a vinho amadeirado me faz vivenciar os aforismos dos diários de Márai. O húngaro narra sua literatura como uma missão. No ápice da maturidade literária, Sándor se via tão imerso em sua realidade ficcional que, efetivamente, auscultava as obras dentro de si. O ato da escrita se transformava, assim, no cume superficial da montanha cuja verdadeira imensidão (não) se vê submersa pelo mar. As palavras apenas desembocavam a vida anímica que Márai transbordava.

“Maio. Movimento silencioso. Assim se deve trabalhar, em sigilo, calado como a mãe terna” (Diarios, p. 39).

Em seus Écrits sur la littérature (Escritos sobre literatura), o bom e velho Charles Baudelaire já falava sobre a onipresença narrativa no escritor. O tique do amigo é o trejeito da personagem; sulcos no rosto, nódoas no dorso das mãos, cantos da boca em meia-lua, as partes são os soslaios do todo; a sombra trêmula está para o andarilho, assim como o fiel escudeiro Sancho está para o cavaleiro de La Mancha. O escritor está tomando banho – o esfregão da bucha lembra a ardência de uma réplica, o silêncio doloroso de uma personagem que precisa se transformar na descrição de um olhar. (Os olhos cabisbaixos se ajoelham como escravos, eles temem ser fulminados pelo juízo do senhor, mas a esquiva como que procura resguardar o último veio de dignidade, como se a prostração também pudesse acalentar a altivez.)

Ao auscultar suas estórias, Márai tornava-se o médium de sua obra.

Súbito, espreito ao redor. Os habitantes efêmeros da Ciudad Invisible conversam e brindam a não mais poder, deslizo a mão pela mesa rústica, as rugosidades da madeira desvelam as idas e vindas dos instrumentos do artesão, apóio o queixo sobre a palma da mão direita, o vinho cerra meus olhos, o vinho irrompe pelos ouvidos – primeiro eu ouço aquele ruído agudo que lembra uma agulha a furar o tímpano, depois a audição se amplia com ondas circulares que tudo captam e resvalam. A Ciudad Invisible me leva a San Diego, na Califórnia, onde eu tento discernir, em meio à imensidão monótona e insciente do mar, as cinzas de Lola e Márai.

O burguês Sándor Márai abandonou a Hungria definitivamente quando se deu conta de que o país viraria um apêndice de Stálin após a Segunda Guerra Mundial. A Guerra Fria o levou aos Estados Unidos. Márai jamais deixou de escrever em húngaro, mas dizia que apenas a queda da Cortina de Ferro o faria voltar a Budapeste. (O escritor viria a se matar em 1989, mesmo ano da queda do Muro de Berlim.)

“Começou o bombardeio a Budapeste; no último dia do sítio minha casa sofreu trinta e seis canhonaços e explosões de bombas; resultado: destruição completa. A metade da minha vida ruiu ali. Então começou o segundo round: a peregrinação através de vários continentes. Hoje faz quarenta anos que foi destruído o eu que fui e que tomou forma este outro eu que sou na atualidade. O mesmo que agora desmorona” (Diarios, p. 36).

Os diários derradeiros de Márai descrevem a decrepitude de Lola. A senilidade galopante e implacável. Quem já acompanhou os estertores de um moribundo conhece a mescla contraditória de compaixão e impotência, desespero e náusea, aflição e raiva. Queremos que o outro deixe de sofrer ou não mais queremos sofrer? Queremos que o outro deixe de sofrer e não mais queremos sofrer. (E quando o moribundo não mais sofre, aí é que passamos a sofrer sem solução.) O prolongamento da doença nos arrasta como um trem vagaroso já abandonado pelo maquinista – a locomotiva segue inercialmente, até que o atrito dos trilhos a faça parar. Sentimos pavor do rangido final do trem, o corpo se confunde com a ferrugem, a pele mescla cores – o branco pálido, o verde venoso, o roxo-amarelado dos hematomas. Os olhos são os seres mais sensíveis à evacuação da vida. Enquanto podem, os olhos transbordam, as íris se sentem redivivas com o naufrágio das lágrimas. Mas a drenagem da vida torna os olhos fundos e áridos, as venículas vermelhas irrompem, as escleróticas ganham contornos amarelos, as pálpebras murcham. Os olhos esbugalhados tentam se aferrar aos últimos espasmos de vida.

