A+ A A-

A cidade vista de cima

Em Barcelona, o valor da passagem de metrô para turista é de dois euros. Existem blocos com 10 bilhetes que podem ser utilizados nos trens e ônibus com o equivalente de 10 viagens. Mais em conta, esta opção corresponde ao montante de 9,25 euros. Com ele, é possível subir e descer o Montjuic, percorrer a Diagonal e circular pelo Eixample, esticando na Sagrada Família. Ou seja, Barcelona está ao seu alcance. Se se perder, na dúvida, entre em um metrô. Lá, sempre haverá um mapa em que se pode orientar e chegar ao seu destino, a estação próxima ao hotel. Tudo isso por uma bagatela de 9,25 euros.

É comum, na capital catalã, encontrar imigrantes ilegais vendendo pequenas “lembrancinhas” da cidade de Gaudí – um dos mais célebres arquitetos modernistas. São quinquilharias, em sua maioria imãs de geladeira, de gesso, com um auto-relevo de algum monumento ou ponto de destaque da cidade. Um destes, com a imagem de La Pedrera, ou Casa Milá, custa quatro ou cinco euros – três por 10 ou 12. Obviamente, sempre é possível negociar ao ponto de pedir menos e poder comprar quatro miniaturas por 10. Africano ou asiático, a etnia e o idioma não são barreiras para o diálogo. Todos falam a linguagem do comércio. A pechincha é universal, seja você brasileiro, espanhol, italiano, polonês, falante ou não de inglês. Economizar nos regalos, nas miudezas, contribui para o desfrute da “Barcelinda”, como alguém já disse uma vez. Estes nômades comerciantes, sem código postal ou identidade, sempre estão dispostos a barganhar. Tendo uma vez forrados no chão seus lençóis para a exposição da mercadoria, desejam, unicamente, vender.

Enfim, com 9,25 euros se pode comprar três ou quatro pequenos e sortidos imãs, de imagens das mais diversas, a remeterem à capital espanhola do modernismo. Estes imãs podem ser distribuídos nas sessões de fotos e na reunião familiar pós-viagem. Tudo muito simples. Aliás, 9,25 euros é valor de 10 viagens de metrô e de ônibus para turista. Com pequeno acréscimo a esta ninharia, paga-se uma entrada individual na Casa Batló (16 euros), uma das minhas obras preferidas de Gaudí. Se der sorte, haverá uma meso-soprano ao piano cantando Haendel. Com algo parecido você pode, também, entrar no Parc Güell – aqui, somado ao valor da entrada de 12 euros, tem-se os imperdíveis seis euros pagos na hora de saborear o café com o brownie em frente ao sobrado do caseiro do imenso condomínio idealizado pelo comerciante Güell e projetado pelo célebre arquiteto modernista catalão. Isto equivale a praticamente 20 viagens no metrô.

Indo à Batló, Parc Güell, Montjuic, em qualquer lugar, é possível encontrar os mesmos ambulantes vendedores de quinquilharias, de imãs de geladeira. Andam em grupos de cinco ou seis e se alinham na exposição de seus materiais. Um atrás do outro. A inexistência de variedade entre eles, com todos vendendo as mesmas coisas, facilita a compra. O produto é sempre exposto no chão. A disposição direciona o olhar do turista para baixo. Sua visão vai direto naquilo que se pode aproveitar para presentear alguém, um pequeno “regalito” de Barcelona – a cidade que tem uma casa de Gaudí projetada para o caseiro do senhor Güell. Quando se decide por dar uma espiada nos imãs, dificilmente o viajante dirige seu olhar ao vendedor. Você não sabe, mas, enquanto escolhe, quiçá, compra, ele te olha. A cabeça do visitante, todavia, permanece pensativamente inclinada em um ângulo que, normalmente, não faz quando está em sua casa – a menos que se preocupe com o chão. Tampouco é comum esta flexão para o solo de quase 90º da cabeça na cidade de Gaudí que, ao contrário, induz o olhar para o alto, para as obras e sua riqueza material de azulejos cuidadosamente recortados e transpostos nas paredes de seus edifícios. Somente o imigrante obriga o turista a olhar para o chão.

