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O natureza machista da sociedade

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Ela não sabe, mas está enganada. Não foram 33. Foi uma sociedade inteira. Incluo entre os estupradores, mulheres. O hedonismo de uma sociedade que pinta em sua fachada de pele alva o hétero não como identidade de gênero, mas como estandarte. E há briga para carrega-lo, leva-lo a frente dessa imensa procissão que desfila sobretudo para si mesmo.

O machismo nosso de cada dia educa. Eu, homem, branco, hétero, fui ensinado ao longo dos últimos 30 anos a ser homem, branco e hétero. Deveria sempre ter me ofendido quando os meus traços delicados de criança, junto com os cabelos grandes muito cacheados, fazia com que me confundissem com uma menina. Era comum ouvir perguntarem aos meus pais: “Qual o nome dela?”. De forma alguma posso ser “ela”.

Ter nascido com pênis é final de linha. Seremos homens. E ser homem é ser hétero. E ser hétero, ser machista. Assim formamos uma cultura que ensina a gostar de futebol e a afirmar a masculinidade. Devemos revidar às agressões. Devemos investir nas meninas. Óbvio que elas querem. Ensinam desde pequeno que as meninas querem os meninos – mesmo que elas não saibam. Por isso, estamos sempre em nosso direito.

E assim vamos nos tornando macho. Afirmamos a frente de nosso corpo protegendo a parte de trás. É ofensivo ser chamado de viado. Devemos revidar. Não admitiremos nunca que nossa mãe seja puta, pois significa que ela não é de nosso pai. E se nosso pai não é macho, não tem direito exclusivo sobre nossa mãe, quem dirá nós.

Mas, às obrigações de defesa, temos os prazeres. Devemos nos masturbar. O nosso gozo é o mais importante. Devemos sair em busca dele todas as semanas. Todos os dias. E como este gozo é um momento tão rápido, tão passageiro, quase um átimo, podemos dar-nos o luxo de preocupar-nos com a quantidade. A feminina natureza, na verdade, é o natureza. Perfeito. Feito para nós, os homens.

Seguindo nestes passos, pegamos o estandarte mencionado no primeiro parágrafo. Isso é uma obrigação. É uma forma de reivindicarmos o direito sobre a nossa sociedade, sobre o nosso prazer. A ordem do natureza é saciar nossos desejos de jovem macho. E nós somos um, dois, três, 33, 200.000, infinitos. Somos o astro mor. Tudo deve estar em nossa órbita.

Devemos exibir a masculinidade. E, como ela é nossa, de mais ninguém, devemos reforça-la. E, para fazer isso, é comum que observemos o outro. Mas, devemos fazer com cuidado. O menor deslize indica viadagem.

E há escalas gradativas de macheza. Variável quantitativa, podemos acumular pontos. E a relação dos pontos com a macheza é diretamente proporcional.

Em um natureza a serviço do macho, há competição para a conquista de mais território. E conquistar mais território é conseguir maior realização de prazeres. Os prazeres que são nosso direito. Utilizamos, como referencial, a variável, a escala de macheza. Assim nos afirmamos. Projetamo-nos na sociedade. É o desfile. Orgulho em ser hétero.

Mas, o natureza tem também as suas ameaças. Porém, nós, machos, somos tão perfeitos que o combate se dá pela pura afirmação de nosso origem. O rugido mais alto ganha. Devemos sempre limpar o mundo de ervas daninhas que ameaçam a perfeição do natureza, belo e viril.

Ser macho é afirmar esta ordem natural do mundo. Ser macho é exigir o mundo como sendo de nosso próprio direito. O natureza nos pertence.

E como tudo está à nossa disposição de machos, basta estender a mão. Ou o pênis. Foi assim que nos últimos dias, no Rio de Janeiro, 33 machos, com o seu direito sobre o natureza, não fizeram “nada de mais”. Apenas reivindicaram o que se lhes era de direito: a macheza. Obviamente, a culpa somente pode ser dela. Sempre será.

Por isso devemos culpar a menina. O mundo não é para ela. Neste natureza machista, feminino é secundário. Não adianta falar sobre isso ou assuntos desviantes. Para entender o ciclo biológico normal devemos falar do macho. E somente dele. Por isso não falamos em gênero. Por essa lógica, homens e mulheres devem ser machistas. Sempre.

Um estupro, portanto, não pode ser considerado um crime. A culpa, não pode ser dos estupradores. A culpa é dela, que não compreende a lógica do natureza, incapaz de entender a sua utilidade neste mundo.

Minissaias, shorts curtos, miniblusas, decotes, topless, enfim, o macho verdadeiro compreende tudo isso como adereços exigidos por esse natureza. Se ela os usa, afirma a sua condição de prato de um banquete. Não é de ninguém.

Uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil. São 131 mulheres diariamente. O estupro está naturalizado em nossa sociedade. As lentes do machismo obscurecem tais dados e a possibilidade de fazermos uma discussão realmente sincera sobre isso.

Assim se constrói uma cultura do estupro. Se nos negarmos a falar dessa cultura, negamo-nos o reconhecimento de uma sociedade machista, cuja dominação do macho é exercida sobre todas as formas de identidade de gênero. E o status de uma sociedade desigual é mantido como normal, natural. Impedindo-nos de falar de uma verdadeira natureza social. Em seu lugar, cultiva-se sempre o natureza machista.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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