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Efeito Colateral

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Sexta-feira, 19 de maio a voz dura ao telefone é implacável:

 

– Pouco me importa o que a Secretária dos Direitos Humanos pensa, fodam-se ela e os seus "direitos humanos". A ação vai acontecer no domingo. E eu quero a tropa de choque na rua, ou eu acabo com aquela bagunça ou todos os esforços serão em vão. E eu não vou perder para um bando de drogados que nem têm onde cair mortos.

– Mas senhor, não seria melhor...

– Não, não seria melhor porra nenhuma! Quem manda nessa cidade de merda sou eu. Portanto a ação vai ser no domingo e ponto final, caralho!

– Sim, senhor. O senhor é quem manda.

–­ Exatamente, eu mando. E a minha ordem é lei, Higienopolândia é minha por direito. Eu fui eleito pelas pessoas de bem dessa cidade. E é para elas que eu governo.

O diálogo é interrompido abruptamente pelo som seco do telefone sendo desligado.

A ordem estava dada, bastava fazer cumpri-la.

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Manchete do importante jornal de circulação nacional Gazeta de Higienopolândia:

Ação da tropa de choque limpa cracópolis

 

Domingo, 21 de maio. Pontualmente às 15h a tropa de choque comandada pelo tenente-coronel Ubiratan Junior invade as ruas da área conhecida como cracópolis na região central de Higienopolâdia com o intuito de coibir o tráfico e o consumo de crack na região, a droga devastadora que se espalhou pela cidade como um rastilho de pólvora no início da década de 1990. Um dos objetivos da ação perpetrada sob as ordens conjuntas do governador do estado Dr. Galhardo Achtung e do prefeito Sr Jordão Nória foi o de promover o recolhimento dos usuários e eventuais frequentadores da região de cracópolis e os encaminhar para tratamento compulsório e obrigatório em clínicas de desintoxicação mantidas pela fundação criada especialmente pela Igreja Universalizante do Império Divino em terrenos gentilmente cedidos pela Associação Comercial de Higienopolândia em consórcios com a Federação das Indústrias do Estado de Higienopolândia (FIEH). Em editorial, este jornal elogia a iniciativa de livrar a população da capital da presença deletéria do tráfico e, também, de promover a recuperação e integração social dos usuários e consumidores do crack.

 

 

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Março/2017

A pesquisa de campo do projeto de Mestrado do jovem Maurício Lucas Felizardo sob a orientação do professor Livre-Docente da Universidade de Higienopolândia, Dr. Carlos Henrique Marques conheceu de perto a realidade vivida por Edivaneusa e Alessandro. Abaixo trechos da entrevista:

Edivaneusa

"Esta entrevista está sendo gravada por motivo de segurança; a confidencialidade do depoimento da entrevistada será preservada, o material colhido não será divulgado seja no todo ou em parte e é parte integrante do Projeto de Dissertação de Mestrado 'Cracópolis: um fenômeno social na cidade de Higienopolândia' de Maurício Lucas Felizardo."

– Edivaneusa, em primeiro lugar, fale um pouco da sua história de vida. Onde você nasceu? Como foi sua adolescência?

­– Eu nasci numa casa muito pobre lá em Itabera, lá na onde passa a avenida perto do Itaberão. Lá morava meu pai, minha mãe, meus tios, eu e meus irmãos. A gente era pobre, mas nossa casinha era tijolo, tinha quarto pros meus pais, quarto pra mim e minha irmã menor e os homens dormiam na sala. Depois que inventaram de construir o estádio do Itaberão, a prefeitura foi lá e falou que ia desapropriar tudo ali pra construir a avenida bem ali on nós morava. Falaram que ia indenizar e tudo, e todo mundo acreditou. Arrumaram um terrenão lá no Jardim Ordem e Progresso e mandaram todos nós pra lá, eram as famílias e o terreno e mais nada. Dinheiro nunca que veio, falaram que como nós tava irregular lá em Itabera, a gente não tinha direito, precisava de escritura pra indenizar e quem quisesse que procurasse adevogado. Daí todo mundo se virou como podia, uns conseguiram levantar uma casinha, outros que nem nós tiveram que improvisar barraco de madeira mesmo. Era uma montoeira de gente, seu Maurício, era gente junto com rato, barata até escorpião tinha. Cada rato que parecia capivara de tão grande! O senhor conhece capivara? Eu vi a fotografia dela num livro lá da escola uma vez...

