A+ A A-

Faixa amarela

Imagem Divulgação Imagem Divulgação

A alourada senhora do SUV coreano seguia pela via principal. O movimentado horário indica que tem um destino certo, tão reto e inquestionável quanto os metros de asfalto à sua frente. O yorkshire de laço rosa em seu colo serve apenas para demonstrar a segurança em encarar o agitado tráfego urbano. Os acontecimentos seguintes são muito rápidos, duram pouquíssimos segundos. Para. Bota o braço repleto de pulseiras para fora. Junto vai a cabeça canina. Faz um sinal sacodindo as lantejoulas. Provoca uma fila de carros. Converte ali mesmo. Corta a faixa contínua. Entra em uma rua secundária.

As buzinadas de quem vinha atrás e teve de esperar a resolução da senhora e do yorkshire, bem como a freada brusca de quem, na via contrária, teve de parar, abrindo-lhe caminho, são naturais. Fazem parte da orquestra do caótico trânsito. Nada de mais para yorkshires e senhoras alouradas de SUVs coreanos que residem em condomínios fechados, isolados da balbúrdia semafórica pavimentada por concreto, asfalto e faixas amarelas.

A rua secundária é quase um portal. Encaminha-a ao seu destino final, o Colinas do Império, Império das Colinas, Bosque do Império, Bosque das Colinas, Império do Bosque... enfim, qualquer destes criativos condomínios, sitiados de SUVs coreanos, yorkshires, lantejoulas, laços rosas e orgulhos.

Poucos estão preparados para entender as impreteríveis necessidades de um SUV coreano. Não dá para esperar o percurso de 300m até a rotatória seguinte. Cruzar a contínua faixa amarela é mais prático. É necessário. Quem pintou aquilo ali, daquele jeito, não imaginava o trafegar de yorkshires e senhoras alouradas em SUVs coreanos.

E que urgências! Alguém duvida que o mundo seria bem menos interessante se não houvessem platinadas senhoras de coreanos SUVs?! É très charmant o seu esticar de braço, dobrada na munheca, com o indicador levemente levantado, sacudindo-o em seguida. Em meio ao enfadonho trânsito, nos faz imaginar o farfalhar dos metais e pedras sustentados por seu punho. E tudo isso com os também platinados pelos penteados do cão, meigamente enfeitado com um laço rosa pink.

A cena supera a comum vista para a faixa amarela, suja de pneus, com chicletes curtidos pelo sol, manchas de frenagens – homogênea e desbotada. O detalhe pink do animal do SUV coreano é mais encantador do que qualquer lei de trânsito. É o pequeníssimo tamanho desses animais que os fazem recorrer a automóveis tão grandes. Abram caminho.

Avalie este item
(2 votos)
Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

voltar ao topo