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O certo pelo errado

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Em país de mídia falida, jornalismo de se orgulhar é algo alternativo. Por isso, entrevistar o Ferreira Gullar, pensei, foi minha alternativa. O homem do Poema Sujo, na fala, era “um bicho transparente”[1]. E era a sua transparência que o fazia reticente ao falar com jornalistas, como ele mesmo definiu.

No dia 04 de dezembro de 2016, novamente, pessoas estavam nas ruas do Brasil. Convinha ser em menor número. Embora sentir vergonha não fosse um problema, convinha saber o que gritar. Ali, tudo disfrutava de menor coerência, sendo mais sujo e menos transparente. De novo, pediam pelo fim da corrupção clamando por um líder – o judiciário.

O tema da entrevista? Sua poesia. Porém, preferia falar de política. Era reservado no trato com repórteres, principalmente quando solicitado a falar sobre seus poemas. Esquivava-se de uma vergonhosa mídia e confessou: “Muitos jornalistas hoje não conhecem nada de literatura”. São profissionais que pensam pelo pensado, o certo pelo certo, não o certo pelo errado[2], como queria o poeta.

Vestidos de verde e amarelo, respeitavam tudo. E, afirmando que deveriam respeitar, erguiam bandeiras com cores do brasão de Bragança. Em país cuja política sempre foi feita de cima para baixo, convinha respeitar os formuladores das regras que, naquele momento, se deram ao trabalho de irem para as ruas.

Como o seu poema, cri que Gullar não respeitaria nada[3] - que seria transparente. Controverso nos últimos tempos, era como um galo consciente da inutilidade do canto[4]. Para ele, o socialismo fracassou. Segundo seus poemas, a ideologia, que está na vida, é criada por homens e mulheres que alimentam ninguém menos que a própria vida a consumir sua ilusão[5].

A manifestação avança. Não alimenta vida alguma, mas consome tudo ao seu redor, bastando-se a si mesma. E medindo o dia pelo relógio de pulso, não pelo pulso[6], consome o seu entorno ao colocar tudo o que não caberia em um poema[7] em suas relinchantes vidas.

Gullar se foi. Deixou-nos a colher a sua ausência[8]. Deixou-nos em um dia em que as pessoas que se bastam a si mesmas vão às ruas – e que, agora, dormem em seus leitos de sal, satisfeitos com a moral, vendo o precário, porém, sem precário[9]. E neste domingo, de 04 de dezembro de 2016, a noite se acende ainda mais obscena sobre este nosso “país dividido em classes”[10].

Não, Gullar, não são só os jornalistas que não conhecem literatura. Até mesmo os poetas dos últimos tempos não a conhecem, preferindo bastar-se a si mesmos – e você sabe disso. A massa canarinha? Tampouco. Esses todos preferem ser donos do certo, desejando fazer o certo, ignorando completamente o errado[11]. E o fazem com extrema facilidade, alimentando-se do que, e de quem, a rodeia.

Nesta busca pela alternativa, olho para a nossa entrevista. E lamento. Lamento por você não ter sido corrompido pela sua própria poesia. Eu fui.

 


[1] Em referência ao poema Um instante. Ao longo do texto serão feitas referências diretas ou indiretas a outros poemas de Gullar.

[2] Off price.

[3] Subversiva.

[4] Galo galo.

[5] Aprendizado.

[6] Minha medida.

[7] Não há vagas.

[8] Prometi-me possuí-la.

[9] Neste leito de ausência.

[10] Madrugada.

[11] Off price.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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