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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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Publicado, no caderno literário Aliás (O Estado de S. Paulo), o ensaio "As noite de Sherazade e do rei Xariar" (25/03/18), de Flávio Ricardo Vassoler

Acaba de ser publicado, no caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (25/03/18), o ensaio "As noites de Sherazade e do rei Xariar” (titulo original: “Para Șahräzäd, é preciso sentir o orvalho da campina com os pés descalços”), de autoria do escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler, doutor em Teoria Literária pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). Eis o link o link para o texto publicado na versão online do caderno "Aliás": "‘O Livro das Mil e Uma Noites’ ganha uma nova edição no Brasil": http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,o-livro-das-mil-e-uma-noites-ganha-nova-edicao-no-brasil,70002238426. O ensaio em questão dialoga com o formidável “Livro das mil e uma noites” (Editora Globo, Biblioteca Azul), traduzido com muito lirismo e poesia por Mamede Jarouche, professor de Língua e Literatura Árabe da FFLCH-USP.

Publicado, no blog Estado da Arte (O Estado de S. Paulo), o ensaio "A feiura salvará o mundo: um diálogo entre Rafael, Kandinsky e Picasso" (23/03/18), de Flávio Ricardo Vassoler

Pessoal, é com alegria que compartilho com vocês o segundo ensaio de minha autoria que acaba de ser publicado no blog "Estado da Arte", vinculado ao jornal "O Estado de S. Paulo": (23/03/18) A FEIURA SALVARÁ O MUNDO: UM DIÁLOGO ENTRE RAFAEL, KANDINSKY E PICASSO – eis o link para o texto: 

http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/a-feiura-salvara-o-mundo-um-dialogo-entre-rafael-kandinsky-e-picasso/

Publicado, no blog Estado da Arte (O Estado de S. Paulo), o ensaio "Os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa: crítica e apologia sociais em "Pai contra mãe", de Machado de Assis (09/03/18), de Flávio Ricardo Vassoler

Pessoal, a partir de hoje, sexta-feira, dia 09/03/18, este escritor passa a colaborar, quinzenalmente, com o blog "Estado da Arte", vinculado ao jornal "O Estado de S. Paulo". O "Estado da Arte (http://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/) incentiva a publicação ensaística que procura subverter a divisão do trabalho intelectual entre arte e pensamento, criação e esforço do conceito. Sendo assim, os textos, via de regra com mais fôlego, tendem a acompanhar de forma rente a dinâmica (o canto de Circe) dos objetos com os quais se imbricam. 

Publicado, no caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (01/04/18), o ensaio "Aqueles que incineram a imaginação", de Flávio Ricardo Vassoler

Acaba de ser publicado, no caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (01/04/18), o ensaio "Aqueles que incineram a imaginação” (titulo original: “Aqueles que queimavam livros agora incineram a própria imaginação”), de autoria do escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler, doutor em Teoria Literária pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA). Eis o link o link para o texto publicado na versão online do caderno "Aliás": "‘Ensaios de George Steiner falam sobre a importância dos livros": http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,ensaios-de-george-steiner-falam-sobre-a-importancia-dos-livros,70002248681

Carta à mãe

Neuzinha, minha querida mãe,

Quem foi que me ensinou a imaginar? Quem foi que me ensinou a acreditar no itinerário de Pasárgada? [Ainda que, com aquelas chuvonas de fim de tarde e a falta de luz que sempre despencava depois delas, a gente precisasse de velas (velas trêmulas como as pernocas da Lara com medo do escuro) pra desbravar o corredor cheio de portas e sombras lá da casa de São Bernardo.] Quem foi que me ensinou que, se eu mergulhasse de olhos bem abertos na piscinona de 100 litros que o pai Nhanho montava lá na laje da churrasqueira (com aqueles oclinhos de plástico que cê tinha comprado pra gente fazer natação), eu ia conseguir descobrir o portal de Atlântida como Jacques Cousteau, o explorador dos sete mares (e, de quebra, eu talvez até desvendasse o mistério da carcaça do Titanic)? Você, mãezinha; você, minha velha. Você me entregou a chave da cidade do imaginário – o cordão umbilical da realidade ficcional.

1991, 3ª série (eu tinha acabado de fazer 10 anos). A rapaziada toda lá do Terra Mater gostava da Marcela – a Marcela tinha o queixinho delicado, olhos grandes e redondos, entre verdes e castanhos, encimados por sobrancelhas bem fininhas, e ela quase sempre usava umas tiaras cravejadas de pedrinhas brilhantes. No recreio, todo mundo descia pro pátio, e foi numa dessas ocasiões que eu aproveitei pra dar uma fuçada no diário da Marcela pra tentar descobrir se, afinal, ela tava ou não tava gostando de mim. [Eu tava pra lá de desconfiado de que a Marcela tava gostando de mim por três motivos cruciais: (i) uma semana antes (se tanto), eu tinha comprado um pirulito Dip ‘n’ Lik pra ela – pra falar a verdade, o pirulito até que era meio sem graça, mas o barato é que vinha um pozinho bem açucarado pra embebê-lo, e daí, quando a gente chupava o doce, o pozinho começava a explodir no céu da boca que nem rojão. Quando eu levei o Dip ‘n’ Lik pra Marcela, ela abriu um sorriso lindo – era a primeira vez que eu via as covinhas dela tão de perto –, me mostrou a língua arroxeada (o Dip ‘n’ Lik era de framboesa) e ainda me perguntou se eu tava ouvindo o foguetório no céu da boca; (ii) mesmo sendo são-paulina – eu fiquei com ainda mais raiva do Raí, carrasco do Corinthians (apesar de irmão do Dr. Sócrates), quando o diário da Marcela me segredou que ela só era são-paulina por causa dele –, a Marcela vinha me consolar quando o Timão perdia, sendo que ela chegou até a me presentear, no dia do meu aniversário, com uma figurinha pra lá de rara de Don Diego Maradona – justamente a figurinha que faltava pra eu completar o álbum da Copa de 90; (iii) num fim de tarde de muita chuva, eu entrevi a Marcela sentada lá no pátio da escola à espera da mãe dela. O cabelo dela, recém-cortado, tava à altura do queixinho. De repente, ela vira o rosto de lado e como que fica hipnotizada com um louva-deus que, meio cambaleante, vai carregando uma folha amarelada. Ah, mas eu não tive dúvida: o Marco Felipe, meu amigão ali da escola, tava andando com uma Polaroid pra cima e pra baixo. Eis que eu vou lá, surrupio a Polaroid dele e, de fininho, vou me aproximando da Marcela – eu chego até mesmo a entrever o pescocinho dela todo eriçado pelo vento úmido de chuva. Quando a Marcela me percebe, zás!, eu capturo o soslaio dela com um clique da Polaroid como se estivesse caçando borboletas. A foto sai da máquina num instante, e daí a gente só precisa chacoalhá-la pra que a imagem comece a despontar, como um fantasma que vai ganhando corpo. [Muitos anos depois, quando eu vi A fraternidade é vermelha e deparei, ao fim do filme (mais precisamente, após 1 hora, 31 minutos e 30 segundos), com o close do diretor Krzysztof Kieślowski sobre o rosto belo e aflito de Irène Jacob, eu podia jurar que estava (re)vendo a minha Marcela – os mesmos cabelos castanhos e molhados, a mesma boquinha entreaberta, o mesmo lábio superior levemente saliente.] Ora, e não é que eu encontrei, entre as páginas multicoloridas do diário da Marcela, a foto da Polaroid junto com a embalagem roxa do Dip ‘n’ Lik que eu tinha dado pra ela? [Naquele momento, com o corpo trêmulo de alegria pelo amor correspondido (meu primeiro amor), eu senti o ímpeto do sol laranja que ousa se levantar por entre montanhas íngremes, escuras e ainda não desbravadas.]

Pois é, mãe: quem dera essa alegria tivesse durado mais... Logo apareceu ali na escola um aluno novo, o Walter. Eu não deparei com ele de pronto – lembra aquele Corcel branco 78, aquela barca cheia de ferrugem que, aos trancos e barrancos, levou a gente pra Quintana naquelas férias de verão de 91? Então, deu problema no motor da caranga, mãe – a gente levou o carro lá pro Jaime consertar, e depois cê contou pra gente que o mecânico, teu conhecido de infância (e esperto como ele só), tinha tentado te paquerar (sem sucesso, coitado) uns 30 anos antes. Lembra disso? Então, o Jaime levou dois dias pra ressuscitar o motor, mãe, e daí, quando eu de fato fui pra escola, no terceiro dia de aula, a rapaziada isqueirinho – aqueles frangotes que, quando sai briga, só ficam botando pilha e gritando “te tirou grandão, iééé, iééé, iééé!”, “vixe, deixa barato, não, iééé, iééé, iééé!” – já tava girando a banca de apostas: quem é que é o mais forte da turma agora, o Ricardo ou o Walter?

Não demorou muito, mãe, pra eu sair na porrada com o Walter – eu nunca entendi por que muita gente da rapaziada isqueirinho, quando a treta começava pra valer, entrava pra turma do deixa disso e separava a rinha de galo. (Será que tinha alguma sensação de culpa pré-mirim ali envolvida? Ou será que aqueles frangotes agitões, ao separarem a briga que eles mesmos tinham incitado, se sentiam valentões pra além da própria covardia? Vai saber, mãe, vai saber!) O fato é que o Walter, mais alto do que eu, era, no entanto, mais lento, e eu dava umas voadoras certeiras [eu ficava treinando na parede do quintal depois de ver, pela enésima vez, o Van Damme voar em O grande dragão branco (minha velha, ainda bem que você e a vó Nena corriam pra limpar as minhas patadas na parede branquinha que o pai tinha acabado de pintar – ai de mim se ele visse aquilo ali!)]. Então, mãe, o tonto aqui, naquela disputa de macho alfa pré-mirim, consegui manter minha reputação de valentão – ademais, eu jogava muito mais bola do que o Walter e ia bem melhor na escola. Mas o problema, mãe, era o meu coração de Aquiles: a Marcela.

Uma a uma, as meninas da turma começaram a gostar do Walter, e o Marco Felipe já tava prevendo que, logo menos, a bola da vez seria a Marcela. (Eu continuava a fuçar no diário dela nos recreios: a princípio, nenhuma anotação propriamente reveladora; mas, com o tempo, conforme o pêndulo da Juliana, da Fernanda, da Camila, da Claudinha, da Patrícia, da Júlia, da Tamara e companhia ilimitada pendia para o Walter, a Marcela talvez tenha pressentido que, para continuar a ser a desejada das gentes, ela precisaria de novos ares.) Talvez eu não quisesse acreditar, mãe, já que eu não sabia como lidar com aquilo. Se o Walter me afrontasse em qualquer lugar, era porrada franca, era mano a mano, mas o amor da Marcela era como o vento: não dava pra fazer arapuca, não dava pra capturá-lo. Parecia que eu, o suposto conquistador, aquele que tentava manter pra mim o coração da Marcela, tava, na verdade, entrando na tocaia. Pela primeira vez na vida, mãe, eu me dei conta (mesmo sem saber) de que o amor é como um cavalo bravio – e que coisa diferente do amor de mãe, de vó, de pai e de irmã, mãe! O amor de vocês quase que não pedia nada de volta – ou, se pedia, pedia tudo (é só a gente se lembrar do pai me dando bronca e ordem quando eu fazia arte). Mas ali, com a Marcela, eu tinha que ficar cortejando, o que tava dito e jurado ontem (aquela jura de amor eterno escrita com canetinha na palma da mão) se desmanchava amanhã como formigueiro na chuva, era tudo muito frágil, era tudo muito incerto, parecia o gás hélio que, numa festa de aniversário da Lara (em 88, mãe, lembra?), a gente usou pra encher as bexigas: quando o pai inalava o gás, a voz dele ficava fina, fina, fina [por que que cê gostava de repetir os adjetivos três vezes, mãe? Parecia que a coisa nunca tava dita de fato, parecia que sempre tava faltando alguma intensidade pra realidade (será por isso, mãe, que, quando eu tô fazendo a revisão dos meus escritos, eu olho pros adjetivos com o cuidado do ourives?)]. Mas, ora, pouco depois de a gente dar aquele montão de risada com a voz fina, fina, fina do pai, a fantasia movida a gás hélio acabava. E era algo assim com o amor da Marcela: quando a gente tava mais feliz, eu queria fazer uma cerquinha em volta daquele momento, como se fosse uma barragem de castor prum rio, ou então um ninho de aconchego pro João de Barro. Mas o fato é que, fora de casa, mãe, o amor parecia não ter bote salva-vidas.

Veio o acantonamento no Rancho Ranieri, lá em São Lourenço da Serra, e eu consegui infiltrar o Marco Felipe como espião em relação a quaisquer incursões do Walter num raio de 10 metros da Marcela. Eu tinha certeza de que, depois de ter dado pra ela um louva-deus verdinho de presente, a Marcela ia ficar comigo – o bichinho era tão pacato, mãe, mas tão pacato, que eu nem precisei enfiar um alfinete no lombo dele pra ele ficar obediente. Bom, e como eu tava tranquilo, logo eu comecei a ralhar com o Marco quando ele me segredou que, enquanto eu tava jogando bola no campão, a Marcela tava andando de mão dada com o Walter. (Pra quem, até então, só tinha jogado futebol de salão, jogar bola num gramadão oficial pela primeira vez é o mesmo que esbugalhar os olhos pruma planície depois de sair duma caverna.)

– Como, Marco!? O quê?!

Como o Marco tinha esquecido a Polaroid em casa – cadê as fotos, Marcão, cadê? –, parecia (e/ou assim eu queria acreditar) que ele tava me afogando com convicções sem provas. [Eu cheguei a dizer que era pura paranoia do Marco dizer que a Marcela tinha dado um selinho no Walter na noite do último dia: afinal, Marcão, cadê o teu binóculo de captação ultravioleta? Sem ele, como é que cê tem tanta certeza de que viu esse selinho à noite? (O pior cego, mãe, não é aquele que não quer ver; o pior cego, minha velha, é aquele que só quer ver.) Na volta pra São Bernardo, eu fiquei num ônibus da excursão e, pro meu suplício, a Marcela e o Walter ficaram no outro. Quando o Marco se deu conta de que não adiantava abrir meus olhos, mãe, ele, como bom amigo, começou a desviar minha atenção pra revista Supergame: Ricardo, olha só, velho, saiu a sequência inteira do Alex Kidd in Miracle World, tem todos os truques e sequências pra vencer os chefões, agora a gente termina essa bagaça! Mas, curiosamente – e a gente parece estar repleto dessas passagens secretas –, quando o Marco parou de me alertar, quando ele começou a tergiversar, eu comecei a acreditar que o cuzão do Walter de fato tava com a Marcela. E foi aí que, no meio de uma estrada parecida com a estrada pra Quintana, mãe, os dois ônibus da excursão se emparelharam, e eu vi, lá da minha janela, a Marcela e o Walter, um ao lado do outro, bem apaixonados – a Marcela tava com a cabecinha no ombro do Walter, e ele ia fazendo cafuné nela.

Mãe do céu, que porrada foi aquela?! E pior, mãe: não dava pra eu revidar – era a decisão da Marcela, mãe, ela tinha escolhido, eu tinha perdido. O Marco, gente fina como ele só, fez que não viu e, além de fechar a cortina, ele como que inventou um pronunciamento coletivo pra desviar a atenção da galera pra dentro do nosso ônibus – o Marco sabia que, se alguém da rapaziada isqueirinho ameaçasse fazer qualquer piadinha pra cima de mim sobre a Marcela e o Walter, a cobra ia fumar.

O fato é que, depois daquilo, eu fiquei calado – totalmente ensimesmado. Não falava, não reagia – meus braços cruzados e minha boca torta pareciam as sentinelas da dor que tava me incendiando por dentro.

Não me despedi do Marco, mãe, nem olhei pra você no carro: em casa (eram umas 7 da noite), eu me tranquei no quarto, apaguei a luz, me joguei embaixo da coberta e tentei me esconder no sono pra ver se eu mudava as coisas. Passou aquela noite (eu não jantei), passou a manhã seguinte (café da manhã pra quê?), passou a tarde (de jeito nenhum eu vou pra escola, mãe!), e a minha reclusão já ia pra dois dias – a mãe batia na porta, a vó Nena batia na janela, a Lara falava que eu tava perdendo episódios novinhos em folha do Chaves e do Chapolim, mas nada me tirava da minha masmorra. Eu já tinha picotado o álbum de figurinhas que a Marcela tinha me ajudado a completar – e, depois, com todo o remorso do mundo, eu fui lá e colei parte por parte, tintim por tintim, de forma bem demorada, como se, com aquilo ali, eu fosse revendo e tocando o rostinho da Marcela.

Eu me lembro de que comecei a ficar fraco, mãe, porque, no começo, eu ainda mandava você, a vó Nena e a Lara ficarem quietas e me deixarem em paz, mas depois eu não tinha força nem pra isso, e daí eu vi que cê começou a ficar muito preocupada, mãe, cê chorava, cê pedia pelo amor de Deus que eu abrisse a porta, mas eu não queria nem saber, tava doendo demais – e vai lá saber por que que a gente se afeiçoa a esse tipo de dor, mãe, vai lá saber! Será que era isso, será que eu tava gostando de sofrer? Eu não sei, mas, quanto mais doía, mais eu me afundava, mais eu me lembrava da Marcela, mais eu ficava com raiva dela, mais a queria, mais a repelia, mais longe ela ficava, mais saudade eu sentia.

Quando meu cativeiro tava pra cruzar a fronteira do terceiro dia, o pai Nhanho entrou na história. No começo ele trovejou com aquela voz de gigante – meu Deus do céu, não tinha nem sinal daquela voz fina, fina, fina do gás hélio –, e logo o pai tava fazendo a porta chacoalhar com umas porradas de responsa: Ri-car-dô – cê lembra que ele me chamava assim quando tava bravo, mãe? –, abre essa porta já, chega de história, vamos, abre essa porta agora!

Eu não sei de onde eu tirei força – eu já tava bem fraco, mãe, o escuro do quarto tava girando ao meu redor –, mas eu gritei que, se o pai Nhanho arrombasse a porta, eu ia bater com força a cabeça na parede – vixe, dava até pra imaginar a vó Nena fazendo o Pelo Sinal com o terço na mão, mãe!

Mas aí, mãe, aí cê começou a narrar minha vida. (Na verdade, isso começou bem antes, em 1982, mas logo, logo a gente chega lá.)

Eu não sei como, eu não sei de onde, mas o telefone tocou. Na primeira ligação, era o Marco Felipe. A mãe veio até a porta do quarto e falou, com a voz séria (cê deve ter engolido o choro com toda a tua força, mãe), que o Marco tinha uma revelação a me fazer sobre a Marcela. Eu não tava acreditando muito naquilo, não, mas, quando a gente luta contra a curiosidade, parece que a gente fica tentando esvaziar enchente com conta-gotas. Devagarinho – eu tava tão fraco que o cobertor tava pesando no ombro depois de 2 dias sem comer e sem beber –, eu fui até porta, girei a chave no trinco, e o pai me levou até a sala pra eu falar com o Marco (era aquele telefone vermelho, mãe, aquele de discar – aquela linha telefônica, à época, valia bastante, eu lembro que cê chegou a afiançar essa linha como garantia de que a gente ia pagar as prestações da casa).

– Fala, Marco...

O Marco não fez nem menção de gaguejar:

– Ricardo, velho, você viu errado, eu vi errado, não era o Walter que tava do lado da Marcela no outro ônibus, não...

– Ué, Marco, então quem era?! E aqueles cafunés lá, bicho!? Eu tava sonhando, é?!

O Marco fez um breve silêncio ao telefone (dava pra ouvir a respiração dele, a adrenalina tava começando a me irrigar) e, então, ele disse:

– Era a irmã da Marcela, Ricardo, a Marina – cê sabe que elas se parecem, e o Walter queria oficializar o namoro pros pais da Marina na volta do acantonamento.

Mãe, até hoje eu acho que, quem não conhece a verdade do me engana que eu gosto, não conhece muito da vida – eu tava acreditando no Marco (eu queria acreditar no Marco), mas tinha algum fio desencapado ali. Ora, mãe, será que eu não era capaz de reconhecer o rosto da Marcela? Tá certo que a Marina, um ano e meio mais velha, era bem parecida com a Marcela, mas só a Marcela usava aquela malha verde quando tava com frio. Não, a história não tava colando, tinha caroço nesse angu – eu já ia voltando pro quarto, mas o pai Nhanho, do tamanho do gigante Adamastor, se colocou no meu caminho pra vó Nena trazer pra mim uma pratada de sopa marrom com bastante carne de panela e nhame. (A Lara tentou me hipnotizar com um montão de Lollos e Chokitos, mas eu não queria comer nada, eu só queria ficar sozinho.) Foi aí que o telefone tocou pela segunda vez. Aquela campainha de telefone, que antes parecia tão longe de mim como as badaladas do sino da igrejinha de Quintana, continuou a ressoar dentro do meu peito quando cê atendeu a ligação e veio até a cozinha pra me dizer:

– Ricardinho, é a Marcela... Ela quer falar com você...

(Cê já sentiu alguma vez uma corda vindo te resgatar do fundo escuro de um poço?)

– A Ma-Ma-Marcela...?

– É, Ricardinho, ela tá esperando pra falar com você – cê não vem falar com ela?

Dois segundos depois eu tava com o telefone na orelha. Respiro fundo:

– A-a-alô...?

– Oi, Ri, tudo bom?

– Marcela?!

– É... Tudo bem com você?

Que que eu digo pra ela? Que, sem contar que eu já tava há dois dias e duas noites sem comer, sem beber e sem dormir direito por causa dela, tava tudo ótimo, uma maravilha.

– Tudo bem, Má, tudo ótimo...

Eu não devia ter dito o que eu disse na sequência, mãe – tava doendo pra caramba, doía ainda mais ouvir a voz dela sem poder vê-la –, mas eu disse:

– Tô com saudade de você, Má...

Até hoje, mãe, eu acho que eu ouvi a Marcela engolindo em seco antes de dizer o que eu ia ouvir:

– Ri, eu quero te dizer uma coisa...

– O quê?! (De olhos esbugalhados.)

– Eu não tô namorando com o Walter, não...

– Não...? Quer dizer: não?!

– Não...

(O alívio gigante daquele momento me fez entender como é que, lá no desenho, o Pica-Pau conseguia levantar pedras do tamanho de um Golias e como é que o Chapolim Colorado conseguia levitar com um tapete voador.)

– Cê vai pra escola amanhã, Ri? Todo mundo quer te ver lá de novo...

Ai, mãe, que facada que eu tomei: que me importa todo mundo, Marcela? Só me importa você!

– E você, Má...? Cê quer me ver?

– Quero... Eu também quero.

Foi como se eu ouvisse o porteiro multicolorido do Castelo Rá-Tim-Bum a pronunciar as palavras mágicas: clift, cloft, still, a porta se abriu!

Ela quer me ver, mãe, ela quer me ver, pai, ela quer me ver, vó, ela quer me ver, Lara – a Marcela quer me ver! [Eu gritava e tomava sopa e bebia guaraná e partia o pão caseiro da vó (aquele pão com a casquinha bem crocante e o miolo macio) com a fome de 7 batalhões.] Como é que eu ia supor, naquele momento, que era você a narradora de toda aquela estória, mãe? (Se eu tava desconfiado de alguma coisa, mãe, te juro que escondi o baú da dúvida de mim mesmo como o pirata que enterra seu ouro no mais fundo da floresta.)

O Marco, como bom amigo, mentiu pra mim, mãe – e foi aí que eu descobri que esse tipo de mentira, com a salvaguarda da amizade, é, a bem dizer, uma meia verdade – ou melhor, uma verdade e meia.

A Marcela, meu primeiro amor, não mentiu pra mim, mãe – ela, de fato, não tava namorando com o Walter... Ela tava ficando com ele. (Quer dizer, então, mãe, que, muito antes de ler os aforismos do Oscar Wilde, eu já tinha descoberto o que é a verdade das máscaras?)

Você, minha velha, ocê não mentiu pra mim, mãe – cê cavou uma terceira margem pra minha tristeza desaguar, cê tinha ligado pro Marco Felipe, cê tinha ligado pra Marcela, cê pediu pelo amor de Deus que eles te ajudassem, de alguma forma, a me tirar daquele quarto escuro, daí cê bolou toda a estória, cê inventou um canto de Circe pra me resgatar do bunker, cê cavou uma passagem secreta por sob a realidade, cê pôs o manto da ficção – aquela colcha de retalhos que a vó tinha costurado com tanto esmero – sobre os ombros da minha realidade, cê não me deixou sofrer, mãe, teu amor tão terno e tão fundo queria me blindar, não era pra eu me frustrar – ora, mãe, não era pra eu viver, então? Era, sim, era (e muito), mas, no que estivesse ao teu alcance (e para além, muito além), cê ia fazer de tudo pra insuflar meu mundo com o abre-te, sésamo.

Quem foi que me ensinou a imaginar? Era uma vez você, mãe.

[Mal sabia você, mãe, e mal sabia eu que aquela couraça de carinho (aquele segundo útero ficcional) me faria caminhar, muitos anos mais tarde, quando do parto da vida adulta, pelo fio da navalha – a terra de ninguém que separa (e irmana) loucura e realidade. (Afinal, mãe, quem é que gostaria de abandonar o acalento do Éden e a alegria de Neverland? Em Pasárgada não há kryptonita. Em Atlântida, nós respiramos com guelras. Em Utópolis, o sofrimento só nos faz cócegas.) Não fosse a literatura, mãe, não fosse o exílio como um alçapão (aquela passagem secreta e redentora que sempre se oculta atrás de paredes forradas de livros), eu não sei o que teria sido do velho corcunda e reumático que, soerguido por uma bengala, tenta civilizar a minha mente – esse senhor senil a que chamamos de razão. Sim, sim, é verdade que a frustração aumenta as dobras da vida, é verdade que o sofrimento nos transforma em arqueólogos rematados dos sentidos e intenções subterrâneos, mas, ora, o que é melhor, o que é preferível: arrastar a barriga pelo pó, como uma cobra, ou abraçar o horizonte com o voo da águia? Mãe, minha velha, cê me ensinou a imaginar – a imaginação, prima rica da loucura, me deu um escudo (o escudo do Seiya, o líder dos Cavaleiros do Zodíaco) e me perguntou: cê já sabe o que cê tem que proteger, Ricardinho? E, quando Atlântida começou a transbordar de palavras e vozes, mãe, quando lembranças e pessoas e personagens que eu nunca pude ver e tocar mas que eu nunca consegui esquecer começaram a me confiar suas histórias, eu já sabia que precisava proteger Pandora com todas as forças. Então, mãe, cê construiu um palácio de vento com sentinelas de pólen pra me proteger. “Que loucura!” – grita o velho senil na minha mente, o velho que, sem nunca ter recebido um afago sequer, se aferra à sua razão com tanta força (ou pior, com tanta raiva...) a ponto de asfixiá-la. Ora, mãe, deixa esse velho pra lá! Teu carinho, minha velha, tá em boa companhia: um pensador andarilho e de bigode desgrenhado, alpinista de montanhas e de valores, entreviu que o adulto, para se tornar maduro, precisa recuperar a seriedade da criança ao brincar. Ademais, mãe, o Nietzsche, emocionado com o ninho que você entreteceu para proteger a minha Marcela, pediu a Zaratustra que lhe dissesse que tudo aquilo que é feito por amor está para muito além do bem e do mal.]

