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O picho de Dória

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Apagar os grafites de São Paulo é descaracterizá-la como cidade grande, como megalópole, com todos os seus problemas, porém, com todas as suas virtudes. Ao fazer isso, São Paulo deixa de ser São Paulo, deixa de ser o que é, tornando-se algo completamente desconhecido, estranho aos seus próprios moradores, aos habitantes que a constroem. A São Paulo dos limpos muros de Dória se torna a cidade desejada por uma classe beneficiada que, de fato, não contribui em nada para a construção do Brasil.

Trata-se de um grupo minoritário, mas inegavelmente poderoso economicamente, que sempre construiu muros. Agora, estes muros são de tinta. Furtam com a tinta, apagando o que realmente lhe confere o caráter de público. É um grupo que nunca se envergonhou de se apoderar da coisa pública. Não seria diferente com o olhar que afana os marcantes lugares percorridos pelo verdadeiro trabalhador.

Ao pintar os muros de São Paulo, João Dória deseja transformá-la em um pequeno bibelô, em uma pequena lembrança frágil, destas que se colocam nas estantes de casa, ao lado do arranjo das flores do campo que nunca foi visitado. Ao fundo, quer maquiar a cidade, subtraindo dela todo o traço de cidade. As ruas têm de se transformar em corredores prontos para acolher as famílias tradicionais que desejam olhar para fora e se ver no mundo clean imaginado na paz do lar, protegido entre os muros que isolam.

A São Paulo que conheci tem grafites. E tem grafites porque tem vendedores ambulantes, porque tem motoboys, porque tem flanelinhas, porque tem vendedores da 25 de março. Porque é deste meio que sai aqueles que andam a pé nas partes pintadas. Eles, sim, caminham pela escadaria Mariporã, no Cantinho do Céu, na Escola Municipal Jardim Britânica, no Tremembé, nas escolas da Zona Norte, entre outros lugares.

Quando se apagam os grafites da 23 de maio, na região central, está se dizendo em cinza quem são os verdadeiros donos da cidade. Ao trabalhador das classes populares do centro econômico do Brasil não lhe cabe um murinho sequer. Pelo contrário, deve caminhar reto para o metrô. A cabeça, sempre baixa, sem a possibilidade de desviar o olhar para aquele pequeníssimo detalhe do grafite de outrora, sempre ali presente, mas com uma nova surpresa a cada olhadela.

Ao trabalhador de São Paulo devem ser subtraídos não somente os muros. Deve-se apagar qualquer vestígio de sua existência, qualquer coisa que remeta à sua passagem por aquele mundo. O público de Dória, desejoso de um mundo clean, não quer o contato com o trabalhador, com o que sua, com o que anda a pé, de transporte público. Ele quer ser servido, sempre, preferencialmente, sem ver a quem o serve.

E São Paulo vai se fazendo cidade. E São Paulo vai se transformando em um imenso camarote. Uma cidade sonhada pela mediocridade dos que têm suficiente poder econômico para sujar com a uniforme tinta de uma cor só o muro que nunca foi deles. Lambuzam a megalópole com o cinza, com o branco, com o vazio das inautênticas famílias a passarem por ali de carro sem compreender nada – nem nunca compreenderam, nem tentarão compreender.

Emporcalham toda a cidade com o monótono tom de cores pastéis, infensas, que não dizem nada sobre aquele bairro, sobre aquele muro, sobre os que realmente vivem ali. São muros de tinta que, na verdade, são as pichações do playboy da Caviar Lifestyle. Na São Paulo de João Dória, até o picho é enganador, engana a dor... e a beleza.

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Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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