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Humilhante sucesso

Foto Heudes Regis Foto Heudes Regis

Tum tum tum tumtumtum tum tum. A frenética batida monótona do tecno no saguão principal da Faculdade de Engenharia da UFJF dava o tom do evento. O sorriso no rosto era quase um crachá de identificação, uma espécie de condição para o acesso. Todos portavam em seu pulso uma pequena pulseirinha de cores berrantes, a variar de acordo com o dia, indicando o caráter de vipilidade, o sujeito vip.

Tum tum tum, falava-se alto. Nas conversas, gritavam para entender um ao outro, muitos rigorosamente vestindo casacos moletons com as identificações da Faculdade de Engenharia, dispostas em signos a distinguirem as especialidades: elétrica, civil, produção, mecânica, mecatrônica, ambiental etc. A cor negra do popular agasalho era a regra, quase um uniforme, para falar do que todos de largo sorriso no rosto esperavam: empreendedorismo.

A palestra inaugural da Semana de Empreendedorismo da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora prometia. Trazia um jovem rapaz de sucesso, que explicaria como era possível ser multitarefas e feliz. No Aurélio multitarefa significa “o sistema operacional capaz de executar simultaneamente duas ou mais aplicações ou realizar duas ou mais tarefas simultâneas”. Os traços negros do jovem palestrante, contrastando com a plateia de cútis branca, o distanciavam das feições de um sistema operacional comum. Mas, com a evolução da palestra, entendeu-se o significado múltiplo de seu termo.

Autoclassificado como homem de sucesso com apenas 28 anos, transita por Belo Horizonte em uma CG Titan de 125 cc, “irroubável” pela “incapacidade de fuga em um assalto”, em suas próprias palavras. Trabalha das 8h às 22h. O seu segredo é manter o bom humor durante toda a vida, além de dar aulas de dança para ambientes de trabalho, o Labdance, anunciando o dado proletário não previsto por Karl Marx, levando felicidade para os amargurados e entediados trabalhadores – o tédio, como o velho barbudo pode esquecer do tédio proletário?!

A palavra trabalho é repetida incessantemente, quase como um mantra, algo comum como o ar respirado pelas centenas de pessoas presas no anfiteatro que não abriram a porta para sair nas duas horas de palestra. Isso mesmo, ninguém se dirigiu para fora. O jovem, inegavelmente simpático, interagia com o público, pedindo-lhe que se levante, que troque de lugar com o colega, que o cumprimente, que dê um sorriso para o outro, enfim, que humilhe a tristeza e a submissão ao sofrimento do dia a dia massacrante a enfrentar o cotidiano competitivo, mas natural, encontrado fora daquela sala.

O pesquisador Ari Pedro Oro fala em demonologia na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). O princípio iurdiano consistiria em conhecer o diabo, saber tudo sobre ele para, então, humilhá-lo. Pensando na ideia do sincretismo religioso, na mescla de valores de culturas de matriz africana, inevitavelmente presentes entre os brasileiros, o conhecimento de tais traços culturais, africanos, associados pelos fiéis ao demônio, é uma forma de negar essa origem, purificando a sua identidade. E a humilhação, neste caso, representa o máximo da negação de sua origem, transformando-o em algo novo, um novo ser humano.

Da maneira como conduzia sua palestra, o jovem parecia fazer o mesmo com o demônio do empreendedorismo, o fracasso. Passa grande parte de sua fala identificando-o através de traços como preguiça, insatisfação, reclamação etc. O sujeito comum não poderia manifestar esses sentimentos. Logo, tenta, constantemente, humilhá-los, em uma tentativa de extirpá-los de seu ser. O indivíduo moderno, o indivíduo de sucesso, não pode reclamar, devendo aceitar a situação e suas adversidades, aproveitando oportunidades que mostrar-se-iam evidentes o tempo inteiro, ao alcance de qualquer um.

Assim, é vetada qualquer possibilidade de questionamento de sua própria realidade. Em sua “humilhação do fracasso”, qualquer senão é visto como afronta às resplandecentes oportunidades que se anunciam. Preguiça, falta de motivação, são os nomes para o diabo do empreendedorismo. Aceitar a situação, é deixar levar pelo fluxo das coisas, da vida. Confrontar é proibido, quase uma heresia – está repreendido em nome do sucesso.

O ponto alto da palestra é quando pede a todos que fechem os olhos, que deem as mãos alçando-as, pronunciando palavras de autoestima, como uma espécie de oração, de prédica para si mesmo, reforçando a ideia do que deseja. E era impressionante como todos estavam realmente convictos disso. É o fortalecimento do sujeito para o enfrentamento com o diabo. Falam para si, pois o sucesso é algo a depender do indivíduo. O esforço contínuo é o único meio de alcança-lo. Se não o faz, a culpa é sua.

