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Exumação da casa dos mortos II - 1066 a. D.

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Ao ultrapassar a fronteira que representava aquela ponte de pedra vi-me transportado para um outro universo ou a uma outra dimensão.

O ano era 1066 da chamada era cristã em pleno período medieval em uma sociedade de castas na qual o nascimento determinava o destino de homens e mulheres, onde as relações humanas e de poder se pautavam por regras rigidamente controladas pelos senhores feudais e pela poderosa Igreja, senhora absoluta de tudo e de todos.

E um desses poderosos senhores era o velho duque Dom Sebástian de Corcubión controlador de um imenso território que se estendia desde a margem do rio Tambre até o estuário do Lage, onde fazia fronteira com um seu aliado, o conde de La Coruña,  abarcando as férteis planícies alimentadas por esses rios na proximidade do oceano e, também, o altiplano rochoso, em cujas colinas se cultivam vinhedos e oliveiras a perder de vista.

A aliança entre os senhores da região da Galícia defendia seus feudos e o velho mosteiro e também a catedral de Santiago de Compostela contra o ataque de invasores e salteadores que vez por outra atacavam aldeias e campos.

Pensando na defesa das terras sob seu domínio, o velho duque decidira erguer numa pequena ilha no lago de Tambre um castelo fortificado onde reuniria as forças necessárias para preservar seu feudo e lá aglutinar forças juntamente aos aliados. Essa ilha era próxima o suficiente da margem para dispensar o uso de embarcações e, por sua vez, distante e isolada para dificultar o acesso e permitir uma boa visibilidade do seu entorno.

O duque idoso e doentio, porém forte de caráter e autoridade suprema em seus domínios, nomeara seu primogênito, Francisco de Corcubión, que aos vinte e cinco anos de idade demonstrava a mesma energia e personalidade que caracterizava o pai e que o tornara o grande líder da Galícia naquele tempo. E, da mesma maneira que o pai, Francisco também era admirado pelos aliados e odiado pelos inimigos.

Dom Francisco estava prometido em casamento com a herdeira do marquês de Pontevedra, a pequena Maria Isabela que contava somente dezesseis primaveras, delicada joia da família, tratada com os mimos que somente a única filha de uma linhagem de quatro irmãos consegue ter.

Nos planos das duas famílias o casamento entre ambos deveria se realizar na primavera daquele ano de 1066 coincidindo com a conclusão da construção do prédio principal do conjunto de edificações que formariam o castelo. O casal herdaria uma parte das terras de ambas as famílias compostas por dois feudos separados pelos domínios da poderosa linhagem de Compostela.

O enlace fora celebrado com uma grande festividade e contou com a presença dos mais importantes senhores de toda a península, além das autoridades eclesiásticas. Ainda que as acomodações do castelo fossem pouco confortáveis,  uma vez que houvera pouco tempo para que as senhoras e suas servas pudessem fazer os preparativos para receber o grande número de pessoas que fora convidado. Assim, os senhores menores foram obrigados a erguer tendas por entre os andaimes no enorme pátio e no entorno do castelo à beira do lago.

A comemoração das bodas de Dom Francisco e Maria Isabela também formaliza a coligação entre os grandes senhores. Essas festas regadas a tonéis do denso e rubro vinho como sangue, além do destilado do bagaço da uva e seguidos banquetes com as mais diferentes e exóticas carnes de caça e de criação, numa demonstração de fartura e poder.

A cerimônia fora celebrada pelo bispo de Compostela na capela contígua ao castelo, ricamente decorada com braçadas de flores dos mais diversos matizes vindas dos mais diferentes locais.

A noiva trajava suntuoso vestido de seda nacarado e rebordado com minúsculas pérolas e pedrarias de todas cores; dos negros cabelos amarrados em coque no alto da cabeça cachos pendiam e entre eles caia um finíssimo véu que lhe cobria o rosto e o colo. O noivo,  por sua vez, vestia um pesado manto bordô sobre o qual brilhava o ouro da corrente que dominava seu peito largo, na cabeça usava uma espécie de boina da mesa cor debruada em finíssimos fios de ouro. A tez amorenada do nubente contrastava com a alvura da pele ligeiramente rosada de Maria Isabela e o vigor físico do rapaz criado à beira mar onde gastava horas a fio desafiando as altas ondas do oceano bravio, parecia ainda maior próximo à delicadeza do corpo frágil da ainda adolescente noiva, com suas suaves curvas em formação apenas entrevistas pela roupa que a cobria.

Finda a cerimônia iniciaram-se as celebrações no salão principal do castelo preparado com pompa para a ocasião. A escada que levava do pátio ao pórtico que dava acesso ao salão exibia vários pajens segurando ramalhetes de flores de todas as cores que pareciam refulgir sob o brilho do sol. No interior, ao fundo sob um portentoso lustre, o tablado acomodava uma enorme mesa onde se sentariam os noivos, suas famílias e os convidados mais ilustres e poderosos. Aos pés desse piso, sentavam-se os senhores de menor linhagem e, por fim, nas laterais reservaram-se lugares para os vassalos e servos.  No centro do salão o espaço era destinado às diversas atrações para divertir os convivas.

A noite já ia alta quando os jovens recém casados foram levados aos amplos aposentos que lhes serviria de moradia dali para frente. Apesar da amplitude do lugar, fazia parte do conjunto uma ante sala, o quarto propriamente dito e alcova que contava com enorme cama guarnecida com dossel.

Por uma das janelas penetrava um luminoso raio de luar que rompia a semi-escuridão que pesava no ambiente. Enquanto a pequena e delicada mulher se livrava das roupas com o auxílio de suas servas e camareiras - luxo que até então ainda não vivera - o noivo mal se continha na ânsia por fazer da sua prometida sua mulher sentindo a virilidade pulsar em seu âmago.

Finalmente a esposa assoma pudica na ante sala onde o jovem duque espera ansioso por sua prenda, seus olhos fulgem de luxuriante expectativa diante da brancura diáfana iluminada pelo luar que a envolve. Bruscamente ele se levanta movido pela mistura de desejo e o inebriante vinho que lhe embota os sentidos, cola sua boca no suave e alabastrino pescoço da esposa, ferindo-lhe a pele com a barba cerrada enquanto rasga suas roupas.

A pequenina noiva sonhava com sua noite de núpcias desde menina, em seu devaneio o príncipe a embalava numa dança leve, completamente diferente dessa realidade que a feria. A brutalidade com que seu marido violava sua intimidade transformava o sonho idílico no pior dos seus pesadelos, sentir o roçar dos pelos ásperos contra seu corpo e a imagem daquele falo intumescido se insinuando por entre suas pernas fizeram brotar lágrimas em seus olhos sonhadores. Foram minutos que pareceram horas ou dias - quiçá séculos - de puro padecimento até sentir a viscosidade quente se derramar dentro de si. Saciado em sua volúpia, o herdeiro da Casa de Corcubión adormece num misto de embriaguez e sexo.

No céu que se descortina por detrás do cortinado sedoso que balança com a brisa que penetra pela janela da alcova brilha cúmplice a lua cheia, testemunha da consumação do enlace matrimonial entre o duque e sua pudica prometida.

No amplo salão as festividades prosseguem e os acordos e alianças se perpetuam como devem ser: senhores ilibados (e suas ilustres senhoras) brindam e promovem as mais primitivas bacanais sob as bênçãos dos deuses ancestrais e dos santos canonizados.

(Continua)

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Marcelo Luiz de Felice

Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André, é desenhista, pintor e joalheiro por prazer. Trabalha como revisões, traduções e educação ambiental. Ensaísta ocasional.

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