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O que resta ao resto

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A lixeira normalmente presa em um poste, estava no chão. Não se sabe se foi o peso em seu interior que a derrubou. Notava-se, porém, o grande volume de lixo. Um homem aproveitava a oportunidade e revirava os detritos em busca de latinhas de alumínio. Duas crianças, talvez seus filhos, certamente menores de 10 anos, o acompanhavam sem, contudo, olhá-lo. Tinham a atenção tomada por outras crianças e adolescentes a correrem pelo prado da grande praça do ensolarado domingo, com um smartphone diante dos olhos. Buscavam um Pokémon.

Presos ao celular, não viam mais nada. Tampouco viram o homem a revirar o lixo. Definitivamente, olhavam o mundo a sua frente através da tela do aparelho. Se antes trancavam-se em casa, jogando com vidas ao criarem personagens para viverem uma realidade virtual, agora, mais do que nunca, virtualizam a sua realidade, colocando filtros instantâneos nos fatos, nos acontecimentos cotidianos. Não é mais efeito estético de uma fotografia, de um vídeo. É a purificação plena de um mundo que se torna insuportável.

Os smartphones são todos presentes de pais que, certamente, querem o melhor para os seus filhos. O jogo-aplicativo Pokémon Go segue uma tendência de um mundo que já não se suporta. Trata-se de um mundo que tenta maquiar cada vez mais as suas imperfeições, as manchas desarmônicas que pintam o seu quadro. Quando um jovem dos que foram descritos acima posicionava o seu celular entre ele e o homem que revirava o lixo, certamente o via. Porém, não o enxergava, pois o fazia à busca de um pequeno bicho virtual, de um mundo fantasiado que, por sua vez, tornou-se mais interessante.

Alguém dirá: “Ah, mas agora eles não mais ficam trancados em casa, sem a luz do sol, jogando incessantemente. Estão em relação com o ambiente”. Verdade. Mas, não é uma relação real. Tudo ali é fantasiado, filtrado com o propósito de transformar este mundo em algo tolerável da maneira mais cruel: ignorando a realidade.

Em um país como o Brasil, ignorar a realidade significa negligenciar a desigualdade e todos os males que produzem a miséria, a violência e a intolerância. Os meninos e meninas do Pokémon Go, quando buscam os seus bichinhos virtuais, convivem apenas com aquilo que querem, com a realidade que lhes é admitida. Conferem uma utilidade específica às praças e campos que, há muito, são ocupadas por pessoas que reviram lixo para sobreviver, que buscam vida na desarmonia causada pela ausência de tons e sobre-tons de sobras de comida, de latas de refrigerante e cerveja abandonadas.

É célebre a frase de McLuhan sobre o prolongamento dos membros humanos em meios de comunicação que transformariam a relação indivíduo-natureza. Tudo passaria a ser mediado. E, nessa mediação, a seletividade torna-se um ponto chave, central, para o entendimento da forma como este mundo será concebido. E como a realidade criada pela extensão humana tem um quê de arbitrariedade, de controle, tudo é ficção.

Como o leitor atento pode perceber, o questionamento deste texto não está propriamente no Pokémon Go. Vejo este jogo apenas como uma tendência, quiçá o primeiro de uma série de jogos e aplicativos que exigirão uma nova maneira de se lidar com a realidade, uma maneira selecionada e que é cada vez mais levada para jovens e crianças. Quanto mais novos são eles, mais naturalizada estará esta realidade virtual. E, como virtualidade, como algo artificial, criado, imagino o surgimento de novos seres humanos que se julgam no direito a um controle cada vez maior de seu mundo, podendo moldá-lo, transformá-lo, colocando combinações com os seus estilos, personalizando-os mais e mais, a ponto de se julgarem no direito de decidir quem pode participar deste mundo.

E agora, a realidade virtual, manipulada com o artificialismo desejado de uma universal assepsia, faz com que tudo seja possível. Distancia o ser humano de sua humanidade, ao colocar monstrinhos diante dos olhos de um mundo filtrado. São pessoas que preferem enxergar esses monstrinhos que, progressivamente, sem se dar conta, transformam outros seres humanos em coisas.

O homem que recolhia latinhas entre detritos revirados, enquanto rasgava sacos plásticos em busca de seu conteúdo, ao que parece, não se deu conta do corre-corre. Não percebeu a alegria e gritaria das pessoas ao seu redor de olhos grudados em seus respectivos celulares. Talvez estivesse preso demais à sua respectiva realidade. Talvez a sua realidade não tenha sido criada por si mesmo. Talvez ele não tenha controle sobre nada ao seu redor. Enfim, aquela realidade, a criada, a perfeita, faz as pessoas buscarem o Pokémon. A que resta ao resto, lixo.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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