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O sentido como cicatriz

Piazza della Signoria, Florença, janeiro de 2013. À minha direita, Davi, a sentinela de Michelangelo, resguarda a Galleria degli Uffizi. (Chega o meu cappuccino.) À minha esquerda, una bella e triste ragazza.

Será mesmo italiana? Por que estaria triste? A franja resvala a taça. Ela gira o vinho lentamente, o indicador e o polegar soerguem o pescoço da taça com a fragilidade de quem teme partir um graveto. O olhar vidrado e ausente – eis o paradoxo da melancolia – é resgatado de sua deriva por um leve gemido: qual uma gangorra, a taça gira sobre o eixo do dedo trêmulo e o vinho tinge a toalha branca com o ímpeto da cavalaria. O incidente faz Michaela – não seria Brigitte? – enrubescer. Um batalhão de garçons solícitos se prontifica a ajudá-la, guardanapos e mais guardanapos, mas Melanie – ou talvez Penélope – atraca a testa breve junto à palma da mão e começa a chorar. Os garçons recuam, os soluços e gemidozinhos vão regendo a distância, até que um grito agudo consegue transpor a fronteira burguesa da intimidade. Scarlett se debruça sobre a mesa – as mãos revolvem os cabelos – e passa a chorar copiosamente.

Olho ao redor: nua, a fragilidade atrai o burburinho para si – soslaios de reprovação, comiserações de canto de boca. Por um breve momento, a indiferença e o alheamento parecem suspensos. O incômodo faz com que o outro volte a existir, o mesmo incômodo que procura nos ilhar em nossa solidão socialmente compartilhada – eis o paradoxo da misantropia burguesa. Ora, logo Hannah se dá conta de que ninguém pode consolá-la – ela talvez pressinta que a verdade também é cabisbaixa, mas somos impelidos a nos esgueirar para o subsolo da vergonha para que ninguém saiba, ou pior, para que ninguém nos veja doer.

Dói, logo existo.

Não, eu não posso aceitar que seja assim, vou até Aglaia e, com o tato do mensageiro, pouso a mão sobre seu ombro. Aos poucos, o rosto desponta por entre os cabelos como uma presa trêmula a se certificar de que o além da toca já não oferece tantos riscos. Ela me mira com uma mescla de curiosidade e exasperação – sou um intruso e um salvador, não necessariamente nessa ordem. Sofia já mostra inquietação, ela quer me ouvir, Agnês já escava o silêncio do que há para dizer. Puxo a cadeira – Natasha não diz nada, então posso me sentar. Súbito, Michaela, Brigitte, Melanie, Penélope, Scarlett, Hannah, Aglaia, Sofia, Agnês e Natasha esperam a minha voz – um consolo, uma pergunta, a sentença.

Que fazer?

O aforista vê diante de si a miríade do mundo – as frestas do real, as nuances de um sorriso de soslaio, a reiteração das supostas contingências como os escombros dispersos do todo que se partiu. O escritor, arquiteto da vida danificada, recolhe os estilhaços da memória, entrevê as contiguidades daqueles que se distanciam, desvela as fissuras sob o acalento.

− Margarita, olhemos ao redor. Ali, ao fundo: que dizer daquele casal em silêncio? Os cafés entrepostos sobre a mesa parecem cindir fronteiras entre os dois. Eles não conseguem admitir, eles ainda não querem confessar, mas apenas dão sobrevida à relação que hoje sequer agoniza. Cada um se volta para um lado – e não apenas para que os olhares não se encontrem; eles buscam os vestígios do que já foram, como se ela e ele pudessem se reconhecer onde já não mais estão. A torção do tempo, o consolo da memória que, ainda assim, deve calçar luvas para afagar. Agora veja aquele senhor ensimesmado que relegou o livro junto à bengala – está vendo? (Fernanda meneia a cabeça leve e verticalmente.) Na mesa ao lado, aquela senhora nem mesmo faz menção de tomar o chá. Eles não trocaram um único olhar – já não se haviam cumprimentado quando a senhora se sentou próxima. O senhor Schwarz e a senhora Dunkel já não anseiam. Os apartamentos os expelem, eles já não sentem dor – eles não sentem nada. Poderiam conversar um com o outro? Talvez já tenham ensaiado um diálogo, mas o acordo tácito prevaleceu: não há mais por quê.

As lágrimas de Susan já haviam secado; alguns fios de cabelo se entrelaçam ao rosto como os trajetos errantes das plantas que se apoderam de um muro. Ela me olha como se eu fosse um beduíno ao longe; olhar difuso – e à procura.

– Olhe ao redor, Mila: se a dor existe, você ainda lateja. Sofrer por algo não implica apenas ressentir. Você ainda lateja, deseja mais, deseja além. Olhe ao redor, Laura: não se trata de perguntar por que você está triste. Não. A pergunta é: por que você não estaria triste?

