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Barracão número Seis

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O ano é 1944, o mês pouco importa, lembro apenas que fazia frio, muito frio, mas afinal para um grupo de condenados em razão da simples existência que se encontram confinados à espera de ser remetido para o cadafalso pouco ou quase nada importa a precisão temporal. Vale aqui ser humano. Vale? Vale ser? Vale ser humano?

Vale ser humano em tempos em que a humanidade objetiva e subjetivamente é colocada em xeque-mate diante dos horrores da guerra que se arrasta e arrasa a tudo e a todos?

Os tempos eram bicudos. Não era tempo apenas de penúria ou de simples miséria. Não. Se isso fosse, seria até fácil. Era tempo de confrontar no espelho invisível a própria existência impalpável ao mesmo tempo em que o real e o concreto esbofeteavam a cara de todos com a dureza e o escárnio dos algozes.

O vilarejo no norte italiano abrigava o campo que concentrava naqueles idos todo um universo (sub)humano: havia de tudo um pouco lá, famílias inteiras com mães e pais e filhos e filhas e avós, tinha um tio que sobreviera à morte dos seus e se arrastava a custa de uma muleta improvisada numa forquilha; famílias esgarçadas e ceifadas pelos anos de guerra; velhos que se fiavam em seus poucos pertences que guardavam como relíquias de um passado nem tanto feliz, mas menos cruel. Havia homens e mulheres com olhares vagos ao perderem seus amores diante de si – em tempo de escombros, amar é compartilhar a mesma sepultura e abraçar o ser amado lançado à vala comum[1] –, crianças feito zumbis escarafunchando o lixo em busca de si mesmas e de uma significação para a barbárie que se expõe em toda sua brutalidade e virulência diante de seus olhos ainda (?) inocentes.

Eis a nervura da significação desse tempo: a busca de si mesmo diante da insanidade bárbara que contrapõe uns aos outros como fossem instrumentos – ou meros joguetes – da desumanização que desconfigura aquilo que é humano. Mas mesmo diante desse quadro emoldurado por ódio e brutalidade, também é possível vislumbrar amor e delicadeza como fossem uma espécie de redenção diante do Leviatã que se ergue atroz e bestial lançando uns contra outros. Não, mesmo que fosse esse um componente da natureza humana, há outro, que oferece dativo não a outra face à agressão, mas a mão forte daquilo que nos une, o olho que nos funde com o espírito do outro que partilha do mesmo sentimento do sofrimento impalpável e, ao mesmo tempo concreto em sua dureza.

No campo de concentração, as pessoas se aglomeravam em barracões numerados. Eram aproximadamente cento e cinquenta almas italianas de várias etnias, ítalo-judeus inclusive, até então odiados; eram pessoas que partilhavam da mesma terra, do mesmo sentimento e da mesma alegria de viver vidas senão harmônicas, já que eram diferentes entre si, mas ao menos pacíficas no convívio; senão vizinhos, mas próximos, proximidade essa que lhes conferia certa cumplicidade e porque não, alguma promiscuidade.

Nós ocupamos o barracão de número seis, éramos meu velho avô, o patriarca da família Gattegno que, aos 77 anos, ainda exercia o ofício de marceneiro, ou pelo menos tentava exercer naquele local. Também estava minha avó Dora, dona das mãos mais hábeis na elaboração de deliciosos e perfumados quitutes, sua focaccia fazia nosso deleite cuja massa leve dourada coberta de alecrim colhido ali mesmo no quintal da casa e nadando em azeite esverdeado, sem falar, claro, das pastas em diversos formatos, do ravióli, do capeletti in brodo, dos molhos densos salpicados de rosmarino e lascas de parmesão. Juntos, tios e tias, primos e primas. Ao todo somávamos vinte e duas pessoas da família Gattegno, as idades variavam entre os 77 anos do patriarca até os dois anos de idade do pequeno Gian Carlo, filho do meu irmão mais velho, Fabrizio, e sua esposa Marcella, dona dos mais encantadores olhos azuis cujo brilho luminoso cativava a todos.

Os barracões eram alinhados em duas colunas de oito, perfazendo dezesseis deles; entre essas colunas uma espécie de avenida na qual acontecia a vida, digamos, social daquelas pessoas tão díspares que se encontravam reunidas pela mão da besta fascista. Desde a manhã, ao raiar do sol, homens e mulheres se dedicavam a seus afazeres, poucos se rendiam ao ócio dos condenados; não, a manutenção das atividades cotidianas, conferia-lhes uma tênue esperança, era como se fosse uma espécie de resistência ao destino inevitável que se oferecia. Mulheres se reuniam em grupos a preparar pães – mesmo com os poucos recursos que lhes eram disponibilizados – café ralo para enganar os estômagos vazios; outras lavavam roupas em tinas improvisadas nos barris que recolhiam água da chuva; homens executavam trabalhos de manutenção e, os mais habilidosos como meu avô cujo ofício meus tios, meus irmãos e eu herdáramos – costume recorrente naquele tempo – executavam todo tipo de trabalho para aquela comunidade em troca de roupas ou suprimentos e quinquilharias sem valor. Lembro-me da felicidade de minha mãe ao receber de meu pai uma medalhinha de Sant'Anna feita de metal barato presa num alfinete, Anna era o nome da minha mãe.

