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Sono tranquilo

Em alguns momentos a vida parece uma verdadeira soma de crônicas, infinitas, diárias, a comporem um gigantesco mosaico que, no final, o sentido está na capacidade que se tem de conseguir juntar a todos logrando, dali, extrair sentido e, para os mais ousados, coerência. Fatos cotidianos se assomam, misturando-se de tal maneira com o excêntrico a ponto de nos proporcionar a confusão entre o que pertence ao dia a dia e o que é estranho a ele. Lugares como um aeroporto, por exemplo, têm cotidiano visível, principalmente, através daqueles que ali estão sempre, trabalhando ou viajando.

Estava com minha esposa, de madrugada, no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, à espera de um vôo noturno de retorno de férias, à nossa casa, Salamanca, nas proximidades de Madri. Ocupávamos as desconfortáveis cadeiras do terminal 2, em um local silencioso, não tão claro, tampouco escuro, com uma leve penumbra favorável ao cochilo. Um casal de americanos e uma senhora de aproximadamente 60 anos, com a mesma impressão, também escolheram cadeiras neste setor, não para se esparramarem, mas para deitarem da maneira que podiam. A senhora, com passaporte da União Europeia, de um tipo, brasileiramente falando, mulato, era a que mais tombava a cabeça na interminável guerra contra o sono. Definitivamente, parecia que ela perdia.

Lembro-me de alguém falar sobre como o sono é a única coisa em comum entre todos os seres humanos – e, provavelmente, todos os animais. Todos dormem. Todos têm de dormir. Uns mal, outros, bem. O mais impressionante é que, normalmente, o sono reflete a fragilidade da pessoa. O personagem de Rubem Fonseca, em Agosto, um daqueles solitários detetives que tinha de lidar com o submundo formando-se no cada vez mais urbanizado Rio de Janeiro dos anos 1950, odiava ser visto dormindo. À dureza de seu ofício, imerso em tanta hostilidade, não convém demonstrar fragilidade. Ele, com suas amantes, ou as expulsava, ou saía antes da chegada do sono. Dormir em um lugar público, como no Charles de Gaulle, é expor-se a si mesmo e para quem passa, essa fragilidade.

Pois bem, assim estávamos praticamente todos. Contudo, em um aeroporto, normalmente, não há sono pesado. Há sono de quem sempre está esperando algo. Logo, o simples latido de um cachorro é capaz de despertar. E assim foi. Percebi-o chegando ao longe. Era um pastor alemão enorme que, de pé, sobre duas patas, ficava maior do que o segurança do aeroporto a carrega-lo. A focinheira sustentava o imaginário de periculosidade do bicho nos fazendo pensar: e se ele estivesse sem ela!? O seu parceiro, o segurança, vai direto à senhora, a desperta e simplesmente diz: “Allez-vous”.

Não estava dormindo a ponto de fazer confusão entre o sonho e a realidade. Sabia do que se tratava: ele expulsava a senhora do aeroporto. Todos, naturalmente, acordaram. O casal de norte-americanos, visivelmente sem qualquer familiaridade com o francês, aparentemente não compreendia nada. Minha esposa e eu perguntávamos para o segurança o que acontecia. A senhora, talvez ao imaginar alguma autoridade em minha pessoa, dispara a falar, mostrando o passaporte e dizendo estar à espera de um trem na estação localizada sob o aeroporto. Ali ficou simplesmente para se proteger, pois julgava ser o terminal do aeroporto um lugar mais seguro.

Tudo foi muito rápido, beirando o incrédulo. Sequer consegui perguntar de onde vinha e para onde iria. O kafkiano segurança – daqueles que deixam a sensação de obedecer ordens sem saber exatamente de onde elas vêm – estava firme em sua palavra. Dizia, agora, com todo o tempo de trabalho, exposto ao ostensivo mundo das mulatas de 60 anos, saber o que fazia. Convicto, breve, curto, direto, expulsava a senhora. Dizia para ir embora. Não precisava dar-se ao trabalho de mostrar os documentos. Assim foi. Virou-se e sem qualquer palavra marchou silenciosamente em direção à escada rolante a levar ao patamar mais baixo do aeroporto, a estação de trem.

