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Faustino da Rocha Rodrigues

Faustino da Rocha Rodrigues

Direto de São João de Meriti para os corredores do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o jornalista Faustino Rodrigues simplesmente escreve na esperança de um dia alguém ler. Por gostar tanto do Brasil e da Ibéria, foi estudar os jesuítas e Antônio Vieira no doutorado em Ciências Sociais, indo morar durante um tempo na Espanha. Vive atualmente em Juiz de Fora, com sua esposa, Inês.

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Faixa amarela

A alourada senhora do SUV coreano seguia pela via principal. O movimentado horário indica que tem um destino certo, tão reto e inquestionável quanto os metros de asfalto à sua frente. O yorkshire de laço rosa em seu colo serve apenas para demonstrar a segurança em encarar o agitado tráfego urbano. Os acontecimentos seguintes são muito rápidos, duram pouquíssimos segundos. Para. Bota o braço repleto de pulseiras para fora. Junto vai a cabeça canina. Faz um sinal sacodindo as lantejoulas. Provoca uma fila de carros. Converte ali mesmo. Corta a faixa contínua. Entra em uma rua secundária.

As buzinadas de quem vinha atrás e teve de esperar a resolução da senhora e do yorkshire, bem como a freada brusca de quem, na via contrária, teve de parar, abrindo-lhe caminho, são naturais. Fazem parte da orquestra do caótico trânsito. Nada de mais para yorkshires e senhoras alouradas de SUVs coreanos que residem em condomínios fechados, isolados da balbúrdia semafórica pavimentada por concreto, asfalto e faixas amarelas.

A rua secundária é quase um portal. Encaminha-a ao seu destino final, o Colinas do Império, Império das Colinas, Bosque do Império, Bosque das Colinas, Império do Bosque... enfim, qualquer destes criativos condomínios, sitiados de SUVs coreanos, yorkshires, lantejoulas, laços rosas e orgulhos.

Poucos estão preparados para entender as impreteríveis necessidades de um SUV coreano. Não dá para esperar o percurso de 300m até a rotatória seguinte. Cruzar a contínua faixa amarela é mais prático. É necessário. Quem pintou aquilo ali, daquele jeito, não imaginava o trafegar de yorkshires e senhoras alouradas em SUVs coreanos.

E que urgências! Alguém duvida que o mundo seria bem menos interessante se não houvessem platinadas senhoras de coreanos SUVs?! É très charmant o seu esticar de braço, dobrada na munheca, com o indicador levemente levantado, sacudindo-o em seguida. Em meio ao enfadonho trânsito, nos faz imaginar o farfalhar dos metais e pedras sustentados por seu punho. E tudo isso com os também platinados pelos penteados do cão, meigamente enfeitado com um laço rosa pink.

A cena supera a comum vista para a faixa amarela, suja de pneus, com chicletes curtidos pelo sol, manchas de frenagens – homogênea e desbotada. O detalhe pink do animal do SUV coreano é mais encantador do que qualquer lei de trânsito. É o pequeníssimo tamanho desses animais que os fazem recorrer a automóveis tão grandes. Abram caminho.

O picho de Dória

Apagar os grafites de São Paulo é descaracterizá-la como cidade grande, como megalópole, com todos os seus problemas, porém, com todas as suas virtudes. Ao fazer isso, São Paulo deixa de ser São Paulo, deixa de ser o que é, tornando-se algo completamente desconhecido, estranho aos seus próprios moradores, aos habitantes que a constroem. A São Paulo dos limpos muros de Dória se torna a cidade desejada por uma classe beneficiada que, de fato, não contribui em nada para a construção do Brasil.

Crônica de um governo covarde – a “Reforma” da Previdência e a morte do cidadão brasileiro

Em 1967, o Brasil estava na infância de uma ditadura que viveria até os 21 anos. Seu tutor, neste momento, era Costa e Silva. Em 1967 havia uma reforma constitucional gigantesca que garantiria mais autoritarismo ao governo não legítimo. Não tínhamos a Ponte Rio Niterói, éramos apenas bi mundiais no futebol e a atual campeã era a questionável Inglaterra. Mangueira ganhava o carnaval com o samba enredo “O mundo encantado de Monteiro Lobato”. Em tempos de Guerra Fria o democrata Lyndon Johnson era o 36º presidente dos EUA (Donald Trump será o 45º) – Obama, um adolescente aos 16 anos.

O certo pelo errado

Em país de mídia falida, jornalismo de se orgulhar é algo alternativo. Por isso, entrevistar o Ferreira Gullar, pensei, foi minha alternativa. O homem do Poema Sujo, na fala, era “um bicho transparente”[1]. E era a sua transparência que o fazia reticente ao falar com jornalistas, como ele mesmo definiu.

Racismo com código de barras

“Mas ele é racista!”, disse o rapaz, um pouco recolhido, ao homem com quem falava, que, prontamente, retrucou cheio de convicção: “Pelo menos não é corrupto”. O tema da conversa? Bolsonaro. O ambiente? A banal fila de um supermercado na sexta-feira, princípio da noite. Quando? Início do mês. O local? Repleto de pessoas, principalmente trabalhadores que recebem o seu salário e preparam a compra dos próximos 30 dias.

O que resta ao resto

A lixeira normalmente presa em um poste, estava no chão. Não se sabe se foi o peso em seu interior que a derrubou. Notava-se, porém, o grande volume de lixo. Um homem aproveitava a oportunidade e revirava os detritos em busca de latinhas de alumínio. Duas crianças, talvez seus filhos, certamente menores de 10 anos, o acompanhavam sem, contudo, olhá-lo. Tinham a atenção tomada por outras crianças e adolescentes a correrem pelo prado da grande praça do ensolarado domingo, com um smartphone diante dos olhos. Buscavam um Pokémon.

Humilhante sucesso

Tum tum tum tumtumtum tum tum. A frenética batida monótona do tecno no saguão principal da Faculdade de Engenharia da UFJF dava o tom do evento. O sorriso no rosto era quase um crachá de identificação, uma espécie de condição para o acesso. Todos portavam em seu pulso uma pequena pulseirinha de cores berrantes, a variar de acordo com o dia, indicando o caráter de vipilidade, o sujeito vip.

O natureza machista da sociedade

Ela não sabe, mas está enganada. Não foram 33. Foi uma sociedade inteira. Incluo entre os estupradores, mulheres. O hedonismo de uma sociedade que pinta em sua fachada de pele alva o hétero não como identidade de gênero, mas como estandarte. E há briga para carrega-lo, leva-lo a frente dessa imensa procissão que desfila sobretudo para si mesmo.

Crônica de Michel Pasmado

O presidente interino está chocado. A sua conhecida sensibilidade aflora. Talvez seja a mesma sensibilidade que escreveu em poemas, como “Embarque”, mostrando o desencontro com Dilma. Agora, como diz, “psicologicamente chocado”, nos damos conta de sua face ingênua – para efeitos desse texto, prefiro pensar em ingenuidade.

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