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Racismo com código de barras

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“Mas ele é racista!”, disse o rapaz, um pouco recolhido, ao homem com quem falava, que, prontamente, retrucou cheio de convicção: “Pelo menos não é corrupto”. O tema da conversa? Bolsonaro. O ambiente? A banal fila de um supermercado na sexta-feira, princípio da noite. Quando? Início do mês. O local? Repleto de pessoas, principalmente trabalhadores que recebem o seu salário e preparam a compra dos próximos 30 dias.

Atônito, este foi o meu estado. Já o ouvinte do diálogo, se ficou escandalizado, não demonstrou. Aliás, parecia que estava resignado. Pressupus algum tipo de familiaridade entre os dois, a ponto de insinuar que estava acostumado a escutar afirmações semelhantes de seu interlocutor, um senhor, branco, de seus 60 anos, com séria expressão de aposentado “conhecedor da vida”.

Não percebi se algum outro cliente do supermercado teve reação semelhante à minha. Por um curtíssimo momento tive a impressão de que a declaração escandalosamente racista havia sido anunciada pelo sistema de som do supermercado, algo do tipo: “Atenção senhores clientes, Bolsonaro é racista, mas não é corrupto, e isso é o mais importante!” Eu ouvi. Logo, pensei ter acontecido o mesmo com todos os demais presentes no supermercado.

Nos negros rostos das trabalhadoras dos caixas não havia nenhuma surpresa instalada. Pelo contrário, o cansaço se fazia tão presente em alguns deles que aparentavam desejar, acima de tudo, que o dia acabasse bem antes das 22h. Em tais circunstâncias, racismo soava como uma palavra qualquer em meio a uma infinidade de outras palavras quaisquer, como gelatina, café, iogurte, arroz, carne, cebola, maçã (gala ou fuji?). Quase um produto. A diferença é que o racismo não tem código de barras.

Mas, parece que tem. Aparenta ter uma espécie de código tão normal, tão comum, a ponto de se tornar familiar em uma sociedade, determinando os lugares de cada um nas respectivas prateleiras. E isso vai desde o racismo mais banal, o das “piadas afetuosas”, que ficaria naquelas prateleiras mais baixas, ao alcance das mãos até mesmo das crianças. Bem próximo da boca do caixa, o consumidor pode simplesmente pegá-lo, pagá-lo e colocá-lo na sacola. Não pensa entre a piada e a sua instalação na cultura. Torna-se algo tão normal como dropes de menta ou aparelho de barbear. Como produto, mistura-se ali dentro mesmo da sacola e encontra o seu lugar na casa de seu comprador, de modo a estar sempre à disposição.

Entretanto, há ainda aquele racismo mais agressivo, localizado nas elevadas prateleiras ou naqueles locais de acesso restrito, como uma sessão pornográfica de videolocadoras. Com um tipo de biombo separador, não é qualquer um que se arrisca a entrar. Alguns demonstram até vergonha de fazê-lo na frente de outras pessoas. Preferem aqueles momentos em que ninguém observa, temendo ter o rosto reconhecido. Contudo, o desejo, talvez impulso, fala mais alto.

Neste último caso, ademais do cuidado, são exigidos pré-requisitos como uma vida privada bastante reservada para usufruir do produto. Trancado em um quarto, sozinho, é possível se soltar, dizendo realmente o que pensa, submeter, explorar, de modo a ser honesto com os próprios pensamentos. De certa forma, sente extremo prazer em fazê-lo, realizando-se. Neste isolamento, não vê diante de si mais do que um filme. E, de certa forma, em se tratando de um homem de bem, a atitude em si, aparentaria até mesmo relativa inocência, quase um “nada de mais”.

Ao final, seja em prateleiras acessíveis ou lugares mais discretos, como um produto, o racismo é tido como algo normal, consolidando uma cultura racista. É apenas uma piada, forte ou mansinha. Pronuncia as sílabas de nossa linguagem através da reprodução de estereótipos, principalmente por meio da grande mídia a fantasiar desde a “rebolante mulata” ou o “gingado sambista”.

Diante disso, não tem motivo para se preocupar com o fato de 67% da população carcerária ser composta por negros – dois em cada três indivíduos. E, mais, no ensino superior 71,4% dos estudantes brancos chegam a este nível de escolarização, ao passo que, mesmo com as cotas, apenas 47,2% dos negros têm o mesmo sucesso – já foi muito pior, pois, no princípio da década passada esse número era de apenas 16,7%. Mas, a defasagem permanece.

O caso do diálogo da fila relatado antes não era uma piada. Foi a fala de um homem convicto, provavelmente acostumado a fazer piadas racistas, que despontou. Um homem que não enxerga o negro na sociedade – apenas em uma prateleira, particular ou de supermercado. E, em meio ao gigantesco discurso moralizante da mídia – com uma máscara muito mais ameaçadora – não veria qualquer problema em ter uma liderança política declaradamente racista que, em seu entendimento, é algo irrelevante para essa sociedade. Pois, como compreende, é somente mais uma palavra, mais um produto com o seu código de barras, de uso exclusivamente pessoal.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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