E parece que eu tô vendo agora, mãe, aquela fotinha em que cê tá sentada na cadeirinha de balanço, com uma chuquinha de cada lado da cabeça e o vestidinho branco, branco, branco – a foto em preto e branco (já bem amarelada) não me deixa ver teu olho azul, azul, azul, minha velha, mas já dá pra entrever aqui o prenúncio do teu rostinho de boneca. Quantos anos cê tem aqui, mãe? Olha, se eu tivesse que apostar – e sabendo o quanto o vô Ricardo gostava de futebol (eita italianão palmeirense, mãe – e cê só virou corinthiana, minha velha, pra seguir a minha religião) –, eu diria que a foto é de 1950, às vésperas da final da Copa do Mundo, e daí a vó Nena pôs em você o vestidinho que ela tinha acabado de costurar. Caramba, mãe, cê tem 4 aninhos aqui – será que, aqui da roça de Marília, cê consegue sentir o cheiro dos biscoitos Marilan (sempre que a gente passava pela estrada de Quintana, cê dizia que aquele cheiro de doce e de infância era pra receber todo mundo em Marília, a cidade pra sempre menina). Mas quem vê essa tua foto, mãe, não imagina o que cê passou depois de nascer. Vixe Maria! A vó Nena contava e se arrepiava: cê nasceu em casa, mãe, que nem o pai Nhanho, só que o trabalho de parto não acabava nunca. E vinha benzedeira, e taca ramo de arruda, e dá pano pra vó morder, e a parteira diz pra vó fazer força e te empurrar, mãe, e a (bisa)vó Isabel enxuga a testa da vó Nena – mas nada de você sair pro mundo, nadica de nada. O vô Ricardo já tava agoniado, ele já tinha mascado todo o fumo de corda, ele não tinha mais unha, o vô já tava pensando em chamar o padre, o vô já tava excomungando Deus e o mundo, mas aí rebentou um choro – um chorinho frágil que nem nascente de córrego –, e a tia Brada logo veio chamar o vô pra ele ver a Neuzinha. Só que cê nasceu bem fraquinha, minha velha, cê tava meio arroxeada, cê num parava de piscar os olhinhos – cê só dava umas risadinhas mirradas quando o vô raspava o bigodinho na tua barriga, e daí ele logo pegou o cordãozinho umbilical, cavou um buraco na terra do lado esquerdo da porta do casebre de tábua e fez um Pai Nosso – costume dos antigos, mãe, pra dar ainda mais fertilidade pra mãe terra, pra colheita vir farta (a vó Nena contava isso e fazia o Pelo Sinal, mãe, e eu me lembro dela assim, se persignando pelo teu nascimento, sempre que eu sinto cheiro de incenso). Só que aí a coisa ficou feia, mãe, porque você, bem bebezinha, ficou quente, quente, quente de febre – Deus que me perdoe, minha velha, era o mal de 7 dias, mãe, e a vó chorava e rezava o terço, daí veio que veio a curandeira ali da roça, uma tal de dona Genoveva. Dizia a vó Nena que ela tinha os olhinhos bem pequenininhos, pareciam que eles tavam atolados naquela cara toda enrugada [acho que a vó, no início, ficou com medo da dona Genoveva, porque, além de a curandeira andar toda de preto (como se, pra salvar vidas, ela precisasse estar sempre de luto), ela tinha uma verrugona mole na ponta do queixo, de onde saía um chumaço de pelos grisalhos)]. A dona Genoveva ficou segurando uma vela em cima da tua barriguinha, mãe, e daí ela abafava a chama com um copo e ficava sussurrando umas rezas que só ela conhecia – como é que eu vou esquecer quando a vó Nena disse que o vô Ricardo, de tão agoniado, ficava chorando com a cara enterrada no chapéu de palha?

A vó Nena ia te amamentando, mãe, mas cê não reagia muito bem, não – e nada de a quentura da febre passar. Cê ficava mais agitadinha de manhã, minha velha – o vô Ricardo tava notando que cê dava umas risadinhas marotas com o canto do bem-te-vi, então ele fez uma arapuca, aprisionou um passarinho de peito bem amarelo e colocou uma gaiolinha ao lado da tua janela, mãe, pro canto do bem-te-vi te abençoar de manhã junto com a brisa fresca. A dona Genoveva dizia que não era pra esmorecer, não, que é pra ter fé, que mal de 7 dias às vezes dura 14, mas a reza é forte e brava, pra Deus não tem mal que gruda que nem carrapato, não, dona Nena, é ter fé, seu Ricardo, é ter fé! Daí uma manhã, mãe, com o bem-te-vi cantando mais alto que o galo, a vó Nena te ouve remedar a cantoria com uns grunhidozinhos que nem de papagaio – vixe, quando o vô chegou da roça e te viu toda coradinha, mãe, ele te pegou com força, minha velha, te levou pro jardinzinho e começou a te levantar pro céu como se você fosse um pão num ritual de purificação. Deus que te abençoe, minha filha, Deus que te abençoe, Neuzinha!

Crescer na roça é crescer correndo no pasto, Neuzinha, é crescer brincando com a tia Mariazinha, a tia Wanda e a tia Darcy de cutucar o pau do boi com graveto, é fazer castelinho de bosta seca de cavalo, é trepar em goiabeira, é costurar boneca de pano. Nossa, mãe, parece que eu tô vendo agora o teu porquinho, o Pim – cê dizia que ele era bem rosinha (cê nunca gostou de ver peça de presunto, mãe, porque elas sempre te lembravam do Pim, tadinho), cê dizia que ele tinha um cavanhaque loirinho que cobria o focinho todo, que ele roncava de felicidade quando te via, só que porco, na roça, é porco pra engorda, então cê grudou na perna do vô Ricardo pra ele não fazer torresminho do Pim, mãe, cê chorou porque chorou, daí o vô te explicou que o Pim também tinha alma, Neuzinha, que ele ia te visitar no sonho, que ele ia aprender a cantar com o bem-te-vi – mas quem disse que cê parava de chorar? E, na roça – e cê arregalava o olho e esticava o pescoço pra contar isso pra mim e pra Lara –, nego mata o porco dando uma facada de lado, na diagonal do focinho, pra pegar em cheio o coração. E o porco guincha de desespero, é um berreiro que só vendo, e o vô tinha que montar no porco, como se ele fosse um pônei, pra não deixar o bicho ficar estrebuchando que nem as galinhas de pescoço destroncado que a vó Nena ia matando ali perto da horta. Só que criança é arteira, mãe, e um dia cê viu o Juquinha, o cavalicoque do vô Ricardo, desembestado lá no meião do pasto, sozinho – parecia que ele tava pensando na vida. Aí cê foi indo até lá, mãe, meio andando, meio engatinhando, pra chamar o Juquinha de volta e dar grama fresquinha pra ele comer. Quando a vó viu você naquela lonjura, ela começou a correr agoniada, Deus que tá no céu!, só que aí, vai saber se foi por causa da gritaria da vó, o Juquinha desembestou na tua direção, mãe, e a vó, urrando, trupicou numa pedra bem a tempo de ver o Juquinha passar por cima de você – Pai eterno, salva a minha filha, Jesus amado!

A vó afundou o rosto na grama e começou a chorar, ela não tinha coragem de levantar pra ver o que tinha acontecido – aí o vô, recém-chegado da roça, veio correndo pra ver o que que o Juquinha tava fazendo sem cela no meio do pasto. Quando o vô passou e viu a vó deitada ali, mãe, ele não achou que era a vó, não, ele achou que era uma assombração – mas, quando ele viu a bebezinha dele sentadinha no meio das patas do cavalo, meu Deus do céu!, o vô, num pulo, te agarrou e começou a te virar e a te beijar, minha velha, pra ver se cê tava machucada e pra te fazer sarar. A vó, tremendo que nem vara verde, foi chegando perto, de mansinho, pra ver se o vô não tava segurando teu cadaverzinho, mãe, mas aí, quando ela viu que cê tava toda serelepe e risonha com as cócegas do vô, a vó despencou e começou a chorar e a agradecer a Deus – essa cena (esse afago) me parece a continuação de um quadro do Van Gogh, mãe, uma tela em que um camponês descalço e com o chapéu de palha sobre o rosto dorme, ao lado da esposa de lenço branco na cabeça, junto à sombra de um montão enorme de feno. As foices do casal tão descansando ao lado do sapato surrado do homem, e, ao fundo da tela, o Juquinha (ou a prima dele, a vaquinha Mimosa) vai pastando despreocupado. Acontece que, sempre que eu vejo essa tela, eu imagino que você, Neuzinha, vai chegar ali e vai começar a sacudir o vestido da vó Nena pra ela acordar, minha velha, porque, com as pinceladas trêmulas e azuladas do Van Gogh, o vestido mais parece um corregozinho onde eu tenho certeza que cê ia querer nadar.

Mas antes de cê começar a pedir pro vô Ricardo tocar a sirene do caminhão de bombeiro bem alto quando ele virou motorista e te levava na boleia, mãe, cê ganhou a famosa corrida de saco de estopa da fazenda Pindorama: cê falava dessa corrida pra gente com bastante orgulho pré-mirim, porque ela só acontecia uma vez por ano, logo depois da venda dos grãos de café, quando o dono da fazenda deixava a filharada dos meeiros brincar com os sacos de estopa que restavam. Daí surgiu a ideia da famosa corrida de saco de estopa da fazenda Pindorama, corrida que começava, na verdade, com a passagem do ovo caipira de colher em colher – cê explicava isso pra gente meio melancólica, mãe, porque as várias equipes da corrida eram formadas pelo montão de filhos que cada família tinha, só que a vó Nena, depois daquele teu parto difícil e do teu mal de 7 dias, minha velha, a vó nunca mais conseguiu ficar grávida [ou ela nunca mais quis ficar. (Será que era por isso, mãe, que o vô Ricardo, de tanta comichão, vivia chutando a bola de mortadela na cozinha quando era de madrugada?]. O fato é que cê tinha que chamar a tia Mariazinha, a tia Wanda e a tia Darcy, que tinham praticamente a tua idade, mãe, pra formar uma equipe. E daí era o seguinte: o fazendeiro vinha e pintava uma linha de partida branca bem longa no pasto. Todas as equipes ficavam enfileiradas atrás da linha. (A distância entre cada um dos participantes era de um braço bem espichado.) Daí o pai de cada família vinha atrás do último membro das equipes e lhe entregava um ovo caipira e uma colher de sopa bem bojuda. O vô Ricardo passa o ovo pra tia Mariazinha, a tia Mariazinha morde o pescoço da colher, coloca o ovo em sua parte côncava e precisa passá-lo, sem que ele caia na grama, pra colher da tia Wanda, que, por sua vez, precisa passá-lo pra colher da tia Darcy, que, por fim, precisa passá-lo pra tua mão, mãe, pra que você comece a fazer o pula-pula da corrida de saco de estopa. Se, durante essa trajetória, o ovo cair no chão, a coisa toda precisa recomeçar a partir do vô Ricardo; se o ovo se partir, a equipe tá eliminada. O prêmio da famosa corrida de saco de estopa da fazendo Pindorama te fazia torcer o nariz, mãe – um leitão bem gordo pra fazer torresmo e pururuca, um leitão que bem poderia ser um irmão do teu Pim –, mas cê queria ganhar, minha velha, porque o fazendeiro tava prometendo que a equipe vencedora, além do mais, ia poder escolher uma música pra tocar na rádio de Marília. Vixe, era privilégio demais, sô!

E não é que o ovo foi passando ligeirinho de colher em colher na equipe de vocês, mãe? (Também pudera, né? Cês ficaram treinando a semana inteira antes do domingo da prova – e bem que a vó Nena, coçando o cocuruto, estranhou que a galinhada dela não tava botando ovo por aqueles dias.) O fato é que cê ficou craque no pula-pula do saco de estopa, mãe – cê tava pulando que nem coelho, cê não caía, e só umas 5 vezes (vai, tá bom, talvez umas 10) cê acabou quebrando o ovo caipira durante os treinamentos. Na hora da corrida de fato, a maioria das equipes tinha que repetir a primeira etapa do ovo um montão de vezes – só a equipe do teu vizinho japonês e a tua equipe, mãe, é que conseguiram fazer tudo de uma só vez e saltaram na frente. O japonesinho, o Yatta, parecia um coelho pulando, mas logo ele se embananou todo com a dinâmica dos pés dentro do saco de estopa e acabou comendo grama – ficou você na frente, Neuzinha, e, sempre que cê contava pra mim e pra Lara essa história, cê sorria com gosto e alegria como se você estivesse pulando pra vitória agora mesmo. Quando cê cruzou a linha de chegada (e foi com folga, mãe, cê ganhou pra mais de metro), o caseiro da fazenda já passou o leitão pro vô Ricardo, e daí a vó Nena, você e as tias Mariazinha, Wanda e Darcy subiram no calhambeque do fazendeiro pra ele já levar todas vocês lá pra rádio de Marília. Cês já tinham decidido que iam pedir A Little Less Conversation, do Elvis – o duro era alguma de vocês conseguir pronunciar aquele vaivém de sons. Ficou uma foto tua daquele dia, mãe, uma foto que hoje a Lara e eu colocamos lá no altar de casa, em cima da máquina de costura da vó e ao lado das cinzas do meu pai Olavo. Uma foto do teu perfil que mostra as alças do teu vestido de bolinha, passa pelo queixinho delicado (cê tinha um leve furinho no queixo, mãe, um buraquinho que parecia aquele furo travesso que eu fazia com o dedo fura-bolo na massa de pão caseiro da vó), daí a foto sobe até as maçãs do rosto levemente salientes e depois escorrega pelos teus cabelos ondulados – a Lara sempre me diz que tem certeza de que a vó ficou escovando teu cabelo uma meia hora pras ondulações ficarem tão bem feitinhas que nem as ondinhas das batatas Ruffles. Mas que moça mais linda, minha velha! O fotógrafo conseguiu capturar o teu sorriso enquanto ele se abria – sempre que eu olho pra essa foto (sempre que eu tô pra sair de casa, mãe, eu vou lá e dou um beijo na tua testa), parece que o sorriso vai continuar, parece que ele tá sempre despontando.

É, mãe, mas a roça tava bem longe de ser Pasárgada: cês moravam num casebre de tábua que tremia que nem cachorro molhado quando despencava chuva brava – pra sempre cê ficou com esse medo de chuva forte, mãe, cê lembrava quando a vó ia pra debaixo da mesa com você. Tinha mês que até tinha mistura pra comer, mas tinha mês que só tinha arroz, feijão e farinha (se tanto). O vô Ricardo ia pegando tudo que é trabalho – cê ficava vidrada no tempo em que ele tava dirigindo o caminhão de bombeiro, cê queria que ele passasse tocando a sirene bem alto, como se fosse um galo de quatro rodas pra despertar todo mundo da cidade –, mas nenhum trabalho do vô durava, mãe. Então ele sempre tinha que voltar pra roça e pro cabo da enxada. Quando cê completou 10 aninhos, mãe, o vô já achou que cê tava pronta pra trabalhar também – quando davam 4 ou 5 da manhã, o vô te tapava toda pra te proteger do sol, a vó entregava as marmitas (o almoço era lá pelas 9 da manhã), e cês iam pro cafezal. Partia o coração da vó, mãe, ela ficava cuidando do casebre e da hortinha, mas o vô dizia que cê tinha mão ágil, minha velha, que cê chacoalhava bem o café e não deixava escapar muito grão, não. E, bom, além do medão de chuva, minha velha, cê herdou daquela época de vacas magras um baita dum pavor de cobra – cê chegava a tremer toda de falar da urutu cruzeiro, uma cobra pra lá de venenosa e matreira como ela só que ficava se esgueirando sob as folhas do cafezal. Você e o vô calçavam umas botas bem rústicas de borracha dura, umas botas altas pra cobra não dar o bote na perna, mas, quando cê ouvia um farfalhar estranho de folha e terra, cê já fazia o Pelo Sinal, mãe – e o vô dizia que era pra seguir trabalhando, que cobra comia rato, que rato trazia doença, então a urutu cruzeiro, a bem dizer, era amiga das gentes.

– Mas, pai, por que que o Yatta e os irmãos dele vão pra escola, e eu não vou?

Como a vó Nena, o vô Ricardo mal sabia assinar o próprio nome – ademais, Neuzinha, quatro braços trabalham melhor que dois, e cê já sabe cozinhar e bordar, minha fia, então já tá boa pro que uma moça precisa saber fazer pra casar.

– Mas, pai, eu quero estudar, eu quero ir pra escola que nem o Yatta e os irmãos dele!

O vô coçava a cabeça – mas de onde é que essa menina tirou essa ideia louca? Estudo pra que se a gente tá com fome é hoje?

Quando a criançada se encontrava no fim da tarde pra jogar amarelinha – cê era ligeira, mãe, cê chegava até o céu pulando com a perna direita e com a esquerda que nem saci –, o Yatta improvisava uma lousa na terra pra alfabetizar você, a tia Mariazinha, a tia Wanda e a tia Darcy. Cê contou pra mim e pra Lara que cê começou a ter a sensação de que a noite do mundo era mais curta conforme cê ia descobrindo que cada coisa tinha uma palavra própria, como se fosse a banana dentro da casca. Quer dizer, então, que tem dois mundos, Yatta: o mundo do que a gente vê e toca e o mundo do que a gente fala e imagina? Teu vizinho coçou o queixo, mãe, e daí ele logo se lembrou do sermão do padre no último domingo pra achar um exemplo tão concreto quanto a bosta seca do cavalo: ué, Neuza, o padre Zeca não falou pra gente que tem o céu e a terra, que tem o corpo e a alma? Então é mais ou menos assim: a palavra é como a casca da alma da banana, como se fosse um anjo da guarda, e a banana mesma é que nem a gente, um corpo que dá pra ver e pra tocar.

Cê ficou tão contente e instigada com aquela expansão do teu mundo, minha velha, que, passado um tempo, cê começou a bater o pé pra não ir mais pra roça. Chega, pai, eu não quero mais isso pra mim, não! Eu quero ir pra escola, eu quero ir pra cidade, vamos sair daqui, pai, eu quero aprender, eu quero crescer!

O vô e a vó não entendiam muito bem o que cê queria, mas o fato é que o vô já tava injuriado de ter que dar metade da colheita pro dono do sítio em troca de morar ali na terra dele. Então, de tanto cê bater o pé, o vô foi peregrinando com você e com a vó por Tupã, Vera Cruz, Duartina e Quintana, até que ele achou uma casinha de tábua verde em Dracena. A vó sentia muita falta de plantar couve e almeirão, então ela logo fez uma horta no quintalzinho. E daí, pela primeira vez, cê tava matriculada numa escola. E ai de quem não obedecia à professora – naquela época, a professora deixava a palmatória em cima da mesa, e quem se mostrasse rebelde pra valer já sabia que, no canto da sala, voltado pra parede, ia ter que se ajoelhar em grão de milho. Ninguém sabia muito bem o que ia fazer com o que aprendia na escola – cê ficava encafifada com aquele teorema das varetas (o teorema de Tales), mas aí o professor Dema um dia teve a ideia de trançar uns gravetos secos no terreno da escola pra ver se a alunada entendia as noções de correlação e proporcionalidade a partir da natureza. Ah, Dema, então quer dizer que tem sempre alguma relação escondida entre o tamanho das coisas? Tem, Neuza, tem, sim. Esse prédio aqui da escola, por exemplo, é tantas vezes maior do que a casa de cada um de vocês – digamos que ele seja maior, sei lá, na proporção de 1 pra 20. O fato é que a matemática diz pra gente que nada no mundo tá isolado, nada tá simplesmente disperso – Dema, Dema, que que é “disperso?” –, nada tá “espalhado”, Neuza. Tudo guarda alguma relação, e o Tales nos ajuda, então, a correlacionar a proporção dessas relações com o “teorema das varetas”, Neuza.

Cê contava isso pra mim e pra Lara tão maravilhada, mãe – mesmo depois de o Dema ter deixado você de segunda época por apenas meio ponto –, que a vontade de conhecer era como um abracadabra que te podia tirar da roça, era algo diferente daquela pasmaceira toda de cafezal, era algo que não cabia ali onde cê tava, mãe. Mas aí, um dia, a meninada fez uma baita duma roda no recreio. A mãe foi se acercando curiosa, que que tá acontecendo?, e daí cê viu, se espichando toda na ponta dos pés, a Adelina, aquela menina que todo mundo dizia que era xarope da cabeça, tomando bolsada de todo mundo que cantava o hino nacional antes de cada dia de aula e que rezava o Pai Nosso ao fim das aulas de religião. A Adelina, tadinha, ela tava ali tomando uma bolsada atrás da outra, nego chamava ela de tantã e mongoloide, tinha uns que diziam que ela tinha uma síndrome de nome gozado (uma síndrome da mesma língua do Elvis, mãe), e cê foi sendo forçada por aquela roda enorme de alunos a chegar cada vez mais perto da Adelina – já tinham quebrado a armação dos óculos dela, ela não tinha nem mais força pra chorar –, cê não queria fazer nada, mãe, mas, daí – e cê contava isso pra mim e pra Lara eletrizada, como se estivesse ali de novo –, de repente, uma energia que tava no ar, como uma neblina, começou a te tocar, porque, ué, se tá todo mundo aqui pegando a Adelina pra Cristo, será que ela não fez alguma coisa de errado?, será que tá todo mundo errado e só ela tá certa?, a Adelina nunca tinha se ajoelhado no milho, todo mundo tinha dó dela por ela ser tontinha da cabeça, e daí a mãe, ali no miolo da massa, sentiu essa correnteza bem forte – cê não queria fazer mal pra Adelina, mas cê não tinha força pra sair dali, daí, bom, quando cê se deu conta, a Adelina tinha tomado uma bolsada tua, caiu a lancheirinha dela, o lanche se esparramou, o suco caiu, aquela risada bem alta de todo mundo parecia o anticoro da igreja, cê sentiu um baita nó na garganta, mãe, uma culpa que, mais de 40 anos depois, tava ali viva com você, como uma sombra enganchada no teu ombro, como uma mão fria que te puxa o pé na cama quando a coruja pia à noite em cima do telhado. E eu não sei se foi por isso, mãe, mas uma coisa que cê passou pra gente com muita força – com a força do teu carinho, com uma força pra muito além de qualquer norma – era que a gente tinha que agir na vida como se o rosto da outra pessoa estivesse sempre à nossa vista, como se a gente fosse sempre saber o que tá no coração da outra pessoa com as inflexões do rosto dela (quem vê cara vê muito bem o coração). Será que cê tinha a pobre da Adelina na memória quando cê dizia que a gente tinha que agir e falar com o rosto da outra pessoa sempre na cabeça? Será que a pobre da Adelina começou a chorar justamente quando cê deu uma bolsada nela? Eu não sei, minha velha, eu não sei, mãe, mas isso sempre me tocou muito. Quando, muitos anos depois, o tal do Immanuel Kant veio me falar do lance de tratar a humanidade, já a partir da pessoa que está próxima da gente, como um fim em si mesmo, isto é, como algo e alguém que tem uma dignidade própria, que não pode ser instrumentalizado e que é tão importante como a gente mesmo, eu senti que já havia escutado em algum lugar, com o pathos bem quente da vida, aquela noção moral que, em Kant, parecia uma abstração de um deserto de gelo, uma alma sem corpo. Cê não veio com a noção de dever pra cima da gente, mãe, cê era muito doce pra isso. Quando eu aprontava (mais) uma pra cima da Lara, cê não começava a ralhar comigo de pronto (isso era coisa do pai Nhanho, e cê sempre gostava de botar panos quentes); cê vinha pra perto de mim e, depois de um tempo, cê me levava até onde a Lara tava, cê me mostrava que ela tava chorando, que ela era minha irmã, que eu tinha que dividir o Yakult e o Tonyu com a Lara, que aquilo não tava certo porque fazia a Lara sofrer – então, mãe, cê não me dizia que não podia porque não podia, que não podia porque alguma lei fria e distante dizia que era proibido, mas porque a Lara, minha irmã, filha da mesma mãe, acabava chorando que nem a Adelina. E não era só porque a Lara era minha irmã, não. Quando tinha alguma briga na escola, cê queria ouvir tudo, cê queria ouvir os dois lados, e não era porque a Justiça tem que sopesar o peso e o contrapeso, mas porque cê queria saber se alguém tava sentindo alguma coisa que não devia, algo que transtornava o rosto, que trazia humilhação, que trazia agonia. Até hoje, minha velha, quando eu faço algo lamentável, quando eu piso na bola, me vem aquela coisa de que o próximo é, justamente, o próximo, a extensão da gente mesmo, e não alguém que não tem rosto e que só tá ali contra mim. O pai Olavo só sabia gritar NÃO!, não tinha conversa; o pai Nhanho era mais maleável, mas, se a coisa chegasse até ele, é porque não tinha mais coré-coré também. Agora, com você, era essa coisa da compaixão – e não era simplesmente um lance de ter pena da outra pessoa, não, era pra sofrer junto, era pra tentar se irmanar. E aí cê ficava dizendo que foi lá depois pra ajudar a Adelina a arrumar as coisas da lancheira, que ela tava que não conseguia nem levantar o rosto de tanta dor e humilhação – ah, quer dizer, então, que a Adelina não era tão tonta assim, não, ela sabia por que todo mundo a odiava (mas será que aquela horda de covardes sabia por que tava batendo na Adelina?).