Imaginemos que Michaela, Brigitte, Melanie, Penélope, Scarlett, Hannah, Aglaia, Sofia, Agnês, Natasha, Margarita, Fernanda, Susan, Mila e Laura sejam efetivamente sinceras consigo mesmas. Sendo assim, o que elas poderiam contrapor à inundação paulatina da melancolia?

O escritor dificilmente é alguém reconciliado com o real. Há vários tipos, é bem verdade, mas a realidade ficcional se lhe insinua como um enclave, um encouraçado, uma barricada. A sensação de saciedade lhe é estranha. Narrar implica movimento, jogar pedras contra a água estancada do charco e do lago para que círculos concêntricos revolvam o que está atracado. Para o escritor, o relato singular pertence ao antiquário. Ele entrevê contiguidades entre a caixinha de música e o assovio ritmado; um livro amarelado e o cheiro da mobília; o pó e a invasão furtiva da luz; cortinas trêmulas e janelas trincadas; porta-retratos e altares. Para o escritor, o único deita raízes, compartilha a sede, irradia os galhos em direção à luz. A literatura, assim, compõe a rede de nossas mediações. Somos os nós, os feixes. Apenas aparentemente nossos corpos estão separados.

A narrativa desdobra o que o aforismo coagula. A narrativa está para a vida, assim como o aforismo está para a lápide.

Em São Paulo, entre as ruas Cardeal Arcoverde e Luís Murat, há um cemitério. Certa vez, antes de uma reunião marcada para as 15h, resolvi percorrer as alamedas. Eram 14h15. Jazigos são como livros. Flores, velas e lápides são narradores. Aqui está uma capelinha com a porta entreaberta. Encontro um pedaço de uma possível carta. Resta, discernível, a palavra perdão. Adiante, um túmulo-cena. Uma ampla mesa de bronze ao redor da qual se sentam os membros já falecidos da família. Os pais, os avós e um dos filhos. A escultura de um domingo eterno. Almoço. A esposa serve o marido com vinho. A vó acaricia o neto. O avô olha para a mão repleta de nódoas. Há uma cadeira vazia. (Então alguém ainda vive.) Sobre a mesa, um livro de Fernando Pessoa. Uma única sentença:

O mundo não é verdadeiro, mas é real.

            Dentre essa família, quem de fato poderia entender Pessoa?

            A mãe que serve o vinho deve ter espírito prático. O mundo é uma tarefa, uma consecução.

            A embriaguez do pai lhe expande os sentidos, é bem verdade, mas a fronteira com o entorpecimento é muito tênue.

            A vó e o neto olham um para o outro – felicidade de bronze.

            Resta o avô a olhar as rastros do tempo contra as costas de sua mão. Por que ele não participa da comunhão? Por que se põe à parte? Ele me parece o único ali capaz de entender contra o próprio o corpo que a conjunção adversativa de Pessoa comporta a dubiedade da encruzilhada.

            O mundo não é verdadeiro: choro e ranger de dentes, o desterro da transcendência, o sentido como mero ressentimento. Mas é real! “De pé, ó vítimas da fome! De pé, famélicos da terra!” A morte de Deus transforma-se em sucedâneo para a vida como vontade e representação. “Estamos aqui, somos reais, ainda somos!”

            O mundo não é verdadeiro: choro e ranger de dentes, o desterro da transcendência, o sentido como mero ressentimento. Mas é real... E ainda por cima é real, é perecível, é fugaz, é volúvel, é vão. “Estamos aqui, somos reais, por ora...”

            O avô participa do almoço, sim. E também participa ao escapar. A morte não nos torna refugiados de nós mesmos?

            O aforista sente a vida decantar em sua sensibilidade. Por meio de sua sensibilidade. Nada é fortuito.

            Sobrancelhas arqueadas, um suspiro de despeito, o canto da boca levemente suspenso, uma colocação ao léu. A escavação de nossas experiências transforma a arqueologia em comunhão literária.

            Em São Petersburgo, na livraria Dom Knigui (Casa dos Livros) da Avenida Niévski – a mesma Niévski das desventuras do homem do subsolo dostoievskiano –, me deparo com um livreto de aforismos de Samuel Clemens, também conhecido como Mark Twain. Edição bilíngue. Nas páginas à esquerda, Mark Twainovitch; à direita, os originais.

            Súbito, São Petersburgo me teletransporta ao Cemitério São Paulo:

Time is the best teacher; unfortunately, it kills all its students.

(O tempo é o melhor professor; infelizmente, ele mata todos os alunos.)

            O tempo empilha e contrapõe experiências.

            Se o tempo do luto nos rasga, a distância do tempo cicatriza.

            Ainda que conheçamos o tempo, o tempo nos reconhece?

