A+ A A-

A autoridade do sentimento ou o sentimento da autoridade

No Brasil que nos fez brasileiros, quando alguém conta uma história, está acima de tudo contando-a para si mesmo. Não o faz apenas como registro de fato passado, tentando encontrar elos com o presente. Tampouco o faz com o intuito de atribuir importância a um lugar determinado, sua origem. O faz com o propósito maior de viver o presente.

E o presente do brasileiro é esse ato de narrar e alimentar a sua própria vida. Falamos de um povo que talvez seja o único no mundo cuja origem não está no passado, mas, nesta ação afirmativa do presente. Se conta algo, conta para si e para todos. E cada verbo pronunciado, como ação, é vivido em seu máximo. É uma espécie de eterno improviso, como no jazz, em que a harmonia, a base da história, está permanentemente à sua disposição, porém, cada execução é única e diferente de todas as outras.

Portanto, não sei se Flávio Vassoler escreveu o texto ou se foi o texto que escreveu o seu autor. “E se o transatlântico, enquanto vai a pique, fizer o elogio do próprio naufrágio?” fala muito desse brasileiro que se autoafirma permanentemente. Pode ser (1) por insegurança dos personagens que têm somente a si e ao meio; ou (2) pode ser pela certeza de que a afirmação é o único caminho para a manutenção de seu eu em um mundo dinâmico. Particularmente, para mim, o número dois é a mais instigante. Mas, falemos da primeira, mesmo que seja muito rapidamente.

A desigualdade é a marca sociológica do brasileiro. Vive neste abismo de oportunidades que sujeita o eu de suas vítimas às mais terríveis provações de existência. E, então, este mundo emerge como desafiador, exigindo a sua afirmação, fazendo-o impulsivamente violento, ou metodicamente cuidadoso e subserviente, a depender do contexto.

Falamos, neste caso, de uma ralé que sobrevive andando pelas sombras de nossas cidades – ou dos buritizeiros agrestes dos recantos brasílicos. Não importa mais escondê-la, pois convive-se bem com ela, afirmando permanentemente qual o seu lugar. Eis então a imensa insegurança do vitimado brasileiro, carregador dos lixos do luxo de seus algozes capitais. Tudo isso é minimamente conhecido de nossa literatura, de nossas rodas de conversas intelectuais. Vamos, agora, ao segundo dos meus pontos.

Na narrativa de Vassoler, importam os fatos. A sua sucessão se dá de forma tão viva que parecem ser simultâneos. Se se contasse de modo tradicional, estaria exposta a narrativa referente ao acidente de Abraão, a maneira como ele ocorre e como um fato, um elemento posicionado na história, bem delimitado pelos acontecimentos temporais a se interporem, determina o destino de toda uma família. Porém, não é isso o que acontece.

É a autoridade quem prevalece como o grande personagem. E ela está no irmão mais velho, Abraão. E essa autoridade transfigura-se em um domínio, na sujeição de um ser humano pelo outro, amputando sua liberdade e até mesmo a sua capacidade de ação. Se ele age sob o prisma de um domínio deste tipo, não o faz por pura vontade, mas apenas por força de sua fraqueza, essa eterna afirmação de insignificância ante outrem.

E Abraão faz exatamente isso, exerce a autoridade não com sua própria força, mas com a da fraqueza alheia. O faz como uma dominação tradicional no sentido mais weberiano, domando a todos os que se encontram ao seu redor, fazendo-os tão ínfimos que o que desponta, acima de tudo, é a si mesmo.

O “si mesmo”, então, ergue-se como narrativa. Mas, como dito anteriormente, não é uma narrativa mobilizada para a impressão de uma história. Tanto é assim que dados como o acidente ou mesmo o seu casamento deveriam despontar ante uma significação do sujeito por meio da ascese, sua prisão neste mundo. Trata-se, contrariamente, de uma narrativa feita por Abraão, para ele mesmo, de modo a atualizar a sua autoridade, encantando este mundo ao ceifar a capacidade de reflexão dos seus irmãos e de sua mãe, impedindo-lhes o exercício da razão motivada por um fim.

Logo, precisa repetir para si e para os outros o domínio em todos os momentos. É dominando os seus que afirma para si a sua autoridade durante o trabalho. É dando um churrasco que o faz no lazer, demarcando o seu espaço como aquele a predominar ante todos. É com o brado do desafio que demonstra para si mesmo como vencerá. E isso o permite fazer da tetraplegia, da cama e da cadeira de rodas, algo a se temer. E cada vez que aciona essa narrativa, faz o presente e, consequentemente, a sua própria existência.