Cê não tava cabendo mais ali na roça, mãe – queriam que cê coubesse ali, mas, mesmo que cê não soubesse (ou pior, mesmo que cê não pudesse), cê queria algo a mais, cê queria algo diferente. Não adianta mais ficar aqui no interior, pai, vamos lá pra São Paulo, cê tem parente ali em São Bernardo, vamos pra lá, chega disso aqui, pai, chega! A vó Nena ia tentando amansar o vô Ricardo, teu pai não sabia de onde vinha essa tua vontade tão nômade, essa coisa desenraizada, mas o vô mesmo não parava em emprego certo porque queria mandar em si mesmo, ele não queria ter chefe, então ele também tinha essa coisa de ficar feliz enquanto tava na estrada, essa coisa circense de montar e desmontar a lona pra sempre renovar algum tipo de esperança num lugar novo. E tava combinado, então, mãe: cê ia terminar a escola que já tava tão atrasada, cê ia arrumar emprego em alguma loja, cê tava cada vez mais vistosa, mãe, e cê tinha vontade de aprender. E tava todo mundo contente com o dia da mudança que tava chegando, você e a vó tavam ali na sala vendo o telejornal Factorama, da TV Tupi, daí a vó falou procê passar um cafezinho bem forte pro vô, mãe, porque a chaleira já tava assoviando, a água já tava quentinha – cê estalava a língua no céu da boca de lembrar do cafezinho com grão moído na hora, com aquele moedor da roça que o vô tinha parafusado à borda da mesa, daí cê punha os grãos entre vermelhos e negros e girava a manivela, o pó saía fininho e perfumado (a vó só ficava brava quando o vô queria usar a meia dele como coador, vá, vá, vá, Ricardo, porca miseria!, eu já vou achar o coador de pano, homem, cê parece que nasceu de três meses, cê não pode esperar mais um pouco, não?), só que o vô, sempre que sentia o cheiro do café, o vô vinha que vinha num pulo – o vô sempre tentava escorregar uma pinguinha mineira pra dentro do café, mas a vó ficava de olho, a vó só não ralhava com ele de sábado, porque aí, de domingo, não tinha que pegar no batente. Pai, pai, ó o café, pai, vem que tá quentinho! A vó não tirava o olho daquela televisãozinha velha que o vô tinha conseguido comprar do dono da mercearia em troca de tantas sacas de café. Tinha que pôr bombril na antena da TV pra imagem não chuviscar tanto, mas até que dava pra ouvir bem. Pai, cadê você, pai, cê não vem tomar o teu cafezinho, não? Vai ficar frio, pai, tô te estranhando, onde é que cê tá? A vó falou procê ir buscar o vô lá no fundo, mãe, porque o vô devia tá amolando a foice ou limpando a enxada, só que, estranho, tinha uma luz acesa no banheiro, e o banheiro tava com a porta aberta – vixe, o vô ficava doido se alguém deixava a luz acesa, aquilo queimava a lâmpada e estragava a gambiarra que ele tinha feito no único poste da rua, então cê foi lá ver o que que era, mãe, e a vó sempre dizia que o grito que cê deu naquele momento arrepiou ela de um jeito como se fosse um safanão. Cê ficou congelada ali na porta do banheirinho, mãe – aquele banheirinho sem privada, aquele banheirinho de fossa cavada na terra –, quando cê viu o vô caído ali que nem um espantalho, os olhos bem arregalados, a cara meio azulada, tinha até um pouco de espuma no canto da boca. Cê saltou pra cima do vô, mãe, cê gritou pra vó te acudir, corre, mãe, socorro, socorro!, cê jogou água na cara do vô, cê dava beijo e punha ele no teu peito, mas o vô já tava até frio, aquilo tinha sido fulminante, infarto dos mais traiçoeiros – pra quem trabalha com o cabo da enxada todo santo dia, como é que o vô ia associar aquelas dores no braço e no peito do último mês com qualquer sinal de cardiopatia? O fato é que, em 1974, aos 54 anos, o vô Ricardo deixou a vó Nena viúva, minha velha, e você sem a guarida tão amada do pai. Cê me disse que, na amargura do luto, teu rosto ficou cheio daquelas espinhas graúdas, aquelas espinhas bem vermelhas que não têm carnegão de pus, e o duro da época era ter que velar o vô em casa mesmo, eram dois ou três dias de muita carpideira e café, e os antigos tinham o costume de tirar fotos dos mortos, a vó não queria, mãe, cê nem sabia que tinha isso, e tava doendo muito aquela despedida, porque o vô era um italianão valente, ele não gostava só de trabalhar, não, ele gostava de descobrir e desbravar – e é gozado que ele não tenha conseguido entender de onde vinha essa coisa nômade da filha, né, mãe? Parece, mesmo, que o lugar mais escuro, como dizem os chineses, fica embaixo da lâmpada, porque a vó, costureira de mão cheia e cozinheira de forno farto (quando tinha mistura em casa, né?), a vó era uma mulher das mais direitas, só que a vó ia mais seguindo o vô, o vô é que ia tendo vontade e ideias. Agora, minha velha, era com vocês, eram vocês duas sozinhas, e então, bom, cê decidiu que era hora de sair do interior, que era hora de ir pra cidade – a Alice e a Hélia não tavam ali em São Bernardo?, o tio João não tava bem por lá?, então era coisa de tentar por ali, parece que o Tognato tava contratando costureiras, a mãe logo viu uma chance de trabalhar como vendedora na Pernambucanas – a mãe era bonita e simpática, as comissões vinham que vinham, e logo deu pra deixar de morar de favor na casa de parente pra alugar uma casinha ali no Baeta Neves, tinha até um espacinho no quintal pra vó fazer uma hortinha.

Sempre que eu perguntava pra vó daquela época da vida de vocês, mãe, ela falava com muita saudade dos fins de tarde em que te esperava em casa, depois do serviço, com a jantinha já pronta, que eram só vocês duas, que o dinheiro, sempre apertado, até que não tava faltando tanto como antes, e que, como a família tinha ficado bem pequenina, cês tinham se aproximado ainda mais depois que o vô faleceu. A mãe tinha feito uma grande amiga, a Lola, que trabalhava numa fábrica em Santo André – elas se conheceram no Clube Atlético Ipiranga, num baile por lá, e a Lola, diferentemente da mãe, não botava panos quentes em nada, não, a Lola não levava desaforo pra casa. Uma vez – a Lola contava – um cara desaforado foi querer dançar com a tua mãe no baile, Ricardo, e daí, depois da dança, ele queria mais, só que a tua mãe nunca foi mulher disso aí, Lara, então o safado começou a falar poucas e boas pra Neuza. Eita, a Neuza voltou chorando lá pra nossa mesa, e quando eu fiquei sabendo, meu Deus do céu, eu fui lá e desanquei o lazarento, mas quem você pensa que é, seu traste!, pra querer ofender uma mulher como a Neuza, seu borra-botas, seu projetinho de homem, cresça e apareça, rapaz!, chispa daqui senão eu não vou chamar o segurança; não, não!, sou eu mesma que vou te dar uma lapada na orelha – a Lola sempre foi fogo na roupa, mãe, e cês duas sempre saíam juntas, a vó gostava muito da Lola, e ela pedia sempre o chá de camomila da dona Nena.

Cê não sabia bem o que fazer da vida, minha velha, cê era benquista nos empregos porque cê trabalhava direitinho – cê fazia que não via assédio de patrão, cê não dava nem bola e saía pela tangente, à francesa, e você, neta de italianos de Verona, branquinha que nem porcelana, não tinha dificuldade pra arranjar emprego que os racistas negavam pras tuas vizinhas de bairro que vinham da Bahia. Quando a Lola começou a trabalhar de digitadora na General Electric – olha, mãe, eu não consigo dizer o nome inteiro dessa empresa, não, eu sempre ouvi G.É. de você, daí me vem à cabeça aquela logomarca da empresa com o G e o E em letras brancas e semigóticas, com aquele fundo azul (parecia a tampa do creme Nivea da vó) –, quando a Lola arranjou um emprego na G.É., ela logo te indicou, minha velha, e aí cê também chamou a Lurdinha, aquela tua vizinha lá do Baeta que era de Feira de Santana, mãe, porque tinha duas vagas novinhas em folha pra digitação. Nenhuma de vocês tinha qualquer experiência no ramo, mas contava muito a vontade de aprender – e, dolosamente, a cor da pele e o sotaque. Quando cê dizia porrrta com o olho azul, mãe, o Otacílio, teu futuro gerente, se engraçava todo. Nada disso ocorria com a fala gingada e o cabelo crespo da Lurdinha, e cê voltou no ônibus consolando tua vizinha e dizendo que ela logo ia arrumar alguma coisa, que você mesma ia falar com o pessoal lá da G.É. quando pudesse. [Sempre que cê contava isso pra mim e pra Lara – e eu sempre queria que cê repetisse tuas histórias, mãe, como se sempre fosse possível fazer a agulha voltar pra posição original sobre o disco de vinil –, vinha um tom melancólico bem parecido com aquela história dolorosa da Adelina. Porque, bom, uma coisa é saber que tem racismo, uma coisa é saber que tem muita perda e injustiça por causa de preconceito, outra coisa é ver e sentir isso acontecendo do teu lado – e outra coisa ainda pior é descobrir que isso te havia favorecido, é conviver com esse gosto amargo de privilégio. Não era disso que o vô Ricardo tanto reclamava quando tinha que entregar metade da colheita pro dono da terra? Que que o fazendeiro tinha feito pra amealhar metade do suor de vocês, mãe? Nada, ele não tinha feito nada, ele só tinha que mandar o capataz no fim de cada ciclo pra separar o joio do trigo. E agora cê tinha ganhado a vaga, e nada pra Lurdinha, ela chorava de dor – uma dor difusa, mãe, cê me dizia que ela não chegava sequer a sentir raiva (a violência é bem maior quando a pessoa não consegue sentir raiva, mãe, porque essa barbaridade de ter que engolir o desprezo e a porta fechada na cara parece um dado da vida, parece um dia após o outro – ossos do ofício, peixe que sempre tem espinho). Cê ficou com tanta dó (e com tanta culpa), minha velha, que, durante vários anos, cê ia dando a cesta básica mensal da G.É. pra mãe da Lurdinha, cê sempre batia lá pra ver se tava tudo bem – te dava um nó na garganta ouvir o barulho do portão da Lurdinha se abrindo de madrugada, ela chegava cansada e abatida, os olhos sempre borrados de maquiagem, e cê tinha até medo de pensar no que a Lurdinha tava fazendo fora de casa àquela hora. Sempre que eu me lembro da Lurdinha, mãe – sempre que eu me lembro da Adelina –, eu vejo o quanto é doloroso tomar um sentido de culpa e de responsabilidade pra gente mesmo, quando o mais corriqueiro pra este nosso tipo de sociedade é arrancar o bem pela raiz. Como é que a gente fica contente com as nossas conquistas quando elas pressupõem que o outro ali do teu lado vai chorar? Como é que a gente sofre com o outro, como é que a gente consegue sentir compaixão, se o outro vê na gente – na cor da gente, no privilégio da gente – o motivo do seu próprio sofrimento? Pra você entender as contradições históricas e sociais disso tudo, mãe, o vô Ricardo não poderia ter sido meeiro, o vô não poderia ter sentido a necessidade de fazer você trabalhar com 10 aninhos, o vô e a vó tinham que saber muito, mas muito mais do que assinar o próprio nome com letra sôfrega ou com o carimbo do dedão, cê não poderia ter ficado tão atrasada na escola, mãe. Daí cê ia ver o limite dessa tua solidariedade tão bonita quanto contraditória nas próprias contradições da nossa sociedade. Agora imagina, mãe: com o sacrifício teu, da vó Nena e do pai Nhanho – eu não falo tanto do meu pai Olavo, mãe, porque a vida dele foi radicalmente diferente da labuta de vocês; ninguém vira médico no Brasil com cicatriz de enxada na mão da infância –, com o suor de vocês, mãe, a Lara e eu pudemos brincar, a Lara e eu pudemos estudar, a Lara e eu pudemos perguntar se tinha alguma coisa que chamava a gente pruma vida própria, se a gente tinha alguma vocação. Talvez cê sentisse algo assim, mãe, só que de maneira bem difusa, quando cê via teu vizinho Yatta indo pra escola de uniforme engomadinho e com a mochila nas costas. Mas como é que cê ia dizer que aquilo também te pertencia? Como é que cê ia protestar contra aquela usurpação? E depois, mãe, parece que tem sempre alguém que sofre mais do que a gente – olha a Adelina, olha a Lurdinha... Esse é um sentimento que eu vou carregar comigo pro resto da vida, é uma dor latente que tá abraçada a muita saudade, orgulho e culpa, porque eu sinto muita alegria e ímpeto pelos caminhos que cês abriram pra mim e pra Lara, mas me dá uma tristeza muito grande, uma tristeza de brandir a foice da tua roça e o martelo da metalúrgica do pai, mãe, em saber que categorias (supostamente) impessoais das aulas de Geografia, História e Sociologia, tais como “êxodo rural”, “boias-frias”, “mão-de-obra barata”, “subemprego” e “proletariado” são a minha ancestralidade, as histórias tuas, da vó Nena e do pai Nhanho, mãe. Quando eu conversava com o pessoal da faculdade, mãe, eu ficava muito contente por me identificar com quem se sentia indignado com as injustiças, com quem não se adaptava bem ao atual estado de coisas. Mas, muitas vezes, a rapaziada sequer tinha visto uma privada de banheiro em que a gente tem que puxar a cordinha pra dar descarga – que dizer, então, de ter que jogar balde d’água na fossa pra merda descer... Quando a gente é a primeira geração a ir pruma faculdade, a fome por mais luz é muito grande – eu fico lembrando que o Goethe pedia mais e mais luz sobre o caixão dele, mas, por você, pela vó Nena e pelo pai Nhanho, mãe, eu quero mais luz agora, eu preciso de mais luz agora – já! Só que quando a gente começa a iluminar muito as coisas, mãe, tudo aquilo que é sujo e podre vai aparecendo com a cara que de fato tem, e é com muita vontade (e dor) que eu vou escavando a tal da “ontologia do ser social” – a vó mal conseguia falar lidificador (é li-qui-di-fi-ca-dor, vó...), o pai Nhanho sabia olhar pro céu como ninguém pra discernir quando tava vindo chuva, mas, pra ele, as nuvens eram bolotas de gelo seco que só não caíam na nossa cabeça Deus sabe lá por quê. Daí, com as frustrações da geração de vocês, com a esperança e as expectativas dos meus ancestrais que sequer puderam saber o que queriam – me vem à cabeça agora a argila da aula de Educação Artística das professoras Cleide e Regina, mãe, e desde sempre eu tinha raiva de escultura de coisa nenhuma, a abstração não me parecia ter vida, a argila vinha da terra, a terra que cê tinha semeado, mãe, e cada curvatura da argila saía da pressão de dedos cheios de vida –, com todo esse sentimento do mundo, mãe, vocês permitiram que eu me descobrisse escritor, alguém que se propõe a olhar pelas frestas das pessoas e das histórias, alguém que, por vezes, narra que uma estória repleta de mentiras e meias verdades chega a morder o lóbulo da orelha de verdades e meia.

E essa coisa tão forte de olhar pro rosto dos outros pra ler sofrimento – essa tua tendência, mãe, de propor pras tuas crias o respeito às pessoas com base numa tentativa de comunhão, e não à base da chibata do dever – fez com que eu quisesse pular uma muralha bem alta, algo como um destino social de pedra pra primeira geração que consegue chegar a uma faculdade. Na família do pai Olavo, tinha médico desde o tataravô – eu sempre me senti mal com esse lance de dizer amém pruma linhagem [ué, então quer dizer que a procura por uma vocação – a procura por um sentido – não importa?, então quer dizer que os mortos sempre vão governar os vivos? (Quando eu li essa máxima em algum lugar da obra do Durkheim, mãe – lembra que eu te levei pra assistir comigo a uma aula de Sociologia II, minha velha? –, eu me lembrei na hora daquele decreto dinástico que foi legando o anel de médico, de geração em geração, pela família do pai Olavo]. Na tua família, mãe, devia ter meeiro desde a Idade Média veronesa. Então, chegando à faculdade na primeira leva da família, como é que eu posso deixar o prestígio da medicina de lado? [Sempre que o pai Nhanho via alguma placa de advogado num prédio ou numa porta, ele dizia que um dia meu nome ia tá lá – “Dr. Ricardo”. (Mais um doutor sem doutorado pra legião de bacharéis armados com anéis de rubi – “Você lá sabe com quem está falando, rapaz?”.)] Mas acontece, mãe, que esse lance de se preocupar com as outras pessoas como que me foi fazendo ficar preocupado com o coral de vozes que vivia aquele montão de histórias aqui na cidadela da minha imaginação. Ué, essas vozes também não são pessoas que riem e que choram? Essas pessoas também não têm rosto? {Sempre que eu tento entrever o rosto de uma personagem, mãe – principalmente daquelas personagens mais sinistras [aquelas que te faziam arregalar os olhos de medo] –, me aparece o rosto daquele grito entre amarelo e ocre do quadro do Edvard Münch [quando cê ouviu O grito, mãe, cê até chegou a me dizer que a paisagem colorida atrás do careca gritão tava toda tremida que nem sopa de letrinha porque ela, a paisagem, tava sofrendo junto com aquele pobre homem. (Quer dizer, então, mãe, que cê conseguiu capturar o sentido do expressionismo como se ele fosse um vagalume em noite de lua alaranjada lá na roça?]} Pois, então, minha velha, me conta: o que é que essas personagens todas têm pra me dizer? Ou melhor: o que é que eu devo estudar pra que eu consiga ajudar essas pessoas de pólen a me contar o que elas tão tentando narrar com tanto ímpeto e urgência? [Essas perguntas me parecem apenas algumas das muitas dúvidas difusas (algo como a neblina pela manhã) que o trabalho pré-mirim no cafezal de Marília, debaixo de um sol ardido, ardido, ardido, não te deixou esclarecer com o lusco-fusco do vagalume que fica dando voos rasantes sobre o orvalho.] E, até hoje, mesmo que cê tenha ficado com um baita receio quando eu te disse que ia largar o Direito pra estudar Ciências Sociais (mas o que que é isso, meu fio?) e Literatura (mas, Ricardo, dá pra sair da fila do seguro-desemprego com isso aí depois?), eu acho que cê entendeu que, de alguma forma, essa era a minha maneira de não caber naquela vida – afinal, mãe, não foi por isso que cê mesma quis zarpar da roça? [E uma vez, ao telefone, por mais medo que cê tivesse do pai Olavo, cê redarguiu com muita presença de espírito quando ele te disse, não sem uma boa dose de razão (essa razão da formiga prudente que parece sempre imunizada contra qualquer tipo de entrega e aventura por parte da cigarra), que você e o pai Nhanho, mãe, tavam criando a gente como se a gente fosse filho de rico, já que, além de não exigir que a gente trabalhasse desde cedo, você e o pai Nhanho tinham deixado a Lara estudar Educação Física – e o Ricardo, Neuza, que que eu faço com esse rapaz que fica achando que é possível aterrissar na Lua? Mas, Olavo, fala a verdade pra mim: cê gosta do que cê faz? Cê chega a olhar pra cara dos teus pacientes antes de prescrever as receitas e mandar eles embora? Deixa a Lara e o Ricardo buscarem o que eles querem, Olavo – e que Deus abençoe meus fios! (Quer dizer, então, Neuzinha, que, mesmo sem saber – ou pior, justamente por ter penado com a labuta quando não devia –, cê acabou dando uma lição sobre a alienação do trabalho ao Dr. Olavo?)]

Cê tava na G.É., mãe, e daí, já coroa – cê já tinha mais de 30 –, cê conseguiu terminar o colegial no Anchieta, aquele colégio ali na subida da Vergueiro, de onde a gente tem uma bela vista pro Baeta – bom, de onde a gente tinha uma vista bem ampla, minha velha, porque aquilo ali agora tá forrado de prédio. Cê fez o curso técnico em Administração – quem diria que a mocinha que tinha ficado de segunda época por causa do desgranhento do teorema das varetas do Tales ia acabar fazendo uma série de contas, hem? Mas, na verdade, foi mais por indicação de algum chefe teu – teria sido o Otacílio, mãe? – que cê foi fazer Administração no Anchieta. Só que depois de trilhar essa vereda mais pragmática, cê quis fazer uma faculdade que ia te fazer falar bonito – ser pobre não é só comer arroz sem mistura, não; ser pobre da roça é ter que ouvir cabisbaixo enquanto alguém fala, é ter que falar gaguejado e sem concordância, colocando um sim, sinhô ao fim de cada retalho de frase. Então, Neuzinha, olha só: um curso de Letras – que nome mais pomposo, né? Parecia que, de uma vez por todas, cê ia ganhar o mundo com o curso de Letras, cê nunca mais ia ter que ficar soletrando as palavras que o teu vizinho Yatta escrevia na lousa de terra do sítio, teu mundo ia ficar tão grande quanto o céu da roça (mas sem ter que voltar praquele calor dos diabos do cafezal). Cê fez um cursinho, mãe – e não é que cê passou no vestibular da Fundação Santo André? Minha velha, vou te dar uma notícia triste agora – outro dia me deu até um nó na garganta quando eu fiquei sabendo que tão pra fechar uma série de cursos de humanidades da Fundação (acostumada a se autoflagelar, parece que a formiga sempre acaba rindo sobre a carcaça da cigarra). E o curso de Letras, minha velha, tá nesse balaio. Quando eu li isso aí, mãe, parece que eu senti na própria pele a borracha dessas formigas contadoras querendo apagar uma parte da tua vida de cigarra – e quanto àquele trem lotado que cê pegava ao fim da tarde, morta de cansaço de tanto digitar lá na G.É., pra assistir às aulas de Latim com aquelas declinações dos diabos? (O teorema das varetas não virou fichinha perto da necessidade de ter que ficar tateando pelas máximas do Cícero, minha velha?) E as tuas aulas de laboratório de inglês que até te fizeram destravar a língua pra cantar o Elvis? (Mas, minha velha, como era duro te fazer pronunciar Marilyn Monroe – parecia que cê tava com a boca cheia de rocambole ou que algum sequestrador tinha tomado a tua língua como refém.) E aquele lance de você parar de ler aqueles livrinhos aguinha com açúcar do Sidney Sheldon pra começar a ler Dom Casmurro e Vidas Secas? Eu lembro que cê ficava maravilhada com a descrição dos olhos da Capitu, olhos de cigana oblíqua e dissimulada, quando o Bentinho se sentia (ainda mais) traído, e olhos de mar de ressaca, quando o Bentinho ficava (ainda mais) apaixonado. Cê sempre teve um pendor pra beleza, mãe – cê gostava muito de ficar vendo o céu entre laranja e rosa da tardinha; cê tentava encontrar o ritmo das gotas de chuva graúdas que iam tamborilando ali nas telhas Brasilit do quintal de casa em São Bernardo (cê sempre dizia pra gente que era uma delícia dormir com a musiquinha da chuva, e daí cê escondia a cabeça embaixo da colcha de chenille que nem uma tartaruga que volta pro casco – a francesada que me desculpe, mas a vó Nena e a mãe sempre disseram colcha de chinilo, então é assim que vai ser e não me venham com churumelas!). Cê nunca esqueceu aquele momento em que o Fabiano, do Vidas Secas – e cê achava que o Fabiano trupicava pra falar que nem o vô Beto, mãe, lembra? –, voltou a encontrar o soldado amarelo. Na primeira vez em que os dois se encontraram, o Graciliano fez com que eles estivessem na cidadezinha do soldado amarelo, e daí o Fabiano, roceiro xucro que nem ele só, ficou ainda mais engasgado com os próprios grunhidos, ele mal conseguia levantar a cabeça pro soldado amarelo que só fazia desancá-lo como se ele fosse o rei do pedaço com aquela farda – cê dizia, mãe, que o soldado amarelo parecia o dono da terra lá de Marília com a coragem do covardão cercado de capatazes. Mas aí, olha só, o soldado amarelo foi meter o bedelho onde não é chamado, ele foi parar lá no sertão do Fabiano, e daí o Graciliano não deixou barato, não. Quando o fardado de nariz empinado foi se achegando, a cachorrinha Baleia começou a latir – cê sempre disse pra mim e pra Lara, mãe, que a Baleia, na verdade, era uma irmãzinha do Pim, o teu porquinho amestrado –, e daí o Fabiano puxou a peixeira e foi se esgueirando que nem lagartixa pra pegar o soldadinho na tocaia. É, mãe, cê morria de dar risada de ver que o soldado amarelão se cagou todo quando viu o Fabiano ligeiro que nem corisco ali no quadrado dele – de que que servia a farda do soldado amarelo por ali? Cadê os capatazes, diacho? Um dia do caçador, outro da caça – o Graciliano queria justiça pro Fabiano e pro vô Ricardo, mãe, e aquela ali te parecia uma desforra da peãozada da roça.