O segurança e o cachorro ainda ficaram um momento. Tentaram se explicar dizendo se tratar de uma mulher que sempre estava no aeroporto, vista continuamente em seus dois anos de trabalho – repenso, agora, se ele era realmente kafkiano. Diziam que ela tinha por hábito roubar passageiros durante a madrugada, enquanto dormiam. Diziam, simplesmente diziam. Quanta indeterminação. Diziam. Quem dizia? Ademais, somam-se dois anos da perigosa ação da mulata de 60 anos tombada pelo sono. Ainda assim, nunca a pegaram. Dois anos. Ela sempre voltando independente do aparato de segurança. Ela sempre voltando. Dois anos.

O cachorro e o segurança não se preocuparam em ver os nossos documentos. Não nos perguntaram nossa procedência ou nosso destino. Nem de nós, nem do jovem casal de norte-americanos – que, por sinal, permaneciam um tanto apáticos, mesmo após a minha explicação sobre o ocorrido. Talvez o autor do “diziam” também os informou de nossos dados. “Désolé, désolé et bonne nuit”. Assim foi. Assim foram. Não ouvimos mais o latido abafado da focinheira, embora ainda feroz. Não os vimos mais nas seguintes horas. Nenhum dos três.

Não sei o quanto aquela senhora era realmente ameaçadora. Não sei se ela realmente cometia furtos. Quiçá fosse uma verdadeira ladra – mas, talvez não. De fato, ela não transmitia qualquer ameaça. Estava entre nós, cochilando. Tinha os seus pertences, como todos nós. Mas ela foi expulsa do aeroporto e nós, não. O segurança e o cachorro, o cachorro e o segurança, contudo, eram ameaçadores. Talvez, para alguns, como o casal de norte-americanos, seja um tipo de ameaça segura, com aquela impressão de que tem de ser agressivo, forte, austero, ostensivo, para transmitir segurança. Algo do tipo: “Quero ver quem vai encarar”. Tudo isso dentro de um aeroporto. O medo consola o medo. Pode ser uma forma de ver e perceber o medo – aquele medo que se sente diante de um segurança com um cachorro enorme – como um artifício, uma nova maneira de lidar com o medo – o outro medo, o da violência sempre imprevisível, com potencial de surgir a qualquer momento.

Da mesma forma, a dupla de seguranças, diante dos riscos, talvez realmente precise se impor. E, perante o complicado trabalho de agir contra a sempre iminente violência, o melhor é ser violento. De toda forma, o imaginário dos dois lados, dos “protegidos” e dos “protetores”, dialogam. Confluem no sentido de permitir que se veja um ponto em comum: a violência a ser combatida com a ostensão. E a violência, neste caso, pode vir de qualquer lugar, supostamente, até mesmo de uma senhora mulata de 60 anos a brigar contra o sono. A violência utilizada contra ela é a mesma utilizada pela dupla de seguranças em qualquer caso. Não há discernimento.

Enfim, em meio a toda a confusão, restou-nos esperar. O susto paralizador não nos permitiu voltar à estação de trem verificar se a senhora estava lá. Da mesma forma, não nos permitiu prosseguir a discussão com os seguranças. Ou não quisemos fazê-lo, na típica paralisia diante do atônito. Permanecemos impávidos, quietos, procurando o sono perdido. Assim ficamos até o momento em que percebemos a súbita indignação, fruto do repentino sentimento de ter sido desrespeitado, nos rostos do casal norte-americano diante do pedido do pessoal da limpeza para saírem de maneira que pudessem limpar o setor. Não havia mais sono.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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