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Cadê Preta Bá?

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O regozijo foi durante a descrição da morte de Preta Bá. A roda estava no auge, abrindo-se ainda mais para o duelo dos mais graduados capoeiristas. Preta Bá, morta, não viu. Mas o brasileiro comum, sim.

Habilidosos, homens e mulheres de branco zuniam o aú, a chibata, a meia lua de compasso. Em uma espécie de malabarismo com o próprio corpo, desafiavam gravidade, mostravam a capacidade de o ser humano voar ao rés do chão e contorcer-se no ar. E cada gingada, cada zunido do vento era abafado com o refrão da canção, ritmado pelo toque da percussão e do berimbau, a descrever o destino de Preta Bá: “Meu Deus, cadê Preta Bá, meu Deus!?”[1].

Em meio à inebriante capoeira, ninguém via Preta Bá. Morria ela e, depois, de saudades, o filho do coronel. O sinhô, autor do castigo, batia sem querer matar. Era para aprender uma lição, um “bater maneiro”, mostrando-lhe o lugar. Lugar que os capoeiristas sabiam qual era o deles. No centro da roda. Lugar que, igualmente, o público sabia qual era o seu.

O filho do coronel morre de saudades da Preta Bá. Todavia, como descrito na canção, ao também morrer, encontra-lhe no céu. Pois, na terra, com o sinhozinho, fenecia a possibilidade de conciliação das raças no Brasil – a democracia racial que nunca houve. As Pretas Bás sempre morrendo, uma atrás da outra. Estavam já mortas no 13 de maio. Comemoravam a abolição mortas. Depois, quando dispensadas pelos seus antigos senhores, andavam a esmo nas ruas dos centros urbanos brasileiros, sem casa, sem comida, sem aceitação. Mortas com a própria liberdade, procuravam o que fazer, sem trabalho, voltando, em muitos casos, mais mortas ainda, para os seus antigos donos, morrendo novamente na chibata.

Por isso a cultura negra é o exótico. Nasce de um povo fatidicamente censurado, proibido. Nasce de Pretas Bás. As mesmas Pretas Bás do centro do terreiro, sendo castigadas pela arbitrariedade do outro, seu senhor e dono. E o exótico do passado manifesta-se com o mesmo tom de exotismo, no centro da roda de capoeira, chamando aplausos de todos os que a assistem.

E o negro passa a ter o seu lugar garantido na sociedade brasileira. Uma sociedade que, majoritariamente, em suas novelas, em seus trajes, em seu cabelo esticado, em seu imaginário, descreve a si como o sinhozinho. Aquele mesmo que do negro quer somente o afago, o carinho, o prazer, a capoeira. Transforma, então, o negro passado em passado negro.

Sai em busca da purificação apagando o negro passado do passado negro. Relega seus ascendentes às periferias, erguendo Chatubas, Vilas Kennedys, Pavunas, Vigários Gerais, Paradas de Lucas. Marginalizam-nos, deixando-os às margens das Avenidas Brasis, com suas passarelas enferrujadas, com faixas de pedestres apagadas, enfim, com nada a ligar-lhes efetivamente de um lado a outro, dividindo eles mesmos, criando periferias dentro de periferias. Entretanto, conferem-lhes salvos condutos para frequentarem as zonas nobres cariocas, vendendo picolés, sacolés, paçoquinhas, sucos, de modo que a conveniência os chama para refrescar o duro lazer.

O negro passado, então, fica diante dos olhos do purificado futuro desejado. Está ali, continuamente, como estava Preta Bá, outrora, para o senhor de engenho, quando criava com o seu leite o pequeno Nhô. Enchendo o copo de suco, ou pegando a coxinha de galinha da estufa, lembra aos sinhozinhos de hoje o que eles não são, o que não devem ser, mas nunca o que foram. 

E o sinhô, amamentado pelo leite materno de Preta Bá, que hoje abre sorriso durante a descrição do destino de nossa personagem, olha para o seu negro passado com candura. É um olhar tenro, a lhe afagar a memória, amamentando sua imaginação acerca de sua origem. Cria-se a narrativa da tolerância racial, da democracia racial, apagando definitivamente o passado negro. Vive em paz com sua consciência, sem saber que, como o coronel de antes, continua batendo sem intenção de matar.

E o grande desfecho do sinhô, desfilando sua bondade, como o que bate sem querer matar, se dá justamente naquele momento em que aplaude a cultura negra, transformada agora em algo exótico. Abre o sorriso, admira-se com os rabos de arraia, com o incrível gingado negro. Sorri orgulhando-se do que é. Sorri enquanto morre Preta Bá. 

Para quem quiser escutar e conhecer a canção que inspira esse texto, pode acessá-la pelo link: https://abadarodos.wordpress.com/as-artes-%CE%BF%CE%B9-%CF%84%CE%AD%CF%87%CE%BD%CE%B5%CF%82/musicas/cd-boa-voz/preta-ba/ 

 

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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