Mas a beleza que te deixava verdadeiramente comovida, mãe, a beleza que te fazia ficar com os olhinhos marejados e te fazia abrir um sorriso bem terno, minha velha, era a beleza da bondade, a beleza da reconciliação, a beleza do reencontro. Um dia eu te disse que cê tinha muito do Príncipe Míchkin, mãe, aquela personagem formidável do Dostoiévski para quem a beleza salvará o mundo. E cê gostava muito daquele dito do Che Guevara de que no se podría perder la ternura jamás, aunque fuera necesario endurecerse. Era como se você quisesse redimir a vida esturricada do Fabiano com o perfume da orquídea, mãe. Você se emocionava com alguém que repartisse o pão antes mesmo de oferecê-lo. Um pedido de desculpa e um perdão sincero te faziam ligar o radinho de pilha da cozinha pra preparar o almoço cantarolando. [Ah, minha velha, a tua comidinha já dá um capítulo à parte: carne moída refogadinha com uns pedacinhos de vagem, um arroz soltinho que só vendo – teu arroz era tão bom, mãe, mas tão bom, que cê conseguiu engambelar a gente pra comê-lo com farelo de trigo por vários anos –, espinafre do Popeye bem amanteigado. E a tua lasanha, minha velha?! (Cê lembra que eu ficava filando umas fatias de presunto enquanto cê preparava?) A gente congelava aquela iguaria pra ficar comendo depois por uma semana. Isso sem falar que, quando tinha feijoada, cê começava a dessalgar a carne seca um ou dois dias antes deixando os pedaços de molho – eu me lembro de você lavar com muito esmero as carnes que logo iam mergulhar naquele panelão fumegante e borbulhante com o caldo do feijão preto.] A gente às vezes ficava muitos anos sem encontrar os parentes, mãe, então, quando cê revia a tia Mariazinha e a tia Brada, vixe, a gente já podia contar que cê ia chorar de alegria – na primeira vez em que eu ouvi a expressão emoção à flor da pele, mãe, eu achei que ela tinha germinado em você. Cê abraçava a tia Brada com muito carinho – bença, tia, tá tudo bem com a senhora? Que Deus te abençoe, minha sobrinha – e a tia Brada fazia o Pelo Sinal em você com a mãozinha torta de reumatismo (naquela época a tinha Brada ainda não tinha virado crente). Daí cê logo pedia pra tia Brada me dar o doce de abóbora – esse menino ficou as 6 horas da viagem pra Quintana falando do teu doce de abóbra, tia Brada, ele disse que cê tinha prometido pra ele que não ia pôr cravo no doce, tia, e daí ele ia pegar o doce de leite da Deja pra misturar com o teu doce de abóbra. Eita menino-formiga, Neuza, parece que nasceu com lombriga na barriga! (A tia Brada me fazia cafuné e me dizia que, se eu comesse todo o quiabo da roça e ainda por cima repetisse o franguinho caipira com ovo de galinha d’Angola, ela ia me deixar comer o pote todo de doce, e aí ela ia ficar dando risada do cagote que ia me dar – a danada da tia Brada piscava pra você e pra vó Nena, mãe, porque a tia nunca me dava mais de duas colheradas do pote a cada vez.) Agora, minha velha, uma coisa que não faltava nunca ao fim da tarde, onde quer que cê estivesse, era o cafezinho bem forte passado na hora – me dá tristeza pensar que eu só comecei a gostar mesmo dum cafezinho expresso, mãe, depois que já não tava mais aqui pra beber comigo. [Cê chegou a ver a máquina italiana de café expresso que o Zé Roberto comprou? Vixe, mãe, nosso primo se transformou num verdadeiro esteta do café, dá até gosto vê-lo limpar bem as xícaras – é xicra, né, minha velha? – e depois dar aquela arrematada no polimento com um vaporzinho que a máquina expele. Daí, antes de mais nada, ele nos traz um copinho de água com gás pra deixar o paladar pronto pra gente sentir o sabor do grão. O Zé afofa o café ao fundo da xícara com o bojo da colherinha e espera, com paciência e esmero, que a máquina indique a temperatura ideal de fervura da água pra ele baixar a manivela. Cê conhece o Zé, mãe, e aí cê sabe que ele sempre tem na memória se a pessoa gosta de café mais doce ou mais amargo – se a pessoa vai provar o café dele pela primeira vez, ele tenta deduzir a doçura do café pra Fulano e Beltrano (e não é que ele acerta?).] Cê fazia um café bem forte, mãe, e eu sempre achava que o café te levava pralgum lugar distante – enquanto cê mastigava o pão caseiro com Doriana e bebericava o café da xicrinha de porcelana do teu casamento com o pai Nhanho, cê ficava com o olhar bem vago – aquele olhar de lago calmo com piado de passarinho ao fundo. Será que cê tava se lembrando dos teus tempos de solteira em que cê ia pros bailes do Clube Atlético Ipiranga com a Lola e a Doroti? Será que cê tava se lembrando da tua época da G.É.? Foi a melhor época da minha vida, fio – a gente saía pra dançar e dava umas tragadas que nem o James Dean e a Rita Hayworth, a mãe tava sempre bem arrumada. E aí, certa tarde – entre 1979 e 80 –, cê falou pro teu supervisor que tava com dor de cabeça pra dar um pulinho na sala do Dr. Olavo lá na G.É., que ficava ao fim do corredor. (O Otacílio começou a estranhar que, desde a contratação do Dr. Olavo, todas as digitadoras começaram a ser acometidas por uma série de enxaquecas.) Cê dizia que o pai Olavo era muito charmoso – ele tinha uma bela duma lábia, além de ser um cara muito divertido quando tava de boa veneta. Diante de uma mulher bonita como você, mãe, o pai Olavo foi fazendo a corte – você sempre na esquiva, fazendo aquele jogo de difícil, até que um dia, de forma muito respeitosa, o pai Olavo te convidou pra jantar e disse que, antes de mais nada, ele gostaria de conhecer a dona Nena, de quem você sempre falava com muita admiração e carinho – o danado do pai Olavo sabia ou não sabia como aprumar o figurino, minha velha?

Quando o pai Olavo foi te buscar na casinha que você e a vó alugavam lá no Baeta, na rua Liberdade, 475, não era só a vó Nena que tava ali na sala pra conhecer o Dr. Olavo, não – a parentaiada toda queria ver o novo paquera da Neuza: além da vó Nena, que o pai Olavo cumprimentou com toda a deferência, tavam por lá a tia Wanda, a tia Mariazinha, a Alice e a Hélia – muito cortês, o pai Olavo tava agradando a gregas e troianas, e ele acabou ganhando o coração de todas vocês de uma vez quando mediu a pressão da vó Nena (lembra que cê me disse que achou o pai Olavo ainda mais charmoso com o estetoscópio, mãe?). De quebra, o pai Olavo ainda receitou um remedinho pra Érika – a tia Wanda disse que a bebê dela vinha tossindo bastante, então o pai Olavo sacou um receituário de uma pasta de couro com fecho prateado e fez a prescrição com carimbo e tudo.

Meses depois, mãe, você e a vó Nena foram morar na chácara – ou melhor, na chacra – do pai Olavo, em Ribeirão Pires, lá no Jardim dos Eucaliptos.

Na primeira vez em que você e o pai Olavo fizeram amor, mãe, cê ficou grávida. (Era noite de Carnaval, e cê ficou ouvindo a cantoria de um montão de cigarra no mato da chacra – quando o pai Olavo abriu a janela do quarto pra fumar um cachimbo, ele apontou pruma coruja graúda, de olhos bem grandes e amarelos, que tava por ali como que fazendo as vezes de sentinela.) Em novembro de 81, no dia 11, eu nasci. No Carnaval de 83, você se separou do pai Olavo. (Hoje, mãe, quase 35 anos depois – eu tô quase com a tua idade quando você me deu à luz –, eu bem vejo que a tua decisão de se separar do meu pai foi, na verdade, a decisão mais importante da minha vida. Eu seria hoje um cara completamente diferente se tivesse crescido sob a batuta do meu pai Olavo. Você me poupou de tudo aquilo, mãe. Você me resgatou, minha velha – você me redimiu. No finzinho de 83, quando você se casou com o pai Nhanho já com a Lara a caminho, você me deu um novo pai – você me deu uma nova vida.)

Mas, mãe, me conta: como é que o doutor se junta com a digitadora? Será que eu teria nascido se, ao invés de você, tivesse sido a tua vizinha Lurdinha, de Feira de Santana, a recorrer ao Dr. Olavo com enxaqueca? (Será que eu chegaria a conhecer meu pai?) Eu já disse pro pai Nhanho, mãe – aliás, cê já leu a carta que eu escrevi pra ele, minha velha? –, que dois relacionamentos mudaram radicalmente o curso da vida da Lara e da minha: o teu encontro com o pai Olavo e o casamento da tia Lena, irmã polaca do pai Nhanho, com o tio Alberto, supervisor do setor de segurança lá da Volks – o tio Alberto, bom coração que nem ele só, contratou a polacada toda pra trabalhar por lá, e daí o pai Nhanho, com o melhor salarinho que ele poderia ganhar (ele só tinha estudado até a sétima série, né?) conseguiu criar a gente com o mínimo de dignidade. Se o pai Olavo não tivesse se preocupado em me pagar boas escolas, mãe, como é que teria sido? Se o pai Olavo não tivesse te instigado tanto a dar pra Lara as mesmas chances que eu tava tendo, como é que teria sido? [O pai Nhanho era muito boa gente, mas, capiauzão que nem ele só, ele não dava muito valor pros estudos, não, mãe – você é quem bateu o pé pra Lara estudar numa boa escola, mas aí o pai Nhanho disse que cê ia ficar sem teu salarinho, minha velha, porque o dinheiro dele só dava pra comprar arroz e feijão. E ele disse também (mais um a te dizer isso, mãe) que cê queria criar teus filhos como se a gente fosse riquinho.] E aí, mãe, só quando a Lara terminou o colegial, em 2001, aos 17 anos, é que cê pegou teu salarinho na mão de novo. Mas como é que eu vou esquecer aquele dia em que, de uma só vez, cê viu teus dois filhos passando na USP? Cê tinha ouvido falar da Universidade de São Paulo pela primeira vez numa reportagem de TV de mil novecentos e guaraná com rolha – era aquela coisa bem, mas bem distante, aquele Olimpo que não existe pra gente como a gente. Ah, mas o danado do meu vizinho Yatta deve ter conseguido entrar na USP – ah, se deve! E aí, mãe, com aquele monte de sermão da planície que o pai Olavo gostava de dar – eu vejo daqui a 10, 15, 20 anos, Neuza, cê só vê agora, então me ouça, eu sei o que que é melhor pro menino –, cê começou a bater o pé e disse porque disse que tuas crias iam estudar na USP. Daí, naquela noite de fevereiro de 2002, quando a Lara fez a conexão da nossa internet à lenha e viu o nome dela voando pra Escola de Educação Física e Esporte e o meu pra Faculdade de Direito do Largo São Francisco, eu vi teus olhos marejados assumindo uma feição totalmente nova e outra. Cê tava muito emocionada, é claro – ora, como é que a Neuzinha não estaria pulando e vibrando e gritando com a gente naquele momento? Mas cê olhava bem pro pai Nhanho – ele tava boquiaberto e com as bochechonas bem vermelhas (o pai Nhanho já tinha tomado umas pinguinhas no cambuci ali da adeguinha dele na laje) –, cê olhava bem pro pai Nhanho, minha velha, e como que perguntava, num silêncio profundo e chorado a invocar o vô Ricardo meeiro, a vó Nena costureira e a Neuzinha boia-fria pré-mirim: e agora, Nhanho, quem foi que criou os meus filhos como riquinhos? E agora, Olavo, quem foi que criou os meus filhos como riquinhos? Depois que eu deixei você, Olavo, cê não disse que o Ricardo ia ser criado por duas ignorantes? Então tá aqui, Olavo, aqui tá o resultado da criação da dona Nena e da Neuza da roça! Naquela noite, minha velha, choveu no semiárido do Fabiano. Naquela noite, mãe, até a formiga topou encher a cara com a cigarra nômade. Um dia do caçador, outro da caça.

O pai do pai Olavo, o Dr. Eduardo, também tinha se casado com uma moça pobre e muito bonita, a Tetê. O pai Olavo, mais uma vez, seguiu a sina do patriarcado – a moça mais pobre parece mais dócil, o mais pobre tende a falar amém. Só que cê sempre trabalhou, minha velha, seja em casa, seja na roça ou em alguma empresa. Isso cê aprendeu com a vó Nena, mãe, então cê tinha muito orgulho de ter o teu próprio dinheirinho e de não precisar depender de homem algum. Só que o pai Olavo, possessivo e ciumento como ele só, não queria que cê continuasse trabalhando na G.É. – se ele já tinha te conquistado por lá, por que ficar dando sopa prum projetinho de galã qualquer querer se engraçar pra cima da loirinha dele? O pai bateu o pé, mãe, e, durante a tua licença-maternidade, cê fez que ia obedecer ao Dr. Olavo – cê piscava pra vó, mãe, porque a dona Nena já sabia que, quando cê já pudesse voltar pro batente, a vó é que ia ficar cuidando de mim. Apesar de o pai Olavo te fazer usar aquelas camisas U.S. Top – “bonita camisa, Fernandinho!” – pra impedir que os marmanjos entrevissem quaisquer decotes, cê ficava cativada com o jeito como o pai Olavo cantava as músicas em inglês, em francês e espanhol, cê ficava vidrada de ver como ele parecia ser um cara vivido, com uma sabedoria próxima da vida de carne e osso. Bom, começo de relacionamento é só alegria: a vó Nena gostava de morar na chacra de Ribeirão Pires – o pai Olavo levantou um quarto pra ela no fundo da casa, e a vó Nena logo começou a fazer uma hortinha de couve e almeirão. E aquela cachorrada toda de que o pai Olavo tanto gostava, hem, minha velha? Tinha fila, tinha pastor alemão, tinha doberman, tinha rottweiler – e pra tirar aquele cheiro de cachorro do corpo? [Cê morria de dar risada, minha velha, quando cê me dizia que o pai Olavo não se incomodava com cheiro assim, não – meu pai, safado como ele só, achava que aquele cheiro animal deixava o camarada ainda mais uriçado. (Cê só não podia estar de Havaianas quando o pai Olavo chegasse em casa – aí ele dizia que perdia o tesão. Cê tinha que estar minimamente nos trinques pro meu pai te querer onde quer que fosse.)] E não dava pra deixar a porta da cozinha aberta, mãe, porque a Matilde, a pastora alemã, e a Rita, a rottweiler, vinham roubar bife e linguiça do almoço. Você e a vó Nena logo se afeiçoaram àquela cachorrada toda, minha velha – era duro limpar o canil, era bosta pra todo o lado, era pelo de cachorro por tudo, mas, como o pai Olavo vivia emendando um plantão atrás do outro, você e a vó Nena se sentiam protegidas ali naquele ermo da chacra de Ribeirão Pires com aquele batalhão de cachorros. O duro mesmo, mãe, era suportar a hierarquia que o pai Olavo impunha. O pai Olavo tinha que comer na mesa principal da sala, e você e a vó Nena comiam na cozinha. A manteiga era só pra ele, a margarina até que podia ficar pra vocês. Ai de você, mãe, se você retrucasse quando ele tava bravo – e vai lá saber quando e como o pai Olavo ficava bravo, o homem mudava de humor que nem pele de cobra. O pai Olavo tinha milhares de livros, discos e fitas por lá, mas cê não podia tocar em absolutamente nada sem a permissão dele – se você falasse pra ele que ia pegar algo, daí ele até podia consentir. Chegou uma época, minha velha, em que o pai Olavo começou a se incomodar com o fato de não poder ficar andando peladão em casa por causa da vó Nena por ali – bom, essa ao menos foi a desculpa (se é que o pai Olavo precisava formular qualquer desculpa) pra ele despachar a vó Nena ali da chacra. A vó não tinha uma personalidade conciliadora como a tua, minha velha, a vó Nena falava o que lhe vinha na telha – eu lembro bem que ela dizia que, quando o pai Olavo colocava óculos escuros, ele ficava parecendo o dono do mundo, vá, vá, vá, parece que tem o rei na barriga, vá, vá, vá! Então, mais dia, menos dia, ia sair faísca dali – e cê ficou muito triste quando a vó Nena teve que ir morar em Quintana com a (bisa)vó Isabel. O pai Olavo tinha umas mudanças muito bruscas de temperamento, mãe, e cê nunca soube como lidar com aquilo – cê me dizia que, a cada manhã, cê rezava praquele dia terminar bem. Cê nunca retrucava os sermões do pai Olavo, cê ficava quieta com medo de ele te fazer alguma coisa – uma vez ele te deu um baita dum empurrão, e cê logo começou a chorar, e daí, ato contínuo, eu também comecei a chorar, e o pai Olavo foi ficando com culpa e veio ali, pela enésima vez, te pedir desculpa por tudo aquilo, que ele tinha tido uma criação duríssima, que o pai dele batia nele e nos irmãos desde muito pequenos, que eles não podiam discordar de nada que vinha do pai, que tinha conversa que era interrompida com soco na cara, que era esporro pra todos os lados, que era obediência cega, que o pai dele era doutor mas não partilhava nada com os filhos, que era um miserê que só vendo, que eles tinham que se virar, daí meu pai foi ficando revoltado, ele sempre tinha que ficar mostrando capacidade pra conseguir alguma migalha do pai dele, por menor que fosse, mas nada tava bom, sempre tava faltando alguma coisa, a gente nunca conseguia subir acima da canela dele, era pra gente sempre ficar lambendo a bota, e meu pai Olavo te dizia que ele não conseguia deixar de carregar isso aí, mãe, que você lhe perdoasse, minha velha, que ele não tinha feito aquilo por mal, que ele não ia fazer mais, que você era a mulher dele, que eu era o filho dele, que tudo ia ficar bem. Com o teu coração tão terno, mãe, como é que cê não ia relevar tudo aquilo? Acontece que, com o tempo, aqueles pedidos de desculpa, tão sinceros a princípio, mais pareciam passar um montão de cheques em branco pro meu pai Olavo fazer a mesma coisa ainda uma vez – e sempre. Cê foi notando que até a feição do pai Olavo mudava quando ele ficava bravo – parecia outra pessoa, não tinha nem sinal daquele homem prazenteiro e inteligente que sabia ser galante e conduzir uma conversa como ninguém. O pai Olavo te parecia cindido, mãe, ele parecia ouvir alguém dentro dele, era coisa de doido, cê fazia o Pelo Sinal escondida. Mas, bom, se o pai Olavo ficasse ralhando só com você – o que é ainda mais trágico: se ele mantivesse a agressividade “apenas” contra você –, eu acho até que cê ia suportar. Cê chegou a falar pra Lola que cê acreditava que, quando o Ricardinho nascer, Lola, o Olavo vai mudar, aí vai vir o filho dele, é sangue do sangue dele, ele vai se afeiçoar, a coisa vai mudar. A Lola tentou abrir teus olhos, mãe, mas cê quis dar uma chance, cê quis dar tempo ao tempo, e a coisa, de fato, não mudou. Cê fosse “só” com você, mãe, cê ia até relevar – mas, quando o pai Olavo começou a ralhar com o teu filho (o teu filho bebê!), vixe, aí cê virou uma onça, aí cê virou uma leoa! Uma vez eu fiquei com um pouquinho de febre, daí o pai Olavo foi lá e ministrou ele mesmo um antibiótico pra mim – vai saber se não era a dose certa, mas o fato é que eu comecei a ficar mais quente, daí cê começou a gritar com o pai Olavo (imagina só, mãe, cê tava gritando com o homem, gritando com toda a força, gritando a plenos pulmões!), cê começou a ralhar com ele dizendo que era pra gente ir pro pronto socorro já, agora, vambora, Olavo, o Ricardinho precisa de atendimento, anda – e não põe a mão no meu filho agora, deixa ele comigo, vambora, anda, Olavo! {Cê nunca esqueceu o olhão arregalado que o pai Olavo abriu – é uma coisa doida, mãe, mas parece que poder só respeita poder. Apesar de, certa vez, numa conversa com a madrinha do pai Olavo, ela te dizer que, com jeitinho e sem ficar contradizendo o homem, dava até pra deixar o pai Olavo só com a roupa do corpo. [Aquela conversa talvez mostre menos coisas sobre meu pai Olavo, mãe, e mais sobre a madrinha dele – supostamente, a segunda mãe. Como cê nunca foi disso, minha velha, como cê sempre teve escrúpulos, cê não queria o que não era teu, cê tinha o teu trabalho, cê tinha realizado o teu sonho de ser mãe, cê tava ali com o pai Olavo – que mais cê podia querer? (Quando o pai Olavo tava perto de morrer, mãe, lá no Hospital Geral de Cotia, eu disse pra ele que cê nunca tinha me contado essas coisas mais cascudas – foi a Lola quem me revelou tudo isso, mãe, e ela só me contou essas coisas depois que você faleceu, minha velha, porque ela sabia que cê não queria que eu soubesse disso. O pai Olavo ficou encafifado, mas ele não retrucou, não – ele conhecia o teu caráter, mãe, ele sabia que você não mentia de jeito nenhum.)]}

Cê já tava bem encafifada com tudo isso, mãe – de que que adianta o homem ter tanta cultura se ele não consegue domar o cão em si mesmo? (De que que adianta ter 8 cachorros se o cão próprio não vai pra jaula?) Cê gostava de ouvir o pai Olavo falar, cê dizia que aprendia muito com ele, que ele olhava lá na frente, que ele previa onde é que as coisas iam dar – e aí, como boa aprendiz, cê começou a fazer o mesmo, cê começou a entretecer tuas projeções em silêncio: mas o que é que vai acontecer quando o Ricardinho crescer? O Olavo vai começar a sentar a mão no Ricardinho – e, se o Ricardinho puxar o gênio do pai, meu Deus do céu, vai sair briga feia quando ele ficar grande e já conseguir peitar o Olavo, minha Nossa Senhora d’Aparecida! Com esse monte de arma e faca aqui nessa chacra – Jesus amado, misericórdia!

O pai Olavo, que de bobo não tinha absolutamente nada, foi notando que cê tava ficando mais distante, que cê nem ligava pras ordens e pras birras dele – cê ficava cuidando de mim e ia pensando no que fazer. [Cê mandou uma carta longa pra vó Nena, minha velha, pedindo perdão pelo fato de cê ter deixado ela sair da chacra pra ir pra Quintana ficar com a vó Isabel – como se você tivesse qualquer escolha diante do decreto do pai Olavo, mãe –, e daí cê suplicou pra vó Nena voltar, porque cê tava pensando seriamente em se separar do pai Olavo. A vó Nena aprontou as malinhas dela e, pra ontem, ela já tava te esperando na casa da Alice lá no Baeta. (Só faltava cê tomar coragem, minha velha – e a coragem veio.)]

Não adiantava nada o Coringão ter levado o caneco do Paulistão em 82 e 83 com o Dr. Sócrates Brasileiro capitaneando a Democracia Corinthiana – o pai Olavo ficou de pé em cima da cama quando o Zenon começou a fazer um salseiro danado diante da meia-lua da grande área do São Paulo em pleno Morumbi, daí o Dr. Sócrates, magrão como ele só, se acercou como um corisco e passou ligeiro pelas costas do Zenon, que, de calcanhar (e à la Dr. Sócrates Aquiles), serviu o capitão camisa 8, que, ao deixar o zagueiro são-paulino na saudade, ficou cara a cara com o Waldir Peres e, com um tapa certeiro de direita, tirou do goleirão e empurrou a bola pro fundo das redes. Enquanto os jornalistas pra lá de corinthianos invadiam o gramado pra saudar o Dr. Sócrates que vibrava com a sua saudação característica levando o punho cerrado aos céus, o pai Olavo começou a pular tanto que a ripa da cama rachou – cê já tinha visto o pai Olavo, debochado como ele só, dar um montão de risadas bufonas, mãe, cê já tinha visto o pai Olavo chegar a chorar quando eu nasci, mas cê nunca tinha visto o pai Olavo combinar risos e lágrimas com tanta força – é, minha velha, aqui é Corinthians: eu sei que o vô Ricardo, filho de veroneses, era Palmeiras desde criancinha, mas, tanto da parte do pai Nhanho quanto da parte do pai Olavo, aqui é Corinthians. E, bom, passado o tufão das comemorações, mãe, apaziguada a arritmia corinthiana, o pai Olavo descia a charcos de muito, mas muito mau humor. (Cê tinha que ficar sempre na esquiva, minha velha, pro pêndulo não te acertar – ou, ainda pior, pra gangorra não nos acertar.) Até que chegou mais um Carnaval – tava caindo uma chuva que Deus mandava, a cachorrada não parava de latir, e o pai Olavo, pronto pra te deixar sozinha na chacra pra ir curtir a folia bem pimpão lá em Santos, cidade natal dele, o pai Olavo começou a gritar que eu tinha que calar a boca, que era pra você me dar logo a mamadeira, que o meu choro tava furando o tímpano dele com aquela zorra toda. Cê voou pra pegar a mamadeira, mas aí o pai Olavo te empurrou e me deu um beliscão lascado – nem preciso dizer que este bebê ia começar a chorar ainda mais alto, e daí toma-lhe outro beliscão –, cê começou a gritar e a chorar que era pro pai Olavo parar, pelo amor de Deus, isso vai machucar ele, Olavo, o Ricardinho é só um bebê, Jesus que tá no céu!

O pai Olavo voltou a si, mas, num zás, ele pegou o carro e sumiu por aquelas estradas de terra de Ribeirão Pires. Foi o teu limite, minha velha: depois das várias brigas-solilóquio – e cê lá era doida de retrucar alguma coisa pro pai Olavo quando ele tava possuído daquele jeito? –, cê ficava tremendo e chorando, cê só se acalmava pra conseguir me acalmar, pra me pegar no colo pra eu parar de chorar, mas, naquela hora, cê decidiu dizer chega. Cê passou a mão no telefone e ligou pra vó Nena, que tava na casa da Alice – ninguém ali tinha carro pra ir te buscar, vixe, era uma aflição que só vendo. Daí cê teve a ideia de pedir pelo amor de Deus pra minha madrinha Maria, uma portuguesa de muita fibra e caráter que fora amiga do pai do pai Olavo, que ela viesse nos buscar ali na chacra, o Olavo saiu, ele foi passar o Carnaval em Santos, ele não tá aqui, então tem que ser agora, dona Maria, por tudo que é mais sagrado, precisa ser já. (Cê ficou rezando pra não dar na veneta do meu pai de voltar pra chacra de surpresa, cê não queria nem pensar no que poderia ter acontecido se ele visse a dona Maria e o seu Manoel tirando a gente da chacra.)

Ali, mãe, naquele momento em que cê fugiu da chacra comigo e voltou escondidinha pra São Bernardo, minha velha, cê me fez nascer de novo, mãe, cê tomou a decisão mais importante da minha vida, minha velha.

Na cabeça do pai Olavo, uma mulher de origem humilde como você nunca ia querer se separar de um médico. (Mais velho do que andar pra trás, mãe, é o hábito de quem julga os outros por si mesmo.) Quando o pai Olavo começou a notar que cê tava ficando cada vez mais distante, ele foi logo tentando te fazer um segundo filho – cê rezava pra não ficar grávida, cê sabia que ia ser muito difícil escapar daquela chacra com dois filhos pra criar. Agora, minha velha, imagina a perplexidade do pai Olavo quando ele chegou de Santos e viu a chacra vazia. Imagina a fúria dele, minha velha!