            Tenho um altar na minha sala feito com a máquina de costura da minha vó – não nos abraçamos desde 1996. As cinzas do meu pai descansam ao lado do meu aniversário de 20 anos. Novembro de 2001. Há quatro pessoas na foto. Da esquerda para a direita: meu pai, minha irmã, eu e minha mãe. Abraço minha irmã e minha mãe. Meu pai abraça minha irmã, mas ele está mais distanciado de nós. Meu pai foi o primeiro que a morte ceifou. Abraço minha irmã e minha mãe. Minha mãe me abraça, mas ela está mais distanciada de nós. A morte já se lembrou da minha mãe. Morte à esquerda, morte à direita: há alguma lógica para a marcha fúnebre? Meu pai à esquerda, minha mãe à direita, minha irmã à esquerda e eu?

            A quem devemos perguntar? Ao tempo?

            Pergunta: O que é o tempo?

            Resposta: Meu corpo.

            Pergunta: O que é o corpo?

            Resposta: Meu tempo.

            Agostinho de Hipona dizia saber o que é o tempo.

            − Pois então, meu caro, diga-nos, o que é o tempo?

            Assim falou Santo Agostinho:

            − Bom, bem, enquanto não me perguntam o que é o tempo, eu bem sei o que ele é. Mas, quando me pedem para defini-lo, eu já não sei dizer.

            Há alguns anos, em um bar na rua Cônego Eugênio Leite, em São Paulo, conversávamos dois amigos e eu. Na verdade, André e Mateus conversavam. Eu procurava imaginar as decorrências daquela discussão.

            Assim falou o antropólogo André:

− É impossível dimensionar o novo sem traumas. Sempre que passamos por uma crise, a dor e a confusão decorrem da falta de estrutura lógica e tradicionalmente configurada para lidarmos com uma situação inusitada que, na verdade, desafia a acomodação das nossas percepções. Assim, o trauma é uma ruptura que, inclusive, pode nos levar além. Ele não apenas redimensiona nossas vivências como a leva a novas perspectivas. O novo, então, é a troca de pele da cobra, a borboleta que alça voo sobre a carcaça da lagarta. Viver significa claudicar, porque toda cura pressupõe cicatrizes.

O físico Mateus cofia o cavanhaque inexistente para então redarguir:

− Aceito que o novo precise de traumas e fraturas para vir à tona. Só não aceito que o novo esteja inequivocamente relacionado ao velho. Que haja ligações com o que é costumeiro, bom, isso não se discute. Mas e se o novo estiver ainda mais vinculado com o que é radicalmente novo?

André e eu:

− Como assim, Mateus?

− Vocês estão vendo esta formiga aqui? Bom, agora ela tá nadando na cerveja que vocês, hereges!, desperdiçaram sobre a mesa. Mas imaginem que esta formiguinha aqui, meus velhos, estivesse subindo a perna da nossa mesa. Pois bem: para ela, o real só possui um plano, o real existe para a formiga como sucessão contínua da realidade, como real que se constitui a cada passo, como real que se esfacela a cada passo – a formiga mal tem memória. Então, para a formiga, a realidade é um contínuo quarto escuro para sempre no presente. Mas agora vem o trauma dos traumas: a formiga não sabe que, depois da perna da mesa, há o tampo da mesa. E mais: a formiga não sabe que os planos da perna e do tampo da mesa são perpendiculares entre si. Assim, para a formiga, além de o mundo existir a cada passo, não há horizonte além da e em cruzamento com a reta. Para a formiga, o tampo da mesa só vai existir como completa ruptura com a perna da mesa. O cigano já não é um cigano após as formigas, velhos, e toda a teoria do nomadismo deve ser reconsiderada à luz do formigueiro. (Mateus dá um trago antes de completar.) E o tempo, para as formigas, é a continuidade descontínua. A formiga, de um instante para o outro, da esquerda para a direita, da vertical para a horizontal, pode reeditar o fluxo do tempo para si mesma.

            André rumina o formigueiro de Mateus com três belos tragos. Súbito, ele sentencia:

            − A questão é que a formiga não tem a coragem do escorpião.

            Mateus e eu:

            − Como assim, André?

            − Imaginem um círculo de fogo em cujo centro gira um escorpião que não vê qualquer escapatória. Para a formiga, girar em círculo significa, a cada instante, driblar o círculo de fogo, ainda que o círculo de fogo e a morte iminente se imponham sem mais. Para o escorpião, não há a ruptura do radicalmente novo. Para ele, há continuidade entre o instante anterior e o seguinte, há continuidade no desespero. Para o escorpião, não há saída. É por isso que ele iça o ferrão e inocula o veneno no próprio corpo. A resposta é que a formiga não tem a coragem do escorpião.

            André e Mateus moldaram o tempo com a fábula da formiga e do escorpião.

