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Exumação da Casa dos Mortos I - Prolegomênos

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Exumação: s.f. ato ou efeito de exumar, v.t. desenterrar; tirar da sepultura; tirar do esquecimento.

Prolegomênos

A reprodução do antigo desenho encontrado ao acaso no velho e poeirento livro na prateleira do sebo em cujos labirintos se escondiam verdadeiras raridades esquecidas e semi devoradas por insetos e minúsculos aracnídeos despertou de imediato minha atenção e curiosidade de "rato de sebo", hábito adquirido pela paixão pela leitura e também pelo preço proibitivo de livros num país onde livrarias são tão raras quanto os livros.

Parecia tratar de um cuidadoso estudo a lápis de um castelo medieval que se destacava sólido e imponente contra um fundo formado por um céu nublado;  o tal castelo se refletia de forma difusa nas águas ondulantes do que seria um rio ou lago cujo único acesso aparente se dava por uma antiga ponte em pedra de evidente arquitetura românica clássica.

Os tons se sépia e ocre sugeriam a ação do tempo, mas que, por outro lado, poderia ser apenas um recurso largamente utilizado em desenho e pintura na intenção do aspecto de antiguidade. De um modo ou de outro, meu interesse se fixava naquilo que o tal desenho representava e não sobre sua antiguidade ou não, ele irradiava uma aura de mistério que o envolvia, não era tampouco uma obra magistral de um grande mestre, pois a única referência vinha de uma sucinta legenda: "Exemplo de arquitetura secular medieval".

Não me fora difícil usar da fértil imaginação para criar uma história envolvendo aquele lugar desconhecido e misterioso, levando em conta minha personalidade de sonhador incorrigível.

Vi-me imediatamente transportado até um pequeno e esquecido vilarejo no noroeste da Espanha, região da Galícia à beira da vastidão do Atlântico, de onde partiria numa viagem mágica e repleta de aventuras e intrigas pela rica história daquele lugar imaginário,  porém real histórica e geograficamente.

Os pouco mais de dez quilômetros que separavam o lugarejo do meu ponto de arte da, a pequena Corcubión encravada entre as falésias do Cabo Finisterre e o estuário do rio Corcubión, foram vencidos no passo lento e cadenciado do velho cavalo andaluz que vez ou outra me olhava de soslaio como a perguntar "você quer mesmo continuar por este caminho?" e eu silenciosamente respondia "sim, quero". E assim, enquanto se desenrolava esse diálogo mudo entre homem e animal, contornamos uma pequena colina e pude desfrutar da primeira visão do castelo e para minha satisfação era a mesma perspectiva que o autor do desenho utilizara quando da sua elaboração. Agora eu conseguia enxergar a paisagem em sua plenitude, para além da limitação bidimensional do papel. A estrada pedregosa por onde seguíamos avançava em semicírculo por uns quinhentos metros até alcançar a ponte fielmente retratada que separava a ilha da margem do lago que se esparramava lânguido pela planície limitada ao norte pela serra.

Sussurrando palavras de estímulo para o meu companheiro involuntário de aventuras, que inspirado pelo clima apelidei de Rocinante em homenagem ao grande Dom Quixote, prosseguimos até chegar ao limiar da ponte e, à luz difusa da manhã fria de novembro onde um diáfano véu pairava sobre o espelho do lago, via-se uma placa de madeira esculpida com formato de estandarte onde se lia em caracteres góticos: Castelo de Corcubión, 1066 a. D.

Durante alguns longos instantes permaneço no lugar hesitante em ultrapassar aquela fronteira invisível, como se o ato de avançar pela ponte me remetesse instantaneamente para um outro mundo, uma outra dimensão onde tempo e realidade perderiam sentido e objetividade, um universo fantástico de lutas épicas, traições,  poder, donzelas em perigo, audazes cavaleiros, glória e decadência se sucediam em vertiginoso turbilhão e fundidos no cadinho do não-tempo e da não realidade.

Mas era preciso mergulhar naquelas águas turvas, era preciso exumar aquela casa dos mortos que se erguia diante de mim e que convidava sedutora como faz a dama experiente diante do menino trêmulo.

(Continua)

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Marcelo Luiz de Felice

Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André, é desenhista, pintor e joalheiro por prazer. Trabalha como revisões, traduções e educação ambiental. Ensaísta ocasional.

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