O pai Olavo nos procurou por todos os lados – nos primeiros dias, cê achou por bem ficar quietinha, cê tinha muito medo de que ele pudesse me levar embora (o pai Olavo não ia fazer isso, ele tinha dignidade, mas, bom, medo cava mais medo, é poço sem fundo, então cê preferiu ficar amoitada pra ver se a poeira abaixava). Quando o pai Olavo ligou pra Lola, ela concordou em levá-lo até onde a gente tava, com a condição de que ele não brigasse com você – ora, mãe, será que adianta vedar rachadura de barragem de represa com fita crepe?

O pai Olavo tentou porque tentou te convencer a voltar pra chacra, mãe, eu vou mudar, Neuza, eu vou agir de forma diferente com você e com o Ricardinho, me dá uma nova chance, volta pra mim, eu não quero ficar longe do meu filho, eu quero criar o Ricardinho com bons valores, vamos recomeçar, Neuza, vamos voltar pra chácara, vamos. Cê disse não, mãe. Não. Então, antes de sentenciar que, ficando com você e com a vó Nena, mãe, eu ia ser criado por duas ignorantes, o pai Olavo te deu um baita dum puxão na orelha direita – cê levou uns cinco pontos (talvez dez) pra recosturar o lóbulo. [Eu só soube disso quando cê já tinha morrido, mãe. De qualquer forma, se eu fosse interpelar o meu pai por causa disso, era bem capaz de uma das vozes dele me dizer que o teu sangue, na verdade, tinha saído do dedo dele. E, bom, se eu tivesse conversado com você sobre isso, se eu tivesse te perguntado por que você não fez nada quanto àquilo, você teria dito que não podia denunciar o pai do teu filho, que aquilo não tava direito. (Sempre que eu ouço histórias de mulheres vítimas de agressão que não só eximem seus agressores como tomam para si a culpa da violência que receberam, eu me lembro de uma pequena fábula do Kafka em que o ratinho como que parece culpado tanto pelo fato de o naco de queijo ter sido acoplado à ratoeira quanto pelo fato de, após seguir um conselho muy amigo do gato, o ratinho ter sido devorado.)]

A minha memória, esse afluente que emana das histórias que você, a vó Nena (e a Lola) sempre me contaram, nasce depois do teu casamento com o pai Nhanho. A relação com meus dois pais, pra mim, sempre foi dialética – a tese do médico e a antítese do metalúrgico. O pai Olavo nunca pertenceu aos de baixo, apesar de, durante seus 40 anos de medicina, ele ter trabalhado muito como psiquiatra nos hospitais e centros de atendimento de uma série de municípios da periferia da Grande São Paulo. O pai Nhanho nunca pertenceu aos de cima, apesar de, em seus mais de 20 anos de Volkswagen, ele ter sido guarda nas mansões de vários diretores. Você e eu, mãe, transitamos pelos interstícios desses dois mundos [ou melhor (ou pior), dessas duas galáxias] – hoje, eu tendo a ver que a trajetória que me levou do Bairro dos Casa, em São Bernardo, a meus estudos dostoievskianos em Moscou e Chicago [duas faces da moeda cunhada pela Guerra Fria (a cara do pai Nhanho e a coroa do pai Olavo)] tem muito dessa síntese bastante contraditória, algo como um desvio ou um erro do capitalismo à brasileira que só faz transformar vidas em destinos. O fato é que, logo depois que você se separou do pai Olavo, mãe, aquela crise econômica severa do início da década de 80 (“a década perdida”) veio à tona. Recém-separada e com este filho pra criar, cê foi mandada embora da G.É.. Eu fico aqui imaginando o teu desespero naquele momento, minha velha – cê tava se sentindo fortalecida por ter tomado uma decisão tão difícil, daí a vida vem, te puxa o tapete e premia o risco que você se dispôs a correr com o olho da rua. (É bem verdade, mãe, que a ironia de Machado de Assis costuma pregar que o Acaso é um deus cego. Mas, sádico como ele só, o deus Acaso parece gostar de espiar pelo buraco da fechadura dos nossos piores momentos.) Acontece que a Lola, o nosso anjo da guarda, não te deixou ficar nem mesmo 2 dias desempregada. A Lola, que havia sido demitida meses antes da G.É., já tava trabalhando como digitadora na Pro-SBC (Processamento de Dados de São Bernardo do Campo) – ou, como vocês diziam, a “Pró”. Quando a Lolinha ficou sabendo que cê tava desempregada, minha velha, vixe, ela te indicou na hora pra Suzana, a chefe da seção de digitação. Quem diria que cê só sairia da Pró 12 anos depois, mãe, e já aposentada? Quem diria que, nesse meio tempo, a Pró seria municipalizada, minha velha, e que a Lola, você e a tia Terezinha (a irmã do pai Nhanho que também havia sido demitida da G.É. e que a Lola também havia indicado pra digitação da Pró) iam virar funcionárias estatutárias, hem? [Se a gente olha pra estatização da Pró com os olhos dessa nossa época de ultraneoliberalismo, minha velha, tudo isso parece mais um coelho que o Mandrake tirou da cartola. Mas o fato, mãe, é que, se você tivesse se aposentado pelo INSS como o pai, a Lara e eu teríamos começado a trabalhar já na adolescência, como a maioria da garotada ali do Bairro dos Casa. E mais: se a Prefeitura de São Bernardo não subsidiasse um plano de saúde pros funcionários municipais, cê teria falecido antes da hora, minha velha. (É por isso que cê acredita até hoje, mãe, que o deus Acaso não é cego, não – pra você, minha velha, ele sempre foi caolho.)

Numa verdadeira quadrilha drummondiana, mãe, você era amigona da Lola; a Lola, exímia funcionária, tinha muita moral com a Suzana, chefe da seção de digitação da Pró; a Suzana, a partir da indicação da Lolinha, contratou você e a tia Terezinha na hora; a tia Terezinha, irmã do pai Nhanho, começou a te falar do irmão polaco que, assim como você, mãe, tinha se separado da primeira esposa há não muito tempo (e, assim como você, minha velha, tinha um filho do primeiro casamento, o Dani). No início, cê disse que queria ficar sozinha, que cê ainda tava se recuperando da separação do pai Olavo, e tal. Mas a tia Terezinha insistiu dizendo que o pai Nhanho era um bom homem, que ele não tinha nada de braço curto, que ele era trabalhador e honesto – e, ainda por cima, Neuza, ele é um ótimo pai pro Dani e vai ser um ótimo pai pro Ricardinho. (Quando a vó Nena concordou com a tia Terezinha, minha velha, teu olhinho azul, azul, azul até brilhou, e daí cê pediu pra tia te apresentar o pai Nhanho.)

No começo, mãe, o pai Nhanho te achou muita areia pro caminhão dele. E essa coisa de cê ter tido uma relação com um médico sempre foi um espectro pro pai Nhanho – do médico pro peão de fábrica, como é que é isso? O pai Olavo era muito estudado e, ainda por cima, cultivava muito a leitura e a erudição. O pai Nhanho não tinha terminado nem o ginásio e, como você, minha velha, ele teve que trabalhar desde piá na roça de Joaquim Távora, cidadezinha ali do norte do Paraná. Sai de baixo do Dr. Olavo quando ele ficava enfurecido. O bronco Nhanho, que tinha lá seu pavio curto, jamais fez menção de levantar a mão pra você, minha velha – quando ele dava umas chineladas em mim e na Lara, era coisa bem merecida. [Ele nunca se excedia, era mais pra gente ficar com medo e não fazer arte de novo. E, numa noite de sábado em que faltou luz, eu peguei uma vela e, sem querer querendo, botei fogo nas toalhas do banheiro, e daí o pai Nhanho fez bem em me dar umas chineladas certeiras nas dobras dos joelhos (ardia pra dedéu!), mesmo com os protestos chorosos teus e da vó Nena, mãe. (E se este teu filho endiabrado estivesse testando o pai Nhanho pra ver até onde ele me deixava irradiar minha audácia de pirata pré-mirim? Já pensou se eu descobrisse que ele me deixava fazer quase todas as artes que eu quisesse, mãe, assim como você?)] O pai Olavo não botava uma gota de álcool na boca (graças a Deus, né, minha velha?). O pai Nhanho gostava porque gostava duma cervejinha e, sobretudo, duma pinguinha no cambuci. Mas, bom, além de mulherengos, tanto o pai Olavo quanto o pai Nhanho eram corinthianos apostólicos romanos.

Na infância, mãe, quando a gente olha pros pais como heróis, parecia que a nossa família tava caminhando bem entre a primeira família do pai Nhanho, de um lado, e a tua primeira família, minha velha, de outro. {Apesar de eu sempre te ouvir dizer a expressão filhos meus, filhos teus e filhos nossos como algo que poderia gerar um rebu danado. [Além, é claro, da vó Nena, que tinha lá uma ou duas (quiçá até três) características da sogra ranheta, apesar de ela olhar pela gente com muito amor e cuidado enquanto você e o pai Nhanho tavam trabalhando.]} Era uma coisa curiosa: como a gente não vivia o dia-a-dia com o pai Olavo, ele sempre parecia um cara bonachão pra mim. Ele vinha com aquelas motonas que roncavam pra valer – quando cê via meus olhos crescendo pra cima das motos do pai Olavo, mãe, cê ficava com medo de que eu já quisesse andar na garupa e de que, tal pai, tal filho, eu fosse querer virar motoqueiro no futuro. Cê sempre ficava batendo na tecla de que o tio Edu, irmão do pai Olavo, tinha morrido de acidente de moto – e o enterro tinha sido em caixão fechado. {A partir daí, eu sempre fiquei imaginando se, lá dentro do caixão, o defunto ouvia alguma coisa – e se ele acordasse, e se ele começasse a lutar pra sair dali? [Por causa disso, minha velha, quando o Dostoiévski e o Tarantino me fizeram sentir as agruras dos mortos-vivos em “O sonho de um homem ridículo” e Kill Bill, parecia que os caixões do homem ridículo e de Beatrix Kiddo tavam enterrados embaixo da minha cama. Se eles escapassem, era certeza que iam puxar meu pé de madrugada. (Bom, minha velha, se a Uma Thurman viesse puxar meu pé de madrugada, eu não ia achar nada mal.)]} Desde que eu era bem pequeno, mãe, o pai Olavo já me vinha com aqueles sermões importantes sobre ter que estudar, sobre saber o valor do trabalho, sobre ter seriedade na vida – quando você e o pai Nhanho diziam pra ele que eu ainda era uma criança, o pai Olavo, além de dizer que tava pensando lá na frente, não deixava de falar que, nas famílias judaicas, o menino vira homem aos 12 anos. E eles tão certos, Neuza, os judeus tão cobertos de razão. Mas ainda faltam 5 anos pro Ricardinho fazer 12, Olavo! Ué, Neuza, é bom o Ricardinho ir se acostumando desde já, porque a vida é dura – e você e o Nhanho sabem disso bem melhor do que eu. (Nisso aí, mãe, eu me lembro de você e do pai Nhanho concordando com o pai Olavo em silêncio num churrasco lá em casa num sábado à noite.)

Só que, mãe, quando você e o pai Nhanho discutiam – quando é que não sobrava mês no fim do salário? –, aí vinha a coisa de que a Cláudia, minha primeira mulher, não era tão cricri que nem você, não, Neuza, ah, Nhanho, mas o Olavo me elogiava muito, ele é que era um verdadeiro cavalheiro – vixe, mãe, os filhos que já assistiram a esse tipo de tiroteio dos pais sabem que a expressão fogo cruzado não dói é uma mentira lascada. Só que uma coisa curiosa, mãe, é que o Dani se tornou um grande amigo meu – eu sempre o considerei meu irmão, e não faz muito tempo, minha velha, eu disse pro Dani que, a bem dizer, a gente tinha tudo pra ter inimizade, porque, além de ele poder querer que o pai Nhanho voltasse a se casar com a Cláudia, a mãe dele, ele podia achar que eu tava ocupando o espaço que era dele na atenção do pai Nhanho. Só que, na verdade, a gente ficou muito amigo – era bem legal ter um irmão mais velho, e isso, mãe, acabava aproximando o pai Nhanho tanto de mim quanto do Dani, porque cê sabe que, sem beber umas pinguinhas, o pai Nhanho tinha mais dificuldade em mostrar afeição. Eu acho que o pai Nhanho ficava agradecido por eu chamar o Dani pra vir lá pra casa jogar Master System e taco no quintal. Só que, quando a gente fazia barulho à tarde enquanto o pai Nhanho tava dormindo pra trabalhar de madrugada, ele acordava que nem um trovão, e a culpa vinha sempre pra cima de mim – dificilmente ele ralhava com a Lara e com o Dani. Na verdade, eu fui notando que ele não tinha intimidade com o Dani o suficiente pra dar as broncas que ele dava em mim, e o pai acabava poupando a Lara por ela ser menina. Acontece, minha velha, que eu não via isso aí naquela época – eu achava que, quando o pai Nhanho fazia isso, ele tava marcando uma diferença entre mim e os filhos de sangue dele, e daí, com muita raiva e tristeza (tanto mais raiva e tristeza quanto mais eu gostava do pai Nhanho), eu ia reclamar pra você e pra vó Nena. E aí, bom, quando a vó Nena e a mãe me viam todo tristonho, vocês viravam araras e iam tirar satisfação com o pai Nhanho – vendo isso hoje, mãe, eu pressinto que tinha uma pontada de culpa quando cê via que eu tava me sentindo posto pra escanteio, porque, afinal, eu não tava com o meu pai Olavo porque você quis se separar. Mas daí, minha velha, se eu reclamava disso, se eu falasse que, por vezes, o pai Nhanho me tratava com alguma diferença (o que, a bem dizer, poucas vezes era verdade, porque o pai Nhanho era um pai bom e justo comigo), cê dizia que, por A mais B, a gente nunca ia conseguir viver com o teu pai Olavo, Ricardinho, não ia dar certo, a gente tá melhor aqui, graças a Deus, e isso é fichinha perto dos problemas que cê poderia enfrentar lá na chacra, meu fio. Ia se misturando em você, mãe, uma massa contraditória de redenção e culpa, e daí, se o pai Nhanho fizesse menção de me tratar com qualquer diferença, cê ia assumindo o papel de mãe e pai. Era uma saída tensa, minha velha, porque, bom, se eu fazia alguma arte em casa, você e a vó Nena encobriam a minha diabrura do pai Nhanho – e aí a coisa entrava num círculo vicioso, porque, ué, como é que o pai Nhanho ia se sentir mais meu pai se, quando era pra ele exercer a autoridade, vocês duas não deixavam? Era como se, pra compensar a distância do pai Olavo – distância que, na verdade, me deu a chance de ter uma vida minimamente normal [cê sempre brincava comigo (e a Lara ria que se matava) dizendo que eu até podia ficar na beirada do normal, mas pra eu ficar normal, normal, normalíssimo ia ser fogo na roupa] –, pra compensar a distância do pai Olavo, cê foi amortecendo as porradas da vida pra mim. (Isso era uma doideira, mãe, isso aí podia ter me deixado pancada quando eu tivesse que cair no mundo, mas, hoje, relativamente são e salvo – com uma sanidade que tenta se apartar das garras do que este tipo de sociedade considera são –, eu vejo como esse teu cuidado, minha velha, impediu que eu me tornasse uma pessoa endurecida – alguém que, como o pai Olavo, tendia a projetar todas e quaisquer relações como uma guerra de todos contra todos. É claro, mãe, que cê tinha experiência de vida pra saber que o pai Olavo tava longe de estar errado quando ele queria abrir meus olhos, mas cê tentava me mostrar que, mesmo com esse deserto de gelo que este tipo de sociedade nos obriga a singrar, a gente tinha sempre que tentar buscar uns gravetos pra acender fogueiras de acalento. É por isso que hoje, minha velha, eu confio na Lara de olho fechado – da mesma forma que, quando a gente se entreolhava lá em casa, um já sabia no que o outro tava pensando. Parecia que a gente não tinha pele um pro outro.

E lá em casa, mãe, eu não tenho lembrança de a gente ir pra igreja, não – a não ser que a gente fosse pralgum casamento ou missa de sétimo dia. [Como é que eu vou esquecer a missa de sétimo dia da vó Nena, minha velha? Cê viveu 50 anos, 7 meses e 10 dias com a vó, mãe – quando a vó Nena ficava brava comigo e com a Lara (a gente ria que se matava quando ela me chamava de bruto bestio e a Lara de lazarenta com a dentadura quase voando da boca de tanta raiva), ela deixava escapar que sentia saudade da época em que ela vivia com a Neuza lá no Baeta, ali não tinha criança mal criada e respondona. Quando a Lara e eu retrucávamos que, se a gente é mal criado, quem é que cria a gente?, a vó Nena brandia o punho cheio de reumatismo – o mesmo punho carinhoso que ela usava pra bater o bifinho à milanesa pra gente – e dizia que a vida vai ensinar pra vocês, porca miseria, vá, vá, vá!] Mas, bom, se a gente ia pouco pra igreja, cê sempre se preocupou em ensinar a gente a rezar – era aquela coisa de ficar seguindo as bolinhas do terço, e eu me lembro de te perguntar por que que a gente tinha que ficar repetindo a mesma oração, Deus já não ouviu a gente, mãe, Deus lá é surdo? Cê dava risada e dizia que é assim mesmo, fio, continua. (Eu já ia ficando com a pulga atrás da orelha, mas, como cê tava me ensinando, eu seguia.) Agora, mãe, eu gostava mesmo era daquele Meu livro de histórias bíblicas, um livro bem bonito de capa dura dourada que trazia várias histórias ilustradas pra criançada ir conhecendo o Velho e o Novo Testamentos. Aquele livro ali eu ia lendo com gosto, minha velha – parece que eu tô sentindo agora mesmo a angústia das tribos judaicas querendo saber se ia ou não ia dar tempo de alcançar a outra costa do Mar Vermelho antes que as águas voltassem a se fechar e/ou antes que os egípcios conseguissem recapturá-las. [Eu nem lembro quantas vezes eu usei aquela colherona de pau – aquela colherona que a mãe usava pra fazer bolo de cenoura – pra imitar Moisés quando ele bate o cajado no chão e lança mão do poder de Deus pra abrir o Mar Vermelho. (Mas eu nunca entendi por que as águas da piscinona de 100 litros que o pai montava lá na laje nunca se abriam, mãe – e andar por sobre as águas, então, minha velha, isso eu só consegui num rinque de patinação que montaram uma vez lá na Praça Vermelha, mãe, em Moscou, e depois lá no Lago Michigan, quando o general inverno de Chicago baixou a temperatura a -27ºC e me fez tomar um montão de capotes tentando andar naquela superfície de gelo escorregadio como rocha cheia de musgo e fosca como a neblina da Índio Tibiriçá, aquela estrada pra ir lá pra chacra do pai Olavo.)] E teve aquela vez, minha velha, em que eu tava rezando voltado pro abajur, daí cê abriu a porta do quarto pra me dar boa noite e disse que não podia, que eu tinha que rezar voltado pra Nossa Senhora – e, se ela não estivesse à mão, era melhor que eu rezasse de olhos fechados. [Nisso aí, mãe, eu me lembrei do padreco do catecismo: ele ficava desafiando a gente a ficar o máximo de tempo possível com os olhos fechados tentando imaginar a forma de Deus, ele dizia que a fé era encarar o escuro (eu já tava pressentindo que obscuro era encarar a fé).] Ué, mãe, mas por que tudo isso? Não tem um monte de imagem na Bíblia que faz a gente pensar que a luz vem de Deus? Por que essa luz aqui não pode ser uma partezinha de Deus, então? Que que essa imagem da santa tem melhor do que essa luz? No começo, mãe, cê queria ralhar com a minha blasfêmia, mas depois, colocando o queixo na palma da mão, cê ficava pensando. Ah, Ricardinho, mas se você apagar a luz do abajur, é como se Deus fosse embora – a imagem da Nossa Senhora, no entanto, fica aí, a presença dela permanece como a presença de Deus, com ou sem a luz. Ah, mãe, pera lá: se eu apagar a luz do abajur, o quarto vai ficar no escuro – a Nossa Senhora até pode estar aí, mas, como eu não posso ver onde ela tá, ela some que nem a luz apagada. O fato, minha velha, é que, com o tempo, eu fui vendo muito pé de barro no catolicismo – e em sua dissidência política, o protestantismo. Me incomodava muito o lance do ritual – eu nunca fui de respeitar norma, minha velha, e aquele lance de ficar sentado em banco de igreja desconfortável e de ficar se ajoelhando pra rezar não me fazia sentido algum. A rapaziada não continuava a fofocar dos outros mesmo durante a missa? E mais: não é a boa ação que interessa? Que que é essa coisa de ficar repetindo oração de forma supostamente humilde pra gente, no fundo, barganhar com Deus algum outro pedido? E como é que a Igreja fala amém pra pobreza, minha velha? Mãe, me diga, como é que a Igreja abençoa espadas e ogivas? Quando eu te falava da Inquisição, mãe, cê começava a fazer o Pelo Sinal, minha velha – é como se, prestes a ser queimada, cê agradecesse a Deus pela graça alcançada. E por que que eu não posso usar a cabeça pra tentar sondar a natureza de Deus, minha velha? Por que que eu tenho que apagar a razão como quem apaga a luz do abajur, mãe, pra me relacionar com Deus? Ele não criou a gente tal como Ele é? Ué, se a gente tem inteligência, se a inteligência é um atributo divino, por que que a gente não pode utilizá-la pra descobrir o que que tem depois da morte? Quando cê me vinha falar do mistério, mãe – é incrível como cada fiel de fato parece uma pequena capela a reverberar os dogmas de Roma –, eu te dizia pra me falar, então, sobre um mistério que se confundia com a história de uma das questões mais espinhosas da filosofia: e o mal, minha velha? Que que o Deus tão bom e misericordioso tem a ver com o mal no mundo? Antes que cê parafraseasse o padre pra me falar do livre arbítrio, eu já te perguntava de onde vinha a possibilidade de escolha entre o bem e o mal – isto é, de onde vinham o bem e o mal senão de Deus? Cê começava a coçar o couro cabeludo – cê punha a mão ali na parte de trás da tua cabecinha, logo acima do começo da nuca, onde cê tinha dois galos que a Lara e eu apelidamos de cabecinha de passarinho. [Vai lá saber, minha velha, por que que a gente foi achar que passarinho tinha aqueles galinhos na cabeça. (Galinhos, galo, galinha, passarinho – não é tudo ave?)] Mas tudo aquilo, minha velha, toda essa discussão sobre o mal me parecia muito abstrata – alma sem corpo, macieira sem o fruto do pecado. A gente não sente saudade da vó Nena, mãe? Cadê ela agora? Cê não quer saber onde ela tá? E mais: é justo o pai Nhanho ter morrido com aquele câncer tão bravo aos 55 anos? 55 anos, minha velha, 55! Como é que fica a esperança pro pai Nhanho, mãe? Quando a gente tá sofrendo demais, quando a gente tá totalmente desiludido, quando a gente, com lucidez, vai vendo que esse mundo é como a Bíblia fala, um vale de lágrimas – um vale de lágrimas sob o silêncio de Deus –, que não há nada de novo sob o Sol, que a cobra troca de pele e, mesmo assim, continua a sofrer, quando a gente reza pro vazio e não ouve resposta senão o eco da nossa própria angústia, mãe, eu te pergunto: como é que a gente ainda levanta a bandeira do mistério? Cadê Deus, minha velha, cadê Deus, mãe?

Cê me olha com ternura, minha velha, e começa a afagar meu cocuruto. (No vale de lágrimas também tem equipe de resgate, meu fio.) Daí cê fica em silêncio – um silêncio fundo, parece que cê tá olhando ao longe tomando o teu café bem forte na xicrinha de porcelana do teu casamento com o pai Nhanho. Súbito, cê olha bem pra mim e me diz:

– Uma vez eu caí num poço, fio, e fiquei desesperada. No começo, eu gritava até ficar rouca – mas não vinha ninguém pra me acudir. A gente começa a chorar de raiva, depois vem o medo – o medo é mais fundo que o poço: é ele que aumenta o perigo, é ele que traz assombração. A gente não quer fazer isso, mas logo começa a blasfemar, porque eu tava me sentindo completamente sozinha e desamparada ali naquele escuro do poço. Mas aí, fio, numa hora lá, eu comecei a sentir uma coisa bem estranha naquilo tudo: não dava pra sair sozinha daquele poço, mas, mesmo assim, eu não queria me render – parecia que tava tocando em mim aquela coisa que a gente chama de esperança (tava ali, do lado do coração, aqui, fio, tava pulsando), e eu sentia que eu não precisava ficar daquele jeito, eu sentia que queria lutar, que eu podia pedir e esperar alguma coisa melhor. Quando o vô Ricardo e a vó Nena vieram me acudir, eu já tava com a vinda deles aqui no peito.

Quer dizer então, mãe, que aquele fundo do poço foi a tua caixa de Pandora?

E se eu te dissesse que, mesmo reduzidos a dois saquinhos de ossos num deserto em cujo centro (e o deserto lá tem centro, Ricardinho?) só há uma arvorezinha nanica e retorcida – uma arvrinha daquelas que cê gostava de escalar lá na roça, mãe –, mesmo reduzidos àquele trapo velho que você e a vó Nena usavam pra limpar o chão, Vladimir e Estragon continuam a esperar Godot?

Agora há pouco, mãe, quando eu recontei essa história pra Lara, ela se lembrou na hora de um cartão que eu te dei no teu penúltimo aniversário, minha velha – 1 ano e 11 dias antes de cê falecer. Olha aqui o que cê me ensinou sobre Pandora, mãe:

São Paulo, 17 de março de 2011

Minha mãe amada,

Nos 30 anos da nossa convivência – e nos teus 65 anos –, você se mostrou a pessoa mais doce e ética, carinhosa e exemplar que já conheci. Você é uma ilha (uma verdadeira barricada) de amor e entrega que sempre me trouxe e trará esperança. Se ainda penso em Deus, mãe, é porque um amor como o teu prenuncia um mundo bem melhor que eu tanto gostaria de ver.

Feliz aniversário, mãe, eu te amo muito!

