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Capitais Pecados – Avareza

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Caroline acordara cedo naquela manhã acinzentada de inverno, não havia nenhum motivo especial para que se levantasse naquele horário, afinal era período de férias escolares, mas também não vira a menor razão para que permanecesse na cama depois de desperta.

 

A penumbra que as cortinas proporcionavam ao ambiente do quarto não amenizava a angústia opressora daquelas paredes que pareciam querer envolvê-la num abraço sombrio. Teve medo.

Um tremor percorreu seu corpo frágil, sentiu um arrepio brotar em sua nuca que se irradiou pela extensão da coluna vertebral e, qual teia de aranha, espraiou-se por cada terminação nervosa à flor da pele alva eriçando os delicados pelos castanho-dourados que sutilmente recobrem o jovem corpo.

Ao levantar-se do leito sente os pés tocarem a maciez sedosa do tapete e a sensação lhe causou um instante de prazer, desliza os pés num desenho abstrato, sem sentido, apenas para sentir o toque aveludado e macio. Quanto tempo não sentia o mesmo toque através de mãos igualmente macias?

Senta-se no tapete, desliza os dedos finos – mãos de pianista já disseram – como a reproduzir aqueles arabescos artisticamente tecidos sobre o fundo cor de sangue. Deita-se no tapete na vontade de obter aconchego pelo abraço que aquele tapete não pode lhe prover, rola o corpo seminu e sente o toque da madeira cujo frio causa-lhe momentânea repulsa que logo se transforma em prazer ao experimentar o sutil aquecimento do piso em contato com seu corpo ainda quente das cobertas.

Decide por fim sair daquele transe sensorial, afinal existe um mundo real para além do quarto e, mesmo que esse mundo não seja o ideal, é aquele ao qual foi destinada seja lá por qual entidade cuja crueldade determinística a espantava e assustava.

Era seu mundo.

Era sua sina.

Era seu castigo por não se sabe qual pecado cometido numa outra existência, numa outra realidade para além de sua compreensão juvenil.

Caroline olha ao redor e se espanta com o que vê, o quarto é um apanhado da menina que fora até pouco tempo atrás, ainda podia m ser vistas algumas bonecas, pelúcias e almofadas de vários matizes de rosa, cor que em outros tempos tinha sido sua preferida. Em contraste, estantes repletas de livros muitos dos quais indicados pelo professor de filosofia – tensa coincidência – Heráclito, eram livros de autores instigantes, desafiadores do pensamento comum e conformado, livros que questionavam a existência e a superficialidade das relações, livros que colocavam a contrapelo a vida mesquinha e avarenta dos que não ousavam mudar e, sobretudo, transformar a sua realidade e a realidade do mundo.

Mas aquele contraste entre a menina impúbere que já não mais existe e a adolescente que não apenas se questiona, mas busca desafiar os valores da hipocrisia da sociedade onde está imersa, se impõe de forma contundente que parece expor suas vísceras numa espécie de harakiri de dentro para fora do seu ventre.

Era, sim, preciso mudar. Mas como?

Aos dezesseis anos recentemente completados, mesmo que mudanças fossem necessárias, esbarrava-se a todo o momento com os muros opressores do domínio doméstico e familiar, além das convenções e determinações sociais igualmente despóticas.

O amplo espelho revela o corpo miúdo de seios rosados e levemente empinados, gostava de seus seios apesar de pequenos ainda, gostava de brincar com eles, senti-los enrijecer ao toque de seus dedos. Seus olhos percorrem a linha vertical do ventre esguio e se detêm por um instante no poço do umbigo, irônica cicatriz denunciatória do elo vital entre filha e mãe e que hoje é apenas uma lembrança de um passado não lembrado – por que não nos lembramos de tão poderoso elo? O dedo indicador se caminha pela trilha de penugem dourada até a barreira rendada que cobre o triângulo de pelos castanhos levemente emaranhados e nesse ninho sua mão se aconchega e sente o calor se apossar do seu ser. A respiração acelerada denuncia o orgasmo que explode numa miríade de cores e umedece seus dedos ávidos.

