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A viagem de Laurinha-Laura, do primo Flá e de Nietzsche, o pirata

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Laurinha-Laura é uma menina sapeca.

Laurinha-Laura é uma menina sapeca que adora brincar.

Laurinha-Laura é uma menina sapeca que adora brincar com o primo Flávio.

O feriado de carnaval lá no sítio da vó bem no interiorrr do interiorrr convida à preguiça do balançar lânguido da rede, Nietzsche descansando sobre o peito suado quase faz cócegas com seu basto bigode sobre a pele lisa. Apenas uma pequena fresta de olhar denuncia o cochilo que avança sobre o corpo esguio do estudante universitário em curta trégua com as Ciências Sociais. A nesga revela a aproximação vagarosa do vulto indefinido que vai tomando contornos definidos conforme fica mais e mais perto e de tão perto que está, fica impossível já vê-lo por inteiro. Sorrateiro o vulto circunda o estudante imóvel, somente a janela das pálpebras semiabertas acusam a vigília letárgica – resultado do copo vazio de caipirinha debaixo da rede – já dá para sentir o hálito de hortelã da boca que se aproxima e quando os narizes se encostam, não mais que num repente, zás, Flávio agarra o vulto de Laurinha-Laura puxando-a para o interior da rede que agora oscila vertiginosa ameaçando lançar ambos no gramado.

– Primo Flá, você me enganou! Eu é que ia te dar um baita sustão!

– Ha, ha, há, te peguei! Agora você vai ficar presa aqui comigo e eu vou te fazer muitas cócegas na barriga!

Laurinha-Laura adorava quando o primo vinha passar uns dias aqui no interiorrr do interiorrr, ele era diferente dos outros "grandes" sempre dando ordens, "Laurinha-Laura, faz isso", "Laurinha-Laura, não faz aquilo", "Laurinha-Laura, escove os dentes", "Laurinha-Laura, faz a lição", tudo aquilo era muito chato. Também as brincadeiras com os outros primos menores e com os amigos eram sempre as mesmas, sem graça. Ela gostava mesmo era de guerra de bexiguinhas cheias de água, de pular na piscina de cem litros no gramado perto da pitangueira, de fazer o primo trepar na mangueira pra pegar "aquela" manga bem amarelinha que sempre está no galho mais alto, e o seu grande companheiro era o "primo Flá" que não dava ordens chatas ou tinha brincadeiras sem graça.

– Chega primo, Flá, chega, chega! Hi, hi, hi, vou ficar com soluço! Para, para.

– Gostou, né?

Laurinha-Laura detém o olhar sobre o livro que àquela altura jazia abandonado bem ao lado do copo de caipirinha, a foto do iminente filósofo chama a atenção da menina que curiosa como ela só começa o interrogatório fatalmente interminável,

– Primo Flá, quem é esse homem feio da fotografia ali no livro?

– Laurinha-Laura, esse é o famoso filósofo alemão Nietzsche, Friedrich Wilhelm Nietzsche. – diz com voz solene.

– "Fridirchi" o quê?

– NieTZSCHe.

– Nossa, primo Flá que cara de bravo que ele tem! E olha aquele bigodão, parece quando o mato não é aparado lá riozinho, fica igualzinho!

– Sim, ele parece bem bravo mesmo, mas só parece. Dizem até que ele era meio doido da cabeça, mas em sua "doidice" ele escrevia coisas muito importantes e que de tão importantes que foram, até hoje a gente estuda essas coisas que ele escrevia.

– É, Flá?

– É sim.

– Mas eu tenho medo dele...

– Não, você não precisa ter medo dele. Te digo que se ele estivesse aqui agora com a gente, ele ia olhar pra você e abrir um sorrisão no meio daquele matagal e encher você de beijos!

Os olhos de Laurinha-Laura voltam-se para o livro com imensa curiosidade. Flávio percebe que já vinha outra enxurrada.

– Mas, Flá que tantas coisas podem caber ai dentro?

– São pequenos parágrafos, olha aqui – Flávio abre o livro aleatoriamente, e explica – tá vendo esses pedacinhos de palavras, esses são aforismos...

– Aforismos????

– É. A-F-O-R-I-S-M-O-S. "São como baús do tesouro enterrados com o esmero de quem passou uma vida inteira a escavar as pessoas sob o solo de suas máscaras" (p. 112).

A lógica dialética da pequena criança logo conclui em síntese:

– Então ele é um escritor-filósofo-pirata!

– Isso, Laurinha-Laura, um pirata com muitos tesouros a serem descobertos por aqueles que têm a coragem e a sabedoria para ler seus mapas secretos!

– Flá, então desenterra um desses tesouros pra mim?!

Seu semblante assume um ar de absoluta seriedade, seus pequenos olhos azulados se contraem, a testa se franze ligeiramente como a indicar intensa concentração.

– Leio, vou abrir um tesouro especial pra você.

Olhos bem fechados para que as palavras e apenas elas demandassem toda a atenção, todos os demais sentidos suspensos, uma tensão toma conta do seu pequeno corpo. E então irrompem as palavras:

                                                                                                                                                                  MATURIDADE DO ADULTO:

RECUPERAR A SERIEDADE DA CRIANÇA AO BRINCAR.

– Primo Flá?

– Fala.

– Posso abrir os olhos?

– Pode – responde o primo visivelmente emocionado. Mas ela não o faz...