– Sim, eu já vi capivara... E você estudava? Como era sua vida?

– Estudava sim, eu gostava de aprender as coisas. Quando morava lá em Itabera, tinha escola, merenda com pão, manteiga, café com leite e bolacha daquelas recheada. Tinha dia que não tinha aula, mas era poucos dias. Então quando mandaram nós lá pro Ordem e Progresso, a coisa ficou diferente; a escola era longe, tinha que atravessar um matão, depois a linha do trem e uma pinguelinha em cima do rio. Quase nunca tinha aula, seu Maurício, um dia era porque os traficantes brigavam pelas biqueira, outro dia porque não tinha luz, e assim ia. Merenda era bolacha seca, às vezes um suco ralo e com gosto de água suja. Então a gente foi parando de ir na escola até que ninguém nunca mais foi.

– Em que série você parou?

– No quarto ano. Mas eu sei ler e escrever e fazer conta. Não sou burra, não, seu Maurício!

– Certo, certo. Pode me chamar só de Maurício, tá?

– Tá bom, seu Maurício. Desculpa, M-a-u-r-í-c-i-o.

– E como era em casa? O que você fazia?

– Quando eu era pequena, eu gostava de brincar na rua, a gente fazia de tudo, nós era feliz, seu... Maurício. Depois que eu fiquei maiorzinha, eu também ajudava minha mãe, limpava a casa e tudo. Lá no Ordem e Progresso ficou tudo mais difícil, não tinha mais onde brincar, o barraco vivia sujo, já não dava mais gosto não, Maurício.

– Por quê? Me conte mais como era em casa.

– Ah, Maurício, todo mundo desanimou, em Itabera a vida era difícil mas nós tinha nossas coisas, no Ordem e Progresso era uma montoeira só, só tinha um quartinho que era pro pai, pra mãe e pra Edivanilza (minha irmã menor), eu tinha quer dormir junto com os homem mesmo, era só dois cômodo e um banheirinho. Quando fazia frio – e lá era um friozão – a gente dormia tudo junto pra esquentar, que o cobertorzinho não dava conta não. Eu não gostava porque meu tio mais novo ficava me agarrano.

– Que idade você tinha?

­– Doze.

– E ele começou nessa época?

– Foi. Primeiro ele só ficava encostado, dizia que era pra esquentar. Depois, quando meus peitinhos começaram a crescer, ele ficava apertando e bolinando neles e falava que esquentava mais, e eu achava que era mesmo porque me dava um calorzinho gostoso, mas eu tinha medo, Maurício.

– Medo?

– É, medo do meu pai ou minha mãe pegar.

– Sei, e então?

­– Então, ele foi ficando cada vez mais atrevido, Maurício. Um dia ele me fez segurar o pinto dele que tava duro. Eu nunca tinha feito isso. Ele falava que era bom, que eu ia gostar, mas num gostei não, tava todo melado e eu tive nojo. Daí um dia ele afastou minha calcinha e bolinou minha piriquita e colocou aquele pinto dele lá juntinho dela. E chorei muito naquele dia, achei que ia ficar grávida. Sabe, Maurício, a gente não tem muito conhecimento não, só medo, muito medo.

– E ele continuou?

– Continuou. Foi ficando cada vez pior, toda noite ele pedia pra colocar dentro da minha periquita, mas eu chorava e dizia que não.

– Quanto tempo durou isso?

– Vixe, quase um ano.

– Quase um ano? E o que aconteceu pra ele parar?