As bodas de diamante de Márai velaram os últimos meses de Lola.

“A fúria. Nada de compadecer-se, de meditar. Apenas a fúria. Lola morreu. Sinto-me enfurecido com médico, porque não pôde ajudá-la. Enfurecido com Deus (se existe), porque tampouco a assistiu; enfurecido com Deus (se não existe, porque não existe quando sua intervenção é necessária. Enfurecido com as pessoas, porque não a ajudaram. Enfurecido comigo mesmo, porque não fui capaz de fazer algo mais. Enfurecido com Lola, porque ela morreu” (Diarios, p. 144).

Como será viver mutilado?

− Lola, leia a nova versão de Libertação; Erzsébet só ganhará vida entre os escombros de Buda e Peste se você conseguir resgatá-la, meu amor.           

Como será esse silêncio?

“Creio que ocorreu uma mudança: passei da preocupação, da inquietude e do sofrimento confuso a certa paz incompreensível; como se houvesse compreendido o horrível e inclemente caos da vida. Não acuso Deus nem os homens, não acuso ninguém. Não espero nada. Aceitei o que aconteceu... Aceitei a crueldade. Em ocasiões assim, uns rezam, outros maldizem, e também há aqueles que se calam – são os que guardam tudo em suas entranhas. Não decidi assim, aconteceu assim. É a maior tragédia pessoal que me ocorreu na vida, e devo aceitá-la simplesmente, não de modo fatalista, mas sem julgar, sem protestar. É o fim, algo pior que qualquer destruição repentina” (Diarios, p. 125). 

Só resta a Márai perguntar à sua verdade ficcional.

Erzsébet está próxima de mim na Ciudad Invisible. Ela acaba de pedir uma sangria.

− Não tenho muito a lhe dizer, a guerra amputou minha vida. Você vai a Budapeste?

Digo-lhe que sim.

− Imagine, então, o vasto Danúbio como uma barricada a cindir Buda de Peste. Os húngaros esperávamos pela Libertação – o jugo nazista estava para terminar, mas nós não sabíamos o que esperar do Exército Vermelho. As rajadas a esmo nos transformaram em homens e mulheres do subsolo. Caminhar significava esgueirar-se. A guerra nos quer répteis. Eu precisava proteger meu pai. Toda a minha estória narra a tentativa de removê-lo de um esconderijo para outro, na mesma rua, para que os nazistas e seus asseclas não o fuzilassem – meu pai era um importante cientista que jamais proclamou, publicamente, a adesão à Hungria satélite de Hitler. Acaso você sabe o que é perder a dimensão da sucessão dos dias? Não, você não sabe, você não pode saber. Por mais estúpida que a terça-feira possa parecer, nós a vivemos como uma decorrência da segunda. A guerra implode o tempo, o espaço, a causalidade e as causas. A monotonia dos escombros. Nossas percepções se veem amorfas, cinzentas e fuliginosas. “O dia absorvia a noite como no tempo das grandes doenças: não se discriminavam mais os períodos do dia, nem os acontecimentos vividos pelos moradores do porão. Tudo se fundia, o tempo, o dia, a escuridão densa e viscosa. Também os rostos. Erzsébet vivia vagarosamente no ambiente denso e grudento, como os animais que hibernam: vivia com o metabolismo adormecido, com os batimentos e a respiração contidos” (Libertação, p. 58). Apenas o absolutamente imponderável volta a nos lembrar de que há sobrevida para além do bunker. O assalto inusitado, o tiroteio abrupto, a surdez da explosão, a contumácia do estupro. Eu sou valiosa para a soldadesca. A violação do meu corpo é a última sentinela a resguardar meu pai, minha única moeda de troca.