Teu filho Ricardo

A gente foi notando, minha velha, que, conforme o tempo ia passando, a mãe ia deixando a Neuza de lado. Pra cuidar das crias, a mãe era uma leoa, nunca te faltava força e disposição. Mas, se a Lara não ficasse te pilhando pra ela tingir o teu cabelo, cê deixava ficar todo grisalho. Quando era pra você dar suco de laranja pra gente – o suco que cê gostava de espremer na hora com aquele espremedor automático da G.É. (parece que eu tô ouvindo agora aquele barulhinho cacofônico do mortorzinho: tã-rã-rã-tã-rã-nã-nã-nã-nã, tã-rã-rã-tã-rã-nã-nã-nã-nã, tã-rã-rã-tã-rã-nã-nã-nã-nã) –, o suco tava sempre doce que nem mel. (Além de cê piscar o olho de azedo quando cê tomava o suco, minha velha, teu copo ficava sempre ralinho perto da copada que cê dava pra gente.) Cê sempre tava pronta a lutar pela gente, a lutar pra que a Lara e o Ricardo se tornassem aquilo que a Lara e o Ricardo queriam ser. Mas e a Neuza? E quanto a você, Neuza?

De alguma forma, mãe (me ajuda a saber como, minha velha), isso aí me lembra um pouco do fim do Dogville – eu te falava tanto do Lars von Trier, minha velha, só faltava cê não se lembrar desse filme agora (tá certo que cê caiu no sono várias vezes durante aquela lonjura de filme, mas cê tá se lembrando? Isso, isso, aquele filme sem cenário regular, aquele filme com a Nicole Kidman, aquela moça que eu sempre achei a mulher mais linda, é esse mesmo). Então, a Grace Mulligan – veja que o nome da personagem já é própria graça, mãe – aparece do nada numa cidadezinha em algum lugar dos Estados Unidos e começa a tentar ajudar (na verdade, ela quer redimir) os habitantes de Dogville no que quer que fosse necessário. Grace fazia tudo por todos, ela era a mão estendida para a amizade, ela era o ombro das lamentações – com um ego que parecia não existir, Grace era uma verdadeira ponte estendida para o outro. Acontece que, em Dogville, a cidadela do cão, Grace logo começa a passar o pão que o diabo amassou. A abnegação de Grace dá o tom para que os habitantes abusem de sua solicitude, explorem sua amizade e comecem a entretecer intrigas sobre todo aquele altruísmo. Grace é crucificada como um bode expiatório, Grace vira uma escrava. Acontece que Grace Mulligan, a misericordiosa, é filha de um poderoso gângster que, em dado momento, consegue reencontrá-la em Dogville. Quando ele a vê acorrentada, o pai de Grace logo faz um sinal para que seus capangas fuzilem todos e cada um dos habitantes, no que Grace, desesperada, pede ao pai que perdoe a todos que haviam desgraçado sua filha. É aí que o pai mafioso de Grace, com um pathos que reverbera a ira do Deus do dilúvio, se vira para a filha e sentencia:

– Você é muito, mas muito teimosa. Mas o que eu realmente não gosto em você, minha filha, é que você é arrogante – você havia dito que eu, teu pai, sou arrogante, mas, na verdade, você é que é arrogante, minha filha, você. Você não julga ninguém, Grace, porque você tem simpatia pelos teus carrascos. E será que você não consegue ver como você se torna condescendente, Grace, quando você perdoa a tudo e a todos? A verdade é que, ao fazer isso, você não permite que ninguém sequer sonhe em alcançar os padrões éticos celestiais que você estabelece única e exclusivamente para si mesma. Eu não consigo imaginar algo mais arrogante do que isso, Grace. Você, minha filha, você perdoa aos outros com desculpas que você jamais permitiria para si mesma. As pessoas precisam ser responsáveis por suas próprias ações, Grace – mas você, com o pires do perdão sempre estendido, com a outra face sempre à mostra, você não permite que ninguém assuma qualquer responsabilidade (a responsabilidade, é claro, cabe única e exclusivamente a você).

Como é que a gente retribui um amor, mãe, que não te pede nada em troca além do voo dos próprios filhos? Como é que a gente aceita um perdão que tá sempre dado a priori? Algo como uma desculpa prévia que mais parece um cheque branco, minha velha. [Quem não teve uma mãe como você, minha velha, talvez possa pensar neste momento que a gente tá reclamando de barriga cheia. Tem muita gente que não consegue lidar com as contradições – as coisas têm que ser rígidas e estanques: bem ou mal, amor ou culpa. As coisas têm que ser puras – puras a ponto de não estarem vivas, puras a ponto de serem almas sem corpos, macieiras sem o fruto do pecado. Tem gente que não consegue entender que dizer que algo machuca está longe, mas muito longe de não dizer muito obrigado. Acho que a gente só queria, mãe, que a Neuza não ficasse tão escondidinha, que ela não se esgueirasse atrás da mãe. (Uma vez, minha velha, já há muitos anos, voltando de uma excursão com o pessoal da Faculdade de Direito, eu entreouvi uma conversa ao celular de uma moça ali no busão. “Poxa, mãe, a gente nem se viu ontem, cê nem me viu sair de casa hoje, daí eu passo o dia inteiro fora e cê não me liga uma vez sequer?! Caramba, mãe, cê nunca se lembra de mim!” Isso aí me caiu como uma bomba, minha velha – parece que eu acordei de uma longa hibernação. Você jamais daria ensejo a que a Lara e eu te disséssemos isso. Imagina, então, minha velha, o que seria ficar em falta com você – o que é sentir culpa pela Neuza, uma dor que a mãe já perdoou antes mesmo de a gente pedir desculpa?)]

E talvez seja por isso, minha velha, que, pra contar a história da Neuza que se tornou mãe, a história da mãe que abre mão do salarinho todo pra pagar a escola da filha, a história da Neuzinha que, sempre tentando evitar conflitos, não quis tirar um braço de ferro com o pai Nhanho pra ele ter que te ajudar, pra você ter um pouquinho de dinheiro na bolsa (não, se alguém tem que abrir mão de alguma coisa, esse alguém é a Neuza, a mãe em primeiro lugar, isto é, a filha), a história da mãe que abre mão do salarinho todo pra ajudar no custeio do filho, a história da Neuzinha que, sempre tentando evitar conflitos, esperou que eu, já marmanjo, decidisse interpelar o remediado Dr. Olavo com um pedido de pensão alimentícia (não, se alguém tem que bancar alguma coisa, esse alguém é a Neuza, a mãe em primeiro lugar, isto é, o filho), pra contar a história da Neuza que se tornou essa mãezona, minha velha, a gente pode olhar pras cicatrizes que o teu corpo foi carregando.

Cicatriz de apendicite – ficava ali do lado direito da tua barriguinha bem branca, minha velha (cê sempre falava pra gente que tinha ventre alto, mas, na verdade, era uma barriguinha tão macia e branquinha, mãe, que a Lara uma vez falou que ela parecia a massa do pão caseiro da vó Nena, e daí a gente nunca mais cansou de amassar o teu pãozinho branco). Cicatrizes das duas cesáreas, uma sobre a outra. Cicatriz da tua mastectomia total – esse foi o primeiro grande susto que a Neuza deu na mãe, esse foi o primeiro grande susto que a Neuza deu em todos nós. Como é que eu vou me esquecer daquele fim de tarde do comecinho de junho de 98? O pai Nhanho foi me buscar lá na Associação – no clube, ou eu tava na academia, ou eu tava jogando bola –, ele tava mudo que nem uma pedra no carro. De repente, ele para aquele Golzinho bola branco no meio do caminho pra casa, naquela rua do Sindicato dos Funcionários Públicos, e olha pra mim com uma cara toda vermelha (naquele dia o pai Nhanho não tinha tomado nenhuma pinguinha, não). Que que foi, pai, que que tá acontecendo?

– Tua mãe voltou do Dr. Carlos Bosco não faz nem uma hora. Saiu o resultado dos exames, Ricardo: tua mãe tá com câncer de mama.

Foi aí que eu descobri por que que é bom estar sentado pra tomar punhalada de notícia ruim. O pai Nhanho ficou ali me consolando com aquele abraço de urso dele – bem criança, a gente descobre que vai morrer (desde então, eu comecei a sentir um medo estranho da morte, um medo que te magnetiza, um medo como um canto de Circe que fica te chamando pra desbravar o Hades). Depois, aos 14 anos, eu vi a vó Nena com aqueles chumacinhos de algodão no nariz, deitada no caixão sem poder ralhar comigo. 4 anos depois de o pai Nhanho me dizer que cê tava com câncer de mama, minha velha, a gente veria o corpanzil dele deitado no caixão – como é que eu vou esquecer aquelas mãos grandes como luvas de boxe pousadas sobre a barriga que tinha ficado murchinha, murchinha pela devastação da metástase? Mas, minha velha, quando o pai Nhanho me disse que cê tava com câncer, foi a primeira vez que eu senti, contra cada parte do meu corpo trêmulo, que, algum dia, a gente não ia mais poder te abraçar, algum dia a gente não ia mais poder ver o teu sorriso tão terno, algum dia eu não ia mais ouvir o teu Deus te abençoe, meu fio. Quando essa ideia da morte ganha corpo de vez, a vida começa a dar náusea – quando eu senti a tua morte de perto pela primeira vez, minha velha, eu queria me esconder de tudo que é jeito daquilo que o pai Nhanho tinha me dito, mas, com a consciência, já não dá pra brincar de esconde-esconde. Foi um choro muito doído, minha velha, e doeu ainda mais quando a gente chegou em casa e viu você chorando na cozinha abraçada com a Lara.

Teu vilão na mama direita tinha 1,2 cm, minha velha. E isso sempre me pareceu uma coisa de louco: é tão difícil conquistar alguma coisa neste tipo de sociedade, tudo vem com tanto sacrifício e autoflagelação (quando vem...), tudo demora tanto e recompensa tão pouco, e aí, do nada, um punhado de células tresloucadas começa a dar cambalhota de mitose ou meiose, e um nanico de 1,2 cm pode tirar a vida da pessoa que a gente mais ama. Se tem algum tipo de pensamento que dói, mãe, se tem algum tipo de náusea na imaginação, minha velha, é esse lance terrível da fragilidade da vida – frágil que nem uma folha seca de outono, frágil que nem a casquinha de gelo que recobre um charco já ao fim do inverno, frágil como aquele sentido de plenitude que unia a nossa família.

O Dr. Bosco, a quem a gente deve muito, minha velha, foi bastante célere – a princípio, ele não tinha achado que aquele carocinho na tua mama podia ser um câncer. Eu lembro que a gente tava em Ubatuba, nas férias de janeiro, e cê falou pra tia Terezinha sentir um caroço na tua mama – cês duas tavam cochichando sobre isso enquanto fumavam escondidas, daí eu fui lá e tirei o cigarro da tua boca e te dei uma baita duma bronca, mãe. [Me dava até gastura quando eu te via fumar, e, bom, já que eu não podia tirar o cigarro da boca do pai Nhanho, eu nem sei quantas vezes eu joguei os maços fora – acho que daria até pra abrir uma loja com o tanto de Free e Marlboro que a Lara e eu jogamos atrás do muro lá da nossa rua. (E ser tragado pelo cigarro é mesmo uma sina, minha velha: quem diria que o pai Nhanho e o pai Olavo iam morrer de câncer de pulmão, hem?)] Só que, tão logo o Dr. Bosco viu que era mesmo um tumor, ele mediou tudo pra você fazer a cirurgia, sem qualquer custo, lá no Sírio-Libanês. E foi aí que a gente ouviu pela primeira vez o nome do Dr. Souen, aquele senhor tão simples e simpático a quem os médicos sempre se referiam como uma verdadeira sumidade. O Dr. Bosco e o Dr. Souen salvaram a tua vida, mãe – ainda assim, um tumor de 1,2 cm fez com que eles extraíssem tua mama direita inteira e os gânglios sob a axila. Como é que eu vou esquecer aquele sábado à tarde em que a gente te viu depois da cirurgia? Cê tava bem pálida e fraquinha – mas quem disse que cê não perguntou se o pai Nhanho tinha dado comida pra gente? O Dr. Souen tinha te dito que, assim que possível, cê já ia começar a fisioterapia da aranha: de pé e encostada à parede, bem devagarinho, cê ia subindo o braço direito como aquelas aranhinhas que faziam teia nas quinas das paredes, aquelas aranhinhas sorrateiras e danadas que você, a vó Isabel e a vó Nena espantavam com vassoura de piaçava lá em Quintana. E quando eu vi aquela cicatriz enorme varando o teu peito, mãe, me veio uma sensação que nunca mais me abandonou desde então: como é possível que a feiura seja uma emanação tão umbilical da beleza? Como é possível que uma pessoa tão singela como você, minha velha, tenha que seguir adiante com o peito mutilado? (Justamente o seio com que você, uma baita mãezona, tinha amamentado a gente.) Parece que o deus Acaso dá de ombros para a nossa angústia, mãe, mas, quando eu me lembro daquela tua cicatriz que tinha bem um palmo, minha velha, eu fico pensando que, se o Oscar Wilde desvelou a verdade das máscaras, o que é que ele teria dito sobre a verdade das cicatrizes? (Com o tempo, a marca dos pontos e mesmo o queloide iam ficar amenizados, mas, logo depois da cirurgia, ainda com a linha dos pontos e o inchaço, doía demais te ver daquele jeito, mãe, ainda que aquela cicatriz, o rastro do teu seio ceifado, fosse como uma ponte a te religar à vida – cê tinha apenas 52 anos, minha velha.)

Se a mãe já tava abandonando a Neuzinha pra se tornar sentinela em tempo integral do nosso ninho, a dor pela mutilação do seio – a suma alegria pela continuação da vida que se refletia, contra o espelho, como a novidade da mutilação e da ausência constitutivas – fez com que a Neuzinha hibernasse ainda mais. Logo depois da cirurgia, a gente começou a te pilhar, minha velha, pra você fazer a cirurgia de reconstituição da mama – cê tava com muito medo, cê jurou que nunca mais ia entrar num centro cirúrgico na tua vida (esta foi a única promessa tua, mãe, que cê não pôde cumprir), cê queria ficar tranquila, depois eu penso nisso.

Acontece, mãe, que aquela tua procrastinação pra reunir os laudos e lutar pra reconstituir a mama da Neuza foi me mostrando uma outra faceta tua. Cê lembra que o pai Nhanho puxou uma extensão da linha do telefone lá da sala pra laje lá da churrasqueira? Então, uma vez o pai Nhanho tava falando com o Dani lá em cima – é claro que ele já tinha tomado umas duas ou três (talvez até cinco) doses de Velho Barreiro, era dia de folga dele. Fazia poucos meses que cê tinha feito a mastectomia – cê sempre falava da mastectomia como a “minha cirurgia” e cê passou a ler mais a Bíblia e a ir pra igreja conforme o Dr. Bosco ia te dizendo que cê tava cada vez mais curada. Só que, enquanto o tempo ia deixando a cirurgia pra trás, a Lara e eu fomos notando que você e o pai já não se falavam muito. Era estranho, porque, quando cê tinha chance, cê ficava alfinetando o pai pra cima e pra baixo, e daí o pai também se encrespava e falava abobrinha pra você. Mas por que aquilo? Que que tava acontecendo? (Hoje eu fico pensando em como é que a Lara e eu só fomos entender aquilo quando o chorume jorrou.) O pai Nhanho tava no telefone com o Dani lá em cima, e você pegou a extensão na sala e ficou ouvindo a conversa sem dar um pio. Lá pelas tantas, o Dani perguntou pro pai se você tava bem, mãe, e o pai Nhanho disse que sim, que, graças a Deus, tava tudo bem, mas... (Eu não seria escritor se não conseguisse imaginar – ou melhor, entrever – o teu rosto de ansiedade de caçadora com esse “mas” do pai Nhanho, mãe.) Aí o Dani, quiçá pressentindo a deixa em suspensão do pai Nhanho, vai lá e pergunta como tinha ficado o lugar vazio do seio. Aí o pai Nhanho, com a sutileza proletária de um hipopótamo em loja de cristais, vai lá e diz pro Dani que, ah, tá tudo reto ali, né?, tá parecendo uma tábua de passar roupa, e é duro de olhar, Dani, é duro de olhar. Vixe, minha velha, aí cê virou uma leoa – eu já tinha visto a mãe virar uma fera uma batelada de vezes pra defender as crias, mas, naquele dia, eu vi a Neuza soltando fumaça pelas ventas. Antes de mais nada, cê atropelou a conversa do pai Nhanho com o Dani e soltou um ah, Nhanho, então é por isso que cê não me procura mais?, é assim que eu sou tua mulher, né?, daí cê voou lá pra cima e começou a ralhar com o pai Nhanho como se você estivesse despejando em cima dele uma caçamba inteira de lixo. Sempre que eu vejo alguém explodindo pra valer, eu me lembro daquele momento em que tua fúria jorrou como um gêiser, minha velha. Ali devia ter tanta coisa, mas tanta coisa, que a gente sempre pode dizer que o pus é só a camada mais superficial (e a menos fétida e inflamada) da infecção. Ali tinha frustração com a Neuza que servia pra lavar e passar, mas que nunca podia sair de casa (tem dinheiro pra fazer churrasco, Nhanho, mas não tem dinheiro pra sair com a tua esposa, né?), ali devia ter frustração com os filhotes mimados que, muitas vezes, também viam mais a mãe do que a Neuza (era algo espinhoso, porque a Neuza se escondia sob a mãe, e, pros filhos, era de fato mais cômodo ver a mãe pra além da Neuza, e uma coisa alimentava a outra, só que, naquela hora, tudo explodiu, e, se você não amasse teus filhos mais do que a si mesma, mãe, a Neuza também ia ter jogado um monte de coisa na nossa cara), ali devia ter vontade de blasfêmia, até uma ira contra Deus – por que me abandonaste, Pai, por que me mutilaste? –, ali devia ter aquela vontade de ficar solteira de novo (aquela vontade que já não ia se realizar, aquela vontade de momento, trêmula como uma lagartixa, mas nem por isso menos ávida – aliás, talvez essa vontade de reaver as rédeas da própria vida seja tanto mais forte quanto mais improvável, ou mesmo impossível). O fato é que, quando a Lara e eu subimos até a laje, o pai Nhanho tava sentado quietinho ali naquele banco de tijolinhos que ele mesmo tinha levantado com tanto esmero, e você ia ralhando com ele como uma verdadeira metralhadora, minha velha, parecia o pequenino Davi apontando o dedo prum Golias cabisbaixo – o pai Nhanho ainda tava segurando o pescoço do telefone com a mão esquerda, e ficou me ocorrendo ali na hora, talvez por vergonha ou culpa de tudo aquilo, que o Dani talvez ainda estivesse do outro lado da linha, que o Dani tava ouvindo tudo aquilo. Mas aí, mãe, aí eu percebi que, antes de ler o Dostoiévski e antes de visitar a cripta do homem do subsolo, eu já tinha ouvido você dizer, contra o teu próprio corpo, contra a tua própria mama, contra a tua vaidade de mulher bonita, que, se me dói o fígado, que me doa ainda mais! Quer dizer que, pra punir o pai Nhanho que parecia nunca ter te tratado como cê achava que devia – e que já não te procurava e comparecia depois da tua cirurgia –, cê endossava em si mesma a tua mutilação, mãe, como ferro em brasa contra o próprio peito? Quer dizer que, pra parir a mãe de vez, a Neuza precisava soterrar a própria carcaça – a Neuza precisava exibir a própria mutilação como troféu contra o marido-adversário? Quer dizer que cê feria o outro – o outro no pai Nhanho, minha velha, e o outro em você mesma – enfiando o punhal na tua própria ferida, escarafunchando o teu próprio pus? Era tudo dostoievskiano demais pra eu poder acreditar – quer dizer que cê também tinha lá seus diabinhos, mãe, como o teu irmão monge Aliócha Karamázov? Quer dizer que, pra mãe ganhar, a Neuza precisava perder? Vida e morte tinham que conviver em você, mãe? Ternura e mutilação, sorriso e putrefação? (Quer dizer, então, mãe, que o velho Montaigne tava certo, quando ele escavou o subsolo de si mesmo e sentenciou que há menos diferença entre mim e um outro que entre mim e eu mesmo; eu agora e eu depois somos, a bem dizer, dois?)

O fato, minha velha, é que a cicatriz da mastectomia (a verdade das cicatrizes) só faleceu junto com a mãe e com a Neuza. E o fato é que, quando o pai Nhanho mais precisou de você – no mês terminal em que o tumor drenou mais de 30 kg daquele polacão de 1,85 m –, cê tava lá a cada momento, minha velha. E eu não sei por que, mãe, mas agora me relampejou na memória aquela vez em que a nossa casa foi invadida por quatro caras armados enquanto o pai ia guardando na garagem aquele Verona azul de que ele tanto gostava. Era um sábado à noite de 2001, a Lara e eu não távamos em casa – cê sempre agradecia a Deus pelo fato de a Lara não estar lá quando aqueles caras invadiram a nossa casa. Eles renderam o pai, que ficou pianinho do começo ao fim, e logo te renderam também. Não tinha lá muita coisa em casa, mas isso não impediu que, em 6 anos, a nossa casa fosse roubada duas vezes (na primeira vez a gente não tava lá, nessa segunda você e o pai passaram por poucas e boas). Os caras começaram a dizer que não tavam achando nada – ué, eles queriam achar joias em casa de trabalhador? Eles começaram a gritar pra você, mãe, que eles iam levar o pai pro caixa eletrônico, que eles iam rapar o que tivesse ali na conta, minha velha, e que, se não tivesse muita coisa ou se não tivesse nada, eles iam meter um balaço na careca do pai Nhanho. Era ou não era pra você desmaiar, mãe? Quem é que não ia perder as estribeiras numa situação dessas?

Você, mãe. Você, Neuza.

Ajoelhada no chão da cozinha, cê começou a rezar o Pai Nosso bem alto enquanto um dos assaltantes tava ameaçando o pai Nhanho, cê começou a dizer que você e o pai eram dois aposentados, que cês não tinham nada de valor – nem por isso a rapaziada deixou de roubar até minhas meias e cuecas, minha velha –, cê suplicou pra eles não fazerem nada com vocês, cê olhou com ternura pros olhos do rapaz que tava apontando a arma pra você, mãe – um rapagote que não devia ter nem 20 anos –, e perguntou se você não tem mãe, meu filho, você não tem pai?, não faz nenhum mal pra gente, pelo amor de Deus, daí os quatro começaram a se apressar, eles já tinham rapado tudo o que podiam – eles iam levar até a tevezona que o pai tinha comprado pra substituir aquela Philco de caixa de madeira da década de 70 – aquela que o pai tinha comprado pra ver a Copa do Mundo do México –, só que a TV não coube no porta-mala do Verona, daí eles entraram no carro e tentaram dar a partida, mas não sem antes prender o pai e a mãe lá no banheirinho do fundo. O problema, vixe Maria, é que o Verona tinha um lance de a partida só pegar se o camarada puxasse o afogador – carro velho é uma desgraça! –, daí eles tiveram que voltar até o banheirinho pra levar o pai até o carro, no sapatinho, pra ele conseguir dar a partida. [Eu fico aqui só imaginando o que tava passando na cabeça do pai Nhanho naquele momento (esses caras vão me matar depois que eu der a partida), eu fico aqui só tentando sentir a tua angústia trancada ali naquele banheirinho, minha velha.] O fato é que o pai foi lá, deu a partida no Verona velho de guerra e depois, num zás, eles levaram o pai de volta pro banheirinho, voltaram a trancar vocês dois lá dentro e, antes de saírem fritando pneu, eles ainda bateram com tudo a traseira do Verona lá no muro da nossa rua sem saída.

Hoje, mãe, eu lembro que fiquei indignado quando o pai Nhanho não quis pôr a casa à venda de pronto depois daquele assalto – caramba, vocês dois tinham quase morrido, e tava na cara que ia dar merda de novo, era só uma questão de tempo. Onde é que tava aquela rua Luiz Rodi em que a molecada jogava bola e soltava pipa até escurecer? Onde é que tava a nossa velha rua sem saída em que a vizinhança celebrava Festa Junina levantando fogueira pra mais de metro? A gente ia vivenciando a escalada do neoliberalismo, da desigualdade e da criminalidade da Nova República pós-ditadura (mais um arranjo velhaco à brasileira costurado pelos de cima) e ficava cada vez mais engaiolado atrás do portão, mãe – já não tinha vizinho que dava sopa lavando o carro na rua, não, todo mundo passou a lavar o poizé na miúda dentro da garagem. Então, por que que o pai não quis vender logo aquela casa depois daquele vespeiro todo?

Hoje, mãe, a resposta pra essa pergunta tá na ponta da língua – tá na ponta da memória. Depois que a vó Nena, o pai Nhanho e você zarparam, mãe, como é que a gente pode se desfazer do corpo da memória? A nossa casa tinha vivência em cada rodapé – eu lembro que, numa quina da parede do quintal, tinha uma marca amarelada de Veja com Pinho Sol que a vó Nena usou pra tirar uns rabiscos que a Lara e eu tínhamos feito. A marca talvez tenha ficado lá porque aquelas telhas Brasilit do quintal eram translúcidas, mãe, daí a luz da tardinha carimbou a passada de pano da vó Nena na parede. Eu gostava muito de ficar olhando praquela marca, minha velha. Reparando bem, dava pra discernir umas impressões mais arredondadas pelo amarelo – as pontas dos dedos da vó Nena atrás do pano, mãe! É por isso que eu acho que, num aforismo que nunca mais me saiu do baú da memória, mãe, o Schopenhauer faz uma separação fria e esquemática entre espaço e tempo – ora, onde é que já se viu jaca não ter caroço, minha velha, onde é que já se viu um corpo sem sombra? Diz o Schopenhauer que, quando a gente sente muita saudade e fica porque fica se lembrando de algum lugar do passado – a nossa casa ali da rua Luiz Rodi, mãe –, é porque o tempo tá se escondendo sob a máscara do espaço. Quando a gente volta até o lugar e sente a distância do tempo, a gente percebe na hora o truque de Chronos. Ora, minha velha, não é à toa que o Nietzsche dizia que o Schopenhauer era um biófobo, que a vida lhe dava urticária, que ele gostava mais dos cães que das pessoas. Quando a gente abre o baú da memória e sente aquele cheiro de saudade embolorada, tempo e espaço tão abraçados como a trepadeira que se enreda ao muro e como o caroço do pêssego e da ameixa envoltos pelo útero da polpa. E o que é a lágrima de saudade senão o tempo liquefeito que a gente derrama sobre o espaço? (Uma semente líquida a se infiltrar pela terra asfaltada do espaço, uma semente líquida a germinar aquele tempo que virou névoa de memória.)