– Então, teve um dia que ele falou que ia me comer de qualquer jeito, que eu ia ser a putinha dele depois que ele tirasse o meu cabaço. Eu resistia, mas ele era muito mais forte do que eu. Daí um dia ele arrancou minha calcinha e forçou minhas pernas e enfiou dentro de mim sem dó, foi uma dor tão grande, Maurício, que eu nem sei como não soltei um grito, eu só sabia chorar. E eu passava todo dia assim, chorando, triste, com medo de tudo. Então teve um dia que meu pai pegou ele me fodendo. Ele ficou doido, me chamou de puta e disse que a culpa era minha, que ele sabia que eu ia ser puta e que puta não morava na casa dele, que ele era crente e homem honrado e que não ia dar casa pra puta que fode com o tio. Ele me bateu muito, fiquei toda roxa, tá vendo aqui – ela mostra a boca com um pré-molar faltando – ele arrancou meu dente com um soco. Minha mãe chorava e gritava, mas não tinha o que fazer.

– E o que aconteceu? Você foi na Delegacia da Mulher?

– Que delegacia que nada, Maurício. Lá não tinha dessas coisas não. No dia seguinte meu pai me jogou na rua só com a roupa do corpo. Eu não tinha pra onde ir, não tinha dinheiro, não tinha nada. Fui até a escola onde eu estudava, tava fechada.

– E o que você fez?

– Eu fui numa biqueira lá perto, alguém ali ia me ajudar.

– Você conseguiu ajuda?

– Ajuda, ajuda de verdade, não. Mas uma das meninas mais velhas me arrumou um lugarzinho se eu ajudasse a fazer avião. Então eu fiquei fazendo avião lá pro tráfico em troca do quartinho, o troco que eu ganhava eu gastava com comida e com um pouco de maconha pra ajudar a dormir e diminuir a fome que era muita.

– Você ficou lá muito tempo?

– Uns dois anos. Lá eu conheci um garoto e me ajuntei com ele, sei lá a gente fazia companhia um pro outro e nós namorava também. No começo era bom, eu perdi o medo que tinha de homem, comecei a gostar. Depois ele começou a me bater, falava que me matava se visse eu olhar pra outro, que eu era só dele. Eu viva machucada, então me drogava cada vez mais. Foi lá que comecei a pipar, mas o crack é muito cruel, Maurício, a gente quer mais e mais e nunca que acaba a vontade. A gente fica feliz, esquece de tudo.

– E depois? Como você veio parar aqui em cracópolis?

– Ah, eu fui cansando daquela vida de apanhar todo dia, não podia ir sozinha nos baile funk nem nada e eu gostava de dançar, mas o Saracura – aquele meu namorado – não deixava e que se eu queria ser puta, ia ser puta sozinha que ele não era corno de puta. Então eu catei minhas coisas e vim embora pra cá.

– E como foi sua vida aqui?

– Ah, foi igual quando era no Ordem e Progresso. Muita miséria, muita droga. Passava o dia chapada, de vez em quando alguém trazia uma comida, mas a vida era pipar e tomar Curote. Também tinha os caras que eu dava pra eles em troca de crack, eu fazia qualquer coisa pra ter as pedra, Maurício, qualquer coisa mesmo. E os chefes das bocas sabiam disso e a gente tinha que fazer o que eles queriam, tinha que fazer chupeta, dar pra três até quatro caras de uma vez, ficava toda lambuzada e suja, mas não importava, o que valia eram as pedras que davam o alívio pra tudo. Agora já tou aqui faz três anos. Acho mesmo que vou morrer aqui, Maurício, pra mim não tem mais jeito não, então eu pipo, pipo muito e facho o que eles querem. Até os polícia sabe disso e fode nós que nem os traficante fazem. É tudo igual, Maurício. Mas eu agora to junto com um carinha legal, a gente tá morando junto e vive num quartinho de pensão, nós tá ate pensando em largar dessa vida que num vale nada e ir embora pro interior. Nós quer é ser feliz, Maurício...

(Chorando muito, Edivaneusa já não pode mais continuar a entrevista e Maurício encerra)

– Edivaneusa, muito obrigado pela entrevista. Agora vamos até o bar ali pra gente fazer um lanche, ok?

– Tá. Brigada eu de poder contar minha história, espero que ajude alguém...

– Vai ajudar, menina, vai ajudar.