“A guerra estava lá, bem perto, ardia nas esquinas dos quarteirões; e levou tempo para que os moradores dos porões aprendessem que a guerra media o território e o tempo diferentemente da paz. Agora aprenderam a dura lição na própria pele, aprenderam que a dimensão da guerra não abrangia, de um modo particular, apenas regiões da Terra e países, mas também a realidade mais imediata. A guerra estava lá, ouviam-se seus sibilos, sentia-se o hálito quente, viciado, ela estava lá, bem perto, na rua vizinha ou três ruas adiante... e, ao mesmo tempo, não estava. Todos espreitavam a escuridão, com o olhar parado, os ouvidos zumbindo, como um animal selvagem quando sente a aproximação do caçador. No entanto, o caçador não se mexe. E a espera decorrente da imobilidade talvez seja pior que tudo. A guerra usava botas de sete palmos de terra, atravessava os Cárpatos, chegava apressada da Normandia ou do Volga – mas na rua vizinha ela de repente estancava. O que fazia? Reunia forças? Só alguns metros de distância separavam os sitiados do instante em que a guerra entraria no porão – e os poucos metros pareciam a mesma distância que no ano anterior, mil quilômetros. Instalou-se uma espera surda e paralisada, impotente, durante dias” (Libertação, pp. 56-57).

Após ler Libertação (São Paulo: Companhia das Letras, 2009), meu sonho sem janelas pôde entender Erzsébet. A libertação ambígua de Budapeste faz a capital rasgada pelo Danúbio passar do fascismo de direita para o fascismo de esquerda. Saem os nazistas, chegam os tanques de Stálin. Quem chega a Budapeste de avião tem o privilégio de vislumbrar a Ilha Margarida cercada pelo Danúbio. Fecho os olhos e vejo Margarida fumegando. A Ponte das Correntes, pênsil e flutuante, parece a terceira margem do Danúbio. As placas do rio congelado deixam entrever, aqui e ali, cadáveres tão pálidos quanto a neve. Vou caminhando, descalço, e as metamorfoses da minha pele me apresentam o reverso do camaleão – ele se confunde com o arco-íris para sobreviver, minha policromia prenuncia a transição do cadáver: vermelho, roxo, negro e branco. Ausência branca. Silêncio pálido. Ali, ali está a Avenida Andrássy, ali estávamos na Casa do Terror, o bunker das torturas com a foice e o martelo.

O poder transforma o corpo em resultante vetorial.

O Museu do Terror, sede da antiga polícia política húngara sob o punho da URSS. Infelizmente, o museu estava fechado para reforma, então fiquei observando as fotos das vítimas do movimento que os húngaros viriam a chamar de Revolução de 1956, a contraposição nacional ao domínio soviético que se instaurou após a Segunda Guerra – as fotos ficam expostas na fachada do museu, como feridas que não querem cicatrizar. A Hungria passou a se rebelar contra o socialismo de fachada e de migalhas, e antes da chegada dos blindados de Moscou, a população de Budapeste chegou a tomar a capital e proclamou, utopicamente, a constituição de um novo governo. Com esse panorama histórico ao alcance da memória e das luvas – fazia muito frio na Budapeste invernal –, duas húngaras notaram que eu claudicava para tentar pronunciar os nomes dos heróis da resistência. Começamos, então, a conversar, e logo vi o pesar tomando conta de seus semblantes como se a memória jamais deixasse de se esgueirar pelos escombros do tempo. Eis que Réka, cujo tio-avô havia sido morto na rebelião, sentencia:

− Se os Estados Unidos soubessem que a União Soviética mandaria tanques para a Hungria, eles teriam intervindo!

Áncsi, amiga de Réka, tenta consolá-la pousando a mão côncava sobre seu ombro, mas não deixa de contrariar a observação de Réka revelando para a amiga o maquiavelismo da lei das determinações objetivas da história:

− Ora, Réka, e você acha mesmo que os americanos não sabiam que os russos iam mandar tanques para cá? É tudo feito conforme os ditames da máfia: dividir para reinar. Tio Sam ali, os russos aqui, e os húngaros como uma das fatias do bolo.