Por que que o pai Nhanho não quis vender logo a nossa casa da rua Luiz Rodi depois daquele vespeiro todo do assalto, mãe? Porque ele não queria que o teu outro seio fosse mutilado, minha velha. Só que, pouco mais de 2 anos depois da morte do pai Nhanho, a gente vendeu a casa e zarpou da rua Luiz Rodi. Quando a Lara e eu te vimos chorando doído em frente ao nosso portão antes de a Kombi fazer a mudança, a gente ficou te consolando, a gente disse que São Paulo ia nos trazer uma nova vida. A bem dizer, minha velha, a gente só foi entender o teu choro quando alguém perguntou pra gente, um tempo depois de você morrer, mãe, se a gente pensava em vender o nosso apartamento. Foi uma pergunta-só-lâmina, minha velha: vender o nosso apartamento? Mas como é que eu levo daqui a aura da minha mãe?

E se eu tô contando a tua história seguindo a via crucis das tuas cicatrizes, minha velha, chegou a hora de falar do teu coração de Aquiles. (Eu tava só protelando, mãe, eu fiquei só cercando a moita com esse montão de retalho de memória – até aqui, escrever foi relembrar, escrever foi reviver; a partir de agora, escrever já é o prenúncio de mais uma despedida; a partir de agora, escrever aperta ainda mais o punho da saudade.)

Ora, se o deus Acaso, caolho como ele só, já tinha mutilado o seio com que você tinha amamentado teus filhos, mãe, por que ele não dispararia uma flecha contra o teu coração? 6 meses depois que o câncer levou o pai Nhanho, cê foi parar na UTI com uma crise de arritmia. Quando a médica te deu alta, ela foi taxativa:

– Tua mãe precisa passar no cardiologista pra ontem. Essa arritmia precisa ser controlada com remédios.

Como é que a gente ia imaginar que, nos teus últimos 10 anos de vida – dos 56 aos 66 –, cê ia chegar a 15 medicamentos diferentes todos os dias? Pressão alta. Arritmia. Tireoide. Osteoporose. Reumatismo. Artrite. Artrose. Gastrite. (Como é que a gente escreve “etc.” pra morte, mãe?) Se você não tomasse um comprimido de Lexotan à noite, minha velha – tinha dia que era meio, tinha madrugada que precisava de um e meio –, cê ficava pilhadinha. Daí cê acordava no meio da noite e começava a ver aquelas reportagens do Fala que eu te escuto. Quando eu acordava pra ir ao banheiro, lá tava você no sofá, que nem uma assombração, fazendo um Pelo Sinal atrás do outro diante daquele monte de desgraça. Cê logo ia preparar um chazinho de camomila – às vezes ia de Mate Leão mesmo –, daí cê pingava um pouco de leite e escorregava uma colher de mel com limão. E, nessas aí, olhando pro pisca-pisca do Pico do Jaraguá ali da varanda do nosso apartamento, cê ia me contando tuas histórias, mãe. Só que teve uma noite em que a Lara veio me acordar desesperada – a mãe tá gemendo ali no quarto, vem ver! Eu peguei o aparelhinho pra tentar medir tua pressão, minha velha, mas ora dava erro, ora dava 7 por 3, 5 por 4, era coisa de doido! Não demorou um zás pra eu te pegar no colo pra gente ir pro InCor – a Lara pediu pra eu não ir dirigindo, eu tava ali perdendo as estribeiras, minha velha, meu Deus do céu, como é que a gente vê a pessoa mais amada indo embora e não consegue fazer nada? Eu ia gritando com a Lara pra ela passar na porra do farol vermelho, pra ela acelerar, pelo amor de Deus, a mãe tá morrendo, fia, corre, acelera, vai logo, porra! Se tivesse sido de dia, minha velha, aquela Rebouças sempre travada ia te matar, meu Deus do céu, mas cê passou mal de madrugada, cê ficava grunhindo, os olhos caídos de lado, fala comigo, mãe, pelo amor de Deus, cê tá aí, minha velha, não dorme, não, eu tô aqui, a gente já tá chegando, guenta firme, mãezinha, eu te amo, minha velha, fica firme aqui com a gente, mãe, não abandona a gente, a Lara já tá chegando, força, minha velha – tua mãozinha tava ficando fria, eu ficava assoprando ela pra esquentar, daí a Lara embicou o carro na rampa do InCor.

Naquele momento, minha velha, pela primeira vez na vida, eu vi de perto como o capitalismo (ad)ministra a morte.

Eu não sabia pra que lado eu tinha que te levar, mãe, tinha duas portas de emergência – o SUS à esquerda, os convênios à direita. Quando eu fiz menção de invadir o SUS com você, o atendente quis te colocar numa cadeira de rodas, daí, quando a Lara me viu chacoalhando o Fulano pelo colarinho e mandando ele tomar no cu – minha mãe tá morrendo, porra, ela precisa de atendimento agora, caralho! –, ela gritou que a enfermeira tinha dito que o atendimento particular era ali do outro lado, num saguão quase vazio.

5 metros, se tanto, separam a morte no ambulatório superlotado, tossido e suado do SUS pra (tentativa de) sobrevida na emergência quase vazia dos convênios. Só que a plantonista ainda queria pedir autorização pro plano de saúde, às 3 da madrugada, pra te dar um coice no peito com aquele cardiodesfibrilador, minha velha – se eu não assino a porra de um papel me responsabilizando pelo procedimento (como é singela a medicina que transforma Hipócrates em um contador, não?), a plantonista não ia te resgatar da casa dos mortos, mãe – dá até medo imaginar o que eu teria feito com aquela desgranhenta se você morresse ali sem atendimento, minha velha, meu Deus do céu! Mas aí, com a Lara tentando me acalmar gritando mais alto do que eu – cê já jogou gasolina em labareda, mãe? –, a médica puxou aquele tabique sanfonado de plástico cinza, ligou o aparelho, tiiiiiiiiiiiiiiii!, e deu o primeiro coice no teu peito, chipááá!, a maca pulou, parecia que cê tava montada num touro bravo, daí a minha reação foi fugir dali na hora – eu mal vi que a Lara tinha desmaiado, eu carreguei ela comigo como se fosse um saquinho de pão da padaria, entrei no banheiro e tranquei a porta, eu tava com vontade de me dar descarga, só que porta de banheiro de hospital é vazada – vai que o paciente passa mal lá dentro, vai que o paciente tenta se matar –, então, ali do banheiro, e mesmo apertando a descarga bem fundo pro mundo todo ser tragado naquele redemoinho, eu ainda ouvi o tiiiiiiiiiii seguido do segundo e do terceiro coices – eu comecei a gritar tanto e tão fundo que a Lara acordou do desmaio, eu comecei a cuspir sangue bem viscoso na porcelana da privada, e daí desabou um baita silêncio na emergência. Um silêncio de prenúncio – algo como aquele vento cheio de pó que arrasta folhas pelo meio-fio antes de cair um toró que só vendo. (Sabe quando cê tenta arfar baixinho pra não ouvir o teu próprio desespero?) Quando a Lara e eu ouvimos os passos da médica rompendo o silêncio e se aproximando ali do banheiro, a gente se abraçou chorando, a gente tentou se esconder naquele abraço. Eu achei que nunca mais fosse te ver com vida, minha velha. E não adianta bater, doutora, a gente não vai abrir a porta!

– Mas a mãe de vocês tá bem, já passou a arritmia...

Sabe quando cê ouve aquela voz ao fundo narrando filmes? Aquela voz que parece do além? A Lara me beliscou, eu belisquei a Lara – a mãe tá bem então?

– Você é o Ricardo, né?

– Sim, sou eu.

– Pois tua mãe ainda me disse que cê tá pra ir pra Rússia, que cê vai ficar um ano por lá...

– Quando ela te disse isso, doutora?

– Antes de eu aplicar o segundo choque.

Cê tava morrendo, mãe, teu coração tava tendo um ataque epiléptico, minha velha, mas cê ainda teve tempo de pensar no sonho do teu filho.

Quando a médica explicou pra gente o que tinha acontecido, mãe, meu Deus do céu, deu até calafrio – a Lara e eu ficávamos olhando pra você na UTI com aquele monte de adesivo e fio trançado no peito pra ter certeza de que cê ainda tava com o olhinho azul, azul, azul bem aberto.

Teu eletrocardiograma antes do choque do cardiodesfibrilador, minha velha, tava parecendo um monte de rabisco de uma criança do maternal – ou, então, um quadro do Kandinski rasgado por aqueles traços e pinceladas errantes. Teu coraçãozinho foi a 220, 240, 250 batimentos por minuto, saiu até fumaça da máquina do eletro, e daí a médica disse que os choques com o cardiodesfibrilador eram um procedimento empírico pra tentar “reiniciar o coração”. (Às vezes a vida irrompe com umas expressões que dão um nó na prosa e na poesia. Ora, mas que negócio é esse de “reiniciar o coração”? E a vida lá tem reinício? Eu achava que era só no Master System que a mãe tinha me dado de presente de Natal em 1991 que dava pra dar reset depois que o Alex Kidd tinha perdido todas as vidas – quer dizer, então, que, na vida real, também tem jeito pro game over?)

O reinício do coração podia dar certo, o reinício do coração podia dar errado. O jeito era tentar o coice do cardiodesfibrilador. Quando a médica mostrou pra gente o teu eletrocardiograma depois do terceiro choque, mãe, não dava pra acreditar: aquela cordilheira de traços convulsos e tresloucados tinha virado uma sucessão suave de montículos parecida com o mar de morros ali da Serra das Araras, na descida pra Baixada Fluminense. O reset tinha dado certo.

Mas quando é que a gente ia imaginar que cê só sairia do InCor 40 dias depois, minha velha? Quando é que a gente ia imaginar que, de lá, cê ia migrar pra Santa Casa pra colocar uma espécie de marcapasso – o tal do cardioversor desfibrilador implantável (CDI)?

A médica plantonista te transferiu, naquela madrugada mesmo, do pronto socorro prum quarto bem silencioso no terceiro andar. Tinha uma vista ampla pra Rebouças – enquanto você dormia, mãe, eu olhava pra mesma avenida que, poucas horas antes, tinha testemunhado o nosso desespero. Teu peito agora subia e descia vagarosamente pra respirar, parecia o mar em trégua – nem sinal da fúria daquela arritmia, nem sinal da tua palidez cadavérica, minha velha. Mas eu já não conseguia me reconciliar com a calmaria – eu já não conseguia acreditar nela. Sim, graças a Deus, você tava ali, mãe, você tinha sobrevivido. Mas como é que a vida te contrai e nos contorce, te apequena e nos empareda, e daí, no momento seguinte, ela nos propõe a paz entre os escombros? Ora, eu ainda não esqueci que, há pouco, minha mãe foi resgatada da casa dos mortos – como é que eu posso sentir alívio agora? Foi então que eu descobri, olhando pra Rebouças anoitecida e pro teu corpo náufrago, mãe, que a vida é radical e concretamente descontínua: um solavanco, um safanão – e, por ora, um afago. Eu descobri que eu já não conseguia perguntar como é possível? – essa pergunta (esse pasmo) pressupõe um dia após o outro; bom dia, boa tarde, boa noite; até amanhã, até mais ver, até breve. Quando a vida te olha com a cara de chumbo da contingência, minha velha, a gente descobre que tem um alçapão entre hoje e amanhã, uma tábua delgada e frágil por cima de um córrego, um buraco de poço bem fundo igual àquele da roça, mãe. Dói muito fundo descobrir que amanhã será não passa de uma aposta. Na verdade, mãe, tua arritmia me ensinou que amanhã há de ser. Promessa e aposta, gêmeas bivitelinas, são as duas faces da moeda que o deus Acaso, cego e sádico, atira pra cima. Tua moeda caiu no meio-fio, mãe – já não há a guarida certa da calçada, mas, por ora, a Rebouças convulsa ainda não nos atropelou.

Como meu trabalho com as aulas particulares de línguas estrangeiras me dava mais flexibilidade, eu fiquei hospedado lá no hotel do hospital com você, minha velha. A Lara ficava por lá nos fins de semana. O Dr. Leonardo, cardiologista vocacionado, gaúcho boa praça e torcedor do Colorado, te disse que cê ia fazer um tal de estudo eletrofisiológico: uma simulação de arritmia pra ver se, de fato, seria preciso colocar uma sentinela ao lado do teu coração, mãe. Vixe, quando cê soube disso, minha velha, cê arregalou os olhos que nem coruja: quer dizer que eu vou ter arritmia de novo?! Ai, Deus que me perdoe, Dr. Leonardo, não faz isso comigo, não! O Dr. Leonardo tentou te acalmar, ele procurou explicar com muita preocupação e paciência, mas só o desgranhento do Lexotan conseguiu te apaziguar – foi logo um comprimido e meio pra você despachar o medo pra debaixo do tapete do sono.

Hoje eu te digo, mãe, que eu tava até mais nervoso que você. Eu já ia imaginando que o burocrata do convênio – um médico que, supostamente, tinha feito o juramento de Hipócrates – ia vetar a colocação do aparelho. E o Dr. Leonardo, com todo o ímpeto e inexperiência do médico em começo de carreira, vai lá e diz que não, que o colega do convênio não teria como negar um eventual pedido de implantação do CDI embasado pelo estudo eletrofisiológico, ainda que ele custasse 100.000 dólares aos cofres da empresa de saúde – será que alguém ainda sente náusea ao ouvir os termos empresa e saúde arregimentados como cúmplices da mesma quadrilha? E, a bem dizer, eu só descobri que o montante de cem mil dólares existe para além dos filmes e da usurpação dos bancos quando o Dr. Leonardo me revelou o valor astronômico do CDI. Ora, eu me lembro bem de que, à época, eu tava lendo O mundo como vontade e representação: em dado momento, Schopenhauer sentencia que, em face do sofrimento atroz que paira sobre todas e quaisquer relações – a dor e o luto como a verdadeira essência da vida –, melhor teria sido que, no princípio, fosse o nada, que nada tivesse nascido, nada além do mais absoluto silêncio, nada além do mais misericordioso vazio. Como ideia – isto é, como o deserto de gelo da abstração –, o nada eterno parece reconfortante. Mas, quando você gosta de viver a despeito do choro e do ranger de dentes, quando você ama alguém com verdadeira entrega e súplica, quando o mero prenúncio da saudade já te faz resgatar da memória cada momento de comunhão, você descobre que Schopenhauer não passa de um biófobo que não teve os culhões de levar às últimas consequências o nada pelo qual tanto ansiava. Ora, se você odeia a tudo e a todos, meu caro filósofo, se a vida só lhe dá urticária, se a mão jamais se estende para a amizade e o afago, por que protelar o patíbulo, por que não enfiar uma bala na cabeça? A essência indiferente do sofrimento não se alterará se eu me matar. Ora, niilista de estufa, alto lá com essas abstrações de gabinete! Que me interessa a essência indiferente do sofrimento se a minha mãe, a pessoa mais doce e generosa que eu conheci, está com medo, se a minha velha está sentindo dor, se ela precisa da minha ajuda, e eu me sinto totalmente impotente para conseguir salvá-la? Não, não teria sido melhor que, desde o princípio, não houvesse nada, Schopenhauer, porque, desde o nosso princípio, nós todos existimos e sabemos disso, nós todos estamos aqui, nós todos – sobretudo os que amam, sobretudo os que se preocupam e sentem saudade – sofremos como corpos açoitados pelo tempo. Esse teu nada incorpóreo, Schopenhauer – esse teu Deus reverso, esse teu Diabo deificado –, é a distopia do sádico que não se importa com ninguém, é o diletantismo do niilista que, por permanecer vivo, por não ter a coragem de se matar, fica passando o mertiolate da ironia sobre a ferida da vida que não vai cicatrizar – ferida que, na verdade, Schopenhauer não quer ver cicatrizada. Quando eu te vi chorando porque o filho da puta do convênio de fato vetara, contratualmente, a implantação do aparelho sem o qual você não poderia viver, minha velha, eu senti minha nuca rija de ódio, eu senti vontade de morrer, eu senti vontade de matar, eu senti vontade de retaliar, eu arremessei a porra do livro do Schopenhauer contra a parede, eu rachei a merda da porta do armário do quarto na porrada, eu fui lá, sem mais, e peguei a caixa do teu Lexotan, a mão tremia tanto que eu não conseguia tirar a porra do comprimido rosa daquele lixo de cartela, a enfermeira veio e pediu pra eu me acalmar, eu mandei ela tomar no cu e engoli logo duas drágeas – eu não queria só dormir, eu queria me apagar, eu queria não saber, eu queria me esconder. Eu até conseguia te ouvir, mãe – eu ouvia teus gritos de desespero como o náufrago que entreouve vozes esparsas embaixo d’água, mas eu não queria ser resgatado, mãe, eu queria hibernar.

E eu lá sei por quantas horas eu fiquei fora do ar, minha velha? Quando eu acordei, coisa muito estranha, meu corpo tava fervilhando, meu corpo tava eufórico, só que eu me lembrava de tudo, cê tava ali chorando à minha frente, mãe, e parecia que meu corpo tava apartado da cabeça, parecia que ele tava em outra dimensão, porque a memória doía, a memória latejava, mas meu corpo não mostrava sinais de batalha. Naquele momento, mãe, eu descobri, de fato, o que é o entorpecimento: o Lexotan me içava pra vida, o Lexotan me empurrava de volta pro calvário – insuflado pelo fármaco da alegria, mal parecia que a gente tava num beco sem saída, minha velha, mal parecia que cê tinha virado prisioneira daquele hospital: sair do InCor sem o CDI significava apontar contra o teu coração a roleta russa da arritmia. Meu Deus do céu! Quer dizer que lá no fundo da tua dor tem um alçapão que te faz descer ainda mais, tem uma passagem estreita e insalubre que te faz desvelar as conexões entre o teu sofrimento e a maneira pela qual a barbárie administra a injustiça e ainda prescreve o torpor? Mas, meu Deus, que efeito a euforia à base de Lexotan pode ter quando o camarada, já sem saber de onde vêm os diretos de direita, só consegue ser içado pelo despertador, às 6 da madrugada, se estiver dopado? Com o tempo, a dor vai sendo alagada; com o tempo, a tristeza vira sentimento do mundo. O camarada começa a contar carneirinho que pula cerca de arame farpado ao redor do imaginário. Com o corpo eufórico e a mente ilhada, o camarada se afeiçoa à dor que, afinal, já se tornou sua velha conhecida. [Deve ser por isso que, quando eu ouço alguém defender o tal do “princípio de realidade” – é a vida... (suspira o cabisbaixo) –, eu tenho vontade de sacar o revólver que nunca tive.]

Cê implorou pra eu não ameaçar ninguém do convênio, mãe, cê pediu pra eu confiar em Deus – alguma coisa boa vai surgir, meu fio, tenha fé! –, mas eu peguei o telefone e soltei os cachorros (o canil inteiro) em cima do funcionário que me atendeu. Nós vamos processar vocês, seus monstros! Minha mãe paga essa joça desde que Moisés saiu do Egito, cambada, e, quando ela mais precisa, cês vão lá e negam o amparo – pra puta que pariu, seus assassinos de merda! Cês tão achando que cês tão lidando com radiador ou correia dentada? É uma vida humana, seus bostas, é minha mãe! Se acontecer alguma coisa com ela, eu vou atrás de todos vocês – cê tá me ouvindo, seu covarde?!

O pior de tudo, mãe, é que o fulaninho do outro lado da linha não esboçava qualquer reação – o burocrata provavelmente lixava as unhas enquanto era amaldiçoado. Súbito, quando eu parei de xingá-lo pra conseguir respirar, o funcionário interveio:

– É bem provável que o Dr. Vicente consiga a implantação do CDI para a sua mãe na Santa Casa.

– Como? O quê? Dr. Vicente? Quem é Dr. Vicente? Santa Casa? Como assim? Nós não temos como pagar, porra! Do que cê tá falando?!

– O Dr. Vicente é nosso cirurgião cardiovascular. Ele tem contatos na Santa Casa. A implantação do CDI para a sua mãe será feita pelo SUS. Logo, vocês não vão pagar nada. No momento oportuno, só precisaremos, é claro, da autorização de vocês.

Ora, ora, veja como as coisas são, minha velha: a porra do convênio já contava, a priori, com a nossa ação judicial (só faltava saber onde é que a gente ia achar dinheiro pra pagar um advogado); o tal do Dr. Vicente tinha uns cupinchas lá na Santa Casa; a mãe tava no InCor, um baita centro de referência em cardiologia, mas Deus lá sabe se e quando a gente ia conseguir forçar o convênio a autorizar a cirurgia por lá; o SUS tem uma fila dos diabos pra esse tipo de procedimento, mas, com as maquinações do Dr. Vicente, a mãe passaria à frente de todos e sairia de lá com o coraçãozinho devidamente escoltado pelo CDI. E agora? Que fazer?

Cê olhava pra mim com uma mescla de ímpeto, medo e dúvida, minha velha. A Lara tava hesitante, mas o que é que a gente ia fazer? Sim, Lara, a Santa Casa não é o InCor, mas e se a mãe tiver outra arritmia por aqui? Claro, claro, ela tá bem protegida aqui no hospital – pelo menos é o que a gente acha, né? –, mas quanto tempo a mãezinha vai ficar por aqui, Lara? Ela vai virar prisioneira, então? Ela vai ficar refém dessa merda toda? O Dr. Leonardo disse que a gente até pode confiar na Santa Casa (esse “até pode” fazia os calafrios escalarem cada vértebra minha até o cume do pescoço) – o Dr. Leonardo conversou com esse tal de Dr. Vicente, Lara, ele disse que o médico se mostrou firme e confiante, sim. Mãezinha, que que você acha? Que que você quer fazer, minha velha? Teu olhar choroso me corroía. Não dava pra te ver daquele jeito. Quem entra na Santa Casa não tem que passar na Fuvest, Lara? Ah, mas não é a primeira chamada de Medicina, não, Ricardo! Lara, mas é gente capaz, a mãe vai parar de sofrer, vai dar tudo certo, se Deus quiser, e ela vai voltar pra casa, a mãe não aguenta mais ficar internada, vamos tentar, Lara, vamos tentar, mãe!

Como é que vou esquecer o dia 11 de fevereiro de 2008, mãe? Ele só não foi pior do que o dia 28 de abril de 2012, minha velha, quando você de fato nos deixou.

A ambulância da Santa Casa veio te buscar cedinho – 5:37, pra sermos precisos. Eu fiquei apertando e beijando tua mão pra (tentar) te acalmar, daí cê pediu pra eu rezar o Pai Nosso com você – eu torci o nariz mas lá fui eu repetir e remedar palavras, eu faria qualquer coisa pra te ver bem, minha velha. Eu vi cê engolindo em seco quando a gente cruzou o arco de tijolinhos da Santa Casa, e não demorou nada pra você ser internada, minha velha, o Dr. Vicente veio falar comigo, a Lara ficava me ligando o tempo todo do trabalho, eu logo recebi o livrinho que vinha com o CDI, o médico me explicou tintim por tintim – caramba, eu fiquei maravilhado com aquela nanotecnologia sueca, benditos sejam esses cientistas, meu Deus!, parece que o pesquisador que resolveu tocar o barco das investigações rumo ao CDI tinha perdido, justamente, a mãe dele num ataque de arritmia – e não é que eu me peguei fazendo o Pelo Sinal? –, daí ele decidiu que ninguém mais tinha que passar por aquilo, daí surgiu um aparelhinho de pouco mais de 10 cm (se tanto), uma engenhoca que passaria a acompanhar, pari passu, teu ritmo cardíaco, minha velha. Se o teu coraçãozinho sequer prenunciasse um ataque epiléptico, mãe, o CDI já viria com a brigada de incêndio. A cirurgia de implantação do aparelho, segundo o Dr. Vicente, seria simples: eletrodos iam ser acoplados ao teu coração, minha velha, e haveria uma ligeira simulação de arritmia como teste do CDI (será que eu preciso dizer que, nesse momento, uma nova leva de calafrios alpinistas escalou as minhas vértebras?).

Quando eu vi alguns gatos pretos, brancos e marrons dando cambalhotas no corredor rumo ao centro cirúrgico, já não dava nem pra me beliscar pra saber se era verdade – mas como é possível, meu Deus, que porra de Santa Casa é essa?! (O duro é descobrir que o absurdo logo se torna nosso vizinho: durante a tua cirurgia, mãe, eu só conseguia ficar calmo nos momentos em que brincava com aquela meia dúzia de gatos pingados.) E tinha uma rapaziada furando e revirando o teto cheio de infiltrações de um local ali bem pertinho da sala em que cê ia ser operada – mas, Deus que me perdoe, com essa barulheira dos infernos, como é o que o Dr. Vicente vai se concentrar? Com aquela várzea da Santa Casa, minha velha, eu me lembrava do InCor com uma culpa afiada como um punhal – ai, meu Deus do céu, mas como é que eu ia saber?, eu tinha que ter vindo aqui antes pra verificar, mas não teria dado tempo, mas tinha que dar, e a mãe tava sofrendo, eu quero o melhor pra ela, mas como é que dá pra vir coisa boa daqui?, e eu já não tinha unhas, os cantinhos dos dedos tavam todos carcomidos, eu tirava cada bife e cada lasca de aflição!, pelo amor de Deus, mas aí eu voltei a pegar o livrinho do CDI sueco, eu fui lendo cada item, aquilo me animava, a mãe ia ter, a partir dali, um anjo da guarda de carne e osso (de eletrodos e chip), a coisa vai que vai. Súbito, o Dr. Vicente, um médico baixinho e atarracado, com os cabelos grisalhos repartidos ao meio, a pele amorenada e o queixo como que engolido por um princípio de papada, vem me dizer que o CDI já foi implantado, e a sua mãe está reagindo muito bem: pressão de 12 por 8. Eita porra, graças a Deus, doutor, muito obrigado, doutor, que maravilha – e será que eu posso ver minha mãe, ela tá consciente, eu posso entrar lá? Não, não, ainda não, ela está sedada, mas tudo vai indo bem, pode ficar tranquilo.

