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Crônica de Michel Pasmado

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O presidente interino está chocado. A sua conhecida sensibilidade aflora. Talvez seja a mesma sensibilidade que escreveu em poemas, como “Embarque”, mostrando o desencontro com Dilma. Agora, como diz, “psicologicamente chocado”, nos damos conta de sua face ingênua – para efeitos desse texto, prefiro pensar em ingenuidade.

Os acontecimentos últimos tocaram seu íntimo e abalaram sua certeza de mundo. Em depoimento, tal certeza era coroada pela convicção de que toda a população brasileira o receberia de braços abertos, quase de joelhos. Que suplicando para trazer os bons ventos da economia de mercado, da dignidade política corrompida pela vermelhidão do descaramento petista. Já vislumbro Temer, meses antes, recebendo visita de uma entidade misteriosa, como uma fada, em um sonho, dizendo-lhe claramente sobre o seu destino salvador de governante de um Brasil falido.

Sua bondade é tamanha que pode ser medida pelo coração ferido de vice de enfeite, o vice que versa – como diria Xico Sá –, tal como descrito em sua carta, vazada para a grande imprensa, acidentalmente, claro. Igualmente, foi sua inabalável fé no próximo que o fez antecipar-se, posicionando como estadista, gravando um áudio de discurso de posse que, de novo, por mero acidente provocado pelo dinamismo dessa insensível inteligência artificial dos smartphones, vazou para quem não deveria. Tecnologia maliciosa.

Porém, a despeito dos acidentes e pela pura bondade de seu coração, continuou acreditando na humanidade. Respeitou caladamente todo o processo. E foi por ato supremo de bondade, na certeza da remissão humana, nomeou pecadores para a sua tropa de choque política. É ou não é um homem bom? É ou não um homem de bondade impossível de ser medida até mesmo pelas celestiais escalas de bondade? E essa benevolência extrema é o que o faz ser ingênuo.

São muitas as provas de sua generosidade. São infinitas as provas de fé no próximo, mesmo que este próximo tenha falhado em eventuais participações no poder corruptor do ser humano. Michel não tem o que temer. Ele é bom.

No livro “Crônica do rei pasmado”, Gonzalo Torrente Ballester descreve o jovem monarca espanhol, Felipe IV (1605-1665), que, em uma manifestação de ingenuidade, exige o direito de ver a rainha nua durante o ato sexual. Esse desvelo impensável no chatíssimo século XVII causa incômodo. Toda a corte fica sabendo de seu desejo e se depara com o dilema entre agradar ao rei e contrariar as regras fortemente regidas pela moral da Igreja católica de então. Preferem a cobertura do véu e todos chegam a temer um castigo divino pela ousadia real.

Mas, ao sentimento de ingenuidade do rei, Torrente Ballester descreve o encanto juvenil com a possibilidade de ver a rainha nua. Trata-se de algo aparentemente simples, a revelar mais do que pelos pubianos e alvas curvas. O rei sente que teria diante de si a verdade sobre o fantasiado. Porém, toda a sociedade, embora regida sob o poder absoluto do monarca, sente o baque da ousadia do rei. Fica pasma à possibilidade da entrega da nudez da real.

O bondoso Temer está ansioso. Não pela nudez da bela, recatada e do lar, Marcela. Assim está pelo fato de que agora tem de se confrontar com tudo o que antes elogiava enquanto forma de pressão para apear Dilma do poder – uma presidente rodeada de pessoas más e que não soube distingui-las. Sofreu ao atestar o vínculo de um aliado tão próximo, como Jucá, com essas pessoas más (ah, Jucá! Faltou apenas o beijo). Prefere acreditar que tudo isso foi fruto da perfídia destes inescrupulosos, pois lhe soa docemente a imagem criada pela sua cabeça de um povo clamando por seu governo. Quem pede a sua saída nada entende de pureza e de bondade do ser humano, não compreende a verdade.

Se o Felipe IV de Torrente Ballester tinha uma ingenuidade quanto ao tabu social da nudez, o Michel Temer do Brasil tem uma ingenuidade quanto ao tabu político de revelação da verdade dos corredores da dama Brasília.

Logo que chegou ao poder, Temer, seguro de seu caminho, reivindicou o seu direito à nudez d Brasília. Ficou pasmo. Viu que toda a bondade por ele dedicada a este mundo degenerado do poder é contestado. A nudez de Brasília revelou mais do que ele esperava, quebrando todo o encanto de um ingênuo mundo de pessoas de joelho esperando pela sua salvação.

Ao ver a rainha nua no século XVII, Felipe IV se emociona de forma que toda a sua candidez de antes, sua ingenuidade, é revigorada na forma da pureza do desconhecimento ante um belo supremo, possível de ser criado por uma entidade superior, Deus. Michel, por sua vez, tem diante de si o susto da verdade. E é com esse susto que pega o véu e tenta recobrir o nu diante de seus olhos. Preferiu a ingenuidade.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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