A guerra mutila as pontes, as ligações entre as margens da memória.

“A serenidade de Lola é uma faceta da beleza, incomparável. Esse rosto carece de tudo o que durante a vida vai esculpindo e transformando a face: sentimentos, desejos, desilusões. Seus traços, seu rosto familiar, tão querido e único, se foi apagando e enobrecendo, como apenas pode acontecer à iminência da morte, quando ainda resta um veio de vida sob a máscara, ainda que a personalidade já não viva; só resta o corpo purificado pelo destino. Como uma estátua. Esse rosto ainda se abre para a vida, ainda que se tenha desvencilhado de todo o supérfluo para resplandecer unicamente a calma final e a realidade pura” (Diarios, p. 125).

Consta que o russo Liev Tolstói, quando criança, tinha medo de olhar abruptamente para trás.

− E se o mundo ainda não estiver pronto antes da aterrissagem do meu olhar?

“Naquela noite, a maioria das pontes estava de pé. O imenso vulto gracioso, a Ponte das Correntes, a passagem diária da infância e da juventude de Erzsébet, a massa leve que flutuava sobre a grande extensão de água, com as gaivotas sobrevoando os pilares, abraçava e continha, com braços fortes e familiares, sua carga leve, a apressada Erzsébet. Ela correu ao longo da ponte. Por toda parte, sentinelas; das correntes pendiam em grande quantidade caixas de explosivos. Era como se Erzsébet soubesse que passava pela última vez pela calçada conhecida da ponte” (Libertação, p. 20).

Consta que o russo Liev Tolstói, após a guerra, passou a ter medo de olhar abruptamente para trás.

− E se o mundo já não estiver pronto antes da aterrissagem do meu olhar? 

“À direita, Erzsébet viu as ruínas da Ponte Margarida; a cabeça da ponte enferrujada de Budapeste parecia o cotovelo de um animal terrível de tempos antigos mergulhando no velho rio, o Danúbio, ou um gigante ajoelhado, ferido por um caçador impiedoso. O grande adereço da margem direita, o castelo real, os ministérios e, à esquerda, o Parlamento, tudo o que era história em pedra, símbolos orgulhosos, ainda estava no lugar” (Libertação, p. 20).

Márai hesitava em sobreviver à decrepitude de Lola. Mas o húngaro logo passou a auscultar as investidas de uma nova personagem:

− Muito prazer, meu nome é Sándor Alzheimer.

− Quem?

− Quem?!

Márai já não se lembra. (E se o pronto ainda não for mundo antes e depois da derrocada do meu olhar?)

Poderia o suicídio comportar uma dimensão antiniilista por excelência?

Márai não queria a insciência do reino vegetal.

Márai queria reencontrar Lola.

Márai ainda queria.

A última página do diário de Márai decreta o “já não é mais possível”. Ele pede que suas cinzas sejam aspergidas pelo Pacífico – o mesmo destino lábil que poucos meses antes recebera Lola com sua indiferença oceânica.

“Às margens do oceano, sob um céu plúmbeo que prenuncia um temporal, contemplo uma velha gaivota que, imóvel, observa a costa: sentinela do infinito, bico duro e pontiagudo a cortar o ar como um punhal” (Diarios, p. 58).

“Já não é mais possível”: a vida se esturricou em face do ímpeto de Márai.

A vontade precisava de uma nova crisálida.

“Dois momentos míticos da existência: quando no óvulo fecundado a vida começa a se manifestar, irrompe essa energia terrível e inatingível, e quando essa mesma energia deixa de ativar as células, torna-se testemunha essa outra força terrível e inatingível, a morte” (Diarios, p. 154).

Márai ainda queria.

“Todas as noites, leio algumas linhas de Marco Aurélio. Parece-me demasiadamente cômoda a estóica resignação diante da fatalidade. Trata-se de uma postura bela e nobre, mas me sinto mais próximo de Fausto, cujo pathos não se conforma e se obstina em pergunta e perguntar e perguntar” (Diarios, p. 65).

Eis o suicídio como barricada. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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