            Mas a pergunta persiste, já que ainda respiramos:

            − O que é o tempo?

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz”. (Eclesiastes, 3, 1-8)

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento sobre a terra: tempo para estrebuchar, e tempo para morrer; tempo para salgar o solo, e tempo para arrancar o que mal foi plantado; tempo para matar, e tempo para não cicatrizar; tempo para demolir, e tempo para soterrar; tempo para chorar, e tempo para ranger os dentes; tempo para gemer, e tempo para desmaiar; tempo para atirar pedras, e tempo para relegá-las; tempo para se amontoar, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perseguir; tempo para escoltar, e tempo para condenar; tempo para rasgar, e tempo para suturar; tempo para calar, e tempo para ser calado; tempo para eletrizar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para os escombros.

Para o bom e velho Platão, o tempo é a imagem movente da eternidade.

Uma ampulheta que gira sobre si mesma sempre que Newton faz os grãos de areia escoarem o tempo.

            A eternidade, estática, se contraporia ao éter do tempo.

            Etéreo.

            Ao pensarmos sobre o infinito, parece que o limite faz uma curva para que delimitemos a imaginação com cercas. O espaço do puro movimento como que requer a curvatura do horizonte.

            Ao pensarmos sobre a eternidade, parece que a segmentamos com a mensuração do tempo. O eterno seria o sucessivamente sustado, o reencarnado. O tempo do puro movimento como que requer a estaca das experiências.

            Quando espaço e tempo voltam a se reunir, a finitude ganha (e vai perdendo) corpo.

            Georg Wilhelm Friedrich, também conhecido como Hegel, certa vez cavalgou a dialética do tempo:

O finito é o infinito determinado.

            76 anos seriam, então, uma passagem.

            Uma travessia.

            Conseguiríamos nos lembrar de cada uma das determinações do infinito?

            Vidas sucessivas, justapostas – contrapostas.           

Seríamos, assim, o mosaico da finitude?

Tempo como bricolagem, tempo como sentido.

Tempo, a bricolagem do sentido.

Literatura, o sentido da bricolagem.

Mas e quanto ao ressentimento? Para onde vai o tempo de quem só faz ressentir?

Como um novelo, o tempo do ressentimento se volta contra, sobre e sob si mesmo.

O ressentido é um nômade que migra, tautologicamente, pela estepe de sua falta de perdão. Ele quer coagular o tempo para re-viver o sentido que lhe escapou. O ressentido não apenas se lembra; o ressentido não se esquece.

O esquecimento está para o novo, assim como o tempo está para o perdão.

Assim, sob a expressão fazia tempo que não nos víamos se esgueira o fazia o tempo com que não nos víssemos. Até que (nos) perdoamos.

Mas por que o perdão implica a cicatriz?

Assim falou Oscar Fingal O’Flahertie Wills, também conhecido como Oscar Wilde:

“A vida brinca conosco como se fôssemos sombras, como um marionetista. Nós lhe pedimos prazer. Ela nos dá, mas a amargura e o desapontamento vêm depois. Nós encontramos em nosso caminho uma tristeza nobre que dará, é o que pensamos, a imensa dignidade da tragédia a nossos dias, mas ela se dissipa, coisas menos nobres a substituem e um dia, ante uma aurora cinza e cheia de ventania, eis que olhamos com uma surpresa endurecida, ou com um coração pesado e de pedra, a trança de cabelos salpicada de ouro que outrora havíamos adorado com tanto ardor e beijado com tanta paixão”. (Aforismos ou mensagens eternas. São Paulo: Landy, p. 65.)

Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento sobre a terra: tempo para estrebuchar, e tempo para morrer; tempo para salgar o solo, e tempo para arrancar o que mal foi plantado; tempo para matar, e tempo para não cicatrizar; tempo para demolir, e tempo para soterrar; tempo para chorar, e tempo para ranger os dentes; tempo para gemer, e tempo para desmaiar; tempo para atirar pedras, e tempo para relegá-las; tempo para se amontoar, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perseguir; tempo para escoltar, e tempo para condenar; tempo para rasgar, e tempo para suturar; tempo para calar, e tempo para ser calado; tempo para eletrizar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para os escombros.

Eis por que o tempo, o infinito determinado, implica a cicatriz:

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus: tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo para plantar, e tempo para arrancar o que foi plantado; tempo para matar, e tempo para sarar; tempo para demolir, e tempo para construir; tempo para chorar, e tempo para rir; tempo para gemer, e tempo para dançar; tempo para atirar pedras, e tempo para ajuntá-las; tempo para dar abraços, e tempo para apartar-se; tempo para procurar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo para jogar fora; tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempo para falar; tempo para amar, e tempo para odiar; tempo para a guerra, e tempo para a paz”. (Eclesiastes, 3, 1-8)

Tempo, o sentido como cicatriz. 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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