Minha velha, quando alguém fala que tirou uma tonelada das costas de alívio, eu ainda acho a pesagem imprecisa, porque a coisa mais intrincada é mensurar a esperança, é vê-la ali, à tua frente, realizada, dócil e tangível, te fazendo rir e agradecer. Logo cê vai voltar pra casa, mãe – logo eu vou começar a encher teus picuás de novo pra você cozinhar pra mim aquele bolo de carne suculento, pra gente ver uns filmes bem bacanas – e não é que eu te mostrei umas coisas finas do Bergman, minha velha, aquele cineasta que era sueco como o teu CDI? –, pra você tocar tua vida adiante, mãezinha, pra você fazer tuas caminhadas na pracinha lá perto de casa e desenhar o Pelo Sinal na nossa testa quando a gente sai de casa e quando a gente volta pro ninho.

Acontece, mãe, que a gente nunca quer dar ouvidos pro Shakespeare em momentos de suma alegria. Do contrário, a gente ficaria repetindo como um mantra: bem está o que acaba bem; bem está o que acaba bem. Acabou? Minha mãe já voltou pra casa? Minha mãe já tá sã e salva?

– Ricardo...

– Pois não, Dr. Vicente, e aí, tudo certo, já acabou a cirurgia, já posso ver minha mãe?

O queixo do médico parece naufragar ainda mais na papada. Súbito, ele dispara:

– Ricardo, a pressão da tua mãe foi a 5 por 4...

– O quê?!

– ... nós estamos fazendo todo o possível para restabelecê-la, ela está sob o efeito de fortes medicações...

Quem disse que eu ouvi o que o médico disse depois?

5 por 4?! Alguma coisa sobrevive com essa pressão cardíaca? Eu quero ver minha mãe agora – a-go-ra!

O Dr. Vicente viu que eu não tava pra brincadeiras. Quando eu entrei no centro cirúrgico – tendo antes vencido a barricada de gatos que se amotinavam no corredor –, eu te vi sem vida, mãe. O médico e os enfermeiros precisaram me segurar pra eu não cair – tua pele não tava branca, minha velha, tua pele tava incolor, o sangue já não chegava, cê tava com umas olheiras bem fundas e roxas, até o lençol te parecia um peso, mas, ainda assim, cê me deu um soslaio e tentou balbuciar alguma coisa, eu te dei um beijo na testa (que pele seca, mãe, tava parecendo uma escama) e comecei a chorar e a suplicar pra que te ajudassem, pra que te salvassem, pra que aquele pesadelo acabasse, pelo amor de Deus, doutor, tira a minha mãe dessa, salva a minha velha, Dr. Vicente, faz ela melhorar, por tudo que é mais sagrado, ela tá sofrendo muito, eu tô vendo, meu Deus do céu, ajuda ela, doutor, salva ela, doutor!

Eu desmaiei. Quem me disse isso foi a Lara, quando eu acordei – na verdade, quando eu fui acordado –, porque, depois que o escuro começou a girar, eu só senti a cabeça batendo na quina da maca, mais nada. O Dr. Vicente tinha ligado pra Lara, mãe, e a Lara me disse que, quando ela chegou ao hospital, o médico tava com um semblante de muita descrença. A gente se abraçou e ficou chorando, nós fomos sentar na escada que dava acesso pra UTI, ninguém conseguia dizer nada, a gente ficava apavorado quando alguma enfermeira abria a porta, podia ser notícia ruim, cê quer dar um encontrão na verdade, cê quer chutar a realidade pra lá, Deus que me perdoe, e eu ficava sentindo a bochecha da Lara empapada de lágrimas, mãe, ela dormiu ali, no meu peito, e eu fiquei num estado de vigília entre dois pesadelos: a tua UTI e o sonho que eu não controlava, sonho que me trazia as vozes da vó Nena e do pai Nhanho, e aí eu ficava desesperado, mãe, porque, se eu tava ouvindo os dois, ué, será que a mãe já tá morta, será que a mãe vai pra perto deles, ou será que eles têm um recado pra mim, será que eles querem me tranquilizar? Ora, e como é que eu ia saber? Era uma neblina que só, não tinha mais pra onde fugir – e foi aí que eu senti vontade de abrir um alçapão do mundo que eu tinha trancado com cadeado há bastante tempo: eu comecei a rezar. Na verdade, eu comecei a pedir a Deus, eu tava suplicando, eu ia me lembrando de tudo que cê tinha feito por mim, mãe, eu tentava empurrar qualquer pedacinho de saudade pra longe, porque cê tava ali, atrás duma parede, cê tava ali conosco, cê só precisava reagir, que Deus te ajude, cê já tava com o CDI – como é possível que, já com a tua sentinela, já com o teu anjo da guarda, cê fosse morrer? Que coisa doida é essa, que coisa injusta é essa! Meu Deus, salva minha mãe, só resta você, Pai, tudo o que a gente podia fazer, a gente já fez, os médicos tão de butuca, mas a mãe tá ali, prostrada – ela precisa de ajuda, meu Deus, ela precisa de resgate, Pai, ela precisa da força que nem o amor dos filhos dela pode dar, meu Deus. É só você, Pai, é só você!

Já tinha amanhecido naquela escada quando a Lara e eu acordamos – como é possível? Cadê minha mãe? Que horas são? Quando uma enfermeira com a pele cor de bronze e cabelos grossos como juta veio nos dizer que a tua pressão tinha subido pra 11 por 7, mãe, eu dei um abraço de urso nela e nem quis saber se a gente podia entrar na UTI. Cadê minha mãe? Cadê minha mãe, pelo amor de Deus?!

Cê já tava corada, minha velha, e ali, te fazendo cafuné, eu prometi que, assim que cê pudesse sair da UTI, a gente ia te levar de volta pro InCor, o Dr. Leonardo ia te avaliar, e, num piscar de olhos, cê ia pra casa pra tomar uma sopinha marrom da vó que eu mesmo ia preparar (eu dei uma piscadela pra Lara, porque ela sabia bem quem ia ter que cozinhar a pratada pra você, mãe). Só que tem uma coisa, minha velha, e é uma coisa séria – cê arregalou os olhinhos azuis, azuis e azuis e espichou o pescoço pra me ouvir: não é procê fazer a gente sofrer assim nunca mais, mãe, Deus que me perdoe! Cê ainda quis dizer que não era culpa tua, mãezinha, mas a gente te calou com um arsenal de beijos.

Pouco tempo depois, mãe, cê voltou pra casa – só não dá pra dizer que cê voltou ao normal, minha velha, porque, sob cada Pelo Sinal teu, tinha um calafrio de mau agouro. Foi por muito pouco, mãezinha, cê quase foi embora.

Pouco tempo depois, mãe, bem no comecinho do mestrado, eu zarpei pra Moscou – durante aquele ano, eu vivia cindido: cada alegria e descoberta por estar na terra do Dostoiévski incandescia a culpa por eu não estar ali com você pra tentar te proteger. Quando a gente se falava pelo Skype, cê ficava me dizendo que não era pra eu me preocupar, que cê já tava bem, que o CDI da guarda tava lá com você, que a Lara tava sempre do teu lado, que era pra eu me desenvolver, que era pra eu escrever bastante, que a gente logo ia se ver, que um ano passaria rapidinho. Cê aprendeu a usar a internet, cê fez uma página no Orkut, cê ficou craque no MSN, minha velha – tudo isso pra falar com o teu filho que, pisando em outra terra (uma terra duma lonjura danada), mesmo assim tava embaixo do mesmo céu. Cê dizia isso com os olhinhos marejados e colocava a pontinha da língua entre os dentes – era uma ternura que só, e a Lara te apertava que nem ursinho de pelúcia.

E não é que acabou pintando um dinheirinho de uns processos trabalhistas do pai Nhanho no fim daquele ano? (O coitado morrera 6 anos antes, mas, mesmo assim, ainda tava ajudando a gente.) Eu logo sugeri pra você e pra Lara: cês têm que vir aqui pra Europa, cês tem que ver a neve! A viagem pra Rússia tava cara – o dinheiro era miúdo –, então cês logo pensaram em Roma e Paris. (E, como eu tava me segurando nas tabelas com o dinheiro contadinho pra me manter lá em Moscou, não deu pra eu ir até vocês.) A mãe nunca tinha saído do Brasil, e a Lara já tava imaginando que, como ela, cê ia ficar com medo tanto na decolagem quanto na aterrissagem, mãe – isso pra não falar da montanha russa das turbulências, né? Só que, quando cê se deu conta de que tua cria tava com as mãos geladas, geladas, geladas de medo, minha velha, cê se esqueceu de si mesma e ficou dando força pra Lara – e não é que, umas 15 horas depois, cês já tavam na Fontana di Trevi? A Lara fez um vídeo que eu tô vendo agora, mãe, enquanto escrevo este trecho: com uma boina cinza e o rostinho bem alegre e serelepe, cê deu as costas pra Fontana, minha velha, e fechou uma moeda de 1 euro na mão esquerda já sem a luva. Fecha os olhos pra fazer teus pedidos, mãe! Cê ouviu a Lara e, com um silêncio de fé, cê lançou a moedinha na Fontana por sobre os teus ombros. [Vamos lá, minha velha, me fala se eu descobri os teus três pedidos: (i) que o Ricardo publique logo o primeiro livro dele; (ii) que a Lara continue firme na escola e conheça um rapaz bacana; (iii) que a bateria do CDI dê sempre conta do recado. Acertei, mãezinha?] Na sequência, a Lara dá um close no teu rosto, daí ela denuncia as tuas escapadelas gastronômicas: dona Neuzinha, quer dizer que cê comeu um calzone de queijo parmesão com tomate seco, no almoço, e um baita dum pedação de pizza de aliche com Coca-cola, na janta? Deixa o Dr. Leonardo ficar sabendo disso, deixa! E eu vou contar tudo pro Ricardo, mãe, ele vai te dar uma baita duma bronca lá da Rússia, cê vai ver! E foi aí que cê desconversou, minha velha, e, com um olhar bem fundo voltado pras águas da Fontana di Trevi – um olhar já melancólico de saudade –, cê pensou alto, deu um longo suspiro e se perguntou se algum dia cê ia conseguir voltar pra Roma, se a vida ainda ia te dar tempo prum momento como aquele se repetir. Teus olhinhos ficaram marejados, mãe, e a Lara terminou o vídeo com um soslaio teu, uma imagem bem sentida e triste que eu só consigo rever quando eu coloco, logo na sequência, um vídeo teu já em Paris, mãe: cê tá extasiada com a queda malemolente da neve, cê tira as luvas e faz bolotinhas pra jogar na Lara, a imagem treme com as gargalhadas de vocês, daí, num zás, cê começa a escorregar na neve lisa que nem musgo e cai de bunda no chão. A Lara fica preocupada, mas aí, como cê logo começa a dar risada, ela dá um close pra fisgar o teu depoimento de patinadora de primeira viagem: soprando aquele bafo quente que sai da boca-chaminé no inverno, cê exclama com uma voz de meninona peralta – Laaaraaa, a mãe caiiiuuu! Daí cê abre bem os braços, mãezinha, como se cê quisesse capturar aquele instante-borboleta na tua teia, como se cê fosse aspergir o mundo com o pólen do teu carinho.

Mas aí veio a festa de abertura da Copa do Mundo da África do Sul (10 de junho de 2010). Enquanto a Shakira dança e rebola com uma cinturinha de dar vertigem, o telefone toca.

– Ricardo...?

– Sim, quem é?

– É a Sônia, Ricardo...

– Oi, Sônia, tudo bem?

– Não, Ricardo, não tá tudo bem, não...

– Por quê? Que que foi, Sônia?

– É a tua mãe, Ricardo, eu tô aqui na pracinha de caminhada com ela – ela passou mal. Vem pra cá!

A Lara e eu voamos pra pracinha. Cê tava deitadinha na grama, ofegante, e a Sônia tinha improvisado a blusa dela como travesseiro.

– Mãezinha, cê tá bem? Que que aconteceu, meu Deus?

– A mãe tomou um choque, meu fio... O aparelhinho funcionou!

A Lara começou a chorar no ato, mas, como eu vi que, aparentemente, cê tava bem, cê tava lúcida, cê tava consciente, eu te pedi pra nos falar mais, pra nos dizer exatamente o que tinha acontecido.

– A mãe tava caminhando ali, na descidinha, daí, de repente, me veio um suor frio, a pracinha girou, e eu despenquei no chão. Parecia que tinha um cavalo no meu peito, o coração não tava batendo, o coração tava dando martelada. Aí, do nada, ficou tudo escuro, ficou tudo quieto. Quer dizer, eu conseguia sentir que tinha gente ao meu redor, mas parecia que eu tava fora do meu corpo, parecia que eu tava me vendo ali deitada e não podia fazer nada, parecia que tava tudo muito longe, como se eu tivesse debaixo d’água. Ficou tudo escuro, ficou tudo quieto. (Cê para um pouquinho, esbugalha os olhos e mira a gente antes de continuar, minha velha.) Eu nunca vi um escuro tão preto como aquele – era um breu que só! Eu nunca ouvi um silêncio tão fundo como aquele – não tinha um pio... (Cê esbugalha ainda mais os olhos, mãe, pega no meu braço com a mão esquerda e afaga a bochecha da Lara com a mão direita.) Será que é pra lá que a gente vai depois daqui? Será que essa é a verdade da gente sem o mundo? Será que essa é a verdade do mundo sem a gente? Será que essa é a verdade? Será que é isso que é a morte?

27 de abril de 2012, uma sexta-feira. A Lara me acorda no atropelo (não eram nem 6 da manhã) dizendo que cê tava gemendo na tua cama, mãe. Cê nem respondia ao que a gente perguntava, o aparelhinho de pressão não marcava nada, era coisa de doido, então toca te levar, no desespero, lá pra emergência do InCor. No caminho, eu ralhei com a Lara pra ela passar em tudo que é farol vermelho, pra ela pegar a porra da faixa de ônibus da Rebouças pra gente chegar logo, pelo amor de Deus!

Cê voltou praquela maca atrás do tabique de plástico sanfonado e acinzentado, minha velha, só que, dessa vez, a coisa era outra: a médica veio dizer que tua pressão tava despencando, que só remédio forte pra mantê-la, que cê tava correndo grande risco, que cê precisava ir pro centro cirúrgico imediatamente – então, bora, doutora, vamos lá, pelo amor de Deus! Quando a médica citou o convênio, a Lara e eu gelamos – eu preciso de autorização do plano de saúde pra internar a mãe de vocês.

Mãezinha, eu tô olhando agora pros dois documentos que o InCor emitiu: a Declaração de Comparecimento – que belo eufemismo pro punhal da emergência, não? – e a Declaração de Internação. A gente chegou ao hospital com você às 6:26. O trâmite com o convênio durou mais de 6 horas – 6 preciosas horas, meu Deus! –, porque cê só foi internada às 12:45. Nesse meio tempo, por mais que a médica avisasse sobre a gravidade do caso e ficasse pressionando a porra do convênio, a gente não conseguia ter a dimensão real do que tava acontecendo. Cê tava ali deitada, semiconsciente, e os remédios ficavam içando tua pressão como um guindaste. Nós falamos pra médica que a gente assinaria o que fosse, que era pra você subir, mas, devido aos trâmites internos – que belo contraponto burocrático à corrosão dos teus órgãos, minha velha –, era necessário o aval do convênio. Nós ficamos ligando a manhã toda, a médica ficou ligando a manhã toda – passados quase 6 anos desse dia, mãe, eu ainda consigo sentir o mesmo tremor, minha garganta fica travada como se alguém estivesse pisando no meu pescoço. Pelo prisma da (pato)lógica que administra os recursos humanos das empresas de saúde – se tais expressões dolosas já não nos escandalizam, por que é que o esgoto a céu aberto nos provoca náusea? –, faz sentido esperar o desenlace (isto é, protelar o tratamento) da paciente em estado grave (minha mãe!), já que um potencial óbito poderia poupar os recursos escassos. Quando esse horror vem à tona, sou coagido a concordar, com cada fímbria da minha indignação e do meu nojo, com duas marteladas de Nietzsche: (i) o assassino, no momento mesmo do ato, está à altura de sua transgressão, mas, logo em seguida – por vezes, diante do cadáver ainda quente de sua vítima –, ele começa a ser carcomido pela culpa e retrocede à condição para aquém do bem e do mal; (ii) em momentos que nos revelam o mundo como o charco de catarro que ele é, a possibilidade do suicídio – não necessariamente o ato em si, mas sua mera possibilidade – desponta como um santo remédio. Em momentos de calmaria – ou melhor, em momentos de trégua –, tendo a rechaçar o cinismo de Nietzsche com aquele calafrio de paúra de quem sacode os ombros para espantar mau-olhado. Mas é sintomático que, nos momentos de impotência e de ódio profundos, a vontade de matar se irmane à vontade de morrer. É como se Caim ressuscitasse Abel só para poder matá-lo novamente. Logo em seguida, Caim acena para o Pai antes de se jogar do penhasco ao lado do irmão duas vezes assassinado.

Eventualmente – mas que advérbio canalha, hem? –, foi autorizada a sua ida para o centro cirúrgico, minha velha, e a Lara e eu fomos seguindo tua maca InCor adentro. Cê ficava gemendo e grunhindo, mas, quando a porta espessa do elevador se abriu no andar do centro cirúrgico, cê levantou o pescoço como um periscópio e esbugalhou os olhos de pavor – ali, sem conseguir dizer nada, cê entendeu e expressou a dimensão do que tava acontecendo: o desespero de não voltar mais. A gente te beijou muito, mas cê foi ficando distante, e quando a maca cruzou a fronteira do centro cirúrgico, meu Deus, eu desabei num choro de me virar pelo avesso. Eu fiquei tão entregue, minha velha, que o abraço da Lara parecia uma manta cada vez mais ensopada de lágrimas.

Que que a gente faz em momentos assim? Não dá fome, não dá sono, fica tudo embolado, tudo começa a girar, você sente uma dor lancinante pela pessoa que sofre (minha mãe!), você sente uma raiva enorme de si mesmo (que que eu posso fazer pra ajudar?), eu sinto pena de você, minha velha, eu sinto pena da Lara, eu sinto pena de mim mesmo, eu quero que você fique, eu não quero que você sofra, eu quero que você vá – eu quero que você vá?! Meu Deus, eu espanto esse horror de mim com náusea e tremor, mas eu já não tenho domínio do que me transpassa, é um redemoinho que só, tá tudo amalgamado, ninguém quer que você sofra, mãe, a gente não quer sofrer, mas só de imaginar que uma infecção vai te tomando, que um coágulo se desprendeu do teu coração e obstruiu a tal da artéria mesentérica – pois é, a gente só sabe que o corpo profundo existe quando ele tá ruindo –, só de imaginar tudo isso, cê quer se refugiar em qualquer fresta do chão. Como é que é isso, meu Deus?, como é que a gente pode querer minha mãe aqui pra ela sofrer?, mas como é que a gente pode abrir mão da mãe da gente?, como é que isso tudo vem junto e misturado?, como é que a saudade vira a concha do egoísmo?, como é que o egoísmo parece a sentinela da ternura?, como é que a gente vai sendo arremessado de um lado pro outro que nem João Bobo?, e aí vem a médica e diz que cê conseguiu escapar da cirurgia, que deu pra extrair uma parte do intestino grosso pra estancar a necrose, que eles iam acompanhar, com muito cuidado, a reação do teu organismo – quando uma médica nos trata como os corpos que nós realmente somos, isto é, quando todos os penduricalhos da vida caem por terra, a vaca tá indo pro brejo, minha velha, já não dá nem pra caçar sapo com buldogue (era a vó Nena que falava assim, mãe, cê lembra?), aí é a batalha das máquinas pra içar a tua pressão, é a batelada de remédio pra fazer os teus rins funcionarem, é um fármaco cobrindo um santo pra descobrir o outro, é um verdadeiro tiroteio de efeitos colaterais, mas aí chega a hora de te ver na UTI – que dia é hoje?, ainda é sexta?, já é sábado? –, um montão de gente tenta me demover da ideia, fica por aqui, Ricardo, tua mãe tá lutando, os médicos tão fazendo tudo o que é possível, mas, Deus meu, como é que eu ia deixar de te ver, mãe?

Antes eu não tivesse te visto, minha velha.

Eu nunca vou esquecer o teu corpo trêmulo que nem vara verde sob aquela manta plástica platinada – o plantonista da UTI, rascante como um bisturi, logo nos explica que a manta tentava reter a queda brusca da tua temperatura, que a situação era muito crítica: sua mãe, provavelmente, tem o quadro mais complicado de todos os pacientes por aqui – ora, como é que alguém consegue trabalhar numa UTI? Mas alguém tem que fazer isso, então você odeia o médico na mesma medida em que sente uma profunda gratidão, só que eu não esperava encontrar teu rostinho todo inchado, minha velha, cê tava com um pescoço de boi bem rijo e grosso, a Lara segura a tua mão inerte, teus olhinhos tão contornados de um amarelo anêmico – cadê o sangue, doutor, cadê o sangue? –, cê tá indo embora, mãe, pelo amor de Deus, cê tá indo embora, agora não tem volta, quando é que eu vou te ver de novo?, me tira daqui, por tudo o que é mais sagrado, me tira daqui! (Naquele suplício, eu ainda consegui entreouvir um resquício da tua voz perguntando se a Lara tinha comido alguma coisa antes de sair de casa – meu Deus, como é possível? Que coisa sagrada é ser mãe.)

Você quer ficar ao lado de quem está morrendo, mas você não quer ver a morte, você não quer estar morrendo – não dá pra admitir que cê tá sendo evadida do teu próprio corpo, mãe, e o que é esse “você”?, o que sou “eu”? Um naufrágio físico-químico? Uma mera fagulha elétrico-neuronal? Um espírito? O acalento para além da morte – o reencontro, o recomeço – é tão reconfortante, mãe, tudo parece tão justo e redentor, que a gente se aferra a essa possibilidade (a essa necessidade) como o último bote, como o bunker do sentido, como uma viagem intergaláctica a bordo da espaçonave Vostok 1.

– Que isso, Ricardo? Que vodca é essa que cê andou bebendo lá na Rússia, meu fio?

Calma, mãe, não é nada disso, eu já te explico: no dia 12 de abril de 1961 – cê tinha só 15 aninhos, minha velha! –, o cosmonauta soviético Iúri Gagárin orbitou ao redor da Terra durante 108 minutos a bordo da espaçonave Vostok 1. Consta que, ao atingir a altura máxima de 315 km, o cosmonauta teria exclamado a seguinte frase tão singela quanto absoluta: A Terra é azul!

Como Gagárin configura um verdadeiro marco para o imaginário do teu filho, mãe, escuta só um retalho da conversa entre mim e o cosmonauta:

– Você viu minha mãe no espaço azul, camarada Gagárin?

– Olhei para todos os lados, mas não vi Deus...

– Tem certeza, camarada? Você chegou a vasculhar o pó das estrelas sob o tapete persa da Via Láctea?

Gagárin permanece em silêncio – silêncio cabisbaixo, silêncio do ateu diante do luto, silêncio do ateu diante do nada.

Súbito, eu lhe estendo a mão direita. Quando o cosmonauta faz menção de se despedir, eu lhe passo uma pequena garrafa translúcida arrolhada com uma cortiça bem velhinha – aquela cortiça do sitiozinho do vô Ricardo que cê guardava dentro do gabinete da máquina de costura da vó, mãe, lembra?

– Camarada Gagárin, te peço um favor: entrega este presente pra minha mãe depois da primeira dobra de Saturno, entre Pasárgada e Atlântida – a curva do anel é sinuosa, toma cuidado. (Gagárin franze a testa e as sobrancelhas.) Não deu tempo de a minha mãe acompanhar a publicação de O Evangelho segundo Talião, meu primogênito literário. Mas ela vai ficar muito contente ao saber para quem eu dediquei a obra:

Para Neuzinha, cujas lágrimas singelas em face da luz cálida da tardinha me fizeram entrever o lirismo pelas frestas do cotidiano. Uma pena Talião não ter te conhecido, minha mãezinha... Teu amor incondicional o teria acolhido com um evangelho todo outro.

Chicago, 17 de março de 2015

São Paulo, 17 de março de 2018

Ensaio de Flávio Ricardo Vasoler sobre Joseph Roth no Estadão (04/03/18)

Acaba de ser publicado, no caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (04/03/18), o ensaio "Seria Lênin o verdadeiro precursor de Trump?", de autoria do escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler, doutor em Teoria Literária pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa pela Northwestern University (EUA).

Publicado, na revista "Acta Scientiarum", o artigo "Um diálogo entre Mikhail Bakhtin e a Teoria Crítica: um caminho da dialogia e da polifonia à dialética de Dostoiévski", de Flávio Ricardo Vassoler

Pessoal, é com muita alegria que compartilho com vocês um artigo de minha autoria que acaba de ser publicado na revista "Acta Scientiarum: Língua e Cultura" [v. 40, n. 1 (2018)], periódico vinculado ao Departamento de Teorias Linguísticas e Literárias da Universidade Estadual de Maringá, no Paraná: "Um diálogo entre Mikhail Bakhtin e a teoria crítica: um caminho da dialogia e da polifonia à dialética de Dostoiévski" -- eis o link para o texto: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ActaSciLangCult/article/view/34621/pdf

Ensaio de Flávio Ricardo Vassoler sobre sua viagem a Sarajevo no Estadão (25/02/18)

Pessoal, é com bastante alegria que compartilho com vocês, a partir do caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (25/02/18), o ensaio "O renascimento de Sarajevo" (título original: "Sarajevo dá à luz e aborta o século XX"), de autoria do escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler, doutor em Teoria Literária pela FFLCH-USP, com pós-doutorado em Literatura Russa junto à Northwestern University (EUA). 

Ensaio de Flávio Ricardo Vassoler sobre "Arquipélago Gulag", de Soljenítsin, no Estadão (04/02/18)

Acaba de ser publicado, no caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (04/02/18), o ensaio "Gulag, uma tragédia para não ser esquecida" [título original: “A metamorfose (e a nostalgia) do Arquipélago Gulag”], de autoria do escritor e professor Flávio Ricardo Vassoler, doutor em Teoria Literária pela FFLCH-USP.

Ensaio de Flávio Ricardo Vassoler sobre "Doutor Jivago", de Boris Pasternak, no Estadão (07/01/18)

Acaba de ser publicado, no caderno literário "Aliás", do jornal "O Estado de S. Paulo" (07/01/18), o ensaio "Nobel de Literatura em 1958, Boris Pasternak tem clássico publicado no Brasil" (título original: “Boris Pasternak, lirismo e resistência”), de autoria do escritor e professorFlávio Ricardo Vassoler, doutor em Teoria Literária pela FFLCH-USP. 

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