Na sala a mesa posta anuncia o café da manhã que está servido aguardando paciente que a  família se reúna antes das atividades diárias. A fartura das iguarias incomoda Caroline, sabe ela que muito daqueles alimentos todos nem serão consumidos. Lembra-se de uma passagem ainda na infância quando perguntou à mãe o porquê de tanta comida para tão poucas pessoas e a resposta lacônica foi "porque podemos, pessoas como nós podemos nos dar o desfrute de mesas fartas". Ao insistir no destino das sobras de tal fartura a resposta foi seca "isso não é problema seu".

Na cozinha encontra Agda e Mariana, respectivamente copeira e cozinheira, terminando os preparativos da refeição matinal – o suco de laranja do Dr. Evandro e o suco verde da Sra. Ingrid devem ser servidos quando estiverem à mesa – não se surpreendem com a entrada da jovem. Na verdade, à exceção da adolescente, raramente outro membro da família entra naquela cozinha (existe outra à beira da piscina, a cozinha gourmet para uso exclusivo das incursões gastronômicas do Dr. Evandro e seus convidados), cômodo reservado exclusivamente para os empregados domésticos.

– Filha, o café tá servido lá na mesa – exclama Agda visivelmente preocupada. Sempre que a Sra. Ingrid surpreende a filha naquele lugar a copeira é duramente repreendida.

– Eu vi, Agda. Só vim mesmo dar um beijo em vocês duas...

– Então vá logo pra sala, ralha Mariana, se tua mãe te pega aqui quem leva a bronca somos nós...

– É, eu sei, a "dona" Ingrid acha que cozinha não é lugar pra "gente como nós"...

– Vai, que eu vou levar café e suco. Agda sorri com carinho, sabia que a menina era especial e carente, afinal a vira crescer.

À mesa prova do café fumegante com uma fatia do delicado brioche com geleia de frutas vermelhas, gosta do contraste entre o adocicado suave do pão amanteigado com a acidez da das frutas gelificadas.

Súbito, o pai adentra na sala e apressado serve-se de café e "belisca" um biscoito, mal cumprimenta a filha única – Caroline se pergunta mentalmente se ao menos ele se lembra do nome que lhe dera – e sai a passos largos. Segundo a mãe, ele é um homem "muito ocupado", não é tarefa simples gerir um dos maiores impérios financeiros do país, mas para a jovem, aquilo pouco importava. Em verdade, toda aquela riqueza, toda aquela pompa poderiam simplesmente desaparecer, ou melhor, não eram a riqueza ou a pompa que a incomodavam, mas a indiferença consigo e a constante preocupação com trabalho, negócios, cotação das moedas, transações, enfim, aquele mundo no qual o pai se isolava.

Pontualmente às oito horas a mãe desce as escadas do palacete cinematográfico como fosse personagem de filme glamouroso, Caroline sempre estranhava aquela personagem que a mãe encarnava, os movimentos estudados, a fala pausada e os gestos comedidos podiam convencer as outras pessoas, mas ela sabia como era a mãe em seu íntimo, somente ela conseguia com que a mãe mostrasse sua verdadeira personalidade vil e mesquinha.

– Então, Caroline, seu passaporte está em dia?

– Infelizmente...

– Ótimo, ainda nesta semana iremos para Orlando onde você ficará e seu pai e eu iremos para New York.

– Mas mãe, eu...

­

– Não tem "eu", meu amor. O que existe é a nossa vontade, minha e de seu pai. Sabe quantas meninas adorariam estar em seu lugar? Quantias garotas dariam a vida por uma semana  na Disney?

O sorriso amargo denuncia o desprazer da jovem...

– Sei... sei o quanto vocês querem se ver livres de mim, deste fardo incômodo...

– Ah, lá vem você com esse discurso...

– Mãe, não é discurso nenhum, eu só queria...

– Chega! Não quero saber de suas lamentações! Vá arrumar sua mala, toda essa conversa faz mal para minha pele!

E assim a mãe põe fim à discussão matinal.