Falar para si mesmo é pregar para si mesmo. Derrotado o fracasso, está autorizado a voltar para o tum tum tum do lado de fora. Disfarçada a resignação, passa a aceitar sua condição, mesmo sem perceber. A partir de então, convence-se de que deve trabalhar e, se você for mulher, como anunciado pelo palestrante multitarefas, deve “chegar aos 30 anos casada”, de modo a não tatuar o seu insucesso de morar na casa dos pais ou, pior, de morar sozinha. Compondo a metade do público, a mulher, como dito, deve ser amada. Deve encarar o mundo do lado de fora com a mesma “responsabilidade masculina” – sim, embora a palavra seja feminina, responsabilidade é atributo masculino.

Ao final da palestra, todos estavam revigorados, novamente prontos para o tum tum tum. Do lado de fora, conversavam, gritavam, trocavam ideias e demonstravam o êxtase. Um grupo de mais de 20 cerca o autointitulado-jovem-bem-sucedido-da-honda-Titan-que-trabalha-60-horas-por-semana-e-aceita-palestras-para-estudantes-dos-primeiros-períodos-de-uma-faculdade-de-engenharia. Interrogam-no sobre a vida, pois ele tem o segredo, demonstrando que os aliviou, por um momento que fosse, do peso do possível insucesso.

Tum tum tum é o clamor pelo sucesso, a sua exigência, o contraponto de uma vida de investimentos, de expectativas. Embora dinheiro não seja tudo, conta. Conta muito, pois ele vem como consequência de uma dedicação quase que espontânea do sujeito que aceita a vida pelo que ela é. Assim foi a segunda palestra, do homem de rosto ossudo, um verdadeiro defensor da economia de mercado nos dias em que a Oi pede socorro ao governo. Relata a sua experiência com a bolsa de valores, ao investir o equivalente a um carro, resgatando somente as rodas, tal como relatou. E depois disso, ademais de ter pedido falência em três bares dos quais foi sócio, estava ali para falar de sucesso, de vencer na vida, de superar as contingências, os elementos inúmeros que se interpõem a nos impedir de conquistar as glórias ao alcance das mãos – principalmente se você tiver mãos grandes.

Humilhando o diabo do fracasso, falava com ímpeto, de forma quase ininterrupta. Comparado à palestra anterior, do rapaz feliz, estava mais vazia, mas, como dizia ele mesmo, estava séria, pois ali ficaram os verdadeiros interessados em conseguir as respostas para o sucesso. A vida é um fechar de olhos e batalhar de sol a sol (sinônimo de trabalhar), sem medo de arriscar, sem se preocupar com o fato da tradicional instabilidade econômica do Brasil. Não importa o que tem, importa que tem de valer-se de tudo. Ganhar e perder é algo comum, uma espécie de continuum a compreender todas as nossas vidas. Conjugar tais verbos é parte do grande número dos bem sucedidos.

O jovem do rosto ossudo falava com a certeza do sucesso. Definitivamente, para os que ali estavam, comparado a estudantes dos primeiros períodos da faculdade de engenharia, ele era bem sucedido – pode dar-se ao luxo até de perder um carro na bolsa de valores, coisa que esses meninos não conhecem. Por isso era admirado. O grande sucesso chegará, chegará, chegará. Não basta esperar, basta saber esperar.

Aos poucos, fui percebendo que a faculdade de engenharia era uma espécie de forte a se erguer diante de um imenso deserto, tal como descrevia Dino Buzzatti em seu livro “O deserto dos Tártaros”. O sargento protagonista, Drogo, ficava ali, olhando sempre para a esplanada do deserto, para o sem fim do horizonte, na expectativa do acontecimento de algo, à espera da guerra que nunca vem. Torna-se tenente e depois capitão, sempre desejoso do conflito. Sem eles, as patentes que praticamente não serviam para nada.

Os estudantes ansiosos pelo segredo do empreendedorismo eram como Drogo. Tal como o personagem de Buzatti que, no princípio, acreditava que sua estadia no forte era passageira, os alunos da engenharia olhavam para o horizonte, sabendo que sua posição é momentânea, que passará rapidamente porque algo vai acontecer. E passam a vida esperando, tal como Drogo. Guardam a certeza desse glorioso futuro à medida em que percebiam que deveriam saber esperar, não mais somente esperar. Esperar, esperar, esperar.

E saber esperar seria algo a passar longe da passividade. Esperar é algo ativo. Aqui, ação é resignação, pois o sucesso existe, está ali na frente de todos. Viram no jovem-autointitulado-como-bem-sucedido e no jovem-de-rosto-ossudo-falidor-de-bares.

Humilha-se, então, o fracasso. É a melhor forma de não cair na tentação da preguiça. No evento, não havia professor da faculdade, milionários e figuras do gênero. Nada disso. Mas, não precisa, pois o sucesso existe. Está ali a prova. Tal prova está na cabeceira de sua cama e produz uma luz tão viva, tão resplandecente, que, na hora de dormir, não se pensa em tirá-la de perto, em busca da preguiçosa escuridão do quarto. Dorme-se com ela, acalentando o sono, como uma cantiga de ninar: Tum tum tum tumtumtum tum tum...

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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