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Considerações sobre o Ensino de Filosofia e Educação em Geral

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Talvez o único ponto positivo que podemos extrair da chamada Reforma do Ensino Médio é o fato de que agora todos estamos falando sobre ele. Pois até pouco tempo atrás, esse período elementar na formação do jovem seguia esquecido e obscuro, espremido entre a educação fundamental e o ensino superior, apenas uma fase de transição. Para quem está atravessando esse período ou para os que trabalham exclusivamente com ele sabem que não é tão simples. O Ensino Médio figura numa das etapas mais decisivas da formação do indivíduo, tanto no delineamento de seu futuro profissional como também na própria fixação de alguns elementos da personalidade, isto é, a formação enquanto sujeito inserido na sociedade, a formação de uma identidade. E isso não pode ser pensado apenas como uma transição.

 

Esse não é um texto sobre a reforma do Ensino Médio, até porque pensei em fazer algo reflexivo e não agressivo. Confesso não ser capaz de discorrer sobre a proposta do governo federal sem incorrer em excessiva virulência. Mas vamos pensar algumas questões, sociais, pedagógicas e filosóficas relativas à educação que se ministra neste período, mais especificamente no campo da filosofia, afinal, como estabelecer um método que permita a docentes e dissentes trafegar no campo das ideias e afixar um modelo de aula em que a aplicabilidade se pretenda universal?

Vou começar afirmando que isso não é possível, não há uma metodologia imune ao contexto, algo universalmente válido a todas as ambiências. Acredito que uma das características mais centrais do alunado paulistano (o único que a experiência me permite discorrer) seja a heterogeneidade. Encontramos numa mesma escola, numa mesma turma, estudantes de mundos bem diferentes, com posturas distintas, de realidades sociais opostas e estruturas familiares absolutamente conflitantes. Assim, penso que cada sala estabelece um “clima” muito específico, que não se gera de modo abrupto, mas conforme vão se constituindo as relações sociais dentro da turma, de influências, hierarquias, interesses, posturas, os perfis vão se amoldando conforme os bimestres avançam. Daí devemos pensar: Temos que adequar nosso método e planejamento a essas especificidades de cada turma ou devemos forçar as salas a se ajustarem ao nosso procedimento?

Primeiro dia de aula, primeira aula no primeiro ano do Ensino Médio. Aqueles quarenta e tantos seres humanos, em sua maioria absoluta, jamais ouviram falar em filosofia. Considero essas primeiras aulas decisivas para delinear como será o seguimento do ano. Por mais heterogêneas que sejam as turmas, a postura do docente nestes primeiros movimentos vai estabelecer uma espécie de padrão que, ainda que submetido às variáveis,  norteará os trabalhos pelo resto do ano. Daí a importância seminal daquilo que conhecemos como contrato pedagógico, cada colega estabelece o seu à sua maneira, mas é fundamental deixar claro como serão ministradas as aulas, quais os procedimentos, o que será permitido e o que não será tolerado, os métodos de avaliação, as atividades que serão desenvolvidas, enfim, se o professor não deixar claro que detém o domínio da prática, que está seguro do trabalho que irá desenvolver, dificilmente poderá reger seu trabalho com propriedade.

Nestas primeiras aulas também é fundamental iniciar com o método da provocação, instigar o aluno a pensar (ou repensar) as certezas que os mantém cômodos, tirar o estudante de sua zona de conforto e incomodá-lo, mesmo que sem muita densidade, jogar alguns questionamentos esparsos para já ir amoldando, gradualmente, o caráter problematizador da filosofia, e isso, penso, deve ser feito de modo exclusivamente retórico, nas primeiras aulas a oralidade é o instrumento mais eficaz, porque conforme as provocações vão fazendo efeito, temos a chance de observar as posturas, como cada sala reage, quantos alunos participam, quantos ouvem em silêncio, quantos dormem e quantos e não manifestam o menor interesse em tudo aquilo.