A cabeça baixa do irmão caçula, o braço forte, o carro popular totalmente personalizado e, depois, o leito, a cadeira de rodas, a língua como chicote exprimindo ofensas e verbos imperativos. Tudo floreia a história de Abraão. Tudo faz, para Abraão, que ele exista.

Se esse brasileiro não é racional a ponto de superar algo que anule o seu próprio eu, tem em seu lugar o sentimento. Cordial, do latim cordus, coração, não significa necessariamente bondade. O homem cordial buarquiano é movido sobretudo pelo afeto, para o bem e para o mal. E o impulso de Abraão é pura cordialidade. A sua afirmação permanente ante os seus, igual. É o sentimento quem coordena a sua vida, orientando-o no mundo, dando-lhe lugar em tudo. Não há pura racionalidade – não que o Brasil não seja moderno, mas, se não o for, isso não seria um grande problema.

A sociedade brasileira é composta dessa cordialidade a preencher todos os espaços, do mais sertanejo cenário, com o chão rachado pela seca de um sol sobre as cabeças de corpos descalços, ao asfalto escuro de São Paulo, absorvedor de calor ao ponto de colocar um sol sob os pés calçados. A relação do brasileiro com o mundo é puramente afetiva. Vive nesse afeto constante, criando e recriando o seu mundo de forma eternamente improvisada.

O sentimento ocupa um projeto de mundo, esfumando a possibilidade de um fim racional imaginado de maneira antecipada. Vive-se com esse sentimento como com uma palmatória ao mesmo tempo em que ele é a mão estendida para o soerguimento da queda. Mas, as palmas estão inchadas e doloridas. Portanto, se esculpe a sua arte, o faz com o sangue e a dor torturando as já deformadas linhas da palma.

Porém, esculpe algo absolutamente original, pois no momento da concepção da escultura tem ali todos os sentimentos, desde a resignada dor do castigo à satisfação de ver algo pronto, do reconhecimento da capacidade de criar a despeito de sua condição.

Não existe vácuo entre os sentimentos humanos. Logo, discordo do incômodo de Sérgio Buarque de Holanda quanto à inexistência de uma ascese intramundana na Lusitânia Tropical – segundo a sua própria classificação de herança ibérica no Brasil. Isso somente tornar-se-á o mais importante no momento em que se considerar a via racional como a única legítima, tal como o mundo moderno ensinou ao restante das civilizações. Assim, o espaço deixado pela razão moderna que não existiu é dignamente preenchida pelo afeto.

O texto de Vassoler extrai esse sentimento entre os brasileiros. Leva-o às últimas consequências no caso da dominação de um membro da família sobre os outros. Rompe com a mitologia bíblica ao mesmo tempo em que se remete a ela, pois, se a autoridade de Deus é vertical e inquestionável, impondo-se de cima para baixo à Abraão, para que sacrifique seu filho, Isaac, Flávio permite-nos que o nosso Isaac seja um rebelado. É comandado pelo seu poderoso sentimento, quase um impulso dessa fraqueza extremamente forte, que aceita o desafio do primogênito. Do mesmo modo, é este sentimento que, ao final, provoca o acidente. Assim como é este sentimento que empurrará a cadeira de rodas e cuidará de Abraão com suas necessidades básicas.

O sentimento de nosso Isaac é vigoroso, pois é incapaz de provocar-lhe o isolamento no mundo, deixando de lado o seu irmão. O nosso Isaac não pode fugir e se refugiar em montanhas como o herói romântico em busca do contato com a natureza como forma de recompor uma definição original do ser humano, um estado de natureza rousseauniano. O nosso Isaac precisa, antes de tudo, viver com este sentimento. Sem ele, não é nada.

Esse afeto, orientador do brasileiro no mundo, criou nossa literatura e nossa música, permitindo, por exemplo, que um autor escreva sobre uma cruel dominação entre integrantes da mesma família – ao modo como o fez Flávio Vassoler. Traz à tona, para todos nós, o esqueleto de nossa constituição cultural, permitindo-nos olhar com as lentes mais adequadas, a de nosso afeto, o nosso próprio afeto.