É desnecessário perguntar o valor, indicado nos cartazes feitos por rudes mãos. Ademais, se não barganhar, não é necessário olhar para o imigrante. Procure apenas a carteira, o dinheiro. Pode fazê-lo, novamente, mirando direto o piso, onde as mercadorias estão expostas, ou para a sua bolsa, seu bolso. O movimento, contudo, é automático. Já sabe onde está, assim como sabe que há um vendedor à sua frente, sem ser preciso lhe dirigir o olhar. Se pagar em nota, atente para a cédula correta, não dando equivocamente uma muito maior, superior ao valor do produto. Nos segundos da busca do importe o imigrante não mira o turista. É neste instante, com a convicção da efetivação da venda, que espreita por todos os lados, tentando enxergar por sobre as cabeças da multidão – neste caso, expor em locais mais altos é vantajoso. Espera, sempre, a presença da guarda municipal. Teme a polícia e a apreensão da mercadoria. Teme ser preso e deportado.

Vive temendo. Espera amiúde a chegada de um policial. Entre eles, todos sabem o que se passa com quem é pego. Por isso, o momento do pagamento de uma mercadoria, de uma quinquilharia de imã de geladeira com a borrada imagem da Sagrada Família, é o de maior apreensão. O produto já está nas mãos do turista que conta moedas de um e dois euros. O comerciante, agora, mais imigrante do que nunca, deseja o automatismo do movimento de busca e contagem de moedas feito pelo turista. Não faz questão de imaginários segundos de conversa, ou mesmo de ser visto. Quer passar desapercebido. O seu valor está na obra de Gaudí transformada em miniaturas de gesso a serem imortalizadas em geladeiras ou painéis fotográficos. Se a polícia aponta à distância, tem de juntar as quatro pontas do lençol e correr. Deixa para trás o restante, inclusive as moedas que lhe seriam entregues, salvando apenas a mercadoria. E, depois de correr muito, procura outro lugar, momentaneamente seguro, para se estabelecer e tentar vender o seu produto, a Barcelona que conhece. E corre todo o grupo segurando sacos que somente de perto podem ser identificados como lençóis atados pelas quatro pontas. Juntos, procuram outro acampamento, mais seguro. E a segurança, neste caso, novamente, depende da capacidade de esticar o pescoço, assim como de sua acuidade visual. Seguem olhando por cima dos turistas que olham para cima, para os azulejos dos acrotérios, chaminés e curvos relevos dos telhados de Gaudí.

Conversava com uma funcionária do metrô enquanto adquiria dois blocos de 10 viagens, equivalente a praticamente 20 euros, oito ou nove barganhados imãs de geladeira, quando uma turba de gigantescos negros passou correndo por nós. Pulavam as catracas enquanto os turistas se recolhiam nas paredes da estação para não serem atropelados. Eram muitos, seis ou sete a voarem pelas escadas saltando com enorme facilidade a roleta de coleta dos tickets. Por último, um imigrante indiano, menos ágil, embora igualmente assustado. Este foi abatido por um musculoso homem de sua mediana estatura, acompanhado de outro de semelhante condição física. Foi um puxão na camisa que o levou ao solo, fazendo o seu lençol se abrir. Naquele momento, Barcelona estava em cacos espalhados no chão do metrô, entre escoceses, austríacos, espanhóis, franceses, ingleses, alemães, poloneses, italianos, enfim, diante do mundo. Pela primeira vez, Barcelona forçava o olhar do turista para baixo. Toda a obra de Gaudí estava aos pés do mundo que, cuidadosamente, tomava a precaução de não a pisar, pois sabia de seu valor. Sabia que na Rambla cada uma custava apenas quatro euros, podendo-se comprar a Casa Batló e a Sagrada Família, juntas, por sete euros.

Mas, naquele momento, o seu dono era um indiano de aproximadamente 20 anos. Enquanto era arrastado pela gola da camisa, expondo vergonhosamente parte de sua bunda a todos aqueles turistas, Barcelona escapava de suas mãos. Sabia o que acontecia quando alguém era pego. Sabia que nada de Gaudí lhe seria devolvido. Sabia que teria de voltar a correr, mas, agora, em sua terra, a Índia, que, outrora, também havia lhe escapado das mãos.

Avalie este item
(3 votos)
Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

voltar ao topo