Como afirma Slavoj Zizek, não podemos ter medo de palavras como “ordem” ou “disciplina”, claro que os longos anos de ditadura introjetaram no inconsciente coletivo dos círculos pensantes certa ojeriza a termos desse tipo. Entretanto, não é possível ministrar uma aula para quarenta adolescentes se não for estabelecido um padrão minimamente ordenado. Este padrão pode se dar de diversas maneiras, cada docente opera sua autoridade do modo que melhor lhe apeteça e como julga mais eficaz no contexto de cada sala. Sim. Eu concordo. Isso é necessário, se for preciso rosnar, que se rosne então, se precisar suspender, chamar os pais, trocar de lugar, trocar de sala, que seja feito! Só acho que o problema aparece quando essa autoridade sobrepuja o aspecto pedagógico, quando a ameaça, o terrorismo, a intimidação se transformam em método permanente e a manutenção da disciplina – já no sentido militar – se torna mais importante do que a aula em si, afinal, somos professores ou capatazes?

Se eu tenho trinta e oito alunos prestando atenção em mim, acompanhando e participando da aula, e vejo dois mexendo no celular no fundo da sala, devo parar a aula? Penso que a questão do autoritarismo vazio passa muito por um problema de fragilidade de ego, posso impor uma leitura de centenas de páginas aos alunos, uma leitura que provavelmente eu não fiz, posso formular provas ininteligíveis, posso ameaçar e intimidar, mas ainda que eu domine uma sala, que os faça ficar em silêncio, que os faça ter crises de ansiedade e coisas do tipo, estou realmente fazendo meu trabalho? Essa é a questão, onde insiro o conteúdo? Onde está a filosofia? Porque forçar uma leitura, mesmo que seja das apostilas, sem fornecer antes os elementos necessários à compreensão desta não configura exatamente um processo de assimilação de saberes, ao contrário, vai contra tudo que a filosofia professa, porque reproduz uma prática mecânica, viciada e contraproducente.

Não advogo a ideia de que a educação deve ser uma coisa lúdica e prazerosa, em alguns momentos talvez se torne, mas não é uma regra. Estudar não é fácil, exige concentração e esforço, é árduo, o que é prazeroso é o resultado. Quando passo dias tentando compreender o que é a fenomenologia de Husserl, seria hipócrita e pedante se afirmasse que senti prazer naquela busca, lendo pela vigésima vez o mesmo parágrafo, mas quando a ideia, aos poucos, vai se mostrando mais clara, quando percebo que meu esforço começa a dar resultado, aí eu tenho prazer, ganho fôlego pra continuar minha leitura e alcanço o prazer do conhecimento por meio do martírio do estudo e da repetição exaustiva.

Quando um aluno te revela que está começando a entender o sentido da Alegoria da Caverna, que achou fantástica a dicotomia entre inatismo e empirismo, que está repensando seus conceitos após uma aula sobre Espinosa, aí você sabe que está funcionando, que apesar de toda a densidade e esforço de abstração que foram exigidos na aula, os frutos estão sendo, aos poucos, colhidos. Tal como sugeriu Aristóteles.

Enfim, não existem metodologias milagrosas, tudo depende da percepção do docente e da ambiência estabelecida no contexto de cada sala. Reconheço que em alguns contextos, o procedimento é bastante prejudicado. Tenho salas muito difíceis, que exigem de mim uma postura bastante rígida, mas esta rigidez não pode ser o paradigma, é um meio para se alcançar um fim, o fim é a filosofia. Quanto à questão enunciada no terceiro parágrafo, creio que é possível uma mescla, podemos adequar as turmas ao nosso procedimento ao mesmo tempo em que adaptamos nossas práticas às especificidades das turmas. Essas adequações se fazem na experiência, dentro da sala de aula, não é algo mágico.

Vida longa à filosofia! E que Deus nos proteja da reforma do Ensino Médio.

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Alexandre Squara

Nasceu em São Paulo em 17 de dezembro de 1987 e passou toda a infância e adolescência no município de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Em 2007 iniciou os estudos de Filosofia e em 2009 se estabeleceu como professor de Filosofia e Sociologia na Rede Pública do Estado de São Paulo. Publicou em 2012 a coletânea de textos Caos Primordial, com 40 poemas, e, em 2014, publicou na revista Cult o poema Canto para o Sonho. Atualmente reside no bairro do Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, e publica regularmente crítica, crônica, ficção, pequenos ensaios e versos no blog Pequenas Blasfêmias.

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