Mas era à noite que vivamos os melhores momentos. Ah, como era bom ver todas aquelas pessoas reunidas em redor das fogueiras; as fagulhas flutuando no ar quente; o crepitar da madeira estalando enquanto queimava como a reclamar do fogo que a consumia lentamente; as crianças brincando com os tições de pontas rubras que brilhavam fascinantes contra o céu escuro. Podíamos sentir o cheiro do guisado de legumes com minúsculos pedaços de carne (quando havia) que era cozido aos pés das fogueiras. Meu avô reclamava da falta do vinho que invariavelmente acompanhava as refeições antes dos malditos fascistas nos levarem àquele lugar. Lembro como fosse agora o gosto azedo do pão molhado no vinho, pão que minha avó Dora levava dias a preparar, pão de fermentação lenta que dava cor escura do miolo, pão pesado e de casca grossa.

Havia também cantoria, a música alegre e vibrante era sempre presente. Rabecas e sanfonas davam o tom aos tenores e barítonos que competiam entre notas altas e baixas que explodiam a partir dos peitos fortes e viris, cada um tentando superar o outro como reprodutores diante de uma fêmea no cio. Sim, nossa natureza humana também é animal e negar nossa animalidade é também negar nossa humanidade ao pensarmos na nossa condição de seres racionais apenas. Tal negação apenas anestesia nossos instintos; instintos primevos e competitivos que, a despeito dos antagonismos, nos unem em clãs, grupos e nações, instintos esses que nos levam às guerras e conflitos; queremos sempre e mais sobrepujar os demais, superá-los, demonstrar que somos maiores e mais fortes, demarcar nosso território, enquanto machos, enquanto grupo, enquanto sociedade.

Enquanto uns tocam e cantam outros dançam. No quadro das minhas memórias mulheres e homens movimentam-se ao som da música, ora frenéticos em roda, ora enroscando-se aos pares. Aos poucos os casais se afastam do círculo, vão buscar conforto no calor que dois corpos compartilham entre si. À distância, na penumbra, é possível vislumbrar beijos ardentes e carícias; mais ao longe outras duplas entregam-se ao amor; amor ansioso, como se tudo fosse se acabar naquele mesmo instante; um amor nervoso e ávido, a conjunção carnal e espiritual sem amanhã, sem promessas. Apenas amar, era o que bastava.

No campo de concentração caminhões chegam em comboio, uma longa e interminável fila deles e em todos a temível marca da suástica. Eram os nazistas que vinham levarmo-nos. Choro e ranger de dentes, todos sabíamos nosso destino. A manhã era clara, o sol brilhava indiferente no azul do céu – quem diz que dias terríveis têm que ser lúgubres? – onde fiapos de nuvens passeavam vagarosamente nas alturas. Os militares da SS, a temível milícia nazista, com sua contumaz truculência separava-nos em grupos: velhos e velhas, homens e mulheres adultos, jovens e crianças. Vi minha família (e outras tantas) esfacelada e desmembrada; velhos e incapazes eram executados sumariamente ali, diante de todos, nem ao menos uma vala comum lhes cabia; meu avô Oswaldo Gattegno teve a cabeça arrebentada por um único tiro na têmpora, sangue e miolos esparramados sobre a terra seca, assim como tantos outros velhos e velhas. Minha avó Dora de mãos talentosas não sofreu melhor destino ao ter o peito destroçado por uma saraivada de balas – por que tamanha vilania ao atirar em peitos que nutriram tantas vidas? Entre lágrimas pude ver a medalhinha de Sant'Anna pisada por botinas de ponteira de aço que destruíam costelas e arrebentavam maxilares, impiedosamente.

Poucos sobrevivemos.

Eu tinha quatorze anos de idade.

É ISTO UM HOMEM?

Vocês que vivem seguros

em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite,

encontram comida quente e rostos amigos,

pensem bem se isto é um homem

que trabalha no meio do barro,

que não conhece a paz,

que luta por um pedaço de pão,

que morre por um sim ou por um não.

Pensem bem se isto é uma mulher,

sem cabelos e sem nome,

sem mais força para lembrar,

vazios os olhos, frio o ventre,

como um sapo no inverno.

 

Pensem que isto aconteceu:

eu lhes mando estas palavras.

Gravem-nas em seus corações,

estando em casa, andando na rua,

ao deitar. Ao levantar;

repitam-nas a seus filhos.

Ou, senão, desmorone-se a sua casa,

a doença os torne inválidos,

os seus filhos vierem o rosto para não vê-los.

 

Em honra a todas as vítimas da barbárie das guerras.

 

[1]Referência a depoimento contido no livro "Diários de Varsóvia" de Adam Czerniakow (presidente do Conselho Judaico so gueto de Varsóvia durante a ocupação nazista) – Czerniakw, A. "The Warsaw Diary of Adam Czerniakow". Chicago: Elephant Papers, 1999, s/p).

[2] Excerto do livro "É isto um homem?", Primo Levi, tradução de Luigi Del Re. São Paulo: Rocco, s/d, p. 8.

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Marcelo Luiz de Felice

Bacharel em Ciências Sociais pela Fundação Santo André, é desenhista, pintor e joalheiro por prazer. Trabalha como revisões, traduções e educação ambiental. Ensaísta ocasional.

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