Em seu quarto, Caroline sofre com a impotência diante do autoritarismo e da incompreensão da mãe, ela apenas queria ter um pouco de autonomia, tomar suas próprias decisões sobre sua vida e suas escolhas. Não se tratava apenas de uma viagem indesejada para um lugar que não lhe fazia o menor sentido, mas de tudo que envolvia sua vida, até seus amigos eram motivo de críticas ácidas e comentários insidiosos. Lembrava-se de uma garota que conhecera tempos atrás que não se encaixava no "padrão" determinado pela família e da observação carregada de sarcasmo dos familiares lembrando a condição social da menina não simplesmente ressaltando a inferioridade econômica, mas os traços supostamente grosseiros que contrariavam as origens nobres da família de Caroline.

Esse tinha sido tão somente um exemplo de como a avareza humana se manifestava diante da sensibilidade da jovem "ovelha negra da família" que simplesmente almejava ser feliz a despeito dos valores que a distanciavam de seu pai e de sua mãe.

A dor a consumia.

Já não era possível viver e sobreviver naquele mundo de ódio.

O ardor da lâmina que, em sua trajetória rompe os tendões resistentes e, sob estes, as artérias do braço que pulsa alucinado numa resposta aos anos de anseio pelo mínimo amor, dão à adolescente uma incrível sensação de paz. A visão do sangue que brota rubro e quente, primeiro em gotas e depois em franco frenesi jorrando tal fosse fonte de vida e morte, aliado ao torpor prometido – e cumprido – dos medicamentos alucinógenos tomado aos borbotões, dá a Caroline a sensação de paz até então inalcançada.

Após algumas horas silenciosas, o estranhamento perante a quietude no quarto em penumbra da jovem Caroline, Agda busca entrar no cômodo da filha da patroa; a porta entreaberta faz seu coração apertar em tensa agonia e depois de adentrar no interior do aposento, a suspeita se confirma dura: sua menina jazia numa poça de sangue coagulado e a tez lívida denunciava a certeza da consumação do ato final.

Embebido no sangue o bilhete apenas denunciava a avareza de amor, carinho e compreensão que trouxeram lágrimas aos olhos da única pessoa que realmente amara Caroline dentro daquela casa suntuosa, sua querida Agda que sempre a ouvira em seus momentos de alegria e de angústia.

O toque insistente do celular de Ingrid que naquele momento atrapalha seu relaxamento no day spa fez com que atendesse a ligação com irritação e, sem dar chance de resposta, ralha com a empregada:

– Agda, quantas vezes já falei para você não me ligar quando eu estiver no spa!

– Mas, dona Ingrid, eu preciso...

– Você sempre precisa de alguma coisa! O que é agora?

– Dona Ingrid, é melhor a senhora vir para casa, a Carol...

– O que ela fez agora? Por que eu não posso ter um minuto de paz com essa menina!!!

– Ela... ela morreu, dona Ingrid! – E Agda explode em lágrimas.

– O que você está dizendo?

– Sim, eu encontrei ela no quarto com os pulsos cortados, toda cheia de sangue...

– Não faça nada, estou indo para aí agora!

Ao chegar à casa, Dr. Evandro já estava no local, sua fisionomia e os olhos vazios e secos denunciavam a catatonia em que se encontrava, incrédulo apenas balbuciava "Por que, meu Deus? Meu bebê..." E, à vista do corpo da menina ainda intocado no quarto onde crescera, e ao ler o bilhete denunciador, Ingrid teve a certeza da culpa que lhe acompanharia como eterna sombra da indiferente avareza do amor que nunca ofertara à única filha.

Ó pedaço de mim

Ó metade arrancada de mim

Leva o vulto teu

Que a saudade é o revés de um parto

A saudade é arrumar o quarto

Do filho que já morreu...

(Chico Buarque de Hollanda, "Pedaço de mim")

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Marcelo Luiz de Felice

Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André, é desenhista, pintor e joalheiro por prazer. Trabalha como revisões, traduções e educação ambiental. Ensaísta ocasional.

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