Alessandro

 

"Esta entrevista está sendo gravada por motivo de segurança; a confidencialidade do depoimento da entrevistada será preservada, o material colhido não será divulgado seja no todo ou em parte e é parte integrante do Projeto de Dissertação de Mestrado 'Cracópolis: um fenômeno social na cidade de Higienopolândia' de Maurício Lucas Felizardo."

 

– Alessandro, em primeiro lugar, me conte um pouco da sua história de vida. Onde você nasceu? Como foi sua adolescência?

– Bom, eu nasci em Bernardópolis, ali na região da Grande Higienopolândia. A gente morava num apartamento num bairro de classe média perto do centro, Nova Imperiópolis, não sei se você conhece?

– Já ouvi falar. Mas como era sua vida lá?

– Ah, era uma vida tranquila. Morava lá eu, minha mãe, meu pai e meu irmão menor. Meu pai trabalhava numa montadora, acho que era supervisor de alguma coisa, não sei direito; minha mãe cuidava da gente e da casa. Eu gostava muito de brincar, lá no condomínio tinha uma quadra, play ground e um lugar que a gente andava de skate, era legal. Também eu gostava de vídeo game, mas eu preferia brincar com meus amigos, a gente jogava muita bola, fazia uns times e tinha até campeonato.

– Você era bom de bola?

– Que nada, eu era um puta perna de pau, mas gostava de jogar. (riso) Ficava sempre no gol...

– Você estudava onde?

– Perto de casa, tem uma escola lá e dava pra ir a pé. É um colégio grande, estudei lá desde o primeiro ano até o médio.

– Você chegou a terminar o ensino médio?

– Não, cara, eu larguei no primeiro ano.

– Ok. Mas vamos falar um pouco de você. Qual foi a sua trajetória desde aquele tempo até agora, as coisas que você gostava, aquelas que você não gostava.

– Então, além de brincar, eu até gostava de estudar, tinha umas coisas na escola que eu achava chato, mas ia levando. Sei lá, era muita matéria, tinha professor que pegava pesado...

– "Pegava pesado"? Explica melhor.

– Assim, o cara ficava falando sem parar e a gente tinha que escrever tudo, ele pegava no pé da gente, tinha uns que chamava a gente de burro, ignorante, até dizia que a gente não ia ser ninguém, essas coisas. Isso me deixava puto, como é que o cara podia julgar os outros assim? Mas tinha uns caras que eram até legais lá do jeito deles, se esforçava pra gente entender, daí eu gostava. E eu curtia ler desde pequeno, mas não aqueles livros da escola, eu gostava das histórias de aventura...

– Como o quê, por exemplo?

– Olha, quando eu fiquei maiorzinho, minha mãe comprou aquela coleção do Senhor dos Anéis, eram uns livros grandes pra caralho, mas eu li todos. Gostava daquelas aventuras cheias de heróis e tal. Mas quando tinha que ler aqueles livros chatos da escola eu detestava!

– Que livros "chatos" eram?

– Hum, tinha aquele escritor, o José de Alencar que fazia sempre umas histórias meio bobas de índio, mocinho, mocinha... Achava aquilo tudo meio babaca...

– Certo. Além disso, como era sua relação em casa?

– Bom, quando eu era moleque ia tudo bem. O bicho começou a pegar mesmo quando eu tinha uns dez, onze anos. Eu vivia ouvindo meu pai falar pra mãe que a coisa no trampo tava feia, estavam mandando uma galera embora, férias coletivas, essas coisas e ele tinha medo de perder o emprego e tal. Eu nem me preocupava com aquilo, me negócio era brincar e jogar. Mas meu pai era um cara a pampa, a gente era sócio do clube lá da fábrica, a gente ia sempre, tinha piscina, campo de futebol, a gente fazia churrasco com a turma lá do trampo dele. E daí que um dia ele chegou em casa bem tarde – ele nunca fazia isso – meio bêbado, dava pra ver que ele tava triste. (pausa) Então ele contou pra mãe que tinham mandado ele embora, disseram lá que a crise nos Estados Unidos e na Europa[1] tinha prejudicado as exportações dos carros e tal e que era preciso fazer cortes no pessoal. Eu não entendi direito, mas sabia que tinha alguma coisa errada pela cara do velho.

