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Arbeit Macht Frei

A ironia deforma o discurso, caminha rente à penumbra, pressupõe a malícia, o soslaio, a crítica.

Há quem diga que a ironia inverte e subverte simbolicamente as relações de poder. 

O bobo da corte riria da nobreza ao fazê-la gargalhar.

Ora, olhemos mais de perto a máscara do arlequim: o bobo não sorri quando quer; não, a maquiagem o condena ao sorriso.

Vocês já foram ao circo?

O palhaço só desponta entre um ato e outro, no intervalo, no interstício. Riso trôpego; riso confinado.

É bem verdade que a ironia deforma o discurso. Porém, em sua volubilidade, ela pode servir tanto ao servo quanto ao senhor. Senão, vejamos: Arbeit macht frei, o trabalho liberta. Eis a máxima tatuada nos portões gargântulas dos campos de concentração nazistas.

O trabalho liberta, diz o feitor.

O trabalho liberta, Dona Ironia: em Auschwitz, a morte deixa de ser temerária. O trabalho de fato liberta. O sobrevivente torna-se cúmplice. O sobrevivente sente-se culpado.

Agora, voltemos a Auschwitz para tentar recolher a paz entre os escombros. (Talvez descubramos a ironia a contrapelo de si mesma.) Auschwitz voltará a dizer

 

Arbeit macht frei

 
 

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Flávio Ricardo Vassoler

Flávio Ricardo Vassoler, escritor e professor, é mestre e doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH-USP, com estágio doutoral junto à Northwestern University (EUA). É autor das obras literárias Tiro de Misericórdia (nVersos, 2014) e O Evangelho segundo Talião (nVersos, 2013) e organizador do livro de ensaios Fiódor Dostoiévski e Ingmar Bergman: O niilismo da modernidade (Intermeios, 2012). Periodicamente, atualiza o Portal Heráclito, www.portalheraclito.com.br, página em que posta fragmentos de seus trabalhos literários, os programas do Espaço Heráclito e fotonarrativas de suas viagens pelo mundo.

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