A+ A A-
Robson Mattos

Robson Mattos

Graduado em Letras, é escritor, revisor de texto e professor dos Ensinos Fundamental e Médio. Pai de Bernardo e marido de Bárbara, reside em Osasco, Zona Oeste de São Paulo.

URL do site:

Faca no esôfago

  • Publicado em Eschaton
  • 0

Uma tristeza que vinha de dentro, de um corte frio no peito - uma faca no esôfago. Ela não conseguia fazer nada, só dormir. E ainda assim o sono era cheio de sobressaltos e pesadelos. Da janela entreaberta, raios baços de um sol distante. A cama parecia exercer um poder letárgico sobre o seu corpo, de modo que, tão logo ela esboçava uma reação, o calor das cobertas a envolvia num abraço tépido e misericordioso, que parecia dizer: “Fica, menina. Deita. O mundo é hostil e inóspito. Fecha os olhos e esquece”.

Conto V

Teodoro, nos últimos meses, enveredou pelo caminho do autoconhecimento; resolveu que queria saber quem de fato era, encontrar a raiz do ser – se é que ela existe. Passou, então, a frequentar diversos grupos religiosos, entre os quais uma seita denominada “Mensageiros do Sim”. Este grupo, como o próprio nome sugere, acreditava no poder da confissão positiva, ou seja, baseados em estudos da física quântica, os fundadores da seita defendiam que o mundo subatômico responde aos comandos verbais. O nosso herói, depois de algumas semanas, viu-se embebido naqueles preceitos, maravilhado com a simplicidade das revelações, de modo que, quando deu por si, já estava usando as roupas e fazendo os exercícios espirituais daquele grupo.

Labiríntico

  • Publicado em Eschaton
  • 0

Noite de breu sufocante. R. se esgueira mata adentro, procurando algum abrigo à chuva torrencial que despenca do céu. Onde estou? O que são essas árvores e rochedos? Novamente vim parar aqui? Suas pernas estão doloridas, tudo o que ele gostaria era de um lugar seco para deitar e alguma coisa macia onde pudesse reclinar a cabeça. Dormir. Dormir até esquecer-se de si. Mas eu já tinha feito o serviço que me fora designado... como ainda me mandaram para cá? E as minhas férias? Estou cansado, muito cansado.

Prolegômenos a uma Metafísica do Vácuo

  • Publicado em Eschaton
  • 0

            Não sou do tipo que gosta de convívio social. Aliás, é-me muito penoso sair para comprar leite e outras coisas necessárias à subsistência física. Mas admito que esse desgosto acaba por me tornar mais humilde, uma vez que percebo que não sou só ideia, mas também carne.  No entanto, sei que esta condição na qual vivemos é apenas uma ilusão passageira. Sim, num dado momento, quando a humanidade, juntamente com o cosmos todo, se der conta de que o Nada é preferível ao Ser, aí o repouso absoluto nos visitará em permanente.

O caso do homem que se liquefez

  • Publicado em Eschaton
  • 0

Esta é a história de um homem que, por meio da ascese pessoal, desceu aos ínferos da realidade. O processo se iniciou, mais evidentemente, numa quinta-feira banal, após Frederico – este é o nome do nosso santo – terminar de ler um grosso volume sobre a história da filosofia.

Nota crepuscular

O que faz de você quem você é? Existe, em você, algo que lhe distinga dos outros? Isso que você chama de “eu” é apenas resultado de coerções sociais ou uma expressão fiel da sua essência? Existe uma essência? Por exemplo, o seu nome; você não o escolheu, assim como não opinou sobre quem seriam seus pais, o ano do seu nascimento, a classe social a que pertence e a região em que mora. E todas essas coisas, que são contingentes – isto é, poderiam não ser ou ser de outra forma -, moldam aquilo que você chama de si, o que você concebe como sendo a “sua” identidade.

Retrato do poeta quando pedra

  • Publicado em Eschaton
  • 0

Para escrever sobre o Manoel de Barros, tive de ir a um parque – ainda público – aqui perto de casa; tive de ir ao encontro das pedras – e do lodo impregnado nelas -, das folhas retorcidas, esquizofrenicamente amarelas; ao encontro das árvores indiferentes e altivas, das sombras abundantes que abrigam homens cansados; ao encontro do riachinho tímido – e tão raro! -, que está grávido de moscas e de uns poucos peixes boquiabertos... Mas isso porque me sinto inclinado a escrever de forma pedante e acadêmica, o que com certeza é uma blasfêmia contra o musgo e os pássaros. Logo, o que posso oferecer-lhes é tão somente minha percepção sonolenta de um domingo cantado por sabiás e bem-te-vis.

Arquivo morto

Ademir trabalhava em uma fábrica de armas, mais precisamente no setor de projéteis. Contudo, nos últimos tempos, a empresa, para aumentar o lucro, decidira modernizar certas partes da linha de produção, o que ocasionou na dispensa de centenas de funcionários, entre os quais Ademir se viu incluso.

Assinar este feed RSS