"Ela fica de olhinhos fechados [novamente]. Pede que eu repita – apenas uma vez. Primeiro ela vai recitando palavra por palavra. Até não esquecer mais. Até se apoderar. Depois o todo desponta serelepe – só então ela abre os olhos." (p. 113)

Agora, de olhos bem abertos, a pequena convida:

– Flá, vamos levar pra passear de barquinho o NieTZSCHe e enterrar bem enterrado o tesouro que você abriu pra mim?

– Como assim Laurinha-Laura?

– Você pega um papel, escreve esse "forisma"  – Aforismo, corrige Flávio – é, esse a-fo-ris-mo, e a gente põe ele no barquinho leva o NieTZSCHe junto para ele desenhar o mapa e a gente esconde ele!

– Tá bom, vamos fazer isso!

E, sérios como convém a uma pequena aventureira e a um primo desbravador – parafraseando o insigne poeta português –, constroem com todo o esmero um barquinho de papel na mesa da cozinha, o primo escreve com a melhor letra que lhe é possível – se é que lhe é possível caprichar na caligrafia de estudante – o aforismo-tesouro, colocam-no com o máximo de cuidado num "baú" feito a partir de uma caixa de fósforos e vão acompanhados pelo filósofo alemão que, na contracapa do livro, já sorri um riso suave, e vão rumo à sua grande aventura. Ambos sérios ao brincar, como sentenciou o filósofo.

– Laurinha-Laura, lembrei de uma coisa. Vou te contar uma pequena história, é uma poesia de um homem chamado Guilherme de Almeida, um dia você mesma vai ler.

– Tá bom, Flá.

                                                                                                                                                                              Barcos de Papel

Guilherme de Almeida

"Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada, eu saía a brincar pela calçada, nos meus tempos felizes de menino. Fazia de papel toda uma armada e, estendendo meu braço pequenino, eu soltava os barquinhos, sem destino, ao longo das sarjetas, ma enxurrada... Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles, que não são barcos de ouro os meus ideais: são feitos de papel, são como aqueles, perfeitamente, exatamente iguais..."

– Gostou? Pergunta o primo mais-que-coruja.

– Gostei, é bonito...

– Um dia, quando você for maior, vai entender melhor o que o poeta quis dizer, Laurinha-Laura. Por ora, vamos levar nosso navio pirata lá pro imenso oceano e navegar? Nós três: você, eu e NieTZSCHe?

– Vamos, vamos!

Na beira da piscina de cem litros ambos sérios passam a navegar pelo oceano imaginário carregado em seu bojo a preciosa carga, poderiam ficar ali horas a fio, não fosse a voz da mãe de Laurinha-Laura se fazer anunciar:

– Laurinha-Laura, Flávio! Almoço na mesa!

O chamado imperioso faz ambos lembrarem que a fome estava ali presente todo o tempo à espera de um sinal, era preciso comer!

Antes de abandonarem a brincadeira, Laurinha-Laura tira o barquinho da piscina e o coloca com delicadeza no sol "É pra ficar bem sequinho!".

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O feriado de carnaval lá no sítio da vó bem no interiorrr do interiorrr convida à preguiça do balançar lânguido da rede, Nietzsche descansando sobre o peito suado quase faz cócegas com seu basto bigode sobre a pele lisa que ostenta apenas uns poucos pelos alourados. Apenas uma pequena fresta de olhar denuncia o cochilo que avança sobre o corpo já não tão esguio do professor universitário. A nesga revela a aproximação vagarosa do vulto indefinido que vai tomando contornos definidos conforme fica mais e mais perto e de tão perto que fica impossível já vê-lo por inteiro. Sorrateiro o vulto circunda o professor imóvel, somente a janela das pálpebras semiabertas acusam a vigília letárgica – resultado do copo vazio de caipirinha debaixo da rede – já dá para sentir o hálito de pitanga da boca que se aproxima e quando os narizes se tocam, não mais que num repente, zás, Flávio agarra o vulto de Laurinha-Laura puxando-a para o interior da rede que agora oscila vertiginosa ameaçando lançar ambos no gramado.

– Primo Flá, você me enganou! Eu é que ia te dar um baita sustão!

– Ha, ha, há, te peguei! Agora você vai ficar presa aqui comigo e eu vou te fazer muitas cócegas na barriga!

Quando a brincadeira acaba, Laurinha-Laura, agora uma estudante do oitavo ano e quinze anos quase completos – diz que até namorado já tem –, saca do bolso do jeans surrado um envelope sujo de terra e o entrega ao primo.

– O que é isso, Laurinha-Laura?

– Abra, quero ver se você se lembra...

Ao abrir o envelope misterioso o conteúdo mareja seus olhos.

Lá estão um barquinho de papel, uma caixa de fósforos, e uma xerox da foto de Nietzsche.

– Laurinha-Laura! Você guardou!!!!

– Não, Flá. Naquele dia, depois do almoço, eu fui lá, peguei tudo e enterrei num lugar secreto bem debaixo do abacateiro, coloquei umas pedrinhas pra marcar o lugar e deixei ele – "deixei-o" corrige ele – lá quietinho, esperando pra quando eu ficasse mais velha desenterrar. Vamos abrir o baú do tesouro agora?

– Vamos...

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Marcelo Luiz de Felice

Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André, é desenhista, pintor e joalheiro por prazer. Trabalha como revisões, traduções e educação ambiental. Ensaísta ocasional.

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