Se a dominação que encontramos no texto de Vassoler é significativa para nós, hoje, isso se dá porque ela nos é muito cara, estando presente no dia a dia, servindo, às vezes, cruelmente, de princípio para a organização de nosso próprio mundo. E ela está tão presente, dialogando tanto com nossa realidade, que parece naturalizada. Não é mais somente uma questão de capitalismo, de diferença de classes, cuja fórmula final está na superação da “classe em si” em uma “classe para si”. A prova é que vimos atualmente indivíduos de uma classe serem dominados por outros, seus pares. “E se o transatlântico...” faz isso muito bem.

Um bom exemplo está nas igrejas evangélicas que proliferam pelas esquinas de nossa malha urbana. Elas são a mostra clara da dominação que se exerce por meio desse afeto, mobilizando os sentimentos, sentimentos ligados à degenerescência do ser humano em uma situação de espólio de dignidade. Enfatiza-se em cultos a miserável natureza humana em um desespero – puro afeto – por uma salvação que já não pode mais esperar, tendo de se realizar naquele exato momento.

O ódio que tomou conta de nossas ruas recentemente – perigosamente interpretados de forma quase exclusiva como conflito de classes – também é um reflexo disso. E quiçá o mais interessante esteja no fato de que o brasileiro consegue viver com esse ódio sem transformá-lo em ação de destruição física plena. Ninguém nos últimos tempos vai a uma manifestação do lado oposto com uma bomba – o brasileiro não tem temperamento para a aniquilação coletiva, para a resolução definitiva de conflitos. Não formamos grupos terroristas, pois preferimos viver com nossos sentimentos de rejeição pelo outro nos alimentando continuamente.

Ou seja, segundo o meu entendimento, viver com esse sentimento de ódio – uma forma de afeto – é algo normal e, até mesmo, quase que natural para o brasileiro. Vive com ele afirmando-o cotidianamente da mesma maneira como Abraão faz para si. Para dominar, ele é raivoso, impetuoso, e vive com isso, pois precisa disso.

Voltamos, então, ao princípio deste texto. Cada ação de Abraão é uma narrativa para si mesmo. Conta a sua história de maneira permanente, construindo-a de forma constante no mundo, afirmando para si mesmo quem ele é. Domina odiando. E uma corrida de veículos com o seu irmão é quase que como um desfile – um desfile para si mesmo. Ali Abraão narra a inferioridade dos seus exaltando a sua superioridade.

Abraão não poderia ficar tetraplégico por meio de um acidente de carro comum – ou mesmo uma queda na escada, sozinho em sua casa. Tinha de ser em uma corrida, algo que tivesse público, que todos pudessem ver e sentir a abraânica autoridade queimando a estrada – bem como o temor de Isaac fazendo-o correr.

Da mesma forma, esse Abraão autoritário tampouco poderia se consternar vendo a sua esposa gozando a vida. Não é de sua natureza viver internamente o prazer – mesmo que seja pela satisfação da carne de outrem. Ele é sentimento puro, quer toque de pele, quer vida no corpo. Só conhece o amor se tocá-lo, se vive-lo de uma forma ardente.

Igualmente, Abraão não poderia matar-se. Pois, assim como é extremamente sentimental, é coletivo, pré-requisitando o outro. Do mesmo modo, vale-se do outro para criar a narrativa que afirme a própria existência, tomando esse outro como referencial para a vida e para a morte. E sendo esse outro um dos seus não está de forma alguma matando a sua história, pois ela apenas existe enquanto o seu autor está presente.

O “jornalismo” sensacionalista, embora tente comover, é objetivo em seu objetivo: procura julgar Isaac, culpado ou inocente. Pinta a sua imagem como a de um assassino de tetraplégico – novamente, a sombra da autoridade de Abraão, agora, com sua deficiência. E o laudo é dado pelo Dr. Simão Bacamarte que, se em Machado de Assis não tinha a certeza da loucura, aqui, tampouco tem quanto ao sentimento de Isaac. Apela, então, para o sentimento tirânico de Abraão, necessário para a existência do próprio irmão caçula.

O júri corresponde à autoridade abraânica e concede a Isaac o salvo conduto para a reintegração – talvez todos tenham o seu Abraão. E ele se liberta do julgamento dos outros, convivendo, porém, com o seu próprio. E, segundo aponta Flávio Vassoler, o sacrifício continua sendo de Isaac, que matou a autoridade que lhe construiu como o ser humano que é. Racionalmente falando, libertou-se. Mas, na verdade, apenas destruiu a fonte de um sentimento vital. A partir de agora, Isaac terá de contar a sua própria história.

Avalie este item
(5 votos)
Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

voltar ao topo