– E como foi essa fase?

– Então, o velho pegou a grana do Fundo de Garantia e deixou ela guardada, tinha o Seguro Desemprego que no tempo do presidente Guga – meu pai tinha votado nele, parece que ele tinha sido do sindicato, não sei direito – pagava uma grana boa. Um tempo a gente foi levando normal, ele procurava trampo, mas na área dele lá não tinha, eles tavam demitindo muito. Ele até tentou fazer outras coisas, mas ele tinha entrado na fábrica como aprendiz e ele só sabia fazer aquele trampo. Então ele começou a beber mais, chegava quase todo dia tarde e mamado. Minha mãe pegava um pouco no pé dele, mas acho que ela tinha um pouco de dó dele, sabe? Com o tempo ele foi ficando chato, já quase não conversava com a gente, tava sempre de cara virada, brigava com a mãe...

– Ele era violento?

– Olha, naquele tempo ainda não, mas depois que a grana ficou curta, a gente tinha um pouco de medo dele sim. Na hora da janta, ele jogava o rango longe, falava que aquilo era comida de porco, e a minha mãe chorava muito. Meu irmão menor também chorava, coitado, ele era um garoto meio tímido, tinha medo de quase tudo, que dirá do pai que tava sempre brabo. Daí um dia ele chegou muito bêbado e começou a brigar com a mãe e ela, coitada, brigou com ele também, chamou ele de fraco, bêbado e tal, então ele deu um safanão nela que ela até caiu. Eu não aguentei ver aquilo e parti pra cima dele, só que ele era forte pra caralho, e me jogou longe, foi daí que eu caí por cima da mesa da sala e desloquei o ombro. Minha mãe ficou puta – ele nunca tinha batido na gente – e começou a jogar nele o eu ela via na frente dela. Bicho, o cara tava com o sangue nos olhos, acho que pra não fazer uma merda maior ele saiu batendo porta e tudo. Só sei que ele só voltou no dia seguinte com aquela cara de cachorro que cagou no tapete, sabe?

– Sei... E o que aconteceu depois?

– A mãe já tinha colocado as coisas dele numa mala pra ele ir embora. Quando ele viu o tamanho da merda que tinha feito, nem falou nada, só pegou a mala e foi embora.

– Eles chegaram a se separar? Como foi isso pra vocês?

– Olha, ele até tentou voltar, pediu desculpa, falou que não ia mais beber e tal. A velha acreditou nele, e deixou ele ficar, mas ele continuou bebendo, acho eu não tinha jeito não. Ele falava que ia pro AA (Alcoólicos Anônimos), mas sempre tinha as recaídas. Então ela mandou ele embora de novo. (silêncio)

– Você quer fazer uma pausa? Tomar uma água?

– Não, v'ambora. Uns dois dias depois bateram lá no apartamento chamando minha mãe, tinham encontrado o velho caído na pracinha perto do condomínio e, pelo jeito, não era coisa boa não. O pai tava jogado lá, tinha uma garrafa de conhaque quase vazia e uma caixa de "chumbinho" do lado... (Soluço seco, olhos secos e vazios. Para onde vão as lágrimas não choradas?)

– Que idade você tinha? Como foi isso pra você?

– Cara, eu tinha treze pra catorze anos. Pra mim foi muito foda, eu nem cheguei a ver ele ali, as pessoas não deixaram, mas no velório foi aquela tristeza toda. Pros outros minha mãe até inventou uma história de coração, mas todo mundo sabia que não era isso... E nessa época, lá perto da escola tinha um carinha mais velho que ficava papeando com a molecada, eu gostava dele, tinha um papo legal, falava das meninas, de vídeo game... Daí ele oferecia uns bagulhos pra gente, primeiro ele acendia um beck e dava pra gente experimentar. Era gostoso, dava um alívio, a gente ria muito... E com essa coisa da morte do pai e dos problemas lá em casa, fumar maconha parece que deixava aquilo tudo longe, eu só queria curtir um pouco... Eu ainda era muito garoto pra sacar... Devagar ele foi-se chegando, me chamava pra umas curtidas, pegar umas garotas e eu ia, eu queria mais era viver um pouco, saca? A gente ia no barraco dele lá na favela do São Paulo, ali ele esticava umas carreiras e era bom pra caralho, velho. Aquilo dava uma puta liga, o pau ficava muito duro e a gente fodia gostoso as meninas! E eu fui me envolvendo, muitas vezes dormia por ali mesmo e nem ligava pra mãe, mas ela se preocupava, brigava comigo quando eu não ia e eu mandava ela se foder, que ela não tinha que me controlar e que eu não era mais criança... Eu achava que ela não sacava nada, mas, de verdade? Ela sacava era muito, tentou conversar e eu sempre escapulia do papo, achava aquilo tudo um porre... (silêncio)

– E então?

– Então o que era um barato começou a pesar, o pó já não dava tanto barato e era caro feito a porra, então ele veio com as pedras, baratinho e o efeito, cara, o efeito fazia eu subir pelas paredes! E eu fui pipando e deixando tudo de lado, casa, mãe, irmão, pai que se matou, escola eu só queria era pipar e ficar na brisa do bagulho. Mas aquilo tinha um preço, já não era uma presença de amigo, e então eu ia na casa da mãe quando ela não tava e pegava umas tralhas pra levar pro cara, era umas bobeiras que eu trocava por pedra. E eu cada vez mais fissurado pelo bagulho, pai, precisava mais e mais. Daí ele queria outras coisas, coisa mais cara, um dia catei o vídeo game – era meu, porra! –, catei uns anéis lá da mãe, tudo pelas pedras. Daí chegou um dia... (silêncio)

– Um dia...

– É, um dia a velha me colocou na parede, falou que ela sabia que eu tava me drogando, que aquilo ia acabar com minha vida e essas coisas. Eu respondi que não era isso, que eu só tava confuso com a morte do pai, mas a gente sabia que a merda tava feita. Ela disse que ainda tinha jeito, que a gente podia tratar, que ela dava um jeito de pagar, que a gente era uma família e que ela amava a gente muito... (silêncio) Mas eu precisava muito do bagulho e caí no mundo. Lembro que meu irmão olhava pra mim muito triste e aquilo doía pra caralho, ele precisava de mim e eu não tinha nada pra dar pra ele, eu só queria as porra das pedras. E eu já devia uma puta grana preta pros caras da biqueira e eles me pressionando, então eu dei a letra, falei que lá no condomínio tinha muito eletrônico e que eu facilitava pra eles entrar lá e fazer arrastão. E eu fiz isso mesmo, abri pros caras, e a velha sabia que tinha sido eu, ela sabia...

– E o que aconteceu então?

– Uns dias depois fui no apê, eu já tava nessa vida tinha uns seis meses, ficava na favela dez, quinze dias e só ia na casa da mãe pra tomar banho, comer um pouco e ver meu irmão. Nem queria saber como ela tava se virando, se tinha grana, se não tinha. Então teve um dia que os caras da biqueira foram lá no apê, tava só meu irmão e eles barbarizaram, entraram lá pegaram televisão, aparelho de som e uma bagulhada, raparam o apê e até ameaçaram o menino... (soluço forte, molhado de lágrimas. De onde brotam as lágrimas que cavam gretas fundas no rosto cansado de guerra?) Quando fiquei sabendo eu corri na casa da mãe, ela me olhou fundo no olho, e falou que era pra eu não voltar mais lá, que ela tinha feito tudo que podia, mas que ela não ia deixar que o meu irmão passasse por aquilo de novo. Velho, ela me mandou embora e falou que se eu quisesse ela me ajudava, que ela dava um jeito pra eu me tratar, que ela vendia até o apartamento, mas que se era pra mim ficar naquela vida, era melhor eu ir embora. E eu fui.

– Você foi pra favela?

– Sim, fiquei morando lá, a gente saía pro centro e fazia uns roubos, assaltos, essas coisas, pra poder ter a grana da droga. Cara, apanhei muito, apanhei de traficante filho da puta, apanhei de polícia filha da puta... Nego só queria fuder com a gente.

– Sei... E como você veio parar aqui?

– Então, nós já tava muito visado em Bernardópolis e o chefe da biqueira falou que era melhor a gente vir pra Higienopolândia, que aqui era maior e ninguém conhecia a gente. Então eu e uns manos viemos pra cá indicados pra um chefe daqui. Só que aqui a parada era outra, não tinha lugar pra ficar, era dormir na rua, se drogar na rua, era tudo muito cruel. Cara, e eu sempre pensava na mãe, no mano lá em casa, até pensei em ir lá, mas sempre lembrava do que ela disse e eu fui ficando...

– E aqui como é a vida?

– Velho, aqui é muito foda. Aqui não tem nada, a gente passa fome, passa frio, só a droga mesmo pra aliviar tudo isso. Tá vendo esse tanto de gente que parece zumbi de filme? É tudo gente fudida, não tem nada a não a porra da pedra. Até teve o prefeito lá que veio com um programa, ele dava lugar pra dormir, tipo hotel, pensão se a gente entrasse nos programas de recuperação. Achei legal, eu até fui, mas os filhos das putas dos traficantes são muito mais fortes, eles ameaçaram nóis, falavam que iam matar a gente e então todo mundo deixou o tal programa...

– Mas hoje você mora numa pensão. Como foi isso?

– Então, eu conheci uma garota aqui, a gente começou a se curtir, ela tem uma história bem fudida também, o tio dela fudeu ela quando ela era ainda menina, barra pesada. A gente ficou se curtindo e a gente tá junto. A gente tá pensando em sair dessa porra de vida, mas tá foda, não tem trampo, não tem ajuda de ninguém, as pessoas acham que nóis é vagabundo, mas não é. Bom, vou dar a fita, tem um "vintão" aqui perto, um puteiro que a minha mina faz uns programas com uns velhos broxas, ela tira um troco e eu faço michê lá perto do metrô, os caras pagam bem pra caralho pra eu foder com eles, também faço programa com casal, suruba, o que pintar a gente faz... Pai, de verdade? Nóis vai sair dessa vida de merda, a gente tem plano de largar isso tudo, se tratar do vício e se mandar dessa porra, sei lá criar galinha, pato, plantar horta. Tem uma ONG que tá dando uma puta força pra quem quer se tratar, sem essa de igreja, é gente que vem e quer ajudar mesmo.

– Você falou em igreja, como as igrejas atuam aqui?

– Ah, cara, eles vêm aqui e distribuem rango, tipo sopa, sanduíche, fruta, suco. O problema é que eles ficam xavecando a gente pra ir pra igreja deles, que a gente precisa orar pra Deus e o caralho. Como é que a gente vai orar pra Deus se até Ele esqueceu de nós? Que porra de Deus é esse que larga nóis tudo aqui fudido e mal pago? Então a gente finge que reza só pra pegar o rango. Tem os espíritas que não fazem essa papagaiada, eles trazem o rango pra gente, fazem aquela cara de pena e vão embora de boa, não enchem o saco da gente. Esses são os crente e os espírita, católico nunca vi por aqui não...

– Tá. Voltando aqui, você disse que você e sua namorada querem mudar de vida, me fale mais a esse respeito.

– Então, a gente tá se curtindo muito. A gente quer largar tudo isso e começar de novo. Nós conversa muito no quartinho da pensão que a gente paga com os programas que a gente faz. A gente sabe que esses programas é pra poder pagar as despesas e a droga, que a gente é dependente. Mas a assistente social da ONG disse que se a gente quiser ela encaminha nós pro tratamento, mas o problema é que não tem lugar pros dois agora, que a gente tinha que se separar, mas nós não quer. Nós quer ficar juntos, cara.

– Mas vocês se dispõem a se separar pra cuidar da reabilitação? Como seria isso pra vocês?

– Olha, a gente conversou sim. A gente pode até ficar um tempo separados porque o que a gente quer é retomar a vida. Pai, a gente não é bandido, a gente é gente e o que eu e ela queremos é poder voltar a ser gente de verdade e não essa merda que a gente virou... A gente é novo ainda, eu acho que a gente pode voltar a ser gente que nem você, que nem todo mundo... Um dia eu ainda vou voltar lá pra Bernardópolis com minha mulher e ver minha mãe e meu irmão caçula...(silêncio)

– Certo, Alessandro, eu espero que vocês consigam mudar o rumo da vida de vocês. Muito obrigado pelo seu depoimento. Boa sorte pra vocês.

– Obrigado, mano. E, olha, pode falar pra todo mundo que essa vida é uma merda, que não vale a pena entrar nessa parada sinistra, não.

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Acidente na região de cracópolis causa morte de casal em quarto de pensão

 

Terça-feira, 23 de maio. Acidente ocorrido na demolição dos prédios desapropriados por decreto municipal do prefeito Jordão Nória causa ferimentos em oito pessoas e a morte do casal Edivaneusa (19) e Alessandro (21) atingidos por uma viga de concreto enquanto dormiam no quarto de pensão onde moravam desde outubro do ano passado. Eram onze horas da manhã quando o trator que cumpria a ordem de demolição para a construção de um conjunto habitacional no local levou abaixo parte do prédio vizinho à pensão quando se ouviram gritos vindos do edifício onde funcionava a pensão. De imediato foi suspensa a demolição e as autoridades envolvidas constataram que vinte e três pessoas se encontravam no local, dentre essas o casal atingido pela viga. Os feridos foram encaminhados ao pronto socorro central de Higienopolândia e o casal foi encaminhado ao IML para perícia e reconhecimento dos corpos.

A declaração do Secretário de Segurança do Estado classificou o infortúnio como "efeito colateral", e que as ações para coibir o tráfico e o consumo de drogas serão intensificadas até a completa higienização do local. A Secretaria Municipal de Habitação afirma que no lugar onde se situava a cracópolis será construído um conjunto habitacional para os consumidores recuperados indicados pelo pastor e líder da Igreja Universalizante do Império Divino, Milas Salafraia.

Em entrevista à nossa repórter, a Senhora Pureza D'Alma do Amor Divino representante da Associação dos Cidadãos de Bem do bairro de Eugenópolis afirmou que " ainda na semana passada um pequeno grupo desses jovens drogados se aventurou na Praça Ares Saudáveis e nós tivemos que usar da força de nossas milícias (devidamente autorizadas e legalizadas junto aos órgãos competentes) para tirá-los do local para segurança das nossas crianças e pets", a Senhora Pureza afirma ainda que "a situação está totalmente fora de controle e que é preciso uma ação mais enérgica para que possamos ter segurança e vir à Sala Higienopolândia assistir as apresentações da Filarmônica de Utópolis e poder usar nossas joias e carros importados sem sermos incomodados por essa verdadeira horda de malfeitores drogados", conclui. O sentimento da Senhora Amor Divino foi partilhado por muitos dos comerciantes e moradores da região que afirmam não suportar mais aquela situação.

Ao ler a notícia publicada no diário, Maurício sente como tivesse levado uma bofetada. "Filhos da puta – fala consigo mesmo – eu entrevistei esses meninos, são pessoas que sentem, que sofreram as dores da vida e que tinham esperança de reconstruir suas vidas e que a indiferença e o descaso dessa sociedade hipócrita transformaram em meras estatísticas e em efeito colateral, um dano inevitável!"

Bertolt Brecht afirmou certa vez que a cadela do fascismo está sempre no cio...

Em Higienopolândia as cadelas já deram suas crias...

 

[1] Crise de 2008 em decorrência da "bolha imobiliária" originada na Finlândia que afetou os países europeus e os EUA, alastrando-se por boa parte dos demais países. (N.A.)

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Marcelo Luiz de Felice

Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André, é desenhista, pintor e joalheiro por prazer. Trabalha como revisões, traduções e educação ambiental